Vim aqui pra me lembrar de quem eu sou

Quando morei em Porto Alegre, era frequentador assíduo de um espaço colaborativo, a Casa Liberdade.

Em uma das paredes, tinha um cartaz: “Vim aqui pra me lembrar de quem eu sou”.

A Casa Liberdade era um espaço que me ajudava a ser um pouco melhor.

Que lugares nos fazem nos lembrar de quem somos? Que situações, pessoas e atividades nos colocam em um estado mais integral?

Esses lugares estão mais perto do seu trabalho ou do seu fim de semana?

Para nos lembrar de quem somos, não precisamos de:

Exibições arbitrárias de poder.

Metas que não são verdadeiramente nossas.

Decisões unilaterais.

Aprovações alheias.

Um cargo, um nome ou uma limitação que nos define.

Atividades que não tem sentido em si.

Para nos lembrar de quem somos, precisamos:

Nos sentir escutados e aceitos.

Perceber que nossa contribuição faz diferença.

Nos permitir ter um sonho grande.

Nos orgulhar de vez em quando.

De aprendizado relevante.

De segurança para viver e evoluir.
 

Quando você morrer, sua caixa de entrada ainda estará cheia.

James Victore me presenteou com essa. "Quando você morrer, sua caixa de entrada ainda estará cheia.”

Está cheia agora. Estava ontem e estará amanhã. Mesmo quando eu zerar, vão vir novos emails, mais louça pra lavar e trabalhos pra entregar.

Esta é nossa condição. Precisamos conviver com as tarefas a serem feitas, elas não vão se acabar. Aliás, precisamos viver bem, com tempo, qualidade, boa companhia, consciência e paz. Ainda que com uma “to-do list” gigantesca.

História um. James foi convidado por sua esposa pra sair. Ainda que estivesse ocupado e cheio de coisas pra fazer. Ela sabia que ele estaria sempre ocupado. Sempre. Sua cabeça explodiu. Primeiro, veio o ego: “meu deus, tenho muita coisa pra fazer, o estúdio, o workshop, o livro, etc”. Mas, quando ele morrer, a caixa de entrada ainda estará cheia. Ainda terá coisas pra fazer, o estúdio ainda precisará ser limpo. Não podemos deixar nossos trabalhos arruinarem nossas vidas. 

História dois. Quando eu trabalhava numa agência de publicidade, estava num job “urgente" que era pra segunda, trabalhando num domingo. Meus colegas de trabalho receberam visitas dos filhos e esposas. Assim como os presidiários em dia de visita. Eles não passaram o domingo em família. Mas suas famílias tiveram que ir visitá-los.

História três. Uma grande executiva não toma água porque não pode interromper seu trabalho tão importante pra ir ao banheiro. Estive pensando, qualquer ser vivo com sede prefere tomar água do que fazer outra coisa. Muito esperta essa executiva, não?

Gente, precisamos sair. Precisamos nos conectar. Precisamos nos cuidar. Precisamos dedicar tempo e investir energia nas pessoas e nas coisas que a gente realmente quer fazer.

Porque não vai ter depois. Não vai ter tempo livre depois da caixa de entrada vazia pra fazer o que realmente importa.

Não vai ter lápide “Fulano de tal. Respondeu 230 mil emails”. As memórias que vão ficar são do quão gentil fomos, do legado que deixamos, da arte que entregamos.

Temos forte tendência a nos apegar às armadilhas da mente. Às projeções de um futuro, a ideia de que é preciso sofrer para construir as coisas, às comparações com os outros.

Se nossos trabalhos não nos ajudam a viver os dias que queremos viver agora, tem algo pra ser olhado com muito cuidado.

Se o custo de fazer o que fazemos significa prejudicar nossa saúde, dormirmos pior, comermos pior, nos relacionarmos com as pessoas de um jeito menos atencioso, com menos presença, este custo realmente vale a pena?

Talvez o maior significado que nossos trabalhos podem ter é nos ajudar a vivermos bem, sem prejudicar a vida dos outros seres. Agora. Não depois de zerarmos os emails.

Quando você morrer, sua caixa de entrada ainda estará cheia.

Em qual projeto me envolvo?

Em qual projeto me envolvo? Este ou aquele? Qual é a melhor ideia? Qual é mais promissora? O que priorizar?

Não sei. Só sei que um dia chegou esta frase a mim: “Você pode fazer qualquer coisa. Mas não pode fazer tudo.”

Não tem jeito, tem horas em que a gente tem que escolher. Pegar um caminho e ir. Os outros ficam na gaveta, pra quando der. Ou ganham nosso tempo livre.

Você devia fazer engenharia, devia arranjar um bom emprego, devia fazer um concurso público. Isso, se quisesse seguir um caminho com respostas certas e previsíveis. Porém, se você está me lendo, provavelmente está em busca de caminhos alternativos.

Quando estamos falando de caminhos não dados, existem muitos. Infinitos. Várias ideias, oportunidades, possibilidades. Umas que dão dinheiro, outras que dão satisfação, algumas que dão aprendizados, outras que dão um pouco de cada. Esta é a vida não-linear, exponencial, em rede.

Vamos celebrar. Se nos mantivermos conectados, oportunidades não vão faltar. O sentimento de perda que surge quando escolhemos uma ideia, em detrimento de outra, só faz sentido quando temos escassez de possibilidades. Em um mundo abundante, relaxa, as outras portas estarão lá, mesmo que você escolha uma, desta vez.

Quando fazemos nosso próprio caminho, as respostas não são tão óbvias. O grande desafio da vida em busca de autonomia é escolher o próximo passo por si. Não há caminho pronto. Mas, talvez, existam alguns questionamentos pra se fazer.

Entre as coisas que você quer fazer, qual delas mais entrega valor pro mundo? Qual delas mais te faz receber valor do mundo?

Qual das possibilidades faz você viver os dias que você quer viver?

Você realmente quer fazer seu projeto, ou apenas quer que ele exista no mundo?

Esta é uma briga que você quer se envolver?

Esta jornada vai fazer você se conectar com pessoas que você gostaria de ter por perto?

E, a melhor, este caminho tem um coração?

"Antes de embarcar em qualquer jornada, faça a pergunta: Este caminho tem um coração? Se a resposta é não, você saberá, e então você deve escolher outro caminho. O problema é que ninguém faz a pergunta; e quando uma pessoa finalmente se dá conta de que tomou um caminho sem um coração, o caminho está a ponto de aniquilá-lo. Nesse momento, muito poucas pessoas conseguem parar para deliberar, e abandonar aquele caminho. Um caminho sem um coração nunca é agradável. Você precisa dar duro só para aceitá-lo. Por outro lado, um caminho com um coração é fácil; ele não exige que você se esforce para gostar dele." - Carlos Castaneda.

Fatiou, passou

Entediado. Sem saber por onde começar. Cheio de coisas pra fazer. Pra todas as situações, fatiou, passou.

Aquela conexão que você sempre quis fazer. O projeto que está só no mundo das ideias. O negócio que você deseja empreender, mas não sabe por onde começar. Fatiou, passou.

Hoje é um dia que escrevo. Enquanto fico pensando na pauta, vem mil pensamentos, dúvidas e angústias. Vou adiando e a tensão vai aumentando. Mas só depois que abro meu editor de textos que a coisa muda. A ação começa e o texto vai nascendo a partir do fazer. Publicar é o objetivo. Mas, antes, é preciso ligar o computador, abrir o bloco de notas e soltar as primeiras palavras. Fatiei, passou.

Gab Gomes fala de um gatilho. Uma ação que desperta toda a cadeia de outras ações que constituem uma grande tarefa. Você quer correr, mas a preguiça fala mais alto. Se você ligar a TV, vai zapear a programação. Mas, se você pôr o tênis, vai correr. Dificilmente esse dia vai ficar sem corrida. O simples gesto de pôr o tênis nos leva adiante. Fatiou, passou.

