O que aprendi com a empresa que você quebrou

Me deparei com um relato do Leonardo de Matos que quebrou sua empresa, no Papo de Homem.

Não resisti e fiz o mais longo comentário de blog da minha vida. O bom é que já virou o meu texto de hoje, que compartilho aqui com você, cara leitora.

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Leonardo, parabéns pela sua coragem e vulnerabilidade. Obrigado por compartilhar seus aprendizados.

Já que a coisa toda é sobre aprender, trago aqui o que tenho aprendido com a minha experiência.

Ela é diferente da sua, o que me faz discordar completamente em vários pontos. Concordo com alguns, não muitos. Mas vou me ater ao que discordo. Vejo nisso uma excelente oportunidade para aprendermos juntos ainda mais.

"Empreender é para todo mundo? Não. Claro que não."

Sim. Claro que sim. É pra todo mundo que quiser.

Vejo uma confusão aí. Empreender não é ser dono de um negócio. Pode ser isso, também. Mas não é isso.

Procurei no Michaelis o que é “empreender”. Nenhum resultado traz a ideia de ser dono de nada. Empreender é praticar, tentar, executar, realizar, fazer.

Eu entendo que, hoje em dia, quando a gente fala de empreendedorismo, a gente está falando de um outro jeito de viver e pagar as contas, sem ser trabalhando como empregado.

Mas você pode empreender sem ser dono de uma empresa. E você pode ser dono de uma empresa sem empreender. Empreender é começar, dar início, criar coisas (inclusive empresas, mas não somente isso).

Freelancers, artistas, autônomos, viajantes, blogueiros, líderes, ativistas também são empreendedores. Microempreendedores individuais, funcionários que inovam, pessoas que desenvolvem projetos paralelos também empreendem. Aqueles que empreendem empresas, e que vivem em paz sem exercer o papel de donos delas, talvez sejam alguns dos maiores empreendedores da nossa geração.

"Ter uma empresa", no sentido mais tradicional da expressão, até pode ser pra poucos. Afinal, é um caminho restrito. Mas não é o único.

Vejo a cada dia mais empreendedores que nem querem ter uma empresa. Querem só fazer o que faz sentido, pra si. Querem significado, e não propriedade.

Por isso, sua pergunta, “quem eu sou?”, é muito importante. Não é à toa que trabalhamos tanto em cima dela na escola de empreendedorismo que empreendi, o Estaleiro Liberdade.

Para empreender, você não precisa, necessariamente, de dinheiro, de diploma, de preparo, de autorização, de planejamento, de CNPJ, de funcionários, de burocracias.

Você só precisa começar e fazer. O que é fantástico.

Empreender é muito menos uma profissão e muito mais um comportamento. Por isso, empreender, ao meu ver, é sim pra todo mundo. Pra todo mundo que quiser.

"Eu paguei muito caro para descobrir que ainda não estava pronto."

Você estava pronto para empreender. Você não estava pronto para gastar.

Desculpe lhe dizer isso só agora. Se tivesse te conhecido antes, teria dito: você não precisa investir dinheiro para empreender.

Quando você cria um negócio, entre outras coisas, espera que ele dê dinheiro, certo? Então por que começar gastando tanta grana?

Se você não tivesse investido tanto, não teria tanto sofrimento. Nem teria quebrado. Ou, se tivesse investido pouco, tudo bem, era pouco dinheiro em risco.

Temos que quebrar a ideia de que para empreender precisamos de dinheiro.

Esse mito reforça o status quo. E vai contra o próprio empreendedorismo. Acreditar que só com alto investimento podