Obrigado, Oswaldo Oliveira!

Todo amor e paz!

Estou aqui, sentindo, celebrando, reconhecendo e honrando a vida que vivemos com este maravilhoso ser humano, Oswaldo Oliveira.

Oswaldera veio a este plano e se foi.

Sou profundamente grato por ter experimentado, aprendido, amado, tretado e vivido tanto ao lado desse cara. Nossas vidas se encontraram em 2011 e de lá pra cá foram inúmeras histórias, encontros e empreitadas que seguem me gerando aprendizados, e pouco a pouco vão cabendo aqui.

Neste momento, estou no meu cantinho, seguindo o que me toca. Um festival está acontecendo em mim e em muitas pessoas, de forma livre, abundante, diversa e distribuída.

A vida é linda demais. E a morte é um lembrete para celebrar a vida que há em nós.

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Deixo aqui um vídeo, pra quem é de vídeo. E mais um.

Uma música, pra quem é da música.

Umas ideias, pra quem é das ideias:

"Se você pegar toda matéria e energia do Universo e somar, o resultado é zero. A única coisa que sobra é a experiência. A gente nasce numa conversão de energia em matéria e morre liberando a energia dessa matéria. Então, a gente recebe a vida e entrega a experiência. Essa que é a nossa relação com o Universo. E a gente vem programado para viver uma experiência que vai gerar uma entrega para o Universo única. Porque só a gente, por ser único, vai ter aquela experiência vivida. É meio como se o Universo falasse assim: 'Olha, tamo precisando de você. Você precisa ir lá com essa configuração viver tal coisa e incorporar esse aprendizado em nós.' - Porque o ser é único, tudo está conectado, o Universo aprende através da gente. No fundo, o livre-arbítrio é isso: você escolher entre a percepção da união ou você escolher entre a percepção da separação. O ser humano é o único ser que consegue se desconectar de si mesmo." - Oswaldo Oliveira.

E sete princípios Huna, que o Oswaldo um dia me trouxe:

Ike - “Você cria sua própria realidade.”

Kala - “Você é ilimitado.”

Makia - “Você tem aquilo no qual você se concentra.”

Manawa - “Seu momento de poder é agora.”

Aloha - “Amar é estar feliz.”

Mana - “Todo o poder vem do interior.”

Pono - “A eficácia é a medida da verdade.”

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Não faça o que você ama. Construa sua história significativa.

A pessoa ama ver bolos no Pinterest.

Coleciona glacês, compra livros de receitas, faz cursos.

Aí resolve viver fazendo o que ama.

Torra suas economias para inaugurar mais um café no bairro.

O tempo passa e a rotina se estabelece.

Passa os dias ligando pra fornecedores, gerenciando funcionários e fazendo contabilidade.

Dor de cabeça, horário pra cumprir, contas pra pagar.

Os bolos são só uma parte muito pequena do trabalho cotidiano.

Para manter um café, ou uma doceria, ou qualquer outro empreendimento precisamos de, pasmem, trabalho.

Outra pessoa ama desenhar.

Cursa publicidade e entra numa agência. 

Seus dias são de brainstorming, clientes sisudos, chefe difícil.

Desenhar é um momento raro, e cada vez mais raro, que acontece nos finais de semana.

O que estava por trás da publicidade era o desenhar. Mas o desenhar se tornou uma habilidade eventualmente útil.

Amar uma atividade é lindo, né? A gente entra em fluxo, não vê o tempo passar.

Mas é muito improvável que uma profissão seja feita apenas da atividade que amamos.

Junto de todo trabalho que amamos vem o trabalho chato, a fila do banco, a cobrança a ser feita, as planilhas, a sujeira, as reuniões. Cada um tem seu terror.

E outra, esse amor pelas coisas às vezes passa. Tem mais cara de paixão. A gente muda e nossos gostos também.

Dizem que o inferno é fazer repetidamente, eternamente, aquilo que mais amamos fazer, até se tornar insuportável.

Por isso, tenho deixado de lado a ideia do “faça o que você ama”. A princípio, ela parece muito boa, mas muitas vezes me parece frágil e inocente.

Se apresenta mais honesta a ideia de “construir uma história significativa”. Nossa própria história.

Com autonomia, busca pessoal, presença, responsabilidade, decisões.

Como toda boa história, faz parte dela aceitarmos altos e baixos, aprendizados e decepções, sucessos e desafios. Tudo é vida.

É mais crível entender nossa jornada profissional como uma história cheia de aventuras.

E não como uma busca pelo Santo Graal da atividade especial que amamos e faremos eternamente.

Porque até o café dos sonhos muda, a vida de agência pode ser terrível, o empreendimento que sempre desejamos pode ser um pesadelo. Nós mudamos o tempo todo.

Quando a gente está mais pela história do que pela atividade em si, as transformações ficam mais leves.

Porque uma construção ao longo do tempo entende que toda atividade, pequena ou grande, velha ou nova, merece ser feita.

Cada tijolinho ganha mais sentido, sendo ele amável e divertido ou chato e pesado.

Nossa história está para além das coisas que fazemos.

Pare de se preparar

Passei anos na escola me preparando pra faculdade.

Depois, anos na faculdade me preparando pro trabalho.

E mais anos no trabalho, me preparando pra quê mesmo?

A gente vive em uma cultura que nos faz acreditar que precisamos sempre saber mais do que sabemos.

A ideia de que não estamos prontos é cruel. Ela nos pressiona para sempre estarmos correndo atrás de mais conhecimento, mais qualificação, mais formação.

Supervalorizamos o conhecimento teórico e subestimamos o fazer prático.

Liquidamos nossa segurança e autoestima ao nos compararmos com o próximo degrau do saber.