Abre o email, escreve, envia. Cada ação é importante sim. Não é só mandar um email. As micro-ações quando realizadas dão ânimo e energia pra próxima. Depois do email estar aberto, não tem jeito, a próxima coisa é escrever. Você pode, sempre, desistir. Mas depois de estar no meio do caminho, é muito mais improvável isso acontecer. Qual é o caminho? Tente quebrar em pequenos pedacinhos. Fatiou, passou.

Antes de começar, a gente cria antecipação de problemas, traz os medos do que pode vir a acontecer. Em geral, analisamos, alisamos as ideias e paralisamos. Por outro lado, enquanto estamos realizando uma tarefa, a ação mais importante é a ação do momento. Cada tarefinha executada constitui uma grande entrega. Fatiou, passou.

Quão mais fatiado for um projeto, mais claras são as tarefas a serem realizadas. E quanto mais claras, fáceis e óbvias, mais difícil é a gente não fazer. Pega uma tarefa complexa e divide em ações que não demorariam mais do que cinco minutos para serem realizadas. Escreve no papel mesmo. Fatia e passa.

Escrever um livro é difícil. Mas sentar na cadeira é fácil. Ligar o computador também. Escrever sobre uma ideia. E depois outra. Primeiro do jeito mais simples. Depois, melhorar um pouco. Tudo isso é possível e real quando estamos descrevendo em detalhes tarefas realizáveis em cinco minutos. Mas quando pensamos na homérica tarefa “escrever um livro” fica realmente mais complicado. Por isso, fatie. Fatie e passe pra próxima.

O que você precisa fazer para fazer o que você quer fazer?

O que você pode fazer que cria mais valor?

O que você pode fazer que entrega mais valor?

O que você pode fazer que te faria receber mais valor?

Para cada uma dessas respostas, como você pode fatiar as ações em pedacinhos muito simples?

Comece criando e entregando valor

Se queremos construir algo que importa, empreender um negócio, tirar um projeto do papel, fazer arte, precisamos criar valor.

Antes de tudo, criar e entregar valor.

Talvez você nem precise pesquisar, talvez não tenha que planejar.

Mas, pra coisa realmente acontecer, tem que entregar valor.

É a entrega de valor que transforma o que é desejo, devaneio, ou ideia, em realidade, conexão e evolução.

Valor é aquilo que emerge quando alguém tem um problema e você resolve.

Valor é aquilo que outra pessoa - e não (somente) você - reconhece como valioso.

Valor é o produto da nossa entrega, da nossa energia, do nosso trabalho, quando ele alcança outro ser.

Pra quem pensa em fazer uma escola, valor é ensinar alguém. Pra quem compra um curso, valor é aprender.

Pra quem quer trabalhar com pessoas, valor é ajudar alguém. Pra quem compra uma consultoria, valor é se sentir mais seguro.

Pra quem gosta de cozinhar, valor é alimentar alguém. Pra quem vai a um restaurante, valor é comer.

Valor é inspirar, é cuidar, resolver, informar, divertir, é fazer acontecer pelo outro.

E, se você mandar bem, valor é aprender profundamente, é se sentir seguro e com clareza, é comer bem.

Por isso, se você está começando, tente começar entregando seu valor.

Resolve o problema de alguém.

Põe pra fora algo que vá para além da sua cabeça, do seu caderno, das suas leituras.

Porque é a entrega de valor que torna possível o recebimento de valor.

E é neste ciclo, de entrega e recebimento de valor, que a mágica acontece.
 

Conexão Imagina: Empreendedorismo Criativo

Essa semana fui convidado pelas mulheres incríveis do coletivo Imagina para um papo online sobre empreendedorismo criativo.

Mas eu acho que a gente foi além, por uma hora conversamos e filosofamos sobre autonomia, os desafios de começar e se manter, o futuro que imaginamos e outras coisas mais.

Poderia pedir desculpas pelo som ruim, pela minha falta de noção no vídeo, mas iria contra minhas próprias convicções. Melhor feito que perfeito. É fazendo, experimentando e se jogando que a gente aprende e melhora.

 Agradeço a Lari pela ótima condução do papo e agradeço a você que puder assistir e comentar, compartilhar, sugerir.

Como encontrar seu propósito

O texto de hoje é arriscado.

Estamos vivendo tempos de busca por mais significado no trabalho, na vida. “Faço o que você ama”, “seja você mesmo”, essas coisas que eu realmente vejo como privilégios.

Se antigamente ser bem pago e conquistar reconhecimento social bastava, hoje parece que falta algo a mais para nos satisfazermos profissionalmente.

Mas, o quê?

O texto de hoje é arriscado porque corro o risco de reforçar a perigosa ideia de que todo mundo tem Um Propósito e que, se você ainda não encontrou o seu, está ficando pra trás.

O texto de hoje é arriscado porque corro o risco de reforçar a perigosa ideia de que precisamos encontrar "o santo graal da pós-modernidade” para, aí sim, viver uma vida que valha a pena.

O texto de hoje é arriscado porque corro o risco de reforçar a perigosa ideia de que realmente existe algo mágico e revelador a ser encontrado.

O texto de hoje é arriscado porque corro o risco de simplificar uma questão muito complexa.

Ainda assim, sigo em frente. Por que não tratar com leveza essas coisas complicadas da vida e começar com o que temos, não é mesmo?

Não acredito que estamos numa corrida, não acredito que encontrar um propósito seja um pré-requisito pra qualquer coisa, não acredito que temos um único propósito - às vezes questiono se temos algum.

Entendo essa busca por propósito, principalmente no trabalho, como um caminho, uma tentativa de clarear uma visão de mundo, uma construção em curso por toda a vida toda.

No meio do caminho, a gente vai encontrando pistas. Algumas falsas. Mas, ainda assim, valiosas.

Propósito, pra mim, não é uma frase, nem uma ideia fechada.

É uma intenção em permanente construção.

Talvez seja muito difícil cravar “seu propósito” apenas com palavras.

Ainda assim, essa busca faz da nossa jornada, no mínimo, uma história interessante.

Mas e então? Como nós podemos, mais do que encontrar, buscar esse tal de propósito, essa tal motivação, essência, ikigai, razão, essa história pra contar?

Deixo aqui algumas ideias iniciais. Se quiser completar, sinta-se à vontade.

Experimente coisas diferentes

Se você, como eu, não sabe muitas vezes por onde começar, experimente. Teste, se envolva com pessoas, projetos e ideias improváveis. É visitando outros mundos que abrimos nossas cabeças e criamos novos caminhos.

Se pergunte “por quê?”

Por que você faz o que você faz? Por que você acorda todos os dias? Por que isso, ou aquilo, te toca? Por quê? Por quê? Por quê?

Forje seu propósito

Adoro essa ideia. Nós podemos criar significado em torno das coisas que vivemos, percebemos, descobrimos. A gente é que cria a moral da história que queremos contar.

Comece sem se sentir pronto

E se você já estiver pronto pra fazer suas coisas, sem se dar conta? Comece sem saber qual é o propósito. É no caminho que a gente vai (se) descobrindo.

Investigue sua história

Quais eram seus sonhos quando criança? Quais foram os pontos altos e baixos da sua vida? Quem são as pessoas que você admira e que te influenciaram? Quais são os pontos que se conectam, quando você olha pra trás? Quais são os valores que te guiaram?

Escolha uma briga pra enfrentar

Que causa, problema, “inimigo” te move? Qual é a briga que, pra você, vale a pena se envolver?

Imagine um mundo ideal

Talvez construí-lo seja seu propósito.

Conecte-se, entregue valor

Dê ao mundo o que você faz de melhor, com generosidade e regularidade. O que será que o mundo vai te devolver?

Busque auto-conhecimento

Ainda acredito que essa jornada é sobre a gente mesmo. O que a gente faz, nossas profissões, nossas dúvidas, tudo é uma investigação sobre quem somos. Meditação, busca por espiritualidade, empreendedorismo, arte podem ser caminhos pra você.

