Consistência e paciência

"O primeiro passo é inventar uma coisa que merece ser feita, uma história que merece ser contada, uma contribuição que merece uma conversa a respeito.
O segundo passo é desenhar e construir de um jeito que as pessoas vão se beneficiar e se importar.
O terceiro passo é um que deixa todo mundo em polvorosa. Este é o passo em que você conta a história para as pessoas certas, do jeito certo.
O último passo é muitas vezes esquecido: É a parte em que você se apresenta, regularmente, consistentemente e generosamente, por anos e anos, para organizar e construir confiança na mudança que você quer proporcionar.” - Seth Godin.

Veio a internet e a gente achou que todos os resultados viriam rápido.

Mas não. Nada mudou tanto assim. Consistência e paciência ainda são virtudes.

Eu sei que é péssimo para uma mente ansiosa ler isso.

No entanto, sofrer pela antecipação de resultados será frequente se não entendermos mais sobre nossos processos internos e o tempo que as coisas levam para acontecer.

Pode ser mais fácil começar, criar uma oferta, se posicionar, entregar seu valor num mundo digital, que vangloria empreendedores e nos faz acreditar que todo mundo pode.

Mas não é por isso que criar confiança, reputação e maturidade exigirá menos tempo de trabalho e dedicação. Já escrevi sobre plantar. Hoje, é sobre regar.

Estava conversando com grandes amigos, nossa vivência ensinou que para um negócio inovador atingir seu ponto de equilíbrio, no Brasil, são necessários uns sete anos.

Sete longos anos de investimento de energia, de trabalho, eventualmente de dinheiro. Por dias e dias, custos calculados, aprendizados profundos e construção de comunidade são o mote.

Começar e, no dia seguinte, viver de uma nova atividade é tão improvável quanto ganhar na megasena. Criar um trabalho relevante, fazer valor inédito não é uma prova de cem metros.

Intensidade é importante, mas ninguém consegue viver por um longo tempo trabalhando exaustivamente. Essa jornada é mais uma maratona do que um tiro curto.

Por isso, nos resta a opção da resiliência, curtir o caminho que for possível e viver o trabalho chato, nos moldando ao redor dele. Nos sustentando, equilibrando prato e chamando mais pro show. Não é simples mesmo.

Tem coisas que a gente acha que podem ser corta-caminhos. Cursos, imersões, coach, programas, conexões. Pode até ajudar, mas não tem jeito.

A gente ainda precisa de cancha, experiência, quilometragem rodada pelas próprias pernas, cada passo precisa ser dado, sentido, vivido.

Passar dois anos escrevendo e publicando diariamente foi mais importante do que começar. Foi mais importante do que escrever um ou outro texto bacana.

A consistência, cheia de altos e baixos, é mais valiosa do que uma única e “perfeita” entrega.

Existe um momento em que a árvore pode até ter raízes longas e profundas o suficiente pra alcançar sua própria água. Antes disso, o jeito é regar.

Sobre tâmaras e blockchain

Em 2011, comecei um negócio que partia do pressuposto de que todo mundo tem algo a ensinar, o Nós.vc. A ideia era um site onde qualquer pessoa pudesse criar um encontro, um curso, um workshop pra compartilharmos e aprendermos sobre qualquer coisa.

Você cria uma conta, publica informações sobre o encontro, o local, como funcionam as inscrições e, se o número mínimo de pessoas que você estipulou se inscreverem, o encontro acontece.

Na época, algumas pessoas me perguntavam descrentes: “mas quem é o ‘professor'?”, eu respondia confiante “qualquer um, pessoas como você e eu”. “Mas a 'aula' pode ser sobre qualquer coisa?”, “sim, surfe, como fazer pão, Illustrator, tango, autoconhecimento, o que surgir.”

Hoje, cursos livres são muito comuns. Chovem convites, eventos no Facebook, Sympla, Eventbrite e spam chamando pra espaços livres de aprendizagem, liderados por pessoas. E não apenas ancorados por instituições de ensino tradicionais.

Chega a ser até meio bobo pra mim lembrar de um tempo em que não existia tanta oferta de alternativas para aprender. Pra chegarmos nesse ponto, algumas pessoas tiveram que desbravar novos caminhos e alimentar uma cultura.

O Nós.vc ainda existe, não me envolvo com ele diretamente desde 2014. Pra mim, ele cumpriu lindamente seu papel e já surgiram outras ferramentas ainda melhores. Mas ele precisou sair do papel para dar sua contribuição por um movimento maior.

Tem uma lenda circulando sobre um antigo ditado árabe. Não sei o quanto é verdadeira, o importante é a mensagem.

"Quem planta tâmaras não colhe tâmaras”. Isso porque as tamareiras levam de 80 à 90 anos para darem os primeiros frutos. Certa vez, um jovem encontrou um senhor de idade plantando tâmaras e logo perguntou: “por que o senhor planta tâmaras se o senhor não vai colher?” O senhor respondeu: “Se todos pensassem como você, ninguém comeria tâmaras. Cultive, construa e plante ações que não sejam apenas para você, mas que sirvam para todos. Nossas ações de hoje refletem no futuro. Se não é tempo de colher, é tempo de semear.”

Parece que as técnicas de cultivo mais recentes permitem que a gente plante tamareiras que frutificam em cinco anos. Ou seja, tem que plantar hoje pra colher em alguns anos de qualquer forma. Talvez você coma as tâmaras que plantou, talvez não. Não é sobre comer, é sobre plantar.

Há um novo fruto sendo semeado agora. Uma grande revolução está emergindo, de novo. Com impactos nas nossas vidas ainda mais profundos do que os que a era digital nos trouxe.

Você já deve ter ouvido falar de blockchain. Talvez o TED talk abaixo te ajude a entender mais do que qualquer palavra minha.

A internet está para a comunicação assim como o blockchain está para o valor.

Descobrir e explorar os potenciais do blockchain, hoje, pra mim, é como tentar entender a internet em 1990. Consigo imaginar que a gente vai trocar mensagens com muito mais facilidade. Porém sinto falta de um e-mail, um ICQ ou Whatsapp pra “materializar” a ideia.