Alimentamos nossa ansiedade, ao criarmos uma expectativa pelo futuro, deixando de viver agora.

Num mundo que se transforma rapidinho, toda informação está potencialmente disponível. É loucura acreditar que chegará o dia em que já lemos o suficiente, aprendemos o que tínhamos que aprender e estamos prontos para, finalmente, dar nossa contribuição.

Não quero dizer aqui que a gente não deve, ou não precisa, ler, escutar, aprender. É claro que inspiração e uma boa dieta de conteúdo alimenta a alma.

O lance é que a gente também tem que entregar. É necessário um equilíbrio entre receber e dar. Escutar e falar. Ler e escrever.

Os maiores artistas, escritores, criadores, empreendedores, fazedores são também espectadores, leitores, consumidores, conectores, observadores. Tudo ao mesmo tempo, alternadamente.

Por isso, se eu puder sugerir, não somente leia blogs, veja videos, faça cursos, assista palestras, peça ajuda. Pare de se preparar e crie sua história, compartilhe seus aprendizados, se expresse através da sua arte, dança, seus desenhos e gritos.

Só encher a cabeça cansa e adia nossa criação genuína. Pequenos e constantes passos que entregam algo pra alguém são tão importantes quanto nos manter aprendendo coisas novas.

Como todo humano, a gente tem a capacidade de expressar nossos sentimentos, desejos e dúvidas desde que nascemos. Não precisamos esperar pelo momento certo, porque ele é sempre agora.

Meus cinco maiores aprendizados

Rafa Cappai me convidou para participar do Galaxya Live, evento da Espaçonave.

Sugeriu me apresentar contando meus cinco maiores aprendizados nessa jornada empreendedora.

Aqui eles estão.

1. Essa é uma viagem de autoconhecimento.

Pra gente pôr pra fora um projeto, uma arte, uma história significativa, temos que nos conectar com o que vem de dentro. Nossos medos, amores, limites, desejos, nossa infância e visão de futuro, por exemplo, são matéria-prima para nossa criação. E como as boas road trips, o caminho é a viagem, e a viagem é o caminho. Teremos lindas paisagens, uns bons perrengues e a chance da vida se apresentar a cada conexão que a gente faz ao caminhar. Mais do que construir uma coisa, ganhar dinheiro, ajudar alguém ou fazer o que gosta, sinto que empreeender é sobre um longo e profundo mergulho em si próprio. E quanto mais a gente está com a gente, mais a gente está com o outro e com o mundo.

2. Entregue valor, receba valor.

Em cada ação, pequena ou grande, me pergunto se o que estou fazendo gera valor pra alguém. Esse texto, pode ajudar alguém? Esse  pensamento, vai resolver o problema de alguém? Estou mesmo criando algo valioso ou apenas planejando, me preparando e, no fundo, adiando e evitando viver a vida? Enquanto um texto está só comigo, ele não criou valor pra ninguém. Quando entrego abertamente, tenho alguma chance. Além de entregar, hoje, entendo que qualquer negócio só existe quando a gente recebe valor. Na medida em que as pessoas recebem o valor que criei, eu tenho a possibilidade de receber algum valor delas. Inclusive dinheiro. Esse ciclo de entrega e recebimento dá energia para mais entrega e acolhimento. E assim vamos fluindo e equilibrando.

3. Pequenos passos funcionam.

A gente acha que são os grandes projetos, as maiores decisões e os momentos que sempre esperamos que fazem a coisa acontecer. Mas não, é o cotidiano, as coisas que fazemos todos os dias que constituem a grande história que estamos criando. Os pequenos e mais simples passos, com consistência, nos levam a uma grande caminhada. Cada grande sonho que nasce em mim viram pequenas tarefinhas realizáveis, vou fatiando e passando. De vez em quando, olho pra trás e me pego surpreso: como foi mesmo que cheguei aqui? As conquistas e derrotas estavam acontecendo a todo instante, em cada passinho. No fim das contas, a vida é só processo e transformação mesmo. Não tem nada além disso. 

4. Estabeleça teus próprios parâmetros de sucesso.

A gente nasce e já empurram pra gente que temos que tirar boas notas, termos bons empregos, uma casa bacana, uma aposentadoria segura. E mal dá tempo de nos perguntarmos, é isso mesmo que eu quero? O que é sucesso pra você, não precisa ser sucesso pra mim. Quando a gente se livra do que nos deram pronto, diminuímos as possibilidades de frustração, tomamos consciência das nossas escolhas nos responsabilizamos pela nossa caminhada.

5. Abertura e conexão acolhem todos os medos.

Quando nos sentimos as piores pessoas, nos frustramos e alimentamos nossos medos, tendemos a nos fechar. Criamos separação, muros e julgamento. Numa cruel bola de neve, o isolamento nos leva a mais temores. Preciso me lembrar: para acolher e integrar os medos, preciso de mais abertura, verdade, vulnerabilidade. Assim nasce mais conexão, aceitação, apoio. Magicamente, ou não, os medos são afagados, se transformam e viram compaixão.

Precisamos dialogar com quem discorda de nós

Ouvi essa semana um podcast muito bom sobre diálogo e troca.

Me tocou muito escutar a história de uma mulher que desde criança fazia protestos contra gays e judeus.

Dialogou. Foi acolhida por estranhos. Rompeu com sua família. E mudou.

Não foi de um dia pro outro. Não foi por depois de calorosas discussões no grupo da família no whatsapp. Não foi fácil.

Mas aconteceu.

A gente não costuma ouvir essas histórias, né?

Elas inspiram, nos fazem enxergar outras possibilidades.

Megan Phelps-Roper reforçou em mim: "Precisamos conversar e ouvir as pessoas que discordam de nós."

