Meu último aprendizado... bem, ele não é o último

Toda semana eu minto. Não estou escrevendo sobre meu último aprendizado.

E sim sobre algum aprendizado mais solidificado do que o último.

Algo que aprendi. Não estou mais aprendendo. E nem é recente. Cresceu vagarosamente pelo tempo até se tornar ideia e, então, texto.

Os últimos, verdadeiramente últimos, aprendizados ainda estão verdes, em processo, sedimentando, ganhando forma e palavras na minha cabeça.

Talvez, daqui umas semanas ou anos se transformem em texto. Talvez não. Talvez virem prática. Talvez não.

Aprendizados precisam de contraste, contrapontos, contato com realidades, ritmo, pares, tempo.

A ação está sempre atrasada em relação ao aprendizado abstrato.

Ou na frente, adiantada, instintiva, como uma brincadeira que depois de um tempão vira razão.

Agir, fazer, se mexer, exige muito mais do que pensar, entender, compreender.

Descobrimos, imaginamos, processamos, experimentamos e só depois esse bolo mental vira prática e, muito depois, hábito.

Nunca me esquecerei da definição que o amigo Guto Gutierrez me trouxe para sucesso e fracasso.

“Sucesso é o estado em que estamos prontos para aprender. Fracasso é o estado em que estamos aprendendo.”

Enquanto estamos aprendendo, estamos fracassando, não incorporamos as descobertas ainda. É tudo torto e incoerente.

Talvez por isso que a gente sabe a importância, mas não composta, não pratica exercício, não come bem, não é generoso, emptático, nem tem tanto auto-cuidado assim.

A gente sabe o que tem que fazer. Mas fazer é outro quinhentos.

É por isso que tenho buscado mais tolerância. Comigo e com os outros.

A coerência entre o pensar, aprender, fazer e conseguir é granular através do tempo.

Estamos todos aprendendo, tentando, fazendo o que nossos aprendizados incompletos nos permitem fazer.

Suficiência

Está tudo uma merda para quem está cheio de expectativas e ainda não chegou lá. Lá?

Ser humano é um bicho único mesmo. Quando criança, quer ser adulto.

Quando adulto, quer dinheiro, família, propósito, algo além.

Quando tem, quer mais.

Ou outra coisa.

E outra.

Podia ser melhor naquilo.

Ainda gostaria de aprender tal coisa.

Fazer de outro jeito, mudar, mexer, ajustar incoerências.

Crescer, ganhar, alavancar, impactar, alcançar, conquistar, superar.

Estamos quase o tempo todo rejeitando o presente e esperando pelo o futuro.

Um dia, a vida que temos agora foi o que mais desejamos. O dia chegou, é hoje, e então?…

Suficiência é um dos aprendizados mais importantes que se pode ter.

A percepção, a escolha, a consciência de que a vida é o que é.

E não é o que deveria ser, nem o que gostaríamos que fosse.

Suficiência não é conformismo, nem fatalismo.

É a percepção de que sofrimentos vêm e vão.

Não há fuga. Se há vida, temos sofrimentos.

Vamos lidando com o que temos.

Suficiência é abundância.

É liberdade, autonomia.

Já há o suficiente.

Já temos.

Já somos.

Um pálido ponto azul de 4 bilhões de anos

Um amigo certa vez me contou que, para meditar, se concentra em lembrar quão infinito é o tempo, e quão grande é o universo.

Em 2013, tive a oportunidade de viver uma das experiências mais significativas da minha vida. O Deep Time Walk, que agora tem app.

Na Schumacher College, caminhei em grupo por 4,6 quilômetros, mentalizando que cada passo dado, de mais ou menos um metro, representava um milhão de anos de evolução da Terra.

Afasta uma mão da outra, pensa em um metro. Imagina que ele representa um milhão de anos. Um milhão. Agora multiplica isso por 4600. Essa é a idade da Terra.

Ao longo da caminhada, o professor Stephan Harding conta a extraordiária história do nosso planetinha, desde o seu surgimento, passando por eras, (muitos) tempos sem vida, surgimento de seres primários, extinções, fogo e gelo. Gelo só mais tarde, na verdade, porque por milhões de anos não existia água.

Em 4,6 quilômetros, você consegue sentir fisicamente, no corpo, o tamanho do tempo. É espaço suficiente para cansar, se distrair, ficar com fome, sentar e pensar em quão pequena é nossa existência.

Pra ter uma ideia, depois de dar uma suadinha caminhando, no último pé, ou 35 centímetros, nasceu a humanidade. E a era Cristã tem 2 milímetros nessa régua. Milímetros.

Todos os impactos que conhecemos, o petróleo que tiramos do fundo do mar, os campos de soja, tudo que já fizemos cabem nesses centímetros finais. Tudo, tudo.

Essa experiência me voltou à cabeça quando, nessa semana, vi a foto da Voyager 1, feita em 1990, a 6 bilhões de quilômetros da Terra. Este pixel azulzinho é nosso planetão.

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Por um lado, como conseguimos fazer tanto alvoroço e ameaçar a existência de tantas vidas em tão pouco tempo? Como somos causadores.

Por outro, esta é uma chance de reconhecer nossa pequenez, enquanto o mundão tá aí girando e evoluindo há bilhões de anos. Como somos insignificantes.

Todas as cidades do mundo, os estádios da Odebretch, a internet, os elefantes, toda comida produzida que conhecemos está aqui.

Todas as pessoas que conhecemos, nos esquecemos ou conheceremos estão ou estarão contidas nesse pequeno ponto.

Todos os nossos problemas, preocupações, certezas e mágoas estão neste pequeno ponto pálido azul.

Boa semana.

Comece sem inspiração

Inspiração é tão efêmera, tão imprevisível, tão frágil.

Preguiça é tão frequente, tão oportunista, tão presente.

Se eu dependesse de inspiração, não trabalharia, não criaria, não escreveria este texto.

O mesmo aconteceria se deixasse a preguiça triunfar - como faço tantas vezes.

Não vai dar pra esperar a inspiração vir. Porque ela não vai chegar à toa.

Criação vem com intenção. E nem precisa ser um esforço hercúleo.

Trabalhando profissionalmente com criação há 15 anos, descobri que a gente precisa dar uma forcinha pro trabalho sair.

Um caminho é apelar pras inspirações. Pôr pra dentro, se alimentar de informações e ideias.

Ler um livro, fazer um curso, explorar o trabalho de alguém, buscar referências.

É um caminho valioso, claro. Porém traiçoeiro.

Consumir referências pode ser um caminho sem fim, que não gera nada além da sensação de sempre precisar se preparar mais.