Tudo isso é muito verde pra mim. Ainda que imagine mudanças profundas no sistema financeiro, democrático e de tudo que envolve troca e confiança, ainda não tenho referências para tornar o aprendizado tão concreto. Minhas poucas experimentações foram frustrantes e cheias de aprendizados ricos.

De qualquer forma, é necessário mergulhar no novo agora, explorar, testar e praticar pra que a gente tenha frutos mais saborosos e carnudos no futuro.

Estou organizando com o Impact Hub São Paulo, o #Hack4ClimateSP, um evento que vai acontecer dia 25 de setembro, em São Paulo, para a criação de ideias para enfrentarmos as mudanças climáticas com o uso de blockchain.

As inscrições são gratuitas e estão abertas no site: www.hack4climatesp.com

Este é um evento prévio do hackathon que vai acontecer durante a COP23, Conferência do Clima da ONU, em novembro na Alemanha. 100 pessoas do mundo serão convidadas, com tudo pago, para criarem ideias iniciais que envolvam identificação e rastreamento de emissão, preço do carbono, energia descentralizada, uso sustentável da terra, transporte sustentável e o que mais vier. Quem quiser, já pode aplicar no site do evento também.

Se você conhece desenvolvedores, interessados e pessoas que têm proximidade com blockchain, agradeço se puder me indicar e/ou compartilhar.

Nós não sabemos pra onde isso vai nos levar. Nem sabemos se comeremos as tâmaras. Mas é preciso semear agora.

"Não tem nada além disso"

“A vida é o que acontece enquanto você faz planos.” - Dizem que é do John Lennon. É?

- E aí, pai, como que tá?
- Na luta.

Meu pai sempre estava lutando contra alguma coisa. Sempre. Não estava tudo bem, nem indo, ele estava na luta. Ele não estava planejando, nem lamentando, ele estava vivendo a luta. E, no fim das contas, acho que essa foi mesmo a vida pra ele.

Jessica James é dramaturga, cola na parede cartas de recusa. Cada teatro, escola e universidade que a rejeita vira um quadro.

Um belo dia, encontra Sarah Jones, seu maior ídolo. Jessica admira profundamente Sarah.

“Você é obstinada e impetuosa, não pede passagem. Eu amo como cria seus personagens. Amo como compõe as mulheres. Fico muito agradecida por você estar aqui. Eu te amo.”

A fã reconhece que passou do ponto, pede desculpas e pergunta se pode fazer uma pergunta.

- Quando soube que teria sucesso?

- É uma boa pergunta. Acho que diria que te aviso quando descobrir.

- Como assim descobrir? Você ganhou um Tony! - Poderia ser um Oscar, um Grammy, um Nobel, um Leão, um ouro Olímpico, qualquer prêmio.

- Sim, mas, sabe… Tem isso e ainda pego metrô.

Não é porque ela também é dramaturga. Mas pra qualquer atividade, sempre haverá louça suja, boleto pra pagar, caixa de entrada pra limpar.

E aí Sarah Jones ensina.

- Tem mais a ver com o que o teatro significa pra você.

- Eu amo o teatro. - Confessa Jessica.

- E está fazendo teatro. É isso. Não tem nada além disso.

Não há sucesso, nem amor, que acabe com a rotina, com o trabalho sujo, com a vida trivial e com os pequenos desafios diários.

Cada um escolhe a luta que vai pegar pra si. Teremos vitórias, derrotas, empates, qualquer coisa, mas o lance é a batalha. Ou, num olhar mais pacífico, é o caminhar, o respirar, o dia a dia. Não tem nada além disso.

Pode parecer besta, mas também pode parecer lindo. Reclamamos, nos preparamos, tememos, analisamos, comemoramos e enquanto isso a vida corre. Quando a gente "chega lá", às vezes, se dá conta. É só isso mesmo.

Uma vez li a ideia de que felicidade é transformar o que é cotidiano em especial. Feliz é quem vê beleza no metrô do dia, no momento presente e no que escolheu pra si. Se há amor pela causa, ou pela coisa, já valeu.

É sempre possível simplificar

"Qualquer ignorante inteligente pode fazer coisas maiores, mais complexas e mais violentas. É preciso um toque de genialidade - e muita coragem - para se mover na direção oposta.” - Ernst F. Schumacher.

É sempre possível simplificar. Aprender com o processo e diminuir os riscos.

Visitei um lugar incrível, de cinema, para a história do Cohousing.

Lagos, cozinha industrial, campos, galinheiro, cavalos, piscinas e sessenta suítes.

Um hotel fazenda pertinho da cidade, pra começar, é maravilhosamente sedutor.

Abandonado há dois anos, o aluguel baixou agressivamente.

Uma estrutura muito maior do que realmente precisamos.

E este é o perigo.

Mergulhados em uma cultura de ode à grandeza, nos deixamos facilmente levar pela ideia de que maior é melhor.

Mais bonito, mais grandioso, mais imponente.

Quase caí nessa.

Dormi e lembrei que isso também é mais complexo, mais caro, mais trabalhoso.

Começar grande é tentador, nos dá a sensação de poder, de que estamos pegando um atalho pro sucesso - seja lá o que isso signifique.

Mas há algo de belo e rico nos pequenos passos que quase passam despercebidos.

É na simplicidade, no trabalho de formiguinha, no contato um a um, no trabalho diário que o aprendizado se dá.

Nunca me esquecerei do que Larry Page e Sergey Brin diziam nos primeiros meses do Google: “não use agora, use daqui a seis meses, porque ele será melhor.” 

Começar pequeno é importante porque precisamos viver os passos rumo a uma história maior, mais complexa, talvez mais cara e trabalhosa.

Mover os músculos dos dedos, do pé e da perna é fundamental. São os pequenos movimentos que dão confiança para, no futuro, fazer uma longa corrida.

Os seis meses, anos e décadas que virão são importante para que a gente tenha aprendido com nosso processo e, aí sim, termos soluções melhores.

Sessenta suítes são absolutamente tentadoras. Mas preciso aprender a viver em comunidade com duas, três e dez famílias.

Se não conseguir fazer de forma simples, pequena, mais enxuta, dificilmente conseguirei fazer de forma mais complexa, maior e mais imponente.

“Simplicidade é a última sofisticação.”

Vida em comunidade

Estamos vivendo ilusões de conexão.

Passamos os olhos por centenas ou milhares de pessoas no nosso cotidiano urbano.

Colecionamos amigos e seguidores nas redes de Zuckerberg.

Mas isso tudo não significa que estamos cultivando relações.

Mesmo cercados de pessoas, solidão é um sentimento comum do nosso tempo.

Os espaços pra conexão profunda são raros e preciosos.

Estou cada vez mais interessado nos Cohousings, espaços de moradia intencionalmente voltados para convivência e colaboração. Com espaços individuais e espaços comuns .

Li sobre, pela primeira vez, em uma reportagem da Trip. Era sobre um grupo de aposentados que resolveu abandonar seus isolamentos em apartamentos urbanos para viverem em comunidade.

Depois, descobri os cohousings dinamarqueses no documentário Happy, que viajou o mundo descobrindo o que é felicidade em diferentes culturas.

Em São Paulo, conheci a Lilian, que toca o Co-Lares, estuda o tema desde 1980 e promove encontros pelo Brasil afora.

E, agora, este TED.

Vida em comunidade tem sido um Norte e um desafio.

Conexão de verdade pede entrega, escuta, tempo.

Com ela, vem confiança, profundidade, aceitação. E algumas tretas, claro.

Ainda assim, me parece muito mais inteligente e divertido conviver do que me isolar.

Na dúvida, conecte-se

“Na dúvida, conecte-se.” - Seth Godin.

Há mais disposição pra ajuda do que imaginamos.

Existem mais recursos do que podemos enxergar.

As pessoas são mais generosas do que competitivas.

Intenções só começam a pegar fogo quando a gente confia nos outros e compartilha.

Abre mesmo. Sem medo. Sem superstição. Sem desconfiança.

Não importa qual seja nossa necessidade, nossa dor, nosso desafio, para todas as situações, precisamos nos conectar.

Nos conectar é pedir ajuda, abrir portas, restaurar relações.

É ajudar alguém, entregar valor incondicionalmente, cultivar laços.

Conectar é confiar, se jogar na rede, acreditar que somos mais inteligentes quando trocamos do que quando criamos escassez artificialmente.

Os problemas que realmente precisamos resolver são urgentes. Vivemos em um mundo que tem intolerância, opressão, solidão, aquecimento global, depressão e fome.

A gente não pode mais querer resolver isoladamente, presos em nossas bolhas. Precisamos de mistura, inclusão, polinização cruzada, bagunça criativa.

Por isso, vamos nos conectar. Nos abrir, tomar cafés, perguntar genuinamente sobre o outro, ir para além do nosso bairro, da nossa cidade, dos nossos canais favoritos no Youtube.

As dores que vem das nossas diferenças desafiam nossa capacidade de tolerar. Mas não tem jeito, a gente tem que conseguir incluir, fazer junto, fazer diferente, fazer complementar.

Estamos todos nesse mesmo “pequeno ponto pálido azul”, na mesma casa.

Conexão gera confiança, essa energia que nos falta para voltar a ter esperança e energia.

Criação é uma questão de morte

Há uns anos atrás, estava numa palestra sobre criatividade. Me perdoe o palestrante, esqueci seu nome. Mas sua mensagem ficou forte pra mim. "Criação é uma questão de morte". Parecia paradoxal. Não é. Hoje, faz todo o sentido.

Para algo nascer, alguma coisa precisa ir. É assim que a vida funciona. O solo fértil é aquele com matéria orgânica decomposta, feito de fins de vida.

Quando estamos vivendo a situação, o trabalho, o projeto, é improvável olhar pro lado, enxergar diferente, crer em alternativas. Mas é quando a empreitada chega ao fim que novos sonhos ganham contorno.

Se estamos vivendo momentos difíceis, achamos que é melhor ter um emprego ruim, um trabalho qualquer, do que não ter nada. Talvez seja verdade, em muitos casos. Mas tem aqueles em que não dá pra visualizar nada que dê esperança enquanto a gente ainda está preso no que não nos alimenta.

É difícil começar algo novo mantendo velhos hábitos. É pesado começar um projeto paralelo quando nossas cabeças já estão saturadas. Somos muito bons em nos apegar e evitar o fim das coisas. Quando os fins são mal conduzidos, fica mesmo uma dor, um desconforto, uma ponta solta.

Por isso, finalizar, deixar ir, desapegar, abandonar, deixar quieto são habilidades valiosas.

Quanto mais conseguimos soltar ideias, projetos e compromissos que não nos engajamos, mais liberamos espaço e energia para a criação de algo significativo.

Meus tempos de publicidade me ensinaram esse processo de forma dolorida. Quanto mais conseguia gerar ideias, maiores eram as chances de fazer um bom trabalho. Mas, para isso, era preciso desapegar. Matar meu orgulho, silenciar o ego e seguir em frente. A próxima ideia era sempre a melhor. Quanto mais estivesse lidando bem com essas mortes metafóricas, melhor me daria com o nascimento do novo.

Se você se interessou pela arte de abandonar, tenho três indicações.

As mulheres da Contente.vc fizeram um projeto lindo sobre "como matar um projeto”. Está cheio de olhares ricos.

Tem um livrinho ótimo sobre a hora de desistir, do Seth Godin. Em inglês, The Dip. Em português, O melhor do mundo. Escrevi sobe ele aqui.

Este vídeo do Derek Sivers, que já passou por este blog e dá nome a minha não-agência digital, Hell Yeah.

Primeiro o que tem que ter. Depois, o que seria legal se tivesse.

Pra que nossos projetos, negócios, histórias, arte existam, o que eles tem que ter?

Aquelas pessoas? Essa solução? Um tipo específico de emoção? Um novo hábito? Um texto?

Seja lá o que for, é por aí que a gente começa.

O que é essencial, fundamental e indispensável deve vir antes de tudo.

Pra depois, fica o que seria legal se tivesse.

Uma foto bonita, um nome bacana, um site legal. Toda a perfumaria, os penduricalhos, os pequenos detalhes que fazem a diferença são, antes de tudo, detalhes.

Primeiro o grosso. Depois vem o ajuste fino.

Separar o “must have” do “nice to have” direciona o trabalho que deve ser feito.

Se não tiver grana pra pagar o aluguel, não terá parede para pendurar o cartaz.

Se não tiver um jeito das pessoas nos encontrarem, não vai ter ninguém pra dar o play nos nossos vídeos explicativos.

Se ainda não conseguimos resolver o problema que nos propomos, nem entregamos o valor que prometemos, não precisamos nos preocupar com nada além disso.

Para cada nova ideia, tarefa, recurso, nos perguntamos: “se eu não fizer isso, meu projeto continua existindo?”

Se sim, deixemos pra depois. Se não, façamos.

É o que mantém nossa empreitada viva que merece nossa energia. Agora.

Ajustes de coerência

Vocês viram Okja, o filme da Netflix sobre porcos gigantes de laboratório que critica a indústria da carne?

Tem um personagem coadjuvante, que passa quase despercebido. É um dos ativistas, aquele que desmaia por falta de comida. Ele se recusa a sustentar a indústria de agrotóxicos e, por isso, passa fome e tem problemas de saúde.

Por falar nisso, não como carne. Tenho meus motivos. Mas ainda compro ração pra nossa cadelinha. Ração feita com vísceras, carne, provavelmente, das piores. Sou um financiador da indústria que não me serve, que não acredito. Estou buscando alimentação natural pro dog, mas ainda não é uma realidade na minha rotina.

Em casa, já lavamos as roupas com sabão de côco e vinagre. Compostamos o que conseguimos. Não usamos guardanapos descartáveis, nem sacolinhas plásticas. Mas ainda tem vezes que é mais fácil, rápido e cômodo usar OMO, comer um congelado que gera lixo, pedir um delivery cheio de embalagens.

Coerência total é uma ilusão.

Esses dias conheci o trabalho de Gilles Lipovetsky, Da Leveza é o livro. Resumindo grosseiramente, estamos caminhando para uma sociedade que valoriza cada vez mais o que é leve. É o celular, a nuvem, o nomadismo digital, o yoga, a alimentação saudável, etc. Mas essa busca obsessiva por leveza pode, paradoxalmente, se tornar um peso enorme em nossas vidas.

Nem sempre o que fazemos, vivemos, ou trabalhamos consegue ser plenamente coerente com nossa visão de mundo, nossos valores e expectativas.

A busca por coerência no meu dia a dia, no trato com as pessoas, nas minhas escolhas profissionais e de consumo é, muitas vezes, um caminho desgastante.

Isso traz um sentimento ruim. E também a possibilidade de evolução.

Por isso, tenho pensado sobre ajustes de coerência. Ajustes são refinamentos, melhorias simples. E não pesadas e distantes soluções perfeitas.

Se não é possível eliminar todo o lixo agora, como podemos diminuir? Se seus serviços aumentam a desigualdade social, como poderiam ser um pouco mais acessíveis? Se teu trabalho não é dos sonhos, como é possível cultivar pequenos sonhos nele? Se não dá pra alimentar a indústria de agrotóxicos, como podemos escolher, de vez em quando, alimentos orgânicos?

Que pequenos, leves e baratos ajustes podemos fazer para que nossa contribuição não seja um fardo? Como a mudança que queremos ver se encaixe pouco a pouco na nossa rotina?

O que fazemos para cultivar amor em nossas vidas?

O ideal romântico prega que amor é essa coisa mágica, espontânea e imprevisível, que geralmente acontece ente um casal.

Estamos mergulhados nessa cultura, alimentados por novelas, Hollywood, família, padrão social.

Mas amor não é só o sentimento que une pombinhos.

Estive lendo Roman Krznaric, e ele me convenceu, tudo isso é coisa nova nessa tal de humanidade.

Se a gente parar pra olhar, sem medo de sentimentalismo, amor é um conceito que guarda muitos significados.

Entender um pouquinho sobre as diferentes faces do sentimento que "arde sem se ver" pode nos conectar, nos impulsionar, nos realizar, para além do amor romântico - que é delicioso, também.

Na Grécia Antiga, existiam pelo menos seis palavras para descrever o que, hoje, encaixotamos em uma só, "amor”.

A grosso modo, em “Sobre a arte de viver: Lições da história para uma vida melhor” pesquei:

Eros - paixão, desejo sexual, tem a ver com relacionamentos amorosos românticos.

Philia - algo como amizade, cumplicidade desapaixonada.

Ludus - aquela proximidade brincalhona entre crianças ou amantes.

Pragma - amor maduro, com profunda compreensão entre casais de muitos anos.

Agape - amor altruísta, incondicional, a todos os seres e sem exclusividade.

Philautia - amor próprio, talvez algo como auto estima.

Pra qualquer situação, dizemos “com amor, Fulano”, “eu te amo”, “que amor!”, “o amor da minha vida”, “faça o que você ama”, “amei!”. A mesma palavra, diferentes contextos e significados.

Quando muita ideia usa uma palavra só, não podia dar outra coisa que não fosse expectativa e confusão.

Depositar em uma pessoa só, em um trabalho só, em uma projeção de si, em um único desejo toda nossa necessidade de amor torna improvável nossa sensação de realização.

Porque precisamos de eros, mas também de philia, ludus, pragma, agape e philautia. Não dá pra escolher entre um ou outro.

Quanto do nosso tempo e energia dedicamos a cada um dos tipos de amores? Como podemos, intencionalmente, cultivar e criar espaços em nossas vidas para vivermos com amor(es)?

Essas são perguntas que deixo pra gente sentir, processar, experimentar. Porque sinto que esta é uma jornada pra viver a vida toda.


PS.: Me desculpe pelo atraso neste post. Tive uns contra-tempos familiares (movido pela philia), mas já está tudo bem. Com amor, Larusso.