Eu não vou conseguir, sempre. Provavelmente, você também não.

Porque é difícil. É muito difícil.

Ainda mais enquanto dói.

Requer uma energia enorme ser empático enquanto somos agredidos.

Mas a gente precisa, no mínimo, tentar. Experimentar abrir diálogo, trocar e criar espaço pra compreensão e conexão.

Mais violência não é o remédio contra violência.

Como podemos alimentar curiosidade genuína?

Como podemos nos ver, antes de qualquer classificação, como humanos?

Como nos conectar mais do que nos afastar?

Se eu puder te sugerir, dá o play e escuta a história dela.

A arte de dizer "não"

Se tem algo que mina o ser humano é fazer o que não quer para tentar ser quem não é.

Temos todos milhões de distrações, pedidos e convites para tentarmos nos encaixar em posições que não são nossas.

É aquele trabalho que não é o ideal, mas é alguma coisa.

É aquela pessoa que não agrega, mas é quem está disponível.

É o momento inapropriado, mas que se não for agora, talvez não tenha outra chance.

É o compromisso sem nenhum sentido, mas que lá no passado foi firmado - nem lembramos mais por quê.

São as pequenas concessões que, acumuladas, se tornam um pesado fardo.

Quando dizemos “sims” demais, involuntariamente, desviamos energia, tempo, atenção, dinheiro, trabalho. Tiramos nosso foco, perdemos o trilho.

Dizer “sim” parece mais legal. Coisa de quem é querida, gente boa.

Em vários momentos, é claro, “sim” nos ajuda a ampliar as possibilidades.

Mas a gente se afoga nos “sims” facilmente.

Cortamos um pouquinho da nossa carne para sermos quem esperam que a gente seja, não quem a gente é.

E ao parecermos ser quem não somos, surgem mais distrações, pedidos e convites baseados na pessoa que escolheu “sim”, mas na verdade sentiu e desejou “não”.

Para economizar no “sim” autodestrutivo, há o “não” gentil, consciente e embuido de amor próprio.

Um bom “não” costuma vir com tranquilidade, confiança, tempo.

É difícil soltar um “não” de bate pronto. Mais difícil ainda é receber um.

Então, a gente precisa aprender a dizer bons “nãos”.

- Não é pra mim, agora. Pode ser que seja no futuro. Quando vem algum convite que não me pega de primeira, às vezes jogo ele pra frente. Eu mudo, você muda, as coisas mudam. Agora, não é pra mim, mas pode ser que eu mude e este convite se torne mais adequado, obrigado.

- Não é pra mim. Quem sabe posso indicar alguém. Não posso te ajudar diretamente, mas posso tentar encontrar uma pessoa pra te ajudar, pode ser? Não posso fazer mais do que isso. Mas não é por isso que não estamos juntos, ou que eu não posso contribuir de alguma forma.

- Não é sobre nós, é sobre essa situação. Às vezes a gente fica com medo de ofender alguém ao dizer “não”. Por isso, quero deixar claro, não é nada entre nós, te admiro, te respeito e nada entre a gente será quebrado por conta do meu “não". Podemos olhar especificamente para este convite e entendermos que ele não fuciona pra mim, agora?

- Este “não” não fecha uma porta, pra sempre, entre nós, ok?

A cada "não", criamos espaço para o que genuinamente importa, as raras coisas que nos fazem bem. Os "sims" mais valiosos.

E você, como tem exercitado a arte de dizer “não”?

Mudar de ideia é lindo

“Eu não posso prometer que se você mudar de ideia, você não vai perder, pelo menos, alguns amigos - e isso importa, porque se você aprender a pensar, pensar genuinamente, você vai mudar de ideias às vezes.” - Alan Jacobs.

Já acreditei que “mudar de ideia” era coisa de gente incoerente, desajustada, fraca.

Mas mudei completamente de ideia sobre “mudar de ideia”.

Já acreditei em educação. Hoje, tenho acreditado mais em aprendizado.

Já acreditei em esforço. Hoje, tenho acreditado mais em oportunidades.

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Já acreditei em sucesso. Hoje, tenho acreditado mais em cuidado.

Mudar de ideia é lindo.

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Para todos os problemas, angústias, dúvidas, mais abertura

Mais sinceridade, mais clareza, mais conexão, mais entrega, mais vulnerabilidade.

As melhores relações que teci são aquelas baseadas em abertura.

A gente tende a se esconder, se fechar, se preservar diante de toda ameaça.

Essa carapaça nunca me protegeu de verdade.

Toda ação reprimida, todo fluxo interrompido, toda conversa com meias palavras causou mais dor que alívio.

A sinceridade profunda nos possibilita nossa evolução e dos nossos pares.

Não, não é fácil. Não é de um dia pro outro.

Eu nem sei por onde começar.

Só sei que o caminho mais honesto e real possível traz mais troca, fluxo e vida do que fechar portas.

Organizações baseadas em medo

99,99% das organizações têm na sua pedra fundamental o medo.

Veja bem, não são todas, tem 0,01% sobrando aí.

Fonte: Data Larusso.

Instituições, organizações, corporações são feitas de pessoas.

E nós, as pessoas, morremos de medo.

Você pode acreditar que a sua organização é diferente.

“Não somos movidos a medo. Temos visão, missão, valores, blá, blá, blá."

Mas imagine a possibilidade da sua empresa acabar hoje, ou te mandar embora agora.

O que você verdadeiramente sente ao pensar nisso?

Se não for medo, deve ser alívio.

Se é alívio, provavelmente já existe aí o forte desejo de sair.

Mas você não sai, porque tem medo.

Ou seja, o que mantém as coisas é o medo.

A base de tudo é o medo.

As decisões são baseadas no medo.

As tarefas são baseadas no medo.

A hierarquia é baseada no medo.

Os serviços e produtos são baseados no medo.

Vamos fazer uma reunião (porque estamos veladamente com medo).

O medo do cliente não vir, não entender.

O medo do mercado não receber bem.

O medo do chefe não gostar.

O medo dos empregados não gostarem.

O medo de ser mandado embora.

O medo de ficar sem dinheiro.

O medo de não ser reconhecido.

O medo da concorrência.

O medo de padecer num mundo competitivo, escasso e cruel.

O medo que, lá no fundo, é o medo do desconhecido, do mistério, do não saber, da morte.

Medo é parte da vida. Não é mau, nem bom. É desconfortável. Mas é o que é e sempre existirá.

Nossas organizações, ricas e sábias, pobres e novatas, todas elas, cheias de pessoas que vivem medo todo dia, sem mal tocarem no assunto.

Estou com uma hipótese.

Só há um tipo de organização que não é baseada em medo. A des-organização. Ou auto-organização. A organização que confia incondicionalmente.

Aquele raro 0,01% vagabundo.

É aquele raro momento efêmero em que trabalhamos pela experimentação, autonomia, entrega, generosidade e compaixão.

O pequeno instante de fluxo. No talo. Sem medo da liberdade.

Leve no pessoal

Tenho vendido livros pela internet. Eu mesmo embalo, escrevo a mão o endereço, vou aos Correios, pego fila, vivo o processo e as pessoas se surpreendem com isso. Outro dia fui pessoalmente entregar um livro aqui em Floripa. A pessoa não acreditou.

Talvez exista a ideia de que a impessoalidade é mais glamurosa ou bem sucedida do que nosso contato direto. Quem sabe seja por conta do que percebemos com as grandes empresas. Geralmente, são impessoais, padronizadas. A pessoa que te atende é quase uma não-pessoa que reproduz um roteiro pré-definido.

Pro empreendedor individual, talvez exista a ideia de que é necessário se passar por algo maior do que se é. "Nós fazemos isso...", "Acreditamos naquilo...", "Manda um email pro contato@..." Que coisa, se é um negócio de uma pessoa só, por que fala no plural?

Mas veja que irônico. Big corps estão buscando humanização. Tentam se posicionar como pessoas que têm sentimentos, visões de mundo. Não é à toa. Seres humanos querem contato pessoal, quente, de verdade.

Vi uma entrevista com a Marta, jogadora de futebol, explicando que ela não tem o padrão de vida dos jogadores homens famosos. Ela não tem empregada doméstica. Ela mesma lava, cozinha, como a maior parte das pessoas. Pode ser por necessidade, por opção. O fato é que é a realidade dela e de quase todo mundo. É a minha e da Mari, minha companheira. Não tem glamour, tem responsabilidade individual e direta.

Sim, todo dia preciso de serviços terceirizados. Quase todos projetos em que me envolvo tem mais gente envolvida, trabalhando por ele. Trabalho e já trabalhei com diversas equipes. Mas nada disso faz criar entre nós algo maior e abstrato que tira nosso compromisso pessoal. E nossa necessidade de conexão direta entre pessoas.

Importante essa franqueza, nua e crua. Pessoalidade, contato direto, real, tête-à-tête. Na maior parte do tempo, o negócio é movido por trabalho direto, entrega individual, alguém escrevendo, criando, contando, falando, vivendo, assumindo a bronca e lidando intimamente com outro ser.

Neste momento, sou eu mesmo, e nada muito além disso, escrevendo.

Henrique Bastos soltou essa e tô aqui engrossando o caldo. Esse lance é pessoal.

Vivendo a vida e experimentando a prática

Estava na Schumacher College, numa aula sobre a teoria da complexidade, quando o professor trouxe uma frase de Descartes.

Basicamente, o francês acreditou, e convenceu, que o universo seria inteiramente compreendido pelas lentes da matemática.

Eu já acreditei cegamente nessa ideia. A matemática, tão racional, tão perfeita, tão crível, previsível e científica é extremamente confortável aos olhos de quem a compreende.

Nessa aula, o ponto era que este é um - e apenas um - dos jeitos de enxergar o mundo. E não o único. Há muito mais que o método cartesiano. Nem tudo a racionalidade explica. Há toda uma complexidade que emerge entre nós - e em nós.

A lógica linear, de causa e efeito, molda nosso pensamento. Valorizamos o racional, o que a mente consegue planejar, prever e avaliar. O mundo corporativo e a escola alimentam a ideia de que tudo que pode ser medido e pré-moldado é mais valioso.

“Cheguei onde cheguei porque tudo que planejei deu errado.”  - Rubem Alves.

Mas vem a vida e te dá um balão.

Quando tinha 23 anos, era um jovem profissional que lia tudo sobre finanças pessoais, frequentava eventos e poupava de acordo com o manual. Queria me aposentar com 35 anos. Não poderia dar errado.

Mas deu.

Meus dias eram 100% diferentes do que desejava viver. Trabalhava freneticamente para, enfim, parar de trabalhar. Estúpido, né?

A prática matou, aniquilou, liquidou qualquer chance da teoria valer a pena.

Quanto mais vivia os dias, mais descompasso enxergava entre o planejamento e a realidade. Fiquei mal, muito mal. Com minhas referências de hoje, teria procurado ajuda profissional, terapia, alguma coisa.

Não estou aqui pra compartilhar uma história de reviravolta e busca por propósito. Só quero compartilhar uma ideia: planejamento não é tudo. E outra: a prática vale a pena ser vivida.

A gente pode planejar o quanto quiser, mas na hora do vamos ver, o buraco é mais embaixo. Não há quem explique o fracasso de um plano perfeito. Exceto a falta de prática. A vida ensina.

Tenho uma hipótese. Gostamos tanto de planejar, arquitetar, simular, porque essas atividades nos protegem. São confortáveis. Nos dão a sensação de liberdade na segurança de nossos cadernos e PowerPoints.

É muito mais fácil e cômodo dizer, pensar, inventar do que, de fato, viver, fazer, experimentar.

Porque quando a gente faz, o sonho se desfaz. Encaramos a dura realidade de nossas ações ansiosas, toscas, precipitadas ou frustrantes.

Mas olha que louco. Quanto mais planejamos, menos fazemos. Quanto menos fazemos, menos aprendemos. Quanto menos aprendemos, menos evoluímos.

Logo, quanto mais planejamento sem ação, menos evolução.

Um faixa preta não é faixa preta porque estudou. Ele caiu tantas vezes no tatame, sujou tantas vezes a faixa, até que ela foi ficando escura. A faixa preta não é feita de teoria, ela é pura prática.

Consistência e paciência

"O primeiro passo é inventar uma coisa que merece ser feita, uma história que merece ser contada, uma contribuição que merece uma conversa a respeito.
O segundo passo é desenhar e construir de um jeito que as pessoas vão se beneficiar e se importar.
O terceiro passo é um que deixa todo mundo em polvorosa. Este é o passo em que você conta a história para as pessoas certas, do jeito certo.
O último passo é muitas vezes esquecido: É a parte em que você se apresenta, regularmente, consistentemente e generosamente, por anos e anos, para organizar e construir confiança na mudança que você quer proporcionar.” - Seth Godin.

Veio a internet e a gente achou que todos os resultados viriam rápido.

Mas não. Nada mudou tanto assim. Consistência e paciência ainda são virtudes.

Eu sei que é péssimo para uma mente ansiosa ler isso.

No entanto, sofrer pela antecipação de resultados será frequente se não entendermos mais sobre nossos processos internos e o tempo que as coisas levam para acontecer.

Pode ser mais fácil começar, criar uma oferta, se posicionar, entregar seu valor num mundo digital, que vangloria empreendedores e nos faz acreditar que todo mundo pode.

Mas não é por isso que criar confiança, reputação e maturidade exigirá menos tempo de trabalho e dedicação. Já escrevi sobre plantar. Hoje, é sobre regar.

Estava conversando com grandes amigos, nossa vivência ensinou que para um negócio inovador atingir seu ponto de equilíbrio, no Brasil, são necessários uns sete anos.

Sete longos anos de investimento de energia, de trabalho, eventualmente de dinheiro. Por dias e dias, custos calculados, aprendizados profundos e construção de comunidade são o mote.

Começar e, no dia seguinte, viver de uma nova atividade é tão improvável quanto ganhar na megasena. Criar um trabalho relevante, fazer valor inédito não é uma prova de cem metros.

Intensidade é importante, mas ninguém consegue viver por um longo tempo trabalhando exaustivamente. Essa jornada é mais uma maratona do que um tiro curto.

Por isso, nos resta a opção da resiliência, curtir o caminho que for possível e viver o trabalho chato, nos moldando ao redor dele. Nos sustentando, equilibrando prato e chamando mais pro show. Não é simples mesmo.

Tem coisas que a gente acha que podem ser corta-caminhos. Cursos, imersões, coach, programas, conexões. Pode até ajudar, mas não tem jeito.

A gente ainda precisa de cancha, experiência, quilometragem rodada pelas próprias pernas, cada passo precisa ser dado, sentido, vivido.

Passar dois anos escrevendo e publicando diariamente foi mais importante do que começar. Foi mais importante do que escrever um ou outro texto bacana.

A consistência, cheia de altos e baixos, é mais valiosa do que uma única e “perfeita” entrega.

Existe um momento em que a árvore pode até ter raízes longas e profundas o suficiente pra alcançar sua própria água. Antes disso, o jeito é regar.

Sobre tâmaras e blockchain

Em 2011, comecei um negócio que partia do pressuposto de que todo mundo tem algo a ensinar, o Nós.vc. A ideia era um site onde qualquer pessoa pudesse criar um encontro, um curso, um workshop pra compartilharmos e aprendermos sobre qualquer coisa.

Você cria uma conta, publica informações sobre o encontro, o local, como funcionam as inscrições e, se o número mínimo de pessoas que você estipulou se inscreverem, o encontro acontece.

Na época, algumas pessoas me perguntavam descrentes: “mas quem é o ‘professor'?”, eu respondia confiante “qualquer um, pessoas como você e eu”. “Mas a 'aula' pode ser sobre qualquer coisa?”, “sim, surfe, como fazer pão, Illustrator, tango, autoconhecimento, o que surgir.”

Hoje, cursos livres são muito comuns. Chovem convites, eventos no Facebook, Sympla, Eventbrite e spam chamando pra espaços livres de aprendizagem, liderados por pessoas. E não apenas ancorados por instituições de ensino tradicionais.

Chega a ser até meio bobo pra mim lembrar de um tempo em que não existia tanta oferta de alternativas para aprender. Pra chegarmos nesse ponto, algumas pessoas tiveram que desbravar novos caminhos e alimentar uma cultura.

O Nós.vc ainda existe, não me envolvo com ele diretamente desde 2014. Pra mim, ele cumpriu lindamente seu papel e já surgiram outras ferramentas ainda melhores. Mas ele precisou sair do papel para dar sua contribuição por um movimento maior.

Tem uma lenda circulando sobre um antigo ditado árabe. Não sei o quanto é verdadeira, o importante é a mensagem.