Para criar é essencial pôr pra fora. Pôr pra dentro não é o bastante.

Pra mim, o mais importante é começar.

Se desenhamos, sujamos a folha com um rabisco.

Se escrevemos, digitamos as primeiras palavras que vêm na cabeça.

Se procuramos uma ideia nova, rabiscamos no papel a primeira ideia idiota que aparecer.

Testamos, experimentamos, brincamos, agimos.

Depois, criamos em cima.

Puxamos pro lado. Fazemos de outro jeito. Tentamos de novo. Adicionamos mais alguma coisa, melhoramos, refinamos, excluímos.

Mas nunca deixamos a folha em branco.

De algum jeito, o importante é começar.

Sem se preocupar tanto com o trabalho final.

Mais tarde o filtro da qualidade vai ter seu momento.

No começo, ele fica guardado.

Escrever um livro parece impossível.

Mas escrever uma frase é fácil.

Todo livro começa com uma frase.

Então, este é o melhor jeito de começar.

Escrevendo uma frase.

Só depois outra.

E mais outra.

Menos "ou" e mais "e"

Mais possibilidades, menos certezas.

E aí vêm as dúvidas, as inseguranças. Juntamente com os especialistas, os gurus, os coachs, os políticos, os pitaqueiros.

Para cada problema confuso, uma solução dura e concreta.

Até que surge um conta-ponto e vamos todos pra outro lado em manada.

Ou nos armamos para lutar contra os errados do outro lado.

Dormir o quanto precisar ou começar às 5h? Escutar as pessoas ou acreditar na própria proposta? Distribuir conteúdo ou restringir? Programas sociais ou livre mercado? Direita ou esquerda?

Cada vez menos acredito em “ou”.

Possibilidades binárias e excludentes não dão conta da vida real. Porque a vida é complexa, abundante e diversa.

Escutando o Mamilos “Saída: Direita ou Esquerda?”, entrei em contato com uma síntese do Denis Burgierman que me contempla. Estamos vivendo uma era cheia de complexidades e, como tal, precisamos de soluções igualmente complexas.

Todas as escolhas e jornadas que vivemos são muito mais cheias de detalhes, contextos e possibilidades do que ir pra um lado ou outro.

A gente vai ter que ir pra algum lugar, mas provavelmente não teremos apenas dois caminhos.

Para lidar com abundância, precisamos incluir diversidade.

Vamos ter que experimentar diversos caminhos, explorar, construir juntos e acolher as diferenças.

Pode ser que doa, que seja aparentemente mais difícil ou trabalhoso.

Mas não temos escolha, estamos todos no mesmo barco.

Para problemas complexos, precisamos de diversas e inúmeras soluções, com mais interação, cuidado e criação do que exclusão.

Mais possibilidades, menos certezas e mais chances de caminhos que cuidam de todos.

Autoconfiança

Um grande amigo dizia que "mais importante do que ser forte é sentir-se forte".

Ter experiência, dinheiro, disciplina, saber fazer contas, atender bem as pessoas, ter destreza num instrumento, dominar uma técnica, ter milhões de seguidores. Nada disso tem valor se não houver autoconfiança.

A sensação de capacidade é mais decisiva na hora do "vamo vê" do que qualquer habilidade, recurso ou talento. Por que quem acredita que pode dá um jeito. Enquanto quem não acredita nem começa.

Autoconfiança é um privilégio. A maioria de nós carrega traumas de pais exigentes, ou ausentes, chefes insatisfeitos, avaliações duras, contextos opressores, perfeccionismo exagerado.

Quando acreditamos que nada é bom o suficiente, não há entrega que chegue. Com a confiança minada, paralisamos e deixamos de fazer o que nos traria mais confiança.

Se tivesse uma escola da autoconfiança, ela seria baseada em autonomia. Eu faria meu caminho de aprendizagem mais ou menos por aqui, sem ordem:

Sentir-se capaz de fazer. 

Sentir-se capaz de aprender.

Sentir-se capaz de descobrir.

Sentir-se capaz de começar.

Sentir-se capaz de criar vínculos.

Sentir-se capaz de se transformar.

Sentir-se capaz de comunicar.

Sentir-se capaz de se expressar.

Sentir-se capaz de experimentar.

Sentir-se capaz de amar e ser amado.

Redes sociais e o distanciamento da realidade

Meu condomínio tem um grupo de Whatsapp. Imagina a eterna reunião.

Cheio de boas intenções, um morador repassa a história de pessoas que estão se fantasiando de agentes de controle da dengue para assaltar casas.

Boato. Fake. História.

Essa é a parte fácil de estar nesse grupo. E na internet.

A parte difícil é que as redes sociais nos distanciam da realidade. A crua e direta experiência da vida.

Dedos tocando o chão gelado, cheiro de café, olhar curioso, atmosfera calorosa, palavras não ditas, relações profundas, nada disso se reproduz digitalmente.

Já fui defensor da ideia de complementariedade, vida on e offline são uma só.

Mas o que estou percebendo em mim é uma mudança de comportamento que está me levando à substituição. Perigo.

Sai realidade. Entra simulacro. Sai consciência sobre o que está acontecendo. Entra medo de coisas abstratas, “a direita”, “a esquerda”, “a corrupção”, “o mercado”.

É assim que deixamos de escutar a voz sutil das pessoas para dar trela pro grito aloprado dos extremistas. É o famoso “bater palma pra maluco dançar”.

Lemos, nos emocionamos, nos preocupamos, tomamos partido pelo relato que o outro tenta fazer através do seu olhar enviezado.

Estamos constuindo e enxergando o mundo por lentes tortas, por conta da facilidade de publicar qualquer coisa mal pensada.

Destilamos veneno contra corruptos, golpistas, juízes ladrões, enquanto confortavelmente deslizamos os dedos por telas de vidro.

Lula foi preso com todo esse quiprocó e, apesar de tudo, continuamos aqui. Amanhã temos que acordar cedo.

Essa narrativa digital não é a vida. Nossas vidas começam quando desligamos as telas.

Já não tenho publicado no facebook, nem instagram. Parei de alimentar os monstrinhos. Muito raramente tô no twitter.

Vou deixar de consumir conteúdo aleatório dessas plataformas. Porque me fazem mais mal do que bem. Não sou mais feliz, nem mais esperançoso, depois de gastar horas na timeline.

Serei ainda mais seletivo daqui pra frente, alguns canais de Youtube, notíticas, livros, conversas específicas com amigos, este blog e deu.

Claro que tem gente que trabalha com isso. Eu vivo de internet, quase todos os meus clientes moram em cidades distantes.

