Ela matou um rio. E eu também.

Ficamos sabendo da tragédia do Rio Doce dias depois do acontecido. Estávamos com acesso restrito à Internet, na fazenda Pun Pun  em Chiang Mai, na Tailândia. Enquanto plantávamos o que comíamos, um crime de impacto incalculável acontecia. Essa (des)sincronia nos fez questionar ainda mais nossa responsabilidade sobre os rumos que estamos tomando.

A Mari é minha companheira de vida. Estávamos juntos na fazenda Pun Pun experimentando, encarando nossos medos e vivendo um pouco das transformações que queremos pras nossas vidas.

Todos os dias publico aqui. E quase todos os dias peço a ela uma opinião, um palpite, uma pauta. Mas em geral, este é um trabalho solitário. Tem sido ainda mais desafiador escrever viajando. Na noite passada, a Mari publicou no blog do Roupa Livre sobre nossa responsabilidade sobre Mariana (e, ao meu ver, também Paris, Síria, Osasco, Tokio, ou qualquer lugar). Hoje, então, o texto é dela, que colocou em palavras o que eu também tenho questionado.

O texto original está aqui, no blog do Roupa Livre.


Depois de 10 dias praticamente offline, experimentando viver em mais equilíbrio com a natureza na Fazenda Pun Pun, sou recebida de volta ao mundo on-line com a triste notícia sobre o Rio Doce. Voltar e saber da tragédia que aconteceu em Mariana, só fez aumentar em mim um sentido de urgência em assumir mais responsabilidade sobre o impacto da produção do que eu consumo e buscar mudar ainda mais os meus hábitos. 

Afinal, foram os carros, os aviões, as construções, as roupas, as comidas e tudo mais que faz parte do meu estilo de vida (e provavelmente do seu também) que criou um mercado gigantesco pros minérios de ferro, do qual hoje somos basicamente dependentes em todas as nossas tarefas diárias. Para tudo que é industrializado, ou que esteja minimamente relacionado à indústria, o ferro serve como matéria prima básica.

Por causa da produção deste material em uma escala crescente e gigantesca é que um rio, e toda a vida que ele navegava, se perdeu em Minas Gerais. A necessidade de crescer vorazmente, de aumentar, de fazer mais, de só enxergar saída em seguir extraindo e escarafunchando o planeta até o esgotamento traz muito mais perdas do que ganhos. Em nome do que julga-se ser essencial, destruímos o que realmente importa.

“Quantos de nós trabalham para aumentar os recursos da terra? 99% trabalham somente para desperdiçar. Não estamos cuidamos dos recursos, só gastamos. Tudo em nome de produzir um papel a qual demos o nome de dinheiro. Mas não dá pra comer dinheiro, não dá pra respirar dinheiro. A gente precisa é de comida, ar e água.” Jon Jandai - fundador da Fazenda Pun Pun 

Acreditamos que fazer mais é a nossa única opção para sobreviver, mas não é! Passei os últimos dias vendo na prática e aprendendo diversas técnicas para uma vida mais auto suficiente, cuidando da minha água, dos meus rejeitos, da minha comida e cuidados pessoais. Posso dizer que tem sim jeitos incríveis, fáceis e divertidos de viver deixando menos rastros negativos pelo mundo. Pretendo compartilhar tudo por aqui aos pouquinhos. Mas já adianto que fazer qualquer coisa com as nossas próprias mãos (ou pés) é o melhor jeito de ter noção do que está envolvido no processo. 

Aprendendo a fazer tijolos de lama na Fazenda Pun Pun. Esse mesmo tipo de material cobriu Rio Doce e é forte o suficiente para construções que duram por centenas de anos. Sacou o tamanho do estrago?

Aprendendo a fazer tijolos de lama na Fazenda Pun Pun. Esse mesmo tipo de material cobriu Rio Doce e é forte o suficiente para construções que duram por centenas de anos. Sacou o tamanho do estrago?

É óbvio que a Samarco tem que assumir (de verdade) a sua responsabilidade. Mas nem todo dinheiro do mundo vai reconstituir um rio e toda a vida que existia ali. Nem todo o dinheiro do mundo vai devolver a vida de quem se foi e nem reparar os danos às outras milhares que serão afetadas pelo tamanho desastre causado pelo próprio dinheiro. 

Pelo que eu li, as atividades da empresa estão suspensas na região. Porém, provavelmente outras minas estão sendo sobrecarregadas neste momento para a produção não cair. Fala-se em como construir barragens mais fortes e em mudar o processo de beneficiamento do minério, mas nunca na possibilidade de buscar reduzir o ritmo.

Pra quem acompanha o Roupa Livre, já deu pra sacar que a gente busca refletir e propor essa diminuição do ritmo da produção das roupas criando alternativas ao consumo tradicional. Mas esse é só um dos jeitos de começar a puxar o fiozinho da questão. Em geral, quando começamos a prestar atenção no que está envolvido com qualquer uma das coisas que nos rodeia diariamente é um caminho sem volta. Tomara que seja um caminho que nos leve a, quem sabe num futuro próximo, sermos mais culpados pela recuperação do que pela morte dos nossos rios.

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Para ajudar de alguma forma às vítimas da tragédia em Mariana: Saiba mais aquiaqui eaqui.

-- Post escrito com carinho, e uma tristeza, por Mari Pelli.