"Quem planta tâmaras não colhe tâmaras”. Isso porque as tamareiras levam de 80 à 90 anos para darem os primeiros frutos. Certa vez, um jovem encontrou um senhor de idade plantando tâmaras e logo perguntou: “por que o senhor planta tâmaras se o senhor não vai colher?” O senhor respondeu: “Se todos pensassem como você, ninguém comeria tâmaras. Cultive, construa e plante ações que não sejam apenas para você, mas que sirvam para todos. Nossas ações de hoje refletem no futuro. Se não é tempo de colher, é tempo de semear.”

Parece que as técnicas de cultivo mais recentes permitem que a gente plante tamareiras que frutificam em cinco anos. Ou seja, tem que plantar hoje pra colher em alguns anos de qualquer forma. Talvez você coma as tâmaras que plantou, talvez não. Não é sobre comer, é sobre plantar.

Há um novo fruto sendo semeado agora. Uma grande revolução está emergindo, de novo. Com impactos nas nossas vidas ainda mais profundos do que os que a era digital nos trouxe.

Você já deve ter ouvido falar de blockchain. Talvez o TED talk abaixo te ajude a entender mais do que qualquer palavra minha.

A internet está para a comunicação assim como o blockchain está para o valor.

Descobrir e explorar os potenciais do blockchain, hoje, pra mim, é como tentar entender a internet em 1990. Consigo imaginar que a gente vai trocar mensagens com muito mais facilidade. Porém sinto falta de um e-mail, um ICQ ou Whatsapp pra “materializar” a ideia.

Tudo isso é muito verde pra mim. Ainda que imagine mudanças profundas no sistema financeiro, democrático e de tudo que envolve troca e confiança, ainda não tenho referências para tornar o aprendizado tão concreto. Minhas poucas experimentações foram frustrantes e cheias de aprendizados ricos.

De qualquer forma, é necessário mergulhar no novo agora, explorar, testar e praticar pra que a gente tenha frutos mais saborosos e carnudos no futuro.

Estou organizando com o Impact Hub São Paulo, o #Hack4ClimateSP, um evento que vai acontecer dia 25 de setembro, em São Paulo, para a criação de ideias para enfrentarmos as mudanças climáticas com o uso de blockchain.

As inscrições são gratuitas e estão abertas no site: www.hack4climatesp.com

Este é um evento prévio do hackathon que vai acontecer durante a COP23, Conferência do Clima da ONU, em novembro na Alemanha. 100 pessoas do mundo serão convidadas, com tudo pago, para criarem ideias iniciais que envolvam identificação e rastreamento de emissão, preço do carbono, energia descentralizada, uso sustentável da terra, transporte sustentável e o que mais vier. Quem quiser, já pode aplicar no site do evento também.

Se você conhece desenvolvedores, interessados e pessoas que têm proximidade com blockchain, agradeço se puder me indicar e/ou compartilhar.

Nós não sabemos pra onde isso vai nos levar. Nem sabemos se comeremos as tâmaras. Mas é preciso semear agora.

"Não tem nada além disso"

“A vida é o que acontece enquanto você faz planos.” - Dizem que é do John Lennon. É?

- E aí, pai, como que tá?
- Na luta.

Meu pai sempre estava lutando contra alguma coisa. Sempre. Não estava tudo bem, nem indo, ele estava na luta. Ele não estava planejando, nem lamentando, ele estava vivendo a luta. E, no fim das contas, acho que essa foi mesmo a vida pra ele.

Jessica James é dramaturga, cola na parede cartas de recusa. Cada teatro, escola e universidade que a rejeita vira um quadro.

Um belo dia, encontra Sarah Jones, seu maior ídolo. Jessica admira profundamente Sarah.

“Você é obstinada e impetuosa, não pede passagem. Eu amo como cria seus personagens. Amo como compõe as mulheres. Fico muito agradecida por você estar aqui. Eu te amo.”

A fã reconhece que passou do ponto, pede desculpas e pergunta se pode fazer uma pergunta.

- Quando soube que teria sucesso?

- É uma boa pergunta. Acho que diria que te aviso quando descobrir.

- Como assim descobrir? Você ganhou um Tony! - Poderia ser um Oscar, um Grammy, um Nobel, um Leão, um ouro Olímpico, qualquer prêmio.

- Sim, mas, sabe… Tem isso e ainda pego metrô.

Não é porque ela também é dramaturga. Mas pra qualquer atividade, sempre haverá louça suja, boleto pra pagar, caixa de entrada pra limpar.

E aí Sarah Jones ensina.

- Tem mais a ver com o que o teatro significa pra você.

- Eu amo o teatro. - Confessa Jessica.

- E está fazendo teatro. É isso. Não tem nada além disso.

Não há sucesso, nem amor, que acabe com a rotina, com o trabalho sujo, com a vida trivial e com os pequenos desafios diários.

Cada um escolhe a luta que vai pegar pra si. Teremos vitórias, derrotas, empates, qualquer coisa, mas o lance é a batalha. Ou, num olhar mais pacífico, é o caminhar, o respirar, o dia a dia. Não tem nada além disso.

Pode parecer besta, mas também pode parecer lindo. Reclamamos, nos preparamos, tememos, analisamos, comemoramos e enquanto isso a vida corre. Quando a gente "chega lá", às vezes, se dá conta. É só isso mesmo.

Uma vez li a ideia de que felicidade é transformar o que é cotidiano em especial. Feliz é quem vê beleza no metrô do dia, no momento presente e no que escolheu pra si. Se há amor pela causa, ou pela coisa, já valeu.

É sempre possível simplificar

"Qualquer ignorante inteligente pode fazer coisas maiores, mais complexas e mais violentas. É preciso um toque de genialidade - e muita coragem - para se mover na direção oposta.” - Ernst F. Schumacher.