Mas, gente, nossa conexão precisa ser mais valiosa. Nossa atenção é cara. Nosso tempo de vida é curto. Não dá pra desperdiçar.

Estou na internet pra viver melhor, ser melhor, contribuir. Se não funciona assim, de que vale?

Queremos conexão, amizade, reconhecimento? Ótimo, vamos fazer com qualidade e realidade. Horário nobre, canal rico, fora das mídias sociais. Quem quiser, estou disponível.

Sobriedade

Pepe Mujica é uma pessoa de frases simples e fortes.

Gosto muito da palavra “sobriedade”.

O modelo de vida frenético, competitivo, de acúmulo, individualista falhou.

A corrida sem fim pelo próximo item de consumo não faz sentido.

Nos satisfaz por alguns instantes e gera prejuízos duradouros.

E assim nos perdemos numa vida voltada ao trabalho e ao dinheiro.

Não é dinheiro. É tempo. Tempo de vida sendo trocado por coisas que não importam.

Mujica fala de uma sobriedade voluntária.

Gostaria muito de entender - e praticar - mais essa ideia.

Enxergo com muito mais carinho um estilo de vida baseado em moderação, equilíbrio, serenidade.

Me parece que este caminho, também entendido aqui como “Small is beautiful”, Equanimidade, Decrescimento, Suficiência, é o único possível neste mundo de impactos individuais, sociais e ambientais exponenciais.

Tenho pensado mais sobre o “como?”, já que o “o quê?” e o “por quê?” se apresentam mais claros, pra mim.

Algumas pistas que têm se apresentado:

  • Ser corajoso para praticar “nãos”.
  • Reconhecer os próprios privilégios.
  • Criar conexões e rede de apoio.
  • Desenvolver consciência sobre um estilo de vida minimalista.
  • Curtir a vida que é de graça.
  • Reconhecer que esta é uma longa caminhada.
  • A cada desejo de consumo, perguntar se realmente preciso.
  • Consertar, trocar, estender a vida do que já tenho.
  • Cultivar trabalhos que desenvolvem autonomia.
  • Entregar valor de forma inclusiva, com consistência e generosidade.
  • Encarar a caminhada com leveza, dando pequenos passos.
  • Me livrar da necessidade de aprovação alheia.
  • Abrir mais fluxos do que acumular.

Comunicar como empresas ou pessoa?

Estamos vivendo, agora mais rapidamente, mudanças no trabalho, no emprego, em como somos vistos profissionalmente.

Vira e mexe me deparo com pessoas em dúvida, se devem se criar uma marca, uma empresa, ou investir no seu próprio nome para se posicionarem profissionalmente.

Um site com nome de empresa ou um site com o nome pessoal? Quem sabe os dois?

Não tem como acreditar numa resposta única, que valha pra todo mundo, em qualquer situação.

Mas uma coisa é fato, o panorâma do trabalho autônomo hoje vai para além de arquitetos, dentistas, advogados, designers. E deve crescer.

Pessoas multi-potenciais, que têm mais de uma profissão, trabalham em mais de um projeto ou fazem coisas difíceis de explicar estão encontrando seus espaços.

Estamos vivendo a emergência de modelos distribuídos, auto-organizados, exponenciais, peer-to-peer de trabalho.

Aliás, vida pessoal e profissional são cada vez mais uma coisa só.

E outra, em tempos de automatização, o que sobrará quando nossos trabalhos forem feitos por máquinas?

Ao meu ver, a resposta gira em torno de mais trabalho por projeto, por confiança, por relação, com autenticidade, começo, meio e fim. E menos por emprego, por currículo, por processo seletivo, cargos e com rompimentos unilaterais.

Apesar de o modelo tradicional ser muito mais difundido, é sempre uma escolha se apegar ao que está sucumbindo ou abraçar o novo.

No novo, há mais liberdade, e outro tipo de segurança. Mais mobilidade, e outro tipo de estabilidade. A segurança deixa de estar na organização, na instituição, e passa a estar distrubuída, nas relações e no legado de um profissional. A establidade tem mais a ver com confiança e apoio do que com previsibilidade.

Nesse cenário, me parece fazer muito sentido comunicar um leque de possibilidades profissionais, um conjunto em permanente construção de habilidades e valores que se pode entregar, para além do que se faz hoje. O que fiz, o que estou fazendo, o que estou aprendendo é tão, ou mais, importante do que os cargos que ocupei. E abre caminhos pro futuro.

É muito improvável constuir um posicionamento complexo dentro de uma empresa, ou através de uma marca. Porque um emprego te dá o job description, uma empresa diz o que faz. Ainda que a história construída seja ótima, ela é, em geral, restrita ao pessoal do escritório, aos clientes mais próximos, a propósitos abstratos e não-humanos. O valor do trabalho raramente extrapola os limites da empresa.

Hoje, podemos inverter o guarda-chuva. Não precisamos estar embaixo de um nome maior, uma empresa para nos proteger. Podemos colocar nossas experiências profissionais, cada projeto, empresa, parceiro, embaixo do nosso nome, nossos desejos pessoais, nossa visão de mundo.

Isso não significa que não precisamos dar nomes pros projetos, nem construir empresas. Nesse sentido, pouco muda. Tem gente que confia mais em empresa do que em gente, vai entender.

Mas a lógica de comunicação é que sofre grandes transformações. Temos agora a oportunidade de usar nossas vozes, imprimir no nosso trabalho a nossa personalidade, assinar com pessoalidade. E ainda colocar entre as coisas que a gente faz as empresas que nos ajudam a pôr no mundo o que acreditamos.

Serenidade e confiança

Nesses tempos difíceis, não gostaria de desperdiçar esse espaço com palavras que não valem a pena.

Apesar dessa sensação de impotência, a gente não tem muita escolha, a não ser manter a fé na vida.

Li várias coisas, a maioria mensagens de luto e paz. Algumas contra palavras insensíveis, absurdas ou violentas.

Provavelmente, estamos esbravejando contra uma parcela muito pequena, ridiculamente insignificante que, diante da nossa indignação, ganham nossos ouvidos.

Essas análises me chamaram atenção, da Piauí e a fonte, FGV-DAPP.

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As pessoas sensíveis e amorosas são maioria. Que nos ajudem a manter a serenidade e a confiança.

 Marielle Franco, Presente!

Marielle Franco, Presente!

"Óbvio pra você, incrível pros outros"

Escrevi centenas de vezes neste blog. Chega uma hora em que todas as ideias já parecem ter sido gastas, só me restam obviedades. Fui me alimentar e encontrei o texto do Derek Sivers, que traduzi abaixo. Até semana que vem.


Qualquer criador de qualquer coisa conhece este sentimento:

Você experimenta o trabalho inovador de alguém. É lindo, brilhante, de tirar o fôlego. Você fica atordoado.

As ideias são inesperadas e surpreendentes, perfeitas.

Você pensa, “Eu nunca teria pensado nisso. Como eles conesguem chegar nisso? Gênios!”

Depois, você conclui, “Minhas ideias são tão óbvias. Eu nunca serei criativo assim.”

Eu sinto isso frequentemente. Livros incríveis, músicas, filmes, ou até conversas incríveis. Admiro como os criadores pensam dessa forma. Sou humilde.

Mas continuo fazendo meu trabalho. Relato meus pequenos contos. Compartilho meu ponto de vista. Nada espetacular. Apenas meus pensamentos ordinários.

Um dia, me mandaram um email dizendo “Eu nunca pensaria assim. Como você chegou nisso? Genial!”

É claro que eu descordei, e expliquei por que não era nada especial.

Depois, percebi algo surpreendentemente profundo:

Todas as ideias parecem óbvias pra quem as têm.

Aposto que até John Coltrane ou Richard Feynman sentiram que tudo o que estavam fazendo ou dizendo era bastante óbvio.

Então, talvez o que é óbvio para mim é incrível para outra pessoa?

Grandes compositores muitas vezes admitem que sua canção mais bem sucedida foi uma que eles achavam que era estúpida, nem valia a pena gravar.

Nós claramente julgamos mal nossas criações. Deveríamos simplesmente lançá-las e deixar o mundo decidir.

Você está segurando algo que parece muito óbvio para compartilhar?

Não estamos na mesma

Não somos bons em perceber mudanças.

A evolução da humanidade nos fez seres extremamente adaptáveis.

Só estamos aqui, até agora, porque a gente se adapta muito bem.

Relações abusivas, ambiente inóspito, compreensão rasa, opressão, dor, sofrimento.

Seja a condição que for, a gente dá um jeito, se acostuma ao longo do tempo, incorpora na vida e seguimos.

Mas as coisas mudam. Nós também. Está tudo mudando o tempo inteiro. Nada foi sempre assim.

Se nos olharmos no espelho agora, enxergaremos uma pessoa muito diferente daquela que víamos há 10 anos atrás.

Estamos mudando o tempo inteiro. Mas não nos damos conta da mudança porque estamos imersos nela.

É como um longo filme, vai acontecendo, rolando, e quando a gente vê, acabou. É um fluxo só.

Não é como as fotos de antes e depois. Um retrato no começo, outro no fim. A transformação escancarada, comparada.

Nossa trajetória parece lenta e repetitiva se a gente não percebe as mudanças.

E não tem jeito, precisamos contrastar, lembrar como era, observar atentamente como é, sonhar com o que pode vir a ser.

Por que se a gente não percebe nossa própria transformação, caímos na falácia de que estamos sempre na mesma.

Não estamos. Inevitavelmente, estamos evoluindo, se a gente prestar atenção.

Mas esta é uma tarefa diária, em que melhoramos ao longo do tempo.

Ganhar (auto)consciência é um presente que a gente pode se dar.


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Bem escritos na janela do Braga.

"Você só precisa de uma coisa na vida"

Andy Kaufman era um artista intenso. Deixava a plateia na corda bamba entre o riso e o desconforto, a adoração e a repulsa. Seus shows se estendiam para além do palco, mesmo com as câmeras desligadas, gerando aquela dúvida. Ele é mesmo maluco assim ou está interpretando? É uma piada ou é sério? É genial ou estúpido?

Vi o documentário Jim & Andy, sobre a visceral interpretação de Jim Carrey no filme O Mundo de Andy (1999), em que ele incorpora o falecido Kaufman. Jim Carrey estudou a fundo o interpretado e não saiu do personagem Andy durante as gravações. Encarnou o cara por meses. Arrumou brigas, confundiu o elenco, deu dor de cabeça à produção (como se ela já não tivesse…), emocionou a família verdadeira de Andy. E ainda rendeu um documentário que registra um pedacinho da extensa carreira.

Andy não teve medo. Nem Jim. Ou tiveram, e seguiram mesmo assim. Foram longe demais? Eles foram profundos demais. Profundos neles mesmos. Mergulharam na vida.

Não há longe demais. Ainda que a gente acredite que “não dá, não pode, não tem como, é muito cedo, não vai dar certo, eu não consigo.” Ninguém que só tentou agradar chegou longe, nem perto.

Todos os medos vêm da nossa necessidade de sermos aceitos, admirados e amados. Queremos amigos, família, companhia, gente ao nosso redor nos dando suporte.

A dúvida que está por trás dos nossos temores é a dúvida da aceitação. Será que sou digno de ser aceito nesse mundo? Se for esquisito demais, inadequado demais, imperfeito demais, receberei respeito, cuidado e atenção das pessoas? Ou serei completamente abandonado e exluído da Terra, assim como fui expulso da teta da mãe quando desmamei?

Nunca vi alguém que se entregou à vida e à arte, como Jim e Andy, deixar de ser amado.

Não que sejam adorados por todos. Talvez, deixaram pra trás alguns amigos. Mas esses não amavam quem eram, e sim suas projeções.

Jim e Andy são aceitos, admirados e amados por muita gente. Porque são reais, autênticos, estranhos, são eles mesmos. Na aritmética, vale a pena.

Nós não vamos nos separar, nos afastar, nem sermos expulsos. Porque não há outro lugar para ir. Continuaremos para sempre tendo que conviver nesse mundo, nesse sistema solar.

E quão mais verdadeiros, profundos, autênticos, humanos, mais aceitação, respeito, amor e conexão. Todo mundo quer verdade, coragem, vulnerabilidade e entrega.

Para ser feliz, como diz Kaufman, você só precisa de uma coisa na vida.

A era da confiança, da atenção, do cuidado

Estamos vivendo o fim do networking. Ainda bem.

A gente ainda pode acreditar que fazer contatos, Linkedin e redes sociais são o caminho para o “sucesso profissional”, seja lá o que isso signifique.

Mas tudo isso é muito pouco em um mundo de abundantes e infinitas conexões.

Todo mundo está potencialmente conectado.

Então, já é mais que hora de descer um ponto de profundidade.

Cartões de visita significam tão pouco.

Branding não é suficiente.

Anúncio é quase nada.

Estamos todos cada vez mais sensíveis.

Há verdade ou uma aumentadinha?

Me apoia ou me chantageia?

