Esse banco não foi feito pra mim

Recebi por email um convite de um grande banco para palestrar. Decidi publicar meu email de resposta aqui. Este é meu cantinho pra compartilhar meus aprendizados. O convite recebido e a recusa enviada foram muito importantes pra mim. Ajudaram a clarear em mim mesmo as minhas escolhas. Sou grato por isso. Substituí aqui os nomes do banco e das pessoas que me convidaram.

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Querida Milena e Samanta!

Eu agradeço muito a lembrança e o convite de vocês. Mas eu não aceito. Vou me esforçar aqui pra explicar o porquê. Transparência é uma tendência, né?

Em primeiro lugar, quero deixar claro: eu não tenho absolutamente nada contra vocês. Não é pessoal. Pelo contrário. Tenho carinho por você, Samanta! E tenho certeza de que mesmo sem conhecer você, Milena, também és uma pessoa fantástica. Apostaria todas as fichas que vocês querem fazer o melhor pra que todo mundo seja feliz nesse planeta.

Não tenho nada contra as escolhas de vocês. Nem tenho a pretensão de convencê-las de nada. Quero apenas me posicionar com a maior clareza possível. Lembrem-se disso, minha posição não é contra vocês. É contra, em específico, o modelo econômico que o Grande Banco sustenta, e pelo qual o Grande Banco é sustentado. A minha posição é a favor, em específico, de um outro modelo econômico que tenho experimentado. Nessa caminhada, procuro a cada dia fazer escolhas mais conscientes pelo que consumo, com quem e pra quem trabalho.

Quero evitar ao máximo minha relação com qualquer instituição que centraliza poder econômico e tem consequências sistêmicas devastadoras, pra todo mundo. Não vejo sentido em contribuir com uma organização que acumula lucros nas casas das dezenas de bilhões de reais ao ano, em um dos países com maior desigualdade financeira do mundo.

Estamos todos conectados, vivemos em uma grande rede (como vocês devem ter visto no Trend Report que nos levou a essa troca de emails). Por outro lado, eu acredito que o acúmulo sem limites é uma das estratégias que mais nos desconecta, nos afasta, nos leva a mais separação, exploração, medo. Não vejo sentido em contribuir, me associar ou dedicar minhas energias a quem está numa corrida louca pelo acúmulo, enquanto muita gente não tem acesso nem ao seu alimento diário. Não desejo contribuir com instituições que se recusam a trabalhar, de fato, de forma colaborativa, amorosa, empática.

Assim como vocês, eu também desejo promover o desenvolvimento econômico. Mas as minhas estratégias são bem diferentes. Prefiro preservar a vida, a minha e de todos. Porque a minha vida é diretamente conectada a outras vidas. Prefiro fazer negócios "como se as pessoas importassem", de verdade. Não quero viver como se fosse preciso alguém perder pra que eu possa ganhar. Ganhar é indispensável pra mim, assim como é indispensável pra mim que todo mundo ganhe. 

Busco a cada dia fazer pequenos ajustes nas minhas escolhas, por mais coerência. Prefiro dedicar minha energia e tempo em projetos que tenham significado pra mim. Que sejam simples e poderosos, que permitam distribuição de poder, que permitam estabelecer relações ganha-ganha com mais consciência e cuidado por todos. Tenho escolhido trabalhos que emergem das pessoas, de seus corações, em detrimento de projetos que adotam como opção o acúmulo e manutenção de poder sem considerar o outro tanto assim. Ou, ainda, recuso projetos que se fantasiam de uma coisa, buscando outra.

Eu nem sei se o banco estaria disposto a pagar pela minha participação. De qualquer forma, é com muita felicidade que eu digo: não me importa nem a quantidade de dinheiro, não quero jogar esse jogo. Qualquer valor não faz diferença ao banco e só sustenta uma busca incansável por um dinheiro sem sentido, que justifica mais ações irresponsáveis. Pra mim, negar qualquer trabalho com quem vai contra os meus princípios é uma forma de não compactuar com a manutenção desse jeito desleal de fazer "desenvolvimento econômico". E, ao mesmo tempo, reforçar a fé no meu trabalho.

Vocês podem argumentar que é justamente essa visão diferente que buscam em mim. Pra aprenderem, melhorarem, se transformarem. Podem dizer que o banco já faz várias ações sociais, culturais, talvez ambientais. Essa possibilidade é muito bonita e solidária, de verdade. Porém, não tenho a pretensão de mudar essa organização na posição em que estamos. Não tenho fé na reforma profunda de uma instituição hierárquica de baixo pra cima. O banco é modelado pra se blindar de mudanças profundas. Tem toda uma cadeia de comando e controle para que grandes decisões, que realmente têm poder de mudar os rumos da instituição, passem por pouquíssimas cabeças e corações. 

Banco é cofre. E o que eu faço tem a ver com abrir portas. Não foi feito pra mim.

Por isso, só me envolveria com uma instituição desse porte se seus líderes mais poderosos estivessem publicamente e conscientemente dispostos a se vulnerabilizarem para dissolverem seu poder centralizado com responsabilidade. Ouso dizer que a sensação deles de segurança, e até mesmo poder, seria mais leve e sentida se topassem se jogar nessa com amor.

Vejam bem, estou colocando a minha posição pessoal, e trazendo pra vocês a minha escolha. Eu não espero que vocês, ou outras pessoas, façam a mesma escolha que eu - a menos que isso faça sentido pra vocês ou pra elas. Se trabalhar pro Grande Banco não é um problema pra alguém, tudo bem. Se vocês têm seus motivos pra isso, eu realmente aceito eles.

Eu não tenho dúvidas de que vocês e todo mundo que vocês podem tocar são pessoas incríveis, maravilhosas. Estou certo de que que o Grande Banco realmente pode alcançá-las, e até ajudá-las, de algum jeito.

Mas tenho percebido que eu também posso contribuir com meus projetos. Em menor escala, é verdade. Mas isso não é um problema pra mim. Estou satisfeito em me conectar com menos pessoas, mas com muita profundidade.

O melhor é que não estou sozinho. Tem muita gente engajada nessa. Mesmo que eu deixe de me relacionar com profundidade com as pessoas que querem trabalhar, viver e se relacionar de outro jeito, há um mar de pessoas que, como eu, estão fazendo essa escolha de vida. Todos os dias. É com elas que eu quero trabalhar.

Muito grato por lerem, beijos!