A arte de deixar de reclamar

Sou um reclamador. Um crítico. Tudo que me incomoda vira reclamação. E isso é péssimo - veja eu reclamando outra vez.

Reclamar não é efetivo. Me faz perder tempo, energia e, principalmente, conexão. Com o outro e comigo mesmo. Quando critico, não estou em mim. Reclamar frustra.

Mas sinto que há duas coisas que podem ser feitas quanto aos incômodos: agir e resolver o problema, ou calar-se e aceitar.

Apenas duas posturas são realmente valiosas. Reclamar não vale a pena.

Se há algo a ser feito, faço. Porque quando faço, estou me colocando positivamente na Terra. O problema é resolvido, a responsabilidade é assumida.

Se é uma questão do outro, não é problema meu. Se é algo que posso ajudar, ótimo. Se é algo que não posso ajudar, talvez possa pedir ajuda.

Se não há algo a ser feito, me calo. Porque quando me calo, deixo ir, aceito o mundo imperfeito, mutável, vivo. O problema deixa de ser um problema.

Tristeza é vida

Gosto de ler Leo Babauta de vez em quando. É um cara que escreve sobre hábitos zen.

Hoje, descobri que ele trabalha com “Uncopyright”, abriu mão de direitos autorais do seu trabalho.

Ele surfa lindamente no espírito da internet.

Mas este texto não é sobre isso.

Comecei a traduzir um artigo dele que curti, mas não concordo 100%.

Então, fiz minha versão abaixo, uma prática liberada pelo autor. Se preferir o original, está aqui.

Tristeza é vida

A vida muda. E, por isso, às vezes, estamos na merda.

Alguns exemplos de situações difíceis:

  • Você perdeu um ente querido
  • Você recebeu péssimas notícias
  • Você está sem grana e sem nenhuma perspectiva
  • Você está sofrendo no trabalho
  • Você está com problemas sérios de relacionamento
  • Você está doente ou realmente cansado
  • Alguém machucou você emocionalmente

São momentos terríveis, é normal estar mal. Você pode se perguntar por que a vida é tão difícil. Pode se sentir sem saída.

Controle total sobre a vida é uma ilusão. Nem sempre podemos fazer algo por essas situações. Mas sempre é possível perceber que estamos vivos, nos transformando e tudo vai continuar mudando.

Permita-se viver momentos de infelicidade. Quando nos sentimos mal, sentindo dor, tudo o que queremos é fugir da situação. Ignorá-la, fingir que estamos bem, nos consolar, atacar algo ou alguém, nos entupir com drogas, nos distrair. Esta é uma resposta muito humana. Mas, na verdade, fugir da infelicidade não melhora a situação. Geralmente, apenas prolongamos a dor, dificultamos os problemas. Em vez disso, permita-se sentir-se infeliz, é ok sentir dor. É real, é possível, é humano. Faça uma pausa e permita-se perceber a infelicidade, observá-la. Veja que é isso aí, e mantenha a curiosidade, explore, fique intimista com a situação. Não é agradável, mas não mata. Na verdade, é onde a cura começa, onde o crescimento brota.

Veja a dor como vida. Agora que você está cara a cara com a dor, tocando e ficando intimo com ela, veja que, na verdade, isso é estar vivo. A vida não é só euforia e evasão (pelo menos, não exclusivamente), não é só alegria. Estar vivo significa sentir dor, sentir medo, sentir-se desconectado às vezes. Permita-se sentir e imaginar que isso é o que a vida parece. Sim, você poderia dizer: "Isso é uma merda", ou poderia dizer: "Que experiência interessante, estar viva." É como bungie jumping: cheio de medo, emoção, choque e alegria. Viver é uma experiência extraordinária. Você está tendo um momento desses agora.

Encontre gratidão em algum lugar. Sendo plenamente vivo, estando totalmente imerso nesta experiência deste momento, o que há para agradecer? Mesmo coisas pequenas, como a visão de folhas fora tremendo no vento ou alguém rindo nas proximidades. Ou coisas que damos por certo, como a visão e a música. Tendo relações. Sendo apoiado por milhões de pessoas invisíveis que garantem a sua existência agora. O sabor de um morango ou o cheiro de comida caseira. Sua respiração. Você pode encontrar gratidão por qualquer uma dessas coisas, a qualquer momento, inclusive agora. O que te faz ser grata agora?

Encontre alegria em estar vivo. Você está vivo! Isso é extraordinário. Mesmo em nossos piores momentos, podemos encontrar alguma alegria neste fato nada pequeno, estamos vivos. Seu coração está bombeando. Quão maravilhoso é isso?

Sim, eu sei. É difícil. Não estou dizendo que fazer isso fará magicamente tudo melhor. Mas sempre é possível ver vida em cada momento, se ousamos olhar.

Não é pra todo mundo. E tudo bem.

Não adianta querer agradar a todos. Então, melhor fazer suas paradas e ir com elas mesmo.

Muito provavelmente, o seu trabalho - do jeito que é, agora - tem muito valor.

Talvez não seja valioso para todo mundo, pros 7 bilhões que estão na Terra, nem pros 2 bilhões que estão no Facebook, tampouco pros 200 milhões que estão no Brasil.

Mas isso não significa que ele, o seu trabalho significativo, sua ideia genial, sua arte que importa, o conhecimento que você já tem, não sejam importantes pra alguém. Ou, ainda melhor, para alguns.

A verdadeira missão não é fazer um trabalho que agrade todo mundo. É encontrar aqueles que - neste momento - curtem o seu trabalho mais especial.

Tem muita gente no mundo. E nada é pra todos. Coca-Cola não é pra todo mundo. Eu, por exemplo, não tomo. Nem Jesus que - pelo que contam - era um cara muito gente boa, agradou. 

Vamos considerar então que existe uma régua de sete bilhões de unidades. Vai de um até sete bi. O um é aquela pessoa que detesta seu trabalho e o sete bilhões é aquela que ama com todas as suas forças.

Foque no final dessa régua. Esqueça todo o resto. São as pessoas que se beneficiariam do teu trabalho que o merecem. E elas já são o suficiente.

Pode ser que não seja agora. Outro dia recebi uma mensagem muito legal dizendo basicamente: "Há pouco tempo atrás teus textos seriam inúteis pra mim. Mas hoje são muito importantes. Eu mudei e as pessoas mudam. Por isso, não pare.”

Não pare. E não espere que todo mundo aprove seu trabalho. Os poucos - ou muitos - que o curtem agora já são suficientes.

Compartilhe suas intenções

Elas terão mais chances de se tornarem realidade.

Não acredito em mau-agouro, olho gordo, nem temo a cópia.

Quanto mais compartilhamos nossas ideias, desejos e intenções, mais as coisas acontecem.

Não é um papo tipo “O Segredo”.

Quando a gente conta nossas ideias pras pessoas, elas se tornam mais claras.

A cada vez que explicamos nossos projetos, mais consistentes eles ficam.

As pessoas nos ajudam a escolher as melhores palavras para contarmos nossas histórias. Suas perguntas, expressões e sentimentos nos conduzem para um processo de melhoria continua.

As chances de ser beneficiado, ao compartilhar sua ideia, são muito maiores do que as chances de ser prejudicado.

O mundo é muito mais generoso do que invejoso. Quanto mais compartilhamos nossas intenções, mais as pessoas nos retro-alimentam com referências preciosas, conexões importantes e, principalmente, mais pessoas quem podem nos ajudar.

Assim, ficamos mais perto de nos tornarmos fazedores, além de compartilhadores.

Conte sobre sua busca, vá a eventos, marque cafés e Skypes, compartilhe no facebook.

É esse movimento que abre portas, aumenta o campo de possibilidades e gera energia para o próximo passo.

Três caminhos para o trabalho criativo

Trabalho criativo tem três caminhos. Inspiração, punição ou tranco.

A gente pode acreditar em inspiração, em talento, em hora certa e esperar. Pode ser que aconteça, mas é raro como cometa. Quando vem, não tem outro jeito, tem que aproveitar, pegar e fazer. Porque não se sabe quando a inspiração virá de novo. 

Punição é o que acontece quando não tem mais jeito. Você tem que fazer, ou vai se ferrar. É o tipo de trabalho que mais causa ansiedade, que gera os piores resultados, mas que, ainda, funciona. É a motivação pelo medo. Vai vir demissão, não vai ter dinheiro pra pagar o aluguel, vai ser vexatório, vai dar merda. Então, você vai lá e faz.

O terceiro caminho é o tranco. É o que acontece quando a gente cria o contexto, faz a cama para a inspiração se deitar. É aquele momento em que a gente se enche de referências, conteúdos, puxa pela memória, relê anotações, tenta criar novas conexões. Esse é o trabalho de quem aprendeu como funciona seu próprio processo.

Tranco é o jeito pelo qual os profissionais trabalham. Profissionais não podem confiar no milagre da inspiração, porque precisam criar todos os dias. Profissionais não viveriam bem com medo de punição, apesar de muitos sobreviverem assim. Quem depende de sua criação precisa de um caminho, um método, ainda que turvo, bagunçado e imprevisível.

O pior jeito de realizar um trabalho é tentando se livrar dele. O melhor jeito é entendendo o processo, curtindo o desenrolar, mais do que o resultado. Por isso, o tranco é o caminho de quem presta atenção no seu próprio funcionamento.

É essencial entender como a gente trabalha melhor. Pode ser quando a gente mergulha na coisa, se suja de letras, de tinta, de ideias novas. Pode ser de manhã, com o frescor da energia matinal. Pode ser na calada da noite, com a cabeça fervilhando os aprendizados do dia. Pode ser sozinho, pode ser em grupo. Pode ser de mil jeitos, o importante é aprender com o próprio processo.

Nossa mente criativa não é como um robozinho que liga e executa o quê e quando a gente quer. Podemos aprender a aquecer os motores, dar as voltas que precisamos dar e ir direto ao ponto quando percebemos que a criação está vindo. Tranco é improvisado, às vezes duro, mas funciona.

É só um teste

A vida fica mais leve quando a gente encara tudo como experiência.

Um novo projeto, uma nova profissão, uma decisão diferente. Nada disso precisa ser como tatuagem, nada tem que começar definitivo, fixo. Calma, é só um teste. Tudo pode começar de forma experimental e melhorar depois.

Pra entrar nesse modo, temos que aceitar que nossas tentativas podem funcionar, podem dar errado. E isso não é ruim. Ambas as possibilidades nos levam para um bom caminho: vamos aprender, melhorar e experimentar de novo.

Olhar o mundo pela ótica da experimentação é muito mais tranquilo e produtivo do que se pressionar pelo resultado, pelo acerto, pelo perfeito.

Quanto mais exigimos um começo perfeito, menos nos dispomos a experimentar. Quanto menos experimentamos, menos aprendemos. Quanto menos aprendemos, mais difícil fica chegar ao nível de maestria que a perfeição exige. Ou seja, demandar perfeição não nos leva a um estado de perfeição.

Grandes mudanças doem, são difíceis de aceitar, há um custo para nos adaptarmos, exigem energia extra. Por isso, é difícil começar. É difícil aprender. É difícil tomar iniciativa e mudar as coisas.

Mas pequenas mudanças são possíveis, reais, mais fáceis de tragar e ótimas para nos sentirmos mais prontos pra darmos um passo um pouco maior.

Por isso, pra todas as novas ideias e projetos me pergunto: como isso poderia ser testado?

Será que as pessoas vão gostar? Será que eu sou bom nisso? Será que dá dinheiro? Adoraria ser... (preencha aqui com o que você quiser). Adoraria montar um… (preencha aqui com um negócio qualquer).

Sempre é possível testar. Da forma mais rápida, simples, barata e enxuta possível. Sempre é possível fatiar um grande sonho em pequenos pedacinhos realizáveis.

Isso não significa que o sonho grande estará morto. Pelo contrário. Ele começa a ganhar vida quando os primeiros testes acontecem.

Antes de fazer do Caminho de Santiago, que tal uma trilha perto de casa?

Antes de criar uma nova escola, por que não testar seus princípios com uma aula, por um dia?