É só por dinheiro ou serve ao mundo?

Estamos vivendo a era da confiança, da atenção, do cuidado.

Só há confiança quando há entrega, autenticidade e coerência.

Só há atenção quando há relevância, sentido, valor.

Só há cuidado quando há escuta, relação, empatia.

Dez dias de silêncio - Minha experiência num curso de Meditação Vipassana

Dez dias podem passar voando. Mas esses meus foram longos como um mês inteiro.

Ouvi falar de Vipassana há uns quatro anos, quando um amigo foi pra um curso de meditação, dez dias de silêncio. Me pareceu loucura, algo para fazer, por mim, quando tivesse coragem.

Os benefícios da meditação bateram à minha porta frequentemente nos últimos tempos. Mindfulness, atenção plena, felicidade genuína, presença. Tudo muito bonito, mas distante. Até que me bateu. Outro amigo comentou que ia rolar a oportunidade. Me inscrevi sem pensar muito, fiquei na lista de espera, aconteceram desistências e eu fui.

Em dez dias sem falar, sem ler, sem escrever, sem qualquer contato com o mundo externo, ouvindo apenas alguns cânticos, instruções de meditação e palestras do professor Goenka, é possível pensar muito e em muita coisa. Mesmo que o objetivo principal fosse observar as sensações do corpo e deixar os pensamentos irem embora naturalmente.

Sem interrupções, distrações, estímulos, as ideias ficam largas e profundas. Nunca tinha me dado uma oportunidade tão rica quanto essa para me escutar, me observar e me sentir conectado.

Milhões de pensamentos me vieram e se foram. Lembranças da escola, a escalação do Palmeiras de 99, pessoas com quem me relacionei, brigas em que me envolvi, desejos profissionais, o passado da minha família, pessoas que morreram, o futuro da humanidade, a primeira coisa que vou fazer quando sair daqui. Tudo veio e, em algum momento, foi embora.

Ficar em silêncio não foi um problema pra mim. Gosto da quietude, da paz que me traz, da chance de prestar atenção nas coisas que não costumo observar. Entre elas, eu mesmo. Devo ter sentido vontade de conversar depois de uma semana. Mesmo que o grande medo das pessoas costume ser ficar sem falar, na minha experiência, essa foi a parte fácil.

Eram 110 homens ali, cada um movido por motivações mil, todos desenvolvendo, pouco a pouco, um sentido de comunidade e cumplicidade. Fomos orientados a não nos comunicar. Nem por olhares, nem gestos. Mas do quarto dia em diante senti que, de alguma forma, a gente estava junto nessa, estavamos unidos pelo Nobre Silêncio.

Esse texto não pode explicar a experiência. Mas, provavelmente, se você um dia viver a experiência, quem sabe esse texto fará mais sentido.

Por que Vipassana é sobre ver as coisas como elas realmente são. Com seus próprios olhos, sua própria vivência. Não há possibilidade alguma de viver pelo relato de outrem, cada experiência é absolutamente única e efêmera. Como na vida. A gente tem que caminhar o caminho com nossos pés. Não adianta alguém contar como o caminho é pra gente chegar em um lugar.

Tanto que pelo menos um terço dos meditadores estava lá pela segunda, terceira ou décima vez, fazendo o mesmo curso e vivendo coisas completamente diferentes. Em vários momentos, pensei “nunca mais eu volto aqui”, mas hoje, com a sabedoria que a distância dá, eu certamente voltarei a fazer silêncio por dez dias.

Senti, pela primeira vez, que meditei de verdade, profundamente. Já havia praticado algumas várias vezes na vida, sob orientação, com técnica de respiração, respirando naturalmente, com música, em silêncio, depois da Yoga, e até num curso de dois dias que fiz na Tailândia. Mas nada disso se compara à intensidade de aprendizados que tive nesse curso de meditação Vipassana.

É importante dizer que este foi um curso, tem uma técnica e, se você for, aprende ela. Não tem caráter religioso. Frisam que cristãos, muçulmanos, hindus, judeus, budistas, ateus, todos são bem-vindos e não precisam abandonar suas crenças.

Esta edição foi realizada num espaço católico alugado, todas as imagens de Jesus Cristo, crucifixos e a Santa Ceia do refeitório foram cobertos ou temporariamente retirados. Nenhuma distração, nenhuma imagem, nenhuma divindade.

A rotina era exigente. Meditações na sala de meditação, algumas podem ser no quarto, das 4:30 às 21:00. Em geral, sessões de uma hora ou uma hora e meia que totalizam dez por dia. Se você seguir à risca, serão 100 horas de meditação.

No começo da tarde, recebemos novas instruções. Gradualmente, a técnica é aprofundada. Começamos observando apenas a respiração natural, o ar que, assim como entra, sai. Terminamos observando as sensações mais sutis, por todo o corpo, e compartilhando liberdade com todos os seres.

Três refeições, café da manhã às 6:30, almoço às 11:00 e duas frutas às 17:00. Pros alunos antigos, que já completaram o curso pelo menos uma vez, depois do almoço, só limonada. Meditar de barriga cheia é mais difícil. Em alguns momentos, senti cada movimento do intestino e o samba que a bile tocava depois do rango.

Pela noite, a palestra do professor Goenka. O curso de Vipassana foi a experiência de Ensino à Distância mais rica que já tive. Todo ele é dado por gravações integrais de um curso ministrado pelo professor de Mianmar. Consta que a antiga Birmânia preservou a forma original de Vipassana através dos milênios. Depois da sua voz em inglês com sotaque indiano, a tradução em português com sotaque carioca. Histórias da Índia, ensinamentos de Buda, o Dhamma, tudo muito didático.

Goenka começou a ensinar a técnica em 1969. Era um empresário cheio de dores de cabeça, literalmente, e foi ensinado por Sayagyi U Ba Khin a observar muito mais do que isso. No site, você pode ler que “Satya Narayan Goenka respirou pela última vez em setembro de 2013, com 89 anos.” Suas gravações continuam relevantes e atemporais. Agora, traduzidas em dezenas de línguas permitem que todo curso tenha exatamente o mesmo conteúdo em qualquer lugar do mundo.

A interface humana que representa o conhecimento foi dada por dois professores. No meu caso, era um casal que se sentava de frente pra turma e davam o play na gravação. Meditavam por horas como todos os estudantes. Só que, naturalmente, mais equânimes, digamos.

Nos intervalos após o almoço, era possível agendar uma breve conversa com um dos professores. Para tirar dúvidas sobre a técnica ou botar uma inquietude pra fora. No fim do dia, uma pequena fila se formava na sala de meditação para uma discreta pergunta em público, com resposta baixinha, mas que pode ser ouvida por quem estiver bem perto. Sou um cara comedido, perguntei uma vez só.