Um grupo para tirar seu projeto do papel

Se você é leitora fiel deste blog, já deve estar cansada de ler sobre o livro 333 Páginas para tirar seu projeto do papel.

Se não, clica no link anterior pra conhecer o livro cheio de páginas em branco - e preto - que ajuda seus leitores a criarem o que quiserem.

Já foram umas seiscentas ou setecentas cópias vendidas. Fico imaginando quantos sonhos, festas, blogs, startups, movimentos, foodtrucks, artes e autódromos podemos ter ajudado a nascer.

Fico só imaginando mesmo, porque apesar de vários feedbacks e muitas fotos no com a hashtag #333paginas, não tenho ideia do que realmente saiu do papel.

Por isso, gostaria de oferecer uma loucurinha aqui. Talvez me arrependa depois. Mas a gente resolve se isso se tornar um problema. Quero acompanhar mais de perto como vocês estão usando o livro. Quero ver coisas incríveis ganhando o mundo.

A ideia é criar um grupo de pessoas que, juntas, terão um compromisso de tirar seus respectivos projetos do papel. Uma comunidade de apoio pra quem quer compartilhar e acompanhar o uso do livro. Pra começar, serão vinte pessoas, pelo Whatsapp. Não espero correntes e piadinhas sem graça nesse grupo, mas a troca, fotos e avanços para que cada um dê vida aos seus sonhos.

Se você já tem o livro e gostaria de participar dessa parada, me manda um email com a foto de pelo menos uma página do seu livro preenchida: larusso@larusso.com.br. Os dez primeiros entram na brincadeira.

Se você ainda não tem o livro, dá pra adquirir aqui. Os dez primeiros compradores que desejarem participar estão nessa também. Será um prazer ir aos Correios por vocês. Mas, melhor do que isso, será ver você presenteando o mundo com a sua contribuição única.

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Seu trabalho é uma dádiva

Há o trabalho que é feito pelo medo - de não ter dinheiro, de não ser aceito, de não ser bem visto. E há o trabalho feito por amor, como forma de arte. Pura expressão de nossa humanidade.

A serviço do que está nosso trabalho, energia, horas de dedicação e suor? 

Se você não sabe o que seu trabalho alimenta no mundo, provavelmente se perderá em atividades sem sentido.

Se você não sabe o que seu trabalho alimenta em você, provavelmente nem todo o dinheiro do mundo será suficiente para te satisfazer.

Empreender só faz sentido se estivermos a favor da vida. Da vida pulsante em nós. Da vida crescente na Terra. Quantos trabalhos destroem a vida? Quantos empreendimentos geram vida neste planeta?

Com vocês, essa pecinha de arte do James Victore. Traduzi livremente abaixo.

"Seu trabalho é uma dádiva.

Esta é uma ideia radical.

Porque ela muda como você pensa sobre seu trabalho.

Ela muda o motivo pelo qual você trabalha, o que você faz e até pra quem você trabalha.

Quando seu trabalho é uma dádiva, seu objetivo não é mais satisfazer um cliente, ou um chefe, nem receber um pagamento.

Você agora trabalha para ser feliz. E, por sua vez, falar diretamente para o seu público-alvo.

Porque agora você dá a eles algo de valor - um pedaço de si próprio.

Seu trabalho. Sua voz. Irrestrita e pura.

Ela tem o poder de entreter, iluminar e mover os outros.

Seu trabalho é uma dádiva.

E o mundo está esperando por ele.”

- James Victore

Precisamos falar sobre dinheiro

Dinheiro, bufunfa, pratas, faz-me-rir. Precisamos falar mais sobre grana. É crucial conversarmos mais sobre autonomia financeira. Não podemos entrar na onda do “faça o que você ama” sem considerar que as contas precisam ser pagas e a vida precisa ser vivida. Precisamos trocar mais, aprender mais, descobrir como fazer. Não é indelicado falar sobre tutu. Quem inventou isso deve estar ganhando muito às nossas custas. Falar sobre dinheiro nos permite aprender para fazer melhores escolhas.

Tenho acompanhado empreendedores, fazedores e buscadores em todos os estágios. Sejam pessoas em processo de transição que me procuram pra um Help, geralmente saindo de um emprego para iniciar uma jornada empreendedora. Ou empreendedores não-convencionais tentando comunicar seus projetos incomuns, que recebo pelo Hell Yeah. Pra todo mundo, dinheiro é sempre uma questão. Seja travando a evolução, seja criando monstros em nossas cabeças.

Divido contigo algumas ideias que sempre surgem nessas trocas, mais cedo ou mais tarde. Espero que sejam relevantes pra você. Sinta-se a vontade pra adicionar o que achar valioso.

Faça contas

Anote o que entra e, principalmente, o que sai. É importantíssimo ter consciência sobre seu custo de vida. Quanto você gasta para morar, comer, se transportar, se divertir? Quanto mais souber pra onde seu dinheiro vai, mais capacidade terá de fazer cortes ou gastos mais inteligentes. Existem muitos aplicativos que podem ajudar, busque por "finanças pessoais".Se você não se dá bem com números, ou cartão, tente limitar a grana da semana. Saque ela e gaste apenas as notas que tem nas mãos.

Mantenha-se sem dívidas

Se você quer fazer uma mudança profissional, é muito mais difícil bancar a transição devendo. Quando a gente está no negativo, se sente mais pressionado, pensa mais na dívida do que em formas criativas de fazer grana. Devendo, temos dificuldade de experimentar, tememos o erro - péssimo cenário para empreender. Se você tem dívidas para pagar e quer empreender, eu consideraria fortemente pagar os débitos antes de se jogar completamente em uma nova atividade.

Poupe dinheiro para poder viver um tempo sem receber

Mantenha uma poupança, CDB, fundo de investimento, tudo isso, ou que você quiser e se sentir confortável. Faça uma reserva que te dê um respiro. Se você sabe quanto precisa por mês, tenha grana suficiente para viver pelo menos por alguns meses, sem precisar fazer dinheiro. Caso você queira fazer uma mudança significativa, esse dinheiro será fundamental, porque nenhum novo negócio começa fazendo grana. Podem ser necessários muitos meses, anos até chegar lá. Enquanto isso, use o que você acumulou. Escrevi mais sobre isso aqui

Enquanto o que você quer fazer da vida não te paga, faça o que te paga

Sabe o que vale dinheiro? O trabalho que resolve um problema real, que é previsível, que custa menos do que entrega. Por isso, se você está começando algo novo, é improvável que vá fazer de um dia pro outro uma quantia equivalente, por exemplo, a um bom salário. Tudo começa caótico, imprevisível. Ou seja, até que seu novo projeto amadureça, use as habilidades que você já tem e que são reconhecidas no mercado. Faça seu emprego financiar seu próximo projeto. Eu sei que seu emprego pode estar insuportável. Porém, é ele que vai financiar suas experimentações fora do horário comercial. E são essas experimentações que poderão se tornar seu próximo trabalho.

Ganhar mais, ou gastar menos, dá na mesma

A gente se esforça mais para ganhar mais do que para gastar menos. Por que? Não sei. Só sei que a conta é a mesma. Podemos nos esforçar tanto para ganhar R$ 500, como para economizar R$ 500. Cozinhe em casa, vá de ônibus, divirta-se na rua, no parque, no que for de graça na sua cidade. Claro, tudo tem limite. Mas sempre temos custos que nos dão muito pouco e que poderiam se transformar em dinheiro útil.

Diversifique as entradas

Dizem que salário vicia mais que cocaína. Complicado. Quando a gente está acostumado com um emprego, nossa grana vem de um lugar só. Isso é muito mais arriscado do que receber de várias fontes, ainda que quantias menores. Aquela coisa, todos os ovos num cesto só é perigoso. Se você quer sair de um emprego, experimente fazer outras atividades que possam te remunerar. Dê um curso, trabalhe como freelancer, ajude um amigo em um projeto, venda algo que você faz, experimente a sensação de diversificar suas entradas.