O sonho daquele restaurante está de pé. Mas, antes, que tal fazer um jantar especial na sua casa?

Sua nova profissão poderia começar com um curso curto? Poderia começar sendo testada com amigos e parentes?

Viajar o mundo é desejo de muita gente. Mas quantos se dispõem a ter um olhar de viajante na própria cidade?

Alguns jeitos que tenho experimentado essa coisa de experimentar:

Grupos no facebook. São rápidos e fáceis de criar. Ótimos para conectar pessoas com interesses comuns, trocar ideias e coisas. São uma solução maravilhosa e definitiva? Não. Mas são ótimos testes.

Eventos. Eles começam, acontecem e acabam. O que é ótimo para prototipar, testar a aceitação de uma ideia, perceber como você se sente fazendo. Quase tudo pode ser experimentado com um pequeno evento.

Contar pras pessoas. É um jeito de começar. A gente amplia as ideias, escuta contra-pontos, sai da inércia mental das nossas cabeças. Compartilhar as ideias nos leva para outros passos, ainda melhores.

Tentar implementar uma nova rotina. Quero escrever um livro. Mas, por hora, não deu. Enquanto isso, texto com blog. Mil aprendizados, conexões e algum material pra começar.

Somos incapazes de realizar grandes feitos se não formos capazes de realizar pequenos feitos.

Por isso, vamos relaxar. Tudo é só um teste.

O que você acha?

"Viva para satisfazer os outros e todos vão te amar. Exceto você mesmo." - Traduzi do Paulo Coelho. O que você acha dele?

Semana passada fiz um experimento. Não pensei muito antes de fazer, mas fui lá e fiz. Perguntei no meu Facebook “Amigos, vocês acham que eu faço o quê (profissionalmente)?”

Se tivesse pensado um pouco mais, não teria feito. Se não tivesse feito, não teria vivido sentimentos tão estranhos. Nem teria aprendido nada novo. Então, foi bom fazer.

Mas, ainda assim, pensando novamente, nasce uma pontinha de arrependimento. Ainda mais que outras pessoas replicaram a mesma pergunta em suas timelines. Como você pode ler, sentimentos confusos dançam do lado de cá.

De início, estava curioso pra saber a percepção dos meus amigos de Facebook sobre as diferentes atividades que tenho feito profissionalmente, nos últimos anos.

Achei que iam responder objetivamente: design, sites, cursos, livros, consultorias, coisas mais explícitas desse tipo. Talvez, algumas novas palavras poderiam me ajudar a explicar pra outros o que tenho feito.

Vieram as mais diferentes respostas, engraçadinhas, carinhosas, agradecidas, piadistas, misteriosas, indiferentes. Sou grato a todas. Li as opiniões sobre o que faço, que se confundem sobre mim, li opiniões sobre a dita e tola pergunta.

Nessa garoa de likes, holofote e confetes, me peguei - mais uma vez, nesta vida - me sentindo mal por ser vangloriado, definido, limitado e julgado pelo outro. Sim, eu pedi. Dei a cara a tapa e tomei.

Perguntar o que o outro acha deve esconder minha necessidade de validação. E, por mais que eu a observe e tente evitar, ela ainda está comigo. Em alguns momentos mais, em outros menos.

Darwin certamente explica nossa necessidade incansável de sermos bem vistos, aceitos, acolhidos. Poucas coisas nos satisfazem tanto quanto ser validado pelo outro.

Mal me dou conta. Mas sigo com o péssimo hábito de tentar agradar, parecer o que não sou e me enquadrar em um modelo de cara que imagino que exista. Uma projeção da pessoa que eu quero ser.

Enquanto penso nela, a projeção, deixo de estar em mim. Deixo de me escutar, ouvir meu corpo, minha intuição, deixo de ser o que estou, agora.

Há poucas semanas atrás, fiz uma breve participação no Gab Gomes Show for Sure sobre “O que as pessoas vão pensar?”.

A ideia que compartilhei é que ninguém está pensando tanto em você quanto você mesmo. Então, relaxa e faz o que você acredita que deve ser feito, sem se importar com os julgamentos. Cuide bem da sua vida, ela já é uma questão boa o suficiente. O que os outros pensam não pode nos paralisar. Porque é fazendo, vivendo, experimentando, que a gente aprende, melhora e, quem sabe, se torna uma pessoa mais consciente.

Ainda acredito que essa busca por validação pode nos cegar, nos bloquear e nos machucar. Porque nos coloca numa posição muito frágil, em que nosso bem estar, nossa paz e felicidade estão nas mãos da regurgitada ou analisada opinião alheia.

Considerando que são sete bilhões de pessoas, percepções diferentes, mudanças contínuas e eternas em mim, em você, e em todo mundo, a constatação é óbvia: é impossível agradar a todos e é inútil viver pela validação externa.

Feio, bonito, correto, errado, rude, carinhoso, ingênuo, perspicaz, burro, sagaz, confiável, medroso, corajoso, incoerente. Talvez seja tudo isso e, ao mesmo tempo, nada disso. Não há nada fixo, nem permanente. Estamos todos em um eterno processo de mutação e evolução. Vai passar.

Não alimentar o próprio julgamento é uma prática que liberta. Da mesma forma, não se apegar ao julgamento alheio pode ser um caminho de aceitação e autocompaixão.

O que você acha? O que eu acho? Todos os achismos não vão evitar que a vida seja vivida.

E agora, com vocês, dois videos que achei. E achei maravilhosos.

Vim aqui pra me lembrar de quem eu sou

Quando morei em Porto Alegre, era frequentador assíduo de um espaço colaborativo, a Casa Liberdade.

Em uma das paredes, tinha um cartaz: “Vim aqui pra me lembrar de quem eu sou”.

A Casa Liberdade era um espaço que me ajudava a ser um pouco melhor.

Que lugares nos fazem nos lembrar de quem somos? Que situações, pessoas e atividades nos colocam em um estado mais integral?

Esses lugares estão mais perto do seu trabalho ou do seu fim de semana?

Para nos lembrar de quem somos, não precisamos de:

Exibições arbitrárias de poder.

Metas que não são verdadeiramente nossas.