Tudo foi organizado, executado e cozido pelos voluntários. Homens e mulheres que já completaram o curso podem servir nas edições seguintes. Graças a eles, não precisamos falar nada, tudo já está previamente definido. Seu lugar de comer, meditar e dormir, seus pertences estão bem guardados e sua comida está pronta. Não deve ser nada fácil cozinhar pra 110 homens. Sou muito grato a eles.

Não teve valor de inscrição, nem atividades comerciais. Minha carteira ficou guardada todo esse tempo, inútil. Todos os cursos são realizados com as doações de alunos antigos. Depois de completar o curso, você está habilitado a doar. Isso faz os cursos Vipassana serem extremamente inclusivos e movidos pela generosidade de quem se beneficia pela técnica. Coerência.

Nos intervalos, não se tem muito o que fazer. Alguns alongam, sentam na grama, penduram toalhas no varal, sentam de novo, esperam. Tudo em silêncio. Um clima estranho de Big Brother misturado manicômio. Mas aparentemente todo mundo está muito consciente e tranquilo.

Para não ficar sem exercícios, inventei um circuito de caminhada pelo pátio. Durava dois minutos, contei por um dos três relógios de parede. Fazia dez, vinte voltas em círculo. Como andei.

Meditava, comia, pensava, ia ao banheiro, andava, tomava banho e dormia. Era isso. Era tudo isso.

O quarto era justo. Duas camas de solteiro, um banheiro com chuveiro a gás, piso de taco, janela pro mato. Não tive a chance de conversar com o cara que dormiu ao meu lado.

- Opa.
- Op.
- Se quiser, pode pôr sua toalha aqui.
- Capaz.

Deve ser gaúcho. Ele saiu, fomos pro refeitório onde recebemos instruções iniciais e o silêncio começou a valer logo em seguida.

Ao longo dos dias, descobri que seu nome era Matheus só porque estava escrito na fita crepe colada em seu copo.

O guri novo que sentava na minha diagonal na hora do almoço sempre comia de colher sua montanhazinha. No terceiro dia, não apareceu. Nem no quarto. E aí eu entendi.

Pensei em desistir algumas vezes. Mas em nenhuma me levei a sério. Meu ego falou mais alto. Ou mais baixo. Pra essas coisas, sou durão, persistente e até competitivo. Quando esse tipo de pensamento vinha, eu meditava.

O cara que sentava atrás de mim parecia um sábio mestre. Magro, discreto, estava sempre em posição de lótus, de olhos fechados, enquanto eu ainda ajeitava minhas duas humildes almofadas.

Quando acabava a sessão, era uma orquestra de suspiros, respirações mais profundas, alguns gemidos, estaladas, roupa roçando, nenhuma palavra. Meu vizinho de trás, imóvel, continuava meditando.

No oitavo dia, caminhava meu circuito de dois minutos depois do almoço. Ele estava no pátio carregando suas malas. Sentou como se estivesse esperando alguém. Completei mais uma volta, ele continuava lá. Cinco voltas, e nada. Acho que ele estava meditando. Talvez se certificando de que estava fazendo a coisa certa pra ele. Ou deixando os pensamentos sobre a notícia urgente do mundo externo que acabara de receber irem embora. Vai saber.

Ao longo dos dias, percebi que algumas marcações de lugares da sala de meditação recebiam etiquetas escritas à mão. Cada tipo de ausência era uma sigla. PRD, DNT, FGU. Vi uns dois que foram meditar encostados na parede. Outro ficou doente. Atrás de mim, um FGU de canetão azul, fugiu.

Sono, fome, solidão, impaciência, saudades, desejos, dores. Devem existir muitos motivos para desistir. Pra mim, o que mais pegou foram as dores. Joelhos, pernas, costas. Não havia alongamento que desse conta. Devia ter feito isso ao longo de anos e anos da vida.

Sentar por muitas horas como índio dói pra um ocidental. Prometi pra mim mesmo praticar mais exercícios e sentar mais no chão saindo dali. Mas de alguma forma, eu sabia que ia passar, que valeria a pena.

Vipassana não é sobre sofrimento, nem penitência. Mas desconfortos são comuns.

Vipassana não é sobre êxtase, nem relaxamento. Mas sensações prazerosas são comuns.

A premissa é que todas as sensações, as que despertam avidez ou aversão, não importa, têm uma única característica. A característica da impermanência. Assim como vieram, elas se vão. Por isso, nos mantemos equânimes e conscientes.

Matheus não era de acordar cedo. Eu também não sou. Nos cinco primeiros dias acordei com o badalo das 4 da manhã e antes das 4 e meia já estava meditando. No quinto dia, estava acabado. Mal consegui meditar pela manhã, sugado pelo sono. No sexto dia, ignorei o sino e só fui dar as caras no café da manhã, às 6:30. No sétimo, fui pra meditação da madrugada, aguentei por meia hora e voltei pra cama. Vocês não imaginam o esforço que é pra um notívago acordar na hora que poderia estar indo dormir.

Na maior parte desses dias, o Matheus ficou meditando - ou dormindo - no quarto. No sexto dia, entrei no quarto e ele arrumava as malas. Pensei que ia ficar com o quarto só pra mim.

Mas na tarde daquele dia ele estava lá, ocupando seu lugar ao lado de uma centena de homens silenciosos. Ele desistiu de desistir. Ou só estava arrumando as roupas.

Eu mesmo fiz isso umas duas vezes. Na contagem regressiva dos últimos quatro dias, empilhei uma cueca, uma camiseta e um par de meias pra cada data e os posicionei em fila milimetricamente.

Meu primeiro dia foi de descoberta. O segundo, muito difícil, “como vou aguentar ficar aqui mais oito?”. O terceiro, também. A técnica avançava a passos lentos pra minha ansiedade.

Inicialmente, observamos nossa própria respiração natural. Se fosse forte, era forte. Se fosse fraca, era fraca. Quando fosse pela narina direita, assim era. E também pela esquerda, às vezes por ambas. Assim como o ar entrava, saia. Era o que era.

Enquanto conseguia observar as sensações, calor, frio, o ar entrando, saindo, um leve pulsar, uma coceira, uma sutil vibração, estava tudo bem. Quando não conseguia, a mente vinha com ideias, sugestões, análises e críticas.

Mas no quarto dia foi como se tivesse tomado a pílula vermelha do Morpheus. Depois de afiar a mente observando cada sensação sutil em um ponto específico, abaixo das narinas, acima do lábio superior, fomos orientados pelo mestre Goenka a mover a atenção por cada parte do corpo. Apenas observando o que viesse, fosse o que fosse.

Do topo da cabeça a cada pedacinho da face, testa, nariz, maçãs do rosto, bochechas, boca, queixo. Atrás da cabeça, na nuca. Em cada um dos ombros, braços, antebraços, mãos e dedos. Pelo tronco e em cada parte dele, pela barriga. As costas, cada pedacinho da perna.

Neste momento, já estava consciente das sensações grosseiras, como o toque do tecido na pele, e de algumas sensações sutis, como um constante pulsar, uma vibração silenciosa em algumas partes do corpo.

Foi aí que a ficha caiu pelas palavras do mestre. Todas as sensações são efêmeras, inconstantes. Vêm e vão. De que adiantaria me apegar às prazerosas se elas vão embora? De que adiantaria sofrer pelas desgostosas se elas são tão passageiras? Seja qual for a sensação, essa é a lei da natureza. Impermanência. Mudança.

Através de Vipassana, pude experienciar pela moldura do corpo a constante vibração da vida - e também da morte. Por que tudo está, ao mesmo tempo, agora, se transformando, mudando, nascendo e desaparecendo. Não é fantástico?

Já tinha entendido esse conceito racionalmente. Escutei, li. Mas só depois de viver a experiência compreendi como observar conscientemente a impermanência me livra dos sofrimentos. Equanimidade.

Do quinto dia em diante, mais Vipassana, e o fluxo de sensações uniformes pelo corpo ganhou liberdade. Movi a atenção por partes e partes do corpo. Por fora e por dentro. Em alguns momentos, senti o pulsar do coração em outros locais, um intenso fluxo na testa, uma desintegração com o ambiente, uma dissolução do “eu”.

Tudo de forma serena, imóvel, desapegado, apenas observando, sem magia alguma.

No sétimo dia, estava empolgado. Voltei pro quarto depois de uma sessão, abri a porta com cuidado e me assustei. A cama do Matheus estava sem lençol. Suas malas tinham ido embora. Ele tinha fugido.

Entrei no banheiro úmido por conta do banho dele, recém tomado. No espelho, desenhado com o dedo sobre o vapor, uma palavra grifada: “Gratidão”.

Ri como nunca tinha feito no curso. Gargalhei. Ele me surpreendeu. Impermanência. Não conversamos nada, e por isso deixou seu voto silencioso. Eu que agradeço, Matheus.

Impermanência

Tudo, absolutamente tudo, está mudando agora.

A única certeza é a impermanência.

Esse emprego fixo, essa reputação, esse relacionamento, esse dedo, essa tela.

Tudo está se transformando e, em algum momento, cedo ou tarde, nada disso restará.

Porque esta é a natureza da vida. Enquanto há vida, há um borbulhar de mudança, uma explosão eterna de transformações, uma paulêra de átomos e elétrons se chocando a cada milissegundo.

Cada substância que hoje forma nosso corpo um dia já foi terra, árvore, rio, cachorro, besouro, micróbio e cocô. E todo esse corpitcho continuará morrendo para voltar a ser hiena, cobertor, chá e pipoca.

Por isso, todo problema, pequeno ou grande, essa segunda que está começando, essas tarefas, esses boletos, tudo vai embora, logo ou daqui a pouco. Assim como vieram, partirão. De algum jeito, tudo está se transformando.

Assim como todo pensamento, pequeno ou grande, essa certeza toda, essas dúvidas todas, essa insegurança, tudo vai embora, logo ou daqui a pouco. Assim como vieram, partirão. De algum jeito, tudo está se desfazendo.

Ao mesmo tempo, todo sucesso também, pequeno ou grande, árduo ou fácil, essas glórias, esse desejo, esse reconhecimento, tudo vai embora. Assim como vieram, partirão, logo ou daqui a pouco. De algum jeito, tudo é efêmero.

Por isso, amigos, não há por quê sofrermos.

Entendendo que tudo muda, aceitamos o que há e vivemos com o que se é, agora.

Micro-progressos e a magia de apenas começar

Estou num retiro de meditação Vipassana, sem internet. Este é um texto de Tim Herera, traduzido e pré-agendado. Volto semana que vem.

Nunca fui muito bom com prazos.

É uma falha da qual estou profundamente ciente e tento ativamente enfrentar. Mas, apesar dos meus melhores esforços, ela está sempre persistindo em segundo plano, como um pequeno e insaciável gremlin que devora minha produtividade. É definitivamente uma das minhas principais questões.

No entanto, entre os inúmeros artigos, livros e estratégias de lifehackings sobre produtividade que eu já li (ou escrevi!), o único "truque" que funcionou verdadeira e consistentemente é o mais simples e também o mais difícil de dominar: apenas começar.

Aqui entra o micro-progresso.

Perdoem o termo chamariz, mas a ideia é a seguinte: Para qualquer tarefa que você precise completar, divida-a nas mais pequenas unidades possíveis de progresso e ataque-as uma por vez.

Digamos que você é um editor e tem uma newsletter semanal para escrever. Ao invés de abordar essa tarefa como "Escreva a newsletter da segunda-feira", desmembre os primeiros passos que você precisa tomar e continue dividindo-os em minúsculos e facilmente alcançáveis micro-objetivos, então comemore cada realização. Passo 1: abra um Google Doc. Passo 2: nomeie o Google Doc. Passo 3: Escreva uma única frase. E assim por diante.

Esta é uma idéia que recebeu muitos nomes - a regra de 5 minutos, a regra de 2 minutos e a regra de 1 minuto, para citar alguns - mas essas técnicas levam só até uma tarefa. Minha expansão favorita deste conceito está neste post do James Clea.

Nele, ele usa as leis do movimento de Newton como analogias para a produtividade. Por exemplo, regra n. ° 1: "Os objetos em movimento tendem a permanecer em movimento. Encontre um caminho para começar em menos de dois minutos."

O que é tão impressionante sobre a aplicação desta lei de movimento à produtividade é que, uma vez que você incorpore esta mentalidade e passe a pensar desta forma - eu comecei a ser produtivo, então eu continuarei sendo produtivo - você alcança esses micro-objetivos e como consequência tem uma taxa de aumento exponencial de produtividade sem sequer perceber. (E antes que se dê conta, você terminou a newsletter.)

Não é apenas um termo de efeito o tão chamado lifehacking: estudos mostram que você pode enganar seu cérebro para aumentar os níveis de dopamina estabelecendo e alcançando, você adivinhou, micro metas.