Leia e assista pessoas que manjam muito mais do que eu sobre grana

Li há muitos anos o livro Pai Rico, Pai Pobre. Posso dizer que foi muito importante pra mim como introdução à educação financeira. Se você não manja nada, sugiro começar por este pequeno clássico. Lia também os livros do Gustavo Cerbasi, um cara que até hoje produz muito conteúdo de qualidade. Hoje, tenho curtido mais os vídeos da Nath, do Me Poupe e os textos do Eduardo Amuri, pessoas que pensam em dinheiro de uma forma que admiro.

"Não é sobre dinheiro, é sobre você."

Essa frase está, em inglês, num marcador de páginas do livro Projetos Paralelos e o Poder do Tempo Livre, do meu amigo Luciano Braga. É verdade. Todas as questões que projetamos sobre o dinheiro não são sobre os Reais. São sobre nós. Dinheiro guarda muito mais do que só números. Aliás, dinheiro deveria servir para que a gente viva a vida que desejamos. E não para vivermos a vida que não desejamos, apenas para acessá-lo. Seu dinheiro está a serviço do quê? Adoro essa frase, que roubei do mesmo livro:

"Dinheiro é que nem gasolina numa viagem de carro. Você não quer ficar sem combustível na sua viagem, mas você também não está fazendo um tour por postos de gasolina." - Tim O'Reilly.

 

Como encontrar soluções pros problemas do mundo

Há alguns anos contribuo como mentor no Social Good Brasil Lab, o programa que apoia empreendedores sociais em fase inicial. A Ana Paula, do SGB Lab, me ajudou essa semana. Ela me procurou pra escrever sobre como o programa pode ajudar quem está aí, querendo fazer algo relevante para o mundo, que nem eu e você.

Se você quer fazer acontecer, ser atuante no mundo, gerar transformações, dá uma olhada no SGB Lab que está com inscrições abertas. Deixo aqui um pouquinho dos aprendizados que ele costuma oferecer.

Busque um novo olhar sobre si e sobre as formas de empreender

Empreendedorismo é uma das formas mais interessantes de autoconhecimento. Quando a gente tem um emprego, precisa se encaixar num perfil. Quando empreendemos, precisamos ser autênticos, perseguir quem somos em nossa essência. Existem infinitos jeitos de empreender e modelos de negócio para criar. É preciso se conhecer muito pra isso.

Encontre ritmo e foco pra tirar uma ideia do papel

Duas das maiores dificuldades. Não saber por onde começar e como focar no próximo passo. É necessário ter muita disciplina para ir além da vidinha cotidiana. Muitas vezes precisamos de um norte, uma tarefa clara, concreta e mensurável que desfaça a nebulosidade e nos faça ir adiante.

Pense antes no problema em vez da solução

Quanto mais a gente vai fundo nos problemas, mais simples e interessantes são as soluções. É muito comum o foco na solução. Foco não, apego. Você tem uma ideia, acha que ela é genial, e se prende nela. Assim, tem resistência à mudança e à evolução. Todo empreendimento deve servir a alguém, deve ser útil e resolver problemas seus e, principalmente, dos outros. Se não, os projetos não importam e se tornam irrelevantes.

Vá pra rua, conheça as pessoas e se coloque no lugar delas

Costumo dizer que a melhor pesquisa de mercado é seu produto ou serviço na rua, rodando, vendendo, sendo falado. Quando a gente se conecta às pessoas, elas naturalmente nos ajudam, nos ensinam e dão pistas sobre qual caminho seguir. Há muito mais lá fora do que em nossas cabeças, pensamentos e planejamentos.

Teste e valide antes de planejar um negócio mirabolante

Quanto maior, o tombo é maior. Sim, eu sei que com você vai ser diferente. Mas se teu projeto é tão bom, por que não fazer da forma mais rápida, barata e simples possível? Vai dar certo, não vai? A gente precisa sempre começar pequeno, porque diminuímos muito os riscos, aumentamos os aprendizados e validamos as ideias a partir de feedbacks de verdade.

Tenha um mentor pra compartilhar erros e acertos

Os bons mentores não dizem o que deve ser feito. Eles fazem as perguntas que nos revelam aprendizados nos próprios erros e acertos. Assim, os próximos passos ficam mais claros.

Conecte-se com as pessoas

Para empreender é necessário fazer novos amigos, sair do mundo ordinário. Pra mim, este é um dos aprendizados mais intensos. Nada de novo acontece se fazemos as mesmas coisas, nos encontramos com as mesmas pessoas e falamos dos mesmos assuntos. Mas algo mágico pode acontecer quando contamos nossas histórias e escutamos os outros.

A Internet que eu quero

Adoro a Contente. Se tem gente que contribui na Internê com o que acredita, são elas. Essa semana recebi um baita convite, pra escrever pra uma seção do blog delas sobre “a Internet que a gente quer”. Melhor assunto. Reproduzo aqui meu textão-resposta.

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A Internet que eu quero ver não é nada mais, nem menos, do que ela já é. Generosa, inclusiva, diversa. Se fosse pra melhorar, focaria em mais acesso a todos, como um direito universal, com menor custo e maior autonomia.

Em 2011, me dei conta do tamanho da mudança que estava presenciando. Na Perestroika, entrei em contato com a ideia de que estamos vivendo uma mudança de era. E não somente uma era de mudanças.

Mudanças acontecem o tempo todo. Mas testemunhar o nascimento de uma era é raro. Minha geração, a de 1985, Millenials, Y, Whatever, deve ter sido a última que nasceu em um mundo analógico e assistiu ao parto do mundo digital. Não é pouca coisa. É tipo a Revolução Agrícola, o Iluminismo, a Revolução Industrial, ou algo que só vamos entender daqui umas centenas de anos. Ou mais rápido do que isso, porque o mundo que está nascendo é muito veloz.

Nesse recorte histórico, sinto que estamos vivendo o embrião. Mal engatinhamos como humanidade conectada. Ainda estamos perdidos, reproduzindo comportamentos de um velho mundo, em que a visão escassa de recursos, informação e pessoas perdura.

Mal entendemos o potencial do que está acontecendo. De qualquer forma, já dá pra sentir um gostinho. A Internet é a tecnologia mais inteligente que já inventamos para modelar o mundo que acreditamos. Mudou minha vida significativamente. E eu acho que a sua também. É a maior oportunidade que já criamos para experimentarmos um mundo abundante, em que tem de tudo pra todo mundo. Em contraponto a um mundo escasso, em que não tem pra todo mundo.

Generosidade, inclusão e diversidade. Pra mim, a fórmula mágica da evolução humana é o DNA da Internê.

A Internet tende à generosidade. Porque compartilhar é barato, rápido e traz benefícios imediatos. É um canal de expressão, contato de gente com gente. Traz o que todo ser humano busca em algum(ns) momento(s) da vida, de alguma forma. Generosidade é a gasolina da conexão. É por isso que tem tanto conteúdo, canal no Youtube, bobaginha no Twitter e textão de Facebook. Porque temos sede de conexão. O ato de compartilhar nos conecta.

A Internet é inclusiva. Porque cada vez menos são necessários filtros, intermediários, poderosos pra aprovarem o que é apropriado. Era muito caro se comunicar. Impossível em alguns contextos. Agora é real, viável. São poucos os espaços de expressão tão inclusivos. Se você quer ver gatinhos, terá. Se quiser publicar gatinhos, bem-vindo. Se quiser taekwondo, lasanha, alternativas para coleta de água, a Internet é o seu lugar sempre. E de mão dupla. Consuma e produza por aqui, crie seu filtro e seu conteúdo.