Decisões unilaterais.

Aprovações alheias.

Um cargo, um nome ou uma limitação que nos define.

Atividades que não tem sentido em si.

Para nos lembrar de quem somos, precisamos:

Nos sentir escutados e aceitos.

Perceber que nossa contribuição faz diferença.

Nos permitir ter um sonho grande.

Nos orgulhar de vez em quando.

De aprendizado relevante.

De segurança para viver e evoluir.
 

Quando você morrer, sua caixa de entrada ainda estará cheia.

James Victore me presenteou com essa. "Quando você morrer, sua caixa de entrada ainda estará cheia.”

Está cheia agora. Estava ontem e estará amanhã. Mesmo quando eu zerar, vão vir novos emails, mais louça pra lavar e trabalhos pra entregar.

Esta é nossa condição. Precisamos conviver com as tarefas a serem feitas, elas não vão se acabar. Aliás, precisamos viver bem, com tempo, qualidade, boa companhia, consciência e paz. Ainda que com uma “to-do list” gigantesca.

História um. James foi convidado por sua esposa pra sair. Ainda que estivesse ocupado e cheio de coisas pra fazer. Ela sabia que ele estaria sempre ocupado. Sempre. Sua cabeça explodiu. Primeiro, veio o ego: “meu deus, tenho muita coisa pra fazer, o estúdio, o workshop, o livro, etc”. Mas, quando ele morrer, a caixa de entrada ainda estará cheia. Ainda terá coisas pra fazer, o estúdio ainda precisará ser limpo. Não podemos deixar nossos trabalhos arruinarem nossas vidas. 

História dois. Quando eu trabalhava numa agência de publicidade, estava num job “urgente" que era pra segunda, trabalhando num domingo. Meus colegas de trabalho receberam visitas dos filhos e esposas. Assim como os presidiários em dia de visita. Eles não passaram o domingo em família. Mas suas famílias tiveram que ir visitá-los.

História três. Uma grande executiva não toma água porque não pode interromper seu trabalho tão importante pra ir ao banheiro. Estive pensando, qualquer ser vivo com sede prefere tomar água do que fazer outra coisa. Muito esperta essa executiva, não?

Gente, precisamos sair. Precisamos nos conectar. Precisamos nos cuidar. Precisamos dedicar tempo e investir energia nas pessoas e nas coisas que a gente realmente quer fazer.

Porque não vai ter depois. Não vai ter tempo livre depois da caixa de entrada vazia pra fazer o que realmente importa.

Não vai ter lápide “Fulano de tal. Respondeu 230 mil emails”. As memórias que vão ficar são do quão gentil fomos, do legado que deixamos, da arte que entregamos.

Temos forte tendência a nos apegar às armadilhas da mente. Às projeções de um futuro, a ideia de que é preciso sofrer para construir as coisas, às comparações com os outros.

Se nossos trabalhos não nos ajudam a viver os dias que queremos viver agora, tem algo pra ser olhado com muito cuidado.

Se o custo de fazer o que fazemos significa prejudicar nossa saúde, dormirmos pior, comermos pior, nos relacionarmos com as pessoas de um jeito menos atencioso, com menos presença, este custo realmente vale a pena?

Talvez o maior significado que nossos trabalhos podem ter é nos ajudar a vivermos bem, sem prejudicar a vida dos outros seres. Agora. Não depois de zerarmos os emails.

Quando você morrer, sua caixa de entrada ainda estará cheia.

Em qual projeto me envolvo?

Em qual projeto me envolvo? Este ou aquele? Qual é a melhor ideia? Qual é mais promissora? O que priorizar?

Não sei. Só sei que um dia chegou esta frase a mim: “Você pode fazer qualquer coisa. Mas não pode fazer tudo.”

Não tem jeito, tem horas em que a gente tem que escolher. Pegar um caminho e ir. Os outros ficam na gaveta, pra quando der. Ou ganham nosso tempo livre.

Você devia fazer engenharia, devia arranjar um bom emprego, devia fazer um concurso público. Isso, se quisesse seguir um caminho com respostas certas e previsíveis. Porém, se você está me lendo, provavelmente está em busca de caminhos alternativos.

Quando estamos falando de caminhos não dados, existem muitos. Infinitos. Várias ideias, oportunidades, possibilidades. Umas que dão dinheiro, outras que dão satisfação, algumas que dão aprendizados, outras que dão um pouco de cada. Esta é a vida não-linear, exponencial, em rede.

Vamos celebrar. Se nos mantivermos conectados, oportunidades não vão faltar. O sentimento de perda que surge quando escolhemos uma ideia, em detrimento de outra, só faz sentido quando temos escassez de possibilidades. Em um mundo abundante, relaxa, as outras portas estarão lá, mesmo que você escolha uma, desta vez.

Quando fazemos nosso próprio caminho, as respostas não são tão óbvias. O grande desafio da vida em busca de autonomia é escolher o próximo passo por si. Não há caminho pronto. Mas, talvez, existam alguns questionamentos pra se fazer.

Entre as coisas que você quer fazer, qual delas mais entrega valor pro mundo? Qual delas mais te faz receber valor do mundo?

Qual das possibilidades faz você viver os dias que você quer viver?

Você realmente quer fazer seu projeto, ou apenas quer que ele exista no mundo?

Esta é uma briga que você quer se envolver?

Esta jornada vai fazer você se conectar com pessoas que você gostaria de ter por perto?

E, a melhor, este caminho tem um coração?

"Antes de embarcar em qualquer jornada, faça a pergunta: Este caminho tem um coração? Se a resposta é não, você saberá, e então você deve escolher outro caminho. O problema é que ninguém faz a pergunta; e quando uma pessoa finalmente se dá conta de que tomou um caminho sem um coração, o caminho está a ponto de aniquilá-lo. Nesse momento, muito poucas pessoas conseguem parar para deliberar, e abandonar aquele caminho. Um caminho sem um coração nunca é agradável. Você precisa dar duro só para aceitá-lo. Por outro lado, um caminho com um coração é fácil; ele não exige que você se esforce para gostar dele." - Carlos Castaneda.