Indo ainda mais longe, sucesso gera sucesso. Em um artigo de 2011 da Harvard Business Review, os pesquisadores relataram que  "progresso cotidiano e incremental pode aumentar o engajamento das pessoas no trabalho e sua felicidade ao longo do dia". Isso significa que, uma vez que você começa o PowerPoint que temia, mesmo que tudo o que você tenha feito seja lhe dar um nome, o micro-progresso pode continuar a se construir sobre si mesmo até você terminar o último slide.

Mas todo esse sucesso tem que começar em algum lugar.
Então feche este post agora e comece.

Estou indo para um retiro de meditação

Serão dez dias de prática e silêncio neste curso Vipassana de Meditação.

Eu poderia escrever aqui tudo que estou esperando. O que desejo, o que imagino e o que me fez ir em direção a esta experiência. Mas seria extremamente contraditório, já que a história toda é sobre viver o momento presente, respirar, ver as coisas como são e não alimentar projeções.

Poderia escrever que não estou criando expectativas. Mas seria mentira, já que essa é nossa condição, como seres pensantes. Ainda que esteja me sentindo tranquilo e evitando alimentar esse tipo de pensamento, estou aqui escrevendo sobre uma experiência que vou viver.

Poderia tentar puxar outro assunto. Mas não seria verdadeiro com você, nem comigo. Não há temática mais quente em mim agora.

Na semana que vem, teremos algum texto já escrito e agendado, já que serão dez dias sem escrever, sem ler, sem internet.

Na outra semana, talvez traga algo novo, já que terei retornado após dez dias de uma viagem dentro do universo que há em mim.

Seguimos, até lá.

Faz teu site, tua casa na internet

“Não pense no seu site como uma máquina de auto-promoção, pense nele como uma máquina de auto-invenção.” - Austin Kleon.

Tenho uma amiga que tirou sarro de mim quando comecei meu site pessoal.

Fazer isso era coisa de quem quer aparecer, se promover.

Era arrogante, sem sentido, porque site é coisa de empresa, cachorro grande.

Ter um email larusso@larusso.com.br, então, era coisa institucionalizada demais, sem humanidade.

Mas as coisas mudaram.

Pra mim, um site pessoal é como se fosse nossa casa na Internet.

Um lugar pra ser encontrado, para experimentar e me posicionar.

É um jeito das pessoas saberem o que está acontecendo, o que estou fazendo ou desejando fazer.

É, principalmente, um lugar livre pra minha linguagem, minha opinião, minhas tentativas de me expressar.

Sites são uma forma de contar história, criar reputação e, ao longo do tempo, proximidade, conexão e confiança.

Este é um lugar para além das plataformas, das mídias sociais.

O Orkut já foi a coisa mais legal da intenet e acabou. O ICQ, o MSN Messenger, o mIRC, o My Space, o Snapchat viraram história.

Chegará o fim do Facebook, do Instagram, do Medium, do Youtube e do Linkedin (que este acabe antes).

Mas a gente fica.

O nosso nome não vai mudar tão cedo.

E ninguém vai mexer nesse algoritmo sem a nossa autorização.

Ainda que a gente empreenda uma marca, tenha um emprego, ou se esconda atrás de uma instituição, um site pessoal é o ambiente para todas as histórias que aconteceram ou acontecerão.

Há nove anos registrei o domínio larusso.com.br.

No começo, o endereço te mandava pro meu portfólio como designer e publicitário.

Depois, foi um blog que registrou meu tempo de transição, entre a demissão e o primeiro empreendimento.

Foi quando empreendi Nós.vc, Estaleiro Liberdade, Unlock e outras coisas mais.

Parei de blogar e o site virou um portfolio dos projetos que toquei.

Há três anos, tirei tudo do ar e veio este blog.

Recomecei com um post e só.

Sem “Sobre”, sem fotinho, sem nada. Só o primeiro texto.

Veio o segundo, o terceiro, centenas deles, newsletter, livro, curso, alguns emails, convites, clientes, leitores e amigos.

Ter um site é uma oportunidade pra gente registrar nossas transformações.

Em 2017, fiz alguns sites de pessoas incríveis como o Amuri, o Jader e o Alemão pelo Hell Yeah.

Se eu puder te sugerir, aproveita esse 2018 para fazer o teu.

Não precisa começar completo, nem bonito.

Tente fazer com o que você consegue. Seja Wordpress, Wix, Blogger. Tenho usado Squarespace.

Este é certamente um baita investimento para fazer na vida. É aquela coisa, a gente cutuca o mundo e ele nos cutuca de volta.

Não leia este texto. Vá dar uma volta.

Acabei de voltar de um passeio indescritível de Stand Up Paddle na Lagoa do Peri, em Florianópolis.

Teve trilha, cachoeira, amigos, picnic, quedas e risadas.

Meu corpo dói, alguns músculos esquecidos foram acordados, o cansaço atrapalha a digitação.

Mas estou muito feliz. Hoje é um dia inesquecível, em que eu vivi.

Como é bom fazer outra coisa. Outra coisa que não é o de sempre. Outra coisa que não envolva um retângulo brilhoso, seja TV, PC ou mobile.

Eu sei que você, que está aí do outro lado lendo, deve estar imerso no próximo email, na tarefa a ser feita, no trabalho que começa, no tempo perdido no celular.

Estar nesse lugar é cômodo, previsível, inebriante - não vai sair nada daí. Jamais guardaremos na memória o dia que passamos na internet.

Sair desse lugar é difícil, improvável, misterioso - e pode nos dar um banho de vida. Pra sempre guardaremos na memória o dia em que tomamos banho de cachoeira.

Quando foi a última vez que a gente fez algo novo pela primeira vez?

Quando foi a última vez que a gente se encontrou com os amigos para brincar?

Quando foi a última vez que a gente leu um textão, problematizou, debateu, convenceu e saiu feliz dessa, apesar da dor nas juntas?

Precisamos ver menos Youtube e sair mais de casa para uma longa caminhada e olhar as mesmas coisas por outros ângulos.

Precisamos debater menos pelo Whatsapp e jogar mais conversa fora, cara a cara e conversar profundidades com olho no olho.

Precisamos curtir menos fotos no Instagram e subir mais em árvores, fazer elogios sinceros e convites ousados.

A gente vai entrando nessas bolhas de felicidade de instagram, zueiras de twitter, reclamações de facebook e deixa de viver a vida, né?

Desculpe, Zuckerberg, mas não tem como curtir foto do passeio, porque eu não vou publicar. Mas pode ficar tranquilo, porque eu curti o rolê demais.