A Internet é diversa. E isso é lindo. Por mais que os tubarões nos dêem bolhas, há sempre a possibilidade de furá-las. Quer queira, quer não, sempre teremos gente se contrapondo, trazendo outro olhar, divergindo. Tudo que é novo nasce do contato entre o que é diferente. Em muitas situações, a Internet é o único canal para encontrar outro caminho, diferente da sua família, bairro, contexto. Ainda precisamos aprender a escutar e criar conexões profundas e verdadeiras com o outro. Acredito que estamos caminhando nessa direção.

Mas e os haters? Os monstros da Deep Web? As correntes de Whatsapp? Os comentários da Globo.com? As previsões de Black Mirror? Sim, tem muita coisa absurda na Internet. Bem-vindo ao mundo real. Ele é assim. Se a internet é hostil, dura, crítica, imediatista, perversa, polarizada, ela é o reflexo de como nos relacionamos. Nós, os sete bilhões de seres que habitam este planeta agimos assim, em algum nível, em algum contexto. Nada pode ser mais verdadeiro, humano, genuíno. Por isso, não tem como esconder, precisamos conviver com o que há de mais terrível em nós.

Isso é ruim? Pra mim, não. Vejo a linda oportunidade de aprendermos a lidar com a nossa condição e encontrar formas de evoluir como humanidade. A Internet merece ser livre, generosa, inclusiva e diversa. Não poderia haver contexto melhor para lidarmos com nossas sombras.

E com vocês, meus medos. A Internet ainda não é pra todo mundo. É só pra metade dele, e olhe lá. Mas vem crescendo. Algumas corporações ainda têm muito poder, e isso é tenso. Dependemos de governos e empresas para termos acesso. Por enquanto. Ainda existe uma enorme barreira de linguagem e tecnologia. Mas os índices de analfabetismo digital só caem. O paradigma da escassez ainda é senso comum. Mas a experiência abundante que a Internet nos oferece abre a cabeça para um mundo ainda mais generoso, inclusivo e diverso.

Tenho um compromisso de vida com a construção desse mundo. Compartilho meus aprendizados mais significativos através deste blog. Ajudo empreendedores não-convencionais a terem sua presença online. Dou workshops para quem quer aprender a fazer seus próprios sites. Ofereço conteúdo, cursos e livros que tendem ao preço zero, ou pague quanto acha justo. Persigo a ousada meta de desvincular minha entrega de valor de quem pode me pagar, através da generosidade do financiamento coletivo recorrente.

O que faço para construir a Internet que acredito ainda é pouquinho. Mas somos muitos. E nunca foi tão concreta a ideia de que com a pequenas contribuições podemos mudar o curso da história.

Um mini-doc da GVT que participei para falar sobre - pasmem - a Internet.

A vida é difícil. Vamos celebrar.

Vi Capacetes Brancos. Vale cada minuto dos quarenta e poucos. O documentário que levou Oscar está no Netflix.

Sem spoiler: pessoas comuns dedicam suas vidas na Síria devastada para salvar outras. Não são médicos, bombeiros, policiais. São padeiros, artesãos, pessoas como eu e você.

Imagina viver diariamente correndo atrás de bombas que acabaram de soterrar pessoas e tirar vidas. Esse é o cotidiano dos Capacetes Brancos. Todo dia tem trabalho.

No site em que recebem doações, sugerem: "dê o que você pode, eles dão tudo." (Se você também se pergunta o que pode fazer pelas grandes tretas do planeta, aí está uma dica, doa).

Essas pessoas valorizam cada vida, não importa de que lado está, fazem tudo pelo resgate. Não existem lados. "Salvar uma vida é salvar a humanidade".

É horrível fazer essa comparação. Mas é inevitável. Minha vida está fácil, muito fácil.

Tenho um lar, família, amigos, comida garantida pra hoje e com certeza por mais uns bons dias. Faço meu dinheiro, me relaciono com pessoas maravilhosas. Me dou ao luxo de escolher trabalho. Sou um privilegiado.

Enquanto isso, tem gente no mundo entregando tudo em um país sem qualquer perspectiva. Perdendo familiares, amigos e colocando a própria vida em risco todo dia. 

E eu aqui, reclamando da louça suja. E ouvindo reclamações da falta de grana, do trabalho, do outro.

É lamentável valorizar o que temos comparando com quem está em situações dificílimas. Não tem comparação. Mas, infelizmente, isso funciona, me toca e talvez também mexa com você.

Não quero desvalorizar o meu, e nem o teu sofrimento. Seja qual for o sentimento que vivemos, é legítimo.

Mas será que a gente está dando o que pode?

Será que conseguimos enxergar com outros olhos nossos grandes problemas?

É possível ser grato pela vida sem ter que perceber, ainda que a distância, um pouquinho de morte?

É possível aceitar o que temos, aqui e agora, sem nos preocupar tanto com o que não temos?

Hoje só quero registrar que não estou só. Você também não. Onde estamos agora é um lugar que já desejamos muito.

Vamos valorizar, agradecer e aceitar com tranquilidade qualquer que seja nossa condição.

Há muita vida pra viver, perrengue pra passar, brigas pra comprar e transformação pra acontecer.

"Life is hard. Let’s celebrate."

Grato.

Como as mudanças acontencem?

Participei recentemente de uma imersão, convidado pelas mulheres incríveis do coletivo Imagina.vc.

Elas lançam, de tempos em tempos, jornadas com ações simples para quem quer fazer pequenas e grandes mudanças.

Mas, como começar?

Esse foi o desafio do lindo grupo heterogêneo e ao mesmo tempo cheio de conexões que participei. Fomos incumbidos de desenhar uma jornada para quem quer começar um processo de transformação pessoal e coletiva.

Os resultados ainda não saíram. Mas prometem. Se quiser, assine a Newsletter do Imagina para que te avisem.

Quero compartilhar com você meus insights pessoais. Como eu acredito que as grandes mudanças acontecem.

Na verdade, é preciso lembrar, mudanças são constantes. Estamos inevitavelmente vivendo e testemunhando eternos processos de transformações. Talvez não exista apenas um começo. São vários e vários recomeços nessa vida.

Mas tem alguns elementos e ações que dão suporte e sustentam viradas de página, processos de mudança, transformações profundas e, talvez, conscientes.

Inspiração - Sem referências é muito improvável enxergar outra forma de viver. Sempre tivemos muitas pessoas buscando jeitos alternativos de trabalhar, conviver e ser, ainda que estivessem escondidas. Mas a Internet permitiu que essas pessoas fossem vistas. Tem muita gente que inspira pelo exemplo. É ainda mais relevante quando as referências estão próximas. Mais do que isso, te apoiam. Encontre quem te inspira, não se preocupe em imitá-las ou venerá-las, apenas observe.

Apoio - É fundamental. Sempre sugiro, encontra tua turma, tua galera, quem tem visões de mundo parecidas e habilidades complementares. Toda mudança requer também novos amigos, ou apoio dos amigos e familiares antigos. Essa jornada da vida é muito mais gostosa quando vivida em companhia. As conexões precisam necessariamente serem tecidas ou regeneradas pras mudanças acontecerem. Procure e cultive apoio, abra o jogo, crie seu ambiente seguro para errar.

Autoconhecimento - Escrevi semana passada como acredito que a mudança vem de dentro pra fora. Se mudanças são processos pra vida toda, se conhecer também. Não há limite, é sempre possível ir mais longe e mais fundo numa busca pessoal, questionar e entender suas paixões, motivações, medos, talentos, espiritualidade. E, assim, forjar a sua história. Invista fortemente na busca pessoal, mergulhe em você.

Empatia - Se olhar pra dentro é fundamental, se conectar com os outros é igualmente importante. Parece que nossa responsabilidade sobre o planeta aumenta quanto mais nos damos conta da nossa ligação com tudo que nos cerca. Empatia é tomar a perspectiva alheia, não se ater aos julgamentos e reconhecer as emoções e necessidades que nos conectam. Isso é muito poderoso. Conecte-se profundamente com o outro, aceite e apoie.

Autoestima - Sim, eu posso, você pode. Não é balela. Não é papo furado. Se você duvidar de si, não terá energia para ir adiante. Isso está muito ligado ao contexto familiar e história de vida. Quanto mais você cultivou e foi incentivado a ter um olhar de autocompaixão, mais gana terá para fazer a mudança por si. E não esperar que façam por você. Alimente a sua autoestima, imponha-se quando necessário, acredita e vai.

Pequenos passos - O meu favorito. Tudo começa de algum lugar. Um passinho pequeno, repetido com consistência leva a uma longa caminhada. Mudanças bruscas não acontecem quando a gente quer. Mas as pequenas são nossa responsabilidade. É aquela: “pense grande, comece pequeno, aja rápido”. Tenha paciência e lembre-se de que tudo começa da forma mais simples.

Tranquilidade - Vai dar errado. Vai ser sofrido. Vai ser difícil. Mas ainda assim você deve saber que tudo pode mudar, melhorar, ser diferente. É preciso ter uma certa casca, ou autoconfiança, habilidade para respirar, aceitar o momento e cuidar da energia necessária para que as coisas mudem. Fique tranquilo, tudo está mudando.
 

Não quero mais mudar o mundo

Um dia, meu grande amigo e sócio no Estaleiro Liberdade, Felipe Amaral soltou:

- Não quero mais mudar o mundo. Só posso mudar meu mundo.

Rebati:

- Como assim? E agora? O sonho acabou?

Demorei um bom tempo, meses, para captar a mensagem.

Não acreditava que tudo que estávamos fazendo poderia ser somente pra nós, e não pras outras pessoas. E a generosidade? E os problemas que o mundo tem? Vamos fechar os olhos?

Mas não era sobre isso. Eu que não tinha entendido nada. Confundia, como muita gente, autoconsciência com egoísmo. Generosidade com convencimento.

Estou escrevendo pra você numa tentativa de trazer atenção para uma sutileza que mudou minha vida.

Escrevo por mim, não por você. Se quiser, pegue, mude, transforme, jogue fora, ignore. Todas as opções são legítimas e não há nenhum juízo de valor sobre elas. Pra mim, está sendo útil. Seguimos.

As mensagens aqui são simples: Precisamos tomar cuidado demais com a lógica do convencimento. Toda transformação é de dentro pra fora. Estamos inevitavelmente conectados.

"Paradigma é como um par de óculos que usamos no cérebro, em vez de sobre os olhos, para enxergar a realidade de certa forma." - Bernardo Toro.

Se você não tirar os óculos da guerra, do convencimento, da conquista - como já fiz - será difícil entender.

Existe, pelo menos, mais um par de óculos, do cuidado, da aceitação, do diálogo, da curiosidade e abertura.

Vamos chamá-los de óculos da guerra e óculos do cuidado.

É muito fácil dizer o que o outro deve fazer. Professores, chefes, parentes e colonizadores fazem isso há muito tempo. Eu faço. Você faz. É nosso modus operandi. Os óculos da guerra estão embutidos em nossas faces.

Se você apanha muito, então, fica ainda mais difícil deixar cairem os óculos da guerra. Requer um baita esforço se defender sem guerrear. Quando todo mundo está gritando, falar baixo e escutar o outro é um ato revolucionário.

Exige esforço ainda maior abdicar do desejo de ser herói. Heróis são vangloriados na nossa cultura. Sucesso, poder, vitória também. Gritaria e violência é linguagem comum, em todas as línguas da Terra. Quem topa parar de perseguir o topo?

Mas é justamente essa visão, da guerra, que nos cria a ilusão de separação e, consequentemente, mais violência, em todos os níveis.

Não estamos em guerra. Não somos maus, nem bons. Não há topo. Estamos todos aqui, apenas buscando conexões, amor e viver momentos felizes. Todos. Não há escapatória, seguiremos eternamente conectados em um mesmo planeta. Não há "fora". Precisamos conviver bem para sermos felizes. Somente este mundo é possível.

Se falar é fácil, difícil é fazer por si próprio, ser exemplo. Viver conexões, amor e felicidades. Mesmo que a gente "saiba o que fazer", fazer é outra história. É um compromisso diário vestir esses óculos do cuidado. É uma busca, não uma conquista.

Demorou pra cair a ficha, mas compreendi que me posicionar como solucionador, salvador, resolvedor, pressupõe o julgamento de que o outro tem um problema, precisa ser salvo, eu posso resolver. Você é menor do que eu e precisa da minha ajuda.

Nada pode ser mais violento do que isso. Os óculos da guerra, a postura colonizadora gera, é claro, mais contra-ataques. Violência gera violência. Se você assistir, sem os óculos da guerra, as polaridades Coxinhas e Petralhas saberá do que estou falando.

Ou, ainda, a postura salvadora é também colonizadora e inconsequente. Li recentemente sobre os efeitos dos calçados doados pela TOMS. "Não provocaram uma mudança significativa na vida das pessoas. Pelo contrário, como efeito negativo, criou-se um modelo de dependência para as comunidades."

Por outro lado, se levarmos a sério essa história de buscar conexões, amor e felicidade, inevitavelmente criaremos em nós uma maior capacidade empática e generosa. Estamos conectados, não há isolamento. Toda ação, pequena ou grande, reverbera em todo o sistema.

Acredito cada vez mais que a mudança é de dentro para fora. No fim das contas, se há algum controle, é sobre si. Se há alguma mudança que pode ser feita com total responsabilidade é a própria mudança. Não posso condicionar minha felicidade ao comportamento, ou existência, do outro. Não posso esperar que o mundo viverá de acordo com as minhas expectativas. Estarei perdido. Só me resta aceitar, incluir, conviver e viver.

Mas e agora, esse mundo cheio de problemas, como contribuir positivamente? Vivendo a própria história, gerando o mínimo de impacto, sendo exemplo, regenerando a vida.

Hoje, tento oferecer pro mundo o que consigo, com o máximo de abertura e liberdade. Me dedico a criar recursos que você pode se apropriar. Se te serve, massa. Se não, massa também.

Busco me manter curioso, empático, aberto, o quanto minha energia permitir, tentando aumentar a intensidade com o tempo. Sem pressa, sem uma busca por grandiosidade. Para mudar o mundo, é preciso abrir mão dos meus privilégios. E isso não significa perder nada. É possível viver melhor com menos. É real a possibilidade de viver com mais leveza e menos pressão.

Talvez você se questione o quanto esses óculos do cuidado são eficazes. O quanto mudam o mundo. Eu realmente não sei dizer, mas posso afirmar com certeza que este esforço tem mudado o meu mundo. E isso muda tudo.

Rafa Cappai entrevista Mari Pelli e Larusso

Quando era criança, sonhava um dia ser entrevistado pelo Jô. Achava o máximo acompanhar os papos com gente interessante. Queria ser assim quando crescesse.

Não deu. Jô se aposentou. E, pra falar a verdade, já mudei faz tempo de ideia.

Mas ainda bem. A entrevista que a Rafa Cappai fez comigo e com a Mari Pelli saiu muito melhor que a encomenda.

Gosto de papos mais longos. Que tentam ir mais longe, mais fundo, mais perto. O Jô não ia dar conta. Risos.

A queridíssima Rafa Cappai nos recebeu na sua Espaçonave para conversarmos sobre a vida, os projetos que acreditamos, nossa visão de mundo e de futuro.

Não poderia estar melhor acompanhado. Mari Pelli, minha amada companheira estava ao meu lado. Como sempre.

Então, se você que acompanha este blog quiser saber mais sobre as piras que se passam do lado de cá, solta o play. Tem muito assunto. A coisa foi bem longe. Pra mim, o melhor ficou mais pro final.

Espero que curtam, compartilhem e assinem o canal da Rafa.

PS.: Já cortei o cabelo. Esse vídeo foi gravado no meio do ano passado.