É sempre possível simplificar. Aprender com o processo e diminuir os riscos.

Visitei um lugar incrível, de cinema, para a história do Cohousing.

Lagos, cozinha industrial, campos, galinheiro, cavalos, piscinas e sessenta suítes.

Um hotel fazenda pertinho da cidade, pra começar, é maravilhosamente sedutor.

Abandonado há dois anos, o aluguel baixou agressivamente.

Uma estrutura muito maior do que realmente precisamos.

E este é o perigo.

Mergulhados em uma cultura de ode à grandeza, nos deixamos facilmente levar pela ideia de que maior é melhor.

Mais bonito, mais grandioso, mais imponente.

Quase caí nessa.

Dormi e lembrei que isso também é mais complexo, mais caro, mais trabalhoso.

Começar grande é tentador, nos dá a sensação de poder, de que estamos pegando um atalho pro sucesso - seja lá o que isso signifique.

Mas há algo de belo e rico nos pequenos passos que quase passam despercebidos.

É na simplicidade, no trabalho de formiguinha, no contato um a um, no trabalho diário que o aprendizado se dá.

Nunca me esquecerei do que Larry Page e Sergey Brin diziam nos primeiros meses do Google: “não use agora, use daqui a seis meses, porque ele será melhor.” 

Começar pequeno é importante porque precisamos viver os passos rumo a uma história maior, mais complexa, talvez mais cara e trabalhosa.

Mover os músculos dos dedos, do pé e da perna é fundamental. São os pequenos movimentos que dão confiança para, no futuro, fazer uma longa corrida.

Os seis meses, anos e décadas que virão são importante para que a gente tenha aprendido com nosso processo e, aí sim, termos soluções melhores.

Sessenta suítes são absolutamente tentadoras. Mas preciso aprender a viver em comunidade com duas, três e dez famílias.

Se não conseguir fazer de forma simples, pequena, mais enxuta, dificilmente conseguirei fazer de forma mais complexa, maior e mais imponente.

“Simplicidade é a última sofisticação.”

Vida em comunidade

Estamos vivendo ilusões de conexão.

Passamos os olhos por centenas ou milhares de pessoas no nosso cotidiano urbano.

Colecionamos amigos e seguidores nas redes de Zuckerberg.

Mas isso tudo não significa que estamos cultivando relações.

Mesmo cercados de pessoas, solidão é um sentimento comum do nosso tempo.

Os espaços pra conexão profunda são raros e preciosos.

Estou cada vez mais interessado nos Cohousings, espaços de moradia intencionalmente voltados para convivência e colaboração. Com espaços individuais e espaços comuns .

Li sobre, pela primeira vez, em uma reportagem da Trip. Era sobre um grupo de aposentados que resolveu abandonar seus isolamentos em apartamentos urbanos para viverem em comunidade.

Depois, descobri os cohousings dinamarqueses no documentário Happy, que viajou o mundo descobrindo o que é felicidade em diferentes culturas.

Em São Paulo, conheci a Lilian, que toca o Co-Lares, estuda o tema desde 1980 e promove encontros pelo Brasil afora.

E, agora, este TED.

Vida em comunidade tem sido um Norte e um desafio.

Conexão de verdade pede entrega, escuta, tempo.

Com ela, vem confiança, profundidade, aceitação. E algumas tretas, claro.

Ainda assim, me parece muito mais inteligente e divertido conviver do que me isolar.

Na dúvida, conecte-se

“Na dúvida, conecte-se.” - Seth Godin.

Há mais disposição pra ajuda do que imaginamos.

Existem mais recursos do que podemos enxergar.

As pessoas são mais generosas do que competitivas.

Intenções só começam a pegar fogo quando a gente confia nos outros e compartilha.

Abre mesmo. Sem medo. Sem superstição. Sem desconfiança.

Não importa qual seja nossa necessidade, nossa dor, nosso desafio, para todas as situações, precisamos nos conectar.

Nos conectar é pedir ajuda, abrir portas, restaurar relações.

É ajudar alguém, entregar valor incondicionalmente, cultivar laços.

Conectar é confiar, se jogar na rede, acreditar que somos mais inteligentes quando trocamos do que quando criamos escassez artificialmente.

Os problemas que realmente precisamos resolver são urgentes. Vivemos em um mundo que tem intolerância, opressão, solidão, aquecimento global, depressão e fome.

A gente não pode mais querer resolver isoladamente, presos em nossas bolhas. Precisamos de mistura, inclusão, polinização cruzada, bagunça criativa.

Por isso, vamos nos conectar. Nos abrir, tomar cafés, perguntar genuinamente sobre o outro, ir para além do nosso bairro, da nossa cidade, dos nossos canais favoritos no Youtube.

As dores que vem das nossas diferenças desafiam nossa capacidade de tolerar. Mas não tem jeito, a gente tem que conseguir incluir, fazer junto, fazer diferente, fazer complementar.

Estamos todos nesse mesmo “pequeno ponto pálido azul”, na mesma casa.

Conexão gera confiança, essa energia que nos falta para voltar a ter esperança e energia.

Criação é uma questão de morte

Há uns anos atrás, estava numa palestra sobre criatividade. Me perdoe o palestrante, esqueci seu nome. Mas sua mensagem ficou forte pra mim. "Criação é uma questão de morte". Parecia paradoxal. Não é. Hoje, faz todo o sentido.

Para algo nascer, alguma coisa precisa ir. É assim que a vida funciona. O solo fértil é aquele com matéria orgânica decomposta, feito de fins de vida.

Quando estamos vivendo a situação, o trabalho, o projeto, é improvável olhar pro lado, enxergar diferente, crer em alternativas. Mas é quando a empreitada chega ao fim que novos sonhos ganham contorno.

