Estou engatinhando em um novo mundo

Estou indo, hoje, passar dez dias no Pun Pun Farm, uma pequena fazenda orgânica, um centro de aprendizagem em auto-suficiência, em Chiang Mai, na Tailândia.

Descobri este lugar, magicamente, alguns meses depois de ter comprado passagens. Farei, ao lado da minha amada Mari Pelli, um curso chamado Eat Well, Live Well. Comer bem, morar bem. Aprenderemos experimentando. Vamos plantar, colher, cozinhar e construir. Essas coisas que dão medo, porque parecem bicho-grilo demais, hippie demais, viajandão demais.

Nasci na cidade, fui pra escola e aprendi a trabalhar. Já acreditei que o mato era coisa de bicho do mato. Sujo, caipira, tosco. Já acreditei que a ciência poderia explicar o mundo e resolver todos os nossos problemas. Já fiz mil planos para ganhar muito dinheiro e parar de trabalhar logo. Executei pouquíssimos. Já acreditei em carreira, poder e aposentadoria. Mas fui percebendo que isso tudo me tornava menos livre, com menos autonomia e mais desconectado das pessoas e das coisas que amo.

Nos últimos anos, eu sofri, me demiti, mudei completamente de vida, de cidades, de crenças. Empreendi alguns negócios e a minha própria vida. Revi minha relação com o trabalho, com minha arte e com as pessoas que me cercam.

Agora, sinto que estou engatinhando em um novo mundo. E isso me enche de medo. Estou me dando conta de que sou um animal criado em cativeiro, que sempre estive preso. E não sei sobreviver livremente.

Não sei de onde minha comida vem, não sei como cultivá-la, nem como respeitá-la. Estou amarrado, 100% dependente do que produzem, processam e cozinham pra mim.

Se a Sabesp não limpar minha água, eu fico sem. Se deixar de pagar a energia elétrica, me desconecto do mundo.

É mais fácil eu entrar num financiamento da Caixa, trabalhar arduamente e pagar uma casa por trinta anos do que construir uma, com minhas próprias mãos.

Comer bem, morar bem. Apesar de todas as voltas que a gente dá, parece que a vida é sobre isso mesmo, né?

Não acredito em mudanças violentamente radicais. Não acredito em privações repentinas. Não me tornarei o MacGyver da vida natural em dez dias. Nem em muitos anos. Mas sinto que preciso me jogar e aprender mais sobre auto-suficiência e uma vida mais simples, com menos. E, assim, pouco a pouco, tornar irrelevantes alguns dos problemas que criamos.

Nos próximos dez dias, estarei com acesso muito limitado a internet. Ainda não sei se conseguirei publicar todos os dias neste blog. Vou tentar.

De qualquer forma, eu voltarei. Com mais aprendizados pra compartilhar. Seguimos conectados.