Os maiores desafios na hora de tirar os projetos do papel. E como contorná-los.

Tenho investigado há alguns anos o que faz algumas pessoas conseguirem ter ideias e executá-las e outras ficarem apenas nas ideias.

Boa parte dessa pesquisa gerou insights pro livro 333 Páginas para tirar seu projeto do papel. Um livro de atividades pra você planejar, organizar, rabiscar, escrever e dar vida ao seu projeto, fazendo um pouco de cada vez.

Agrupei em sete os desafios. Mas como já temos problemas demais pra resolver, deixo minhas possíveis soluções. Se forem sugestões viáveis pra você, me conta. Se não forem, comenta também?

1 - Medo e insegurança
Sei que esse argumento é abrangente. Mas muita gente tem medo de começar, dar a cara a tapa, ir lá e fazer. Em geral, nos falta coragem. Assumir ideias e projetos como algo que queremos ver no mundo requer autoconfiança. Mais do que isso,algo que nos sentirmos suficientemente capazes de fazer exige autoconhecimento. A pergunta que me fica é: "Como você está ganhando auto-confiança?”. Em mim, tenho percebido que executar os projetos de uma maneira mais simples, menor, com mais controle me dão energia para começar e continuar. As ideias começam grandiosas, mas aquelas que realmente são feitas têm mais chance quando começam com poucos riscos. Se você quer ter um restaurante, já fez jantares na sua casa? Num evento? Prototipação e teste diminuem expectativa e pressão por perfeição. Consequentemente, diminuem medo e insegurança.

2 - Falta de equipe
É muito difícil fazer qualquer coisa sozinho. Como encontrar pessoas com habilidades complementares, visões de mundo parecidas e, ainda engajadas na sua ideia? Não, não é fácil. Mas é possível se houver abertura. Só vamos conhecer pessoas para formar uma equipe quando houver algum tipo de exposição, chamada, convite. É preciso se abrir para receber. Um exemplo é o próprio livro 333 Páginas. A ideia só saiu do papel quando convidei mais dois amigos, o Gab Gomes e o Luciano Braga para entrarem nessa comigo. Não tem jeito, pra trabalhar com mais gente é preciso perguntar, pedir, chamar, se abrir. Falar sobre a ideia, pedir indicações, compartilhar. Não gosto de ideias secretas. Elas são muito mais improváveis de acontecerem do que ideias amplamente conversadas e abertas.

3 - Falta de tempo e organização
Aquela história. Todos temos as mesmas 24 horas todos os dias. A grande questão é o uso que fazemos delas. As escolhas que tomamos definem o que concluiremos, os dias que levaremos e até as emoções que sentiremos. Por isso, considero fundamental saber dizer não, priorizar, fazer melhores escolhas. Poderia estar assistindo um nova série no Netflix. Mas estou aqui, escrevendo pra você. Dizer sim pra tudo tem o custo de dizer não pra todas as outras coisas. Se tua ideia é importante pra você, privilegie ela, abandone algo para que ela se encaixe na sua rotina.

4 - Falta de grana e financiamento
“Não tenho grana pra fazer o que eu quero.” é uma desculpa muito fácil de se dar. E talvez ainda mais fácil de contornar. O primeiro passo é sobre aceitar os recursos que a gente já tem e fazer o máximo possível com eles. Sempre é possível fazer algo agora. Uma primeira versão, um teste, uma tentativa. Não é o ideal, mas é muito maior do que ficar na ideia. O verdadeiro desafio não é conseguir dinheiro, mas conseguir entregar nosso valor com o que já temos. Com as habilidades, contatos e estrutura que já temos a disposição. Com este computador, com estes amigos, com este material que já está nas suas mãos. Com a grana que você poderia perder. Conseguindo tirar uma amostra do seu projeto do papel com o que você já tem, pouco a pouco, é muito mais provável adicionar camadas de complexidade.

5 - Indisciplina para começar
Como você funciona em relação aos seus compromissos? Você fura? Você chega cedo? Você precisa de um horário? Precisa pagar para estudar? Precisa ser pago pra trabalhar? Precisa se comprometer com outras pessoas? Entender os gatilhos que te ajudam pode criar disciplina no trabalho. Autonomia e poder sobre o tempo é uma criação de hábito. Eu, por exemplo, gosto de me comprometer publicamente. Digo pra todo mundo no facebook, conto pros amigos o que e quando vou fazer. Porque eu não quero decepcionar ninguém. Então, vou lá e faço.

6 - Falta de ritmo e recorrência
Não basta começar. É preciso continuar. Nem sempre será fácil. Na verdade, se a gente quer se comprometer com algo por muito tempo, teremos muitos altos e baixos. Se a gente está desanimado por algo, será que realmente queremos fazer? Se não queremos, por que fazer? O jeito é fazer aquilo que amamos profundamente. Quando tem paixão visceral, o ritmo vem. Ou, ainda melhor, quando temos uma visão de futuro, algo que está se construindo e precisa ser feito agora, a motivação cresce. Gosto de enxergar a jornada a partir de pequenos passos, experimentais, tornando ela mais leve. Quando a gente vê, de pouquinho em pouquinho, algo massivo foi construído sem o peso da grandiosidade.

7 - Falta de clareza
“Que ideia é essa? Que projeto é esse? Pra quem ele é? Que problema ele resolve?” Acredito que clareza e significado a gente forja. Como uma espada. Você nunca fez uma? A gente vai afiando, pouco a pouco, ela vai tomando forma. As ideias não nascem prontas, claras, objetivas. Elas vão ganhando sentido na medida que a gente vai compartilhando, conversando, entregando. A confusão começa a virar clareza com trabalho. Tenta escrever, falar. Faz uma página no facebook, cria um Power Point. Depois, mostra pra alguém e escuta. Quando incorporamos as impressões alheias entramos no processo de lapidação. Nada nasce pronto.

Se você quiser começar seu projeto de uma vez por todas, fica aqui mais uma vez meu merchan. Tem uma nova leva do livro que vai te conduzir nesse processo, o 333 Páginas para tirar seu projeto do papel.

A arte de pedir ajuda

“Se você amar as pessoas o suficiente, elas te darão tudo.” - Amanda Palmer.

Isis clicou aqui em “Posso te ajudar?” e começamos as sessões de mentoria.

Em geral, procuro me conectar com a necessidade do momento e me colocar à disposição pro que vier.

Era como uma torneira fechada acumulando água na mangueira. Quando abriu, jorraram ideias, desejos e projetos. Me entreguei e trabalhamos nas questões dela.

Algumas boas semanas depois, me veio com uma pergunta que me paralisou.

- Sou grata pela sua ajuda. Mas gostaria de saber: como eu posso te ajudar?

Não respondi na hora e tenho a sensação de que não tenho uma resposta honesta até hoje. Isis trouxe à tona um dos meus calcanhares de Aquiles. Sou péssimo em pedir ajuda.

O simples questionamento dela virou o jogo. Um jogo que eu nem queria que existisse. Mas parece que a relação de prestador de serviço e cliente nos joga pra essas posições. Um está à serviço do outro. O que equilibra a troca é a entrega de serviço e o pagamento em dinheiro, fim de papo.

No modelo tradicional, o prestador de serviços é um robô impávido, infalível, inquebrável, sabe o que está fazendo. Minha arrogância dificilmente me permite sair desse lugar, pedir ajuda e trabalhar de igual pra igual. Fora os dedos, a preocupação, não estaria explorando a boa vontade alheia?

“Eu vendo, você compra, fim” é uma lógica que me esforço para levar a um próximo nível. Seria possível cultivar relações de trabalho com entregas mais generosas, livres e naturalmente equilibradas?

Eu posso te ajudar. Você pode me ajudar. Pronto.

Ou, ainda, eu posso te ajudar e ajudar mais gente. Outras pessoas, ainda, me ajudam. No fim das contas, o saldo é positivo pra todo mundo.