Se estamos vivendo momentos difíceis, achamos que é melhor ter um emprego ruim, um trabalho qualquer, do que não ter nada. Talvez seja verdade, em muitos casos. Mas tem aqueles em que não dá pra visualizar nada que dê esperança enquanto a gente ainda está preso no que não nos alimenta.

É difícil começar algo novo mantendo velhos hábitos. É pesado começar um projeto paralelo quando nossas cabeças já estão saturadas. Somos muito bons em nos apegar e evitar o fim das coisas. Quando os fins são mal conduzidos, fica mesmo uma dor, um desconforto, uma ponta solta.

Por isso, finalizar, deixar ir, desapegar, abandonar, deixar quieto são habilidades valiosas.

Quanto mais conseguimos soltar ideias, projetos e compromissos que não nos engajamos, mais liberamos espaço e energia para a criação de algo significativo.

Meus tempos de publicidade me ensinaram esse processo de forma dolorida. Quanto mais conseguia gerar ideias, maiores eram as chances de fazer um bom trabalho. Mas, para isso, era preciso desapegar. Matar meu orgulho, silenciar o ego e seguir em frente. A próxima ideia era sempre a melhor. Quanto mais estivesse lidando bem com essas mortes metafóricas, melhor me daria com o nascimento do novo.

Se você se interessou pela arte de abandonar, tenho três indicações.

As mulheres da Contente.vc fizeram um projeto lindo sobre "como matar um projeto”. Está cheio de olhares ricos.

Tem um livrinho ótimo sobre a hora de desistir, do Seth Godin. Em inglês, The Dip. Em português, O melhor do mundo. Escrevi sobe ele aqui.

Este vídeo do Derek Sivers, que já passou por este blog e dá nome a minha não-agência digital, Hell Yeah.

Primeiro o que tem que ter. Depois, o que seria legal se tivesse.

Pra que nossos projetos, negócios, histórias, arte existam, o que eles tem que ter?

Aquelas pessoas? Essa solução? Um tipo específico de emoção? Um novo hábito? Um texto?

Seja lá o que for, é por aí que a gente começa.

O que é essencial, fundamental e indispensável deve vir antes de tudo.

Pra depois, fica o que seria legal se tivesse.

Uma foto bonita, um nome bacana, um site legal. Toda a perfumaria, os penduricalhos, os pequenos detalhes que fazem a diferença são, antes de tudo, detalhes.

Primeiro o grosso. Depois vem o ajuste fino.

Separar o “must have” do “nice to have” direciona o trabalho que deve ser feito.

Se não tiver grana pra pagar o aluguel, não terá parede para pendurar o cartaz.

Se não tiver um jeito das pessoas nos encontrarem, não vai ter ninguém pra dar o play nos nossos vídeos explicativos.

Se ainda não conseguimos resolver o problema que nos propomos, nem entregamos o valor que prometemos, não precisamos nos preocupar com nada além disso.

Para cada nova ideia, tarefa, recurso, nos perguntamos: “se eu não fizer isso, meu projeto continua existindo?”

Se sim, deixemos pra depois. Se não, façamos.

É o que mantém nossa empreitada viva que merece nossa energia. Agora.

Ajustes de coerência

Vocês viram Okja, o filme da Netflix sobre porcos gigantes de laboratório que critica a indústria da carne?

Tem um personagem coadjuvante, que passa quase despercebido. É um dos ativistas, aquele que desmaia por falta de comida. Ele se recusa a sustentar a indústria de agrotóxicos e, por isso, passa fome e tem problemas de saúde.

Por falar nisso, não como carne. Tenho meus motivos. Mas ainda compro ração pra nossa cadelinha. Ração feita com vísceras, carne, provavelmente, das piores. Sou um financiador da indústria que não me serve, que não acredito. Estou buscando alimentação natural pro dog, mas ainda não é uma realidade na minha rotina.

Em casa, já lavamos as roupas com sabão de côco e vinagre. Compostamos o que conseguimos. Não usamos guardanapos descartáveis, nem sacolinhas plásticas. Mas ainda tem vezes que é mais fácil, rápido e cômodo usar OMO, comer um congelado que gera lixo, pedir um delivery cheio de embalagens.

Coerência total é uma ilusão.

Esses dias conheci o trabalho de Gilles Lipovetsky, Da Leveza é o livro. Resumindo grosseiramente, estamos caminhando para uma sociedade que valoriza cada vez mais o que é leve. É o celular, a nuvem, o nomadismo digital, o yoga, a alimentação saudável, etc. Mas essa busca obsessiva por leveza pode, paradoxalmente, se tornar um peso enorme em nossas vidas.

Nem sempre o que fazemos, vivemos, ou trabalhamos consegue ser plenamente coerente com nossa visão de mundo, nossos valores e expectativas.

A busca por coerência no meu dia a dia, no trato com as pessoas, nas minhas escolhas profissionais e de consumo é, muitas vezes, um caminho desgastante.

Isso traz um sentimento ruim. E também a possibilidade de evolução.

Por isso, tenho pensado sobre ajustes de coerência. Ajustes são refinamentos, melhorias simples. E não pesadas e distantes soluções perfeitas.

Se não é possível eliminar todo o lixo agora, como podemos diminuir? Se seus serviços aumentam a desigualdade social, como poderiam ser um pouco mais acessíveis? Se teu trabalho não é dos sonhos, como é possível cultivar pequenos sonhos nele? Se não dá pra alimentar a indústria de agrotóxicos, como podemos escolher, de vez em quando, alimentos orgânicos?

Que pequenos, leves e baratos ajustes podemos fazer para que nossa contribuição não seja um fardo? Como a mudança que queremos ver se encaixe pouco a pouco na nossa rotina?