Amanda Palmer está construindo neste exato momento uma linda história. Estátua viva, garçonete, estudante de artes, stripper, cantora, artista, amante, tuiteira, escritora, mãe.

Ela continua se entregando plenamente, cheia de medos, mas indo até o talo. E a ajuda vem. De alguma forma, ela chega, o fluxo só aumenta de intensidade. Entrega arte, chega intimamente perto, recebe mais. Não conheço ninguém que se entregue tanto e receba tanto.

Seu TED e seu livro mergulham profundamente no título deste texto. Amanda é uma das pessoas que mais me inspiram rumo a um estilo de vida de entrega generosa.

Há alguns anos venho fazendo experiências nesse sentido. Preciso ir além.

Publico neste blog pra quem quiser. Experimento o “pague quanto acha justo” no curso online LAUNCH! e no livro 333 Páginas para tirar seu projeto do papel. Sou um privilegiado por ter o apoio de pessoas que contribuem financeiramente com a minha existência e a continuidade do meu trabalho através do Unlock.

Essas iniciativas me conectam com novos e antigos amigos. Me rendem dinheiro, mais trabalho e, principalmente, a oportunidade de criar mais projetos que considero significativos, a arte que quero ver no mundo.

A verdade é que ajuda e troca parecem ir além de coisas e dinheiro. Tem entrega. Tem grana. Mas é mais que isso. É sobre proximidade, conexão. Eu te enxergo, você me enxerga. De algum jeito, estamos tentando nos mostrar, nos aceitar e nos dar força para que sejamos um pouco mais nós mesmos.

Nessa dinâmica, tendemos a um equilíbrio entre dar e receber. Quanto mais dou, mais recebo. Se condiciono a entrega, condiciono o recebimento.

Em todos os momentos que caí e me conectei profundamente com uma necessidade real minha, as pessoas estiveram lá me amparando. Sem grana, sem rumo, sem ninguém. Elas estavam lá, dando tudo que fosse necessário. Qualquer coisa pode ser resolvida pedindo ajuda. Só precisamos encontrar as pessoas apropriadas pro momento.

E se há algo que aprendi nessa roda é que temos que começar doando, entregando, sem qualquer expectativa de retorno. Porque é o condicionamento, a escassez artificial e o freio na energia isso que diminuem a potência da arte.

Nessa jornada, descobri que nós já começamos esse jogo ganhando. Ganhamos a vida dos nossos pais e antepassados e um planeta inteiro cheio de ar, água e terra para nos alimentar.

Daí em diante, é só se esforçar para retribuir ao mundo a vida que ele te deu. Dia após dia, consistentemente, abertamente, generosamente, com todo o amor e raiva que a gente conseguir encontrar.

Acredite ou não, o ciclo se completa. O que quer que a gente entregue vem de volta. Uma hora vem. Sempre vem. Se a gente ajuda, é ajudado. Se a gente entrega, a gente recebe.

Mudei. E este blog também.

Ao longo de treze anos me mudei de São Paulo pra Florianópolis. De Floripa pra Porto Alegre. Do Rio Grande do Sul pra SP. E de lá pra Floripa de novo.

Minha vó me perguntou, na última mudança, se finalmente era pra sempre.

- É pra sempre, vó. Até que me mude de novo.

Sexta-feira foi um dia atípico. Deixei de publicar diariamente neste blog. Disciplina que me dei de presente no meu aniversário de trinta e segui à risca por mais de dois anos.

Meu computador parou de funcionar. O carregador do iPad também, no mesmo dia. Recebi muitos amigos em casa. Dediquei atenção à Norí, nossa cadela filhotinha que acabou de chegar. Fomos jantar com uma amiga. Fiquei sem bateria no celular. Estava sem nenhuma conexão. Descobri que era mais de meia noite e este dia finalmente aconteceu.

Desculpas. Sou ótimo nisso. E você?

Poderia ter escrito antes. Poderia ter pedido um computador emprestado. Poderia ter carregado o celular. Poderia ter feito outras escolhas, poderia ter dado um jeito. Sempre é possível e já fiz isso muitas vezes ao longo desses 747 dias.

Justificativas. Mais uma habilidade.

A verdade é que escrever neste blog diariamente deixou de ser tão significativo pra mim. A vida segue mudando, querendo ou não.

Nos últimos meses não me dediquei. Sentar e escrever já não era um dos meus momentos favoritos do dia. Me faltavam mais que palavras, assuntos. E ainda assim eu continuava seguidamente tentando pôr em texto o que você gostaria de ler, o que eu gostaria de compartilhar e o que nos aproximaria.

Por que continuava?

Porque quebrar um hábito é muito mais difícil do que se jogar algo novo. O hábito solidificado é mais forte que o benefício, ou o malefício, que qualquer mudança poderia gerar. Acho até que criar um hábito é mais fácil do que se desfazer de um.

Nesses dois anos foram centenas de publicações, milhares de leitores, compartilhamentos aos montes e eu não poderia ser mais grato por isso. Muito obrigado.

Mas eu já não estou mais aprendendo como já aprendi. Nem contribuindo ao mundo como já contribuí, neste momento, através desta atividade. E isso basta para mudar. Não importa quanto o hábito de escrever todos os dias já me trouxe felicidade.

Repeti a dose no sábado e não escrevi. Dois dias sem escrever é o novo recorde deste blog.

Refleti.

Tomei uma decisão que me coloca em uma nova posição de medo e desafio. Um ótimo lugar para criar e fazer arte significativa.

Por um lado, tenho medo de não conseguir, me perder, quebrar nossa confiança. Será que não é pira demais da minha parte?

Por outro, quero experimentar um novo formato. Ver onde isso vai dar, aprender com o processo e descobrir mais sobre mim, sobre o que amo fazer e o que me toca.

Gosto de aprender fazendo.

Escrever todos os dias é ótimo porque cria responsabilidade e a possibilidade de conexão aumenta. Talvez você não me leia hoje, mas poderá me ler amanhã.

Porém, dificulta fazer algo mais elaborado, complexo, talvez profundo. Não consegui ser consistente todos os dias. Muitas vezes publiquei só pra me livrar da tarefa que me dei.

Quero ter algo genuinamente significativo para entregar. Isso acontece com frequência, mas não todo santo dia.

Por isso, a partir de hoje, farei publicações semanais. Espero que elas sejam mais profundas, quem sabe mais densas.

Gostaria de levar nossa história para outro patamar. Quero trocar mais com você, ler o que você tem pra me dizer. Espero, daqui pra frente, abrir mais espaço pra isso. Ler mais exige escrever menos.

Daqui pra frente teremos novas publicações apenas aos domingos. Noites de domingo em geral são xôxas. Quero dar minha pequena contribuição ao mundo para virar este jogo.

A newsletter “Doses de amor” continua. Segunda-feira, por volta das seis horas da manhã, deve chegar um email com o texto da semana. Seguimos conectados.

Transformações revigoram. Nossa capacidade de adaptação é o que nos fez chegarmos até aqui. Por isso, quero aceitar as mudanças em mim. Quero enxergá-las como força motriz da vida.

E se você quiser chegar mais perto, ficarei feliz. Por favor escreva para larusso@larusso.com.br. Estou com muitos emails atrasados. Mas pode ter certeza de que vou ler e responder em algum momento.

Vamos juntos ver até onde vai a toca deste coelho. É uma mudança definitiva, pra sempre. Até que mude novamente.

Ideologia

"Não importa o quão inteligente você seja, assim que você se identifica com uma ideologia específica, sua inteligência pára por aí. Por quê? Você pára de fazer perguntas e começa a fazer suposições." - Charlie Ambler.

Centralização simbólica é um dos nossos maiores riscos velados.

Essa inflexibilidade, essa certeza toda, essa glorificação de ideais como se fossem verdades únicas.

É o que nos afasta, cria a ilusão de separação.

É o que cria a frágil dualidade, o certo e o errado.

Seguimos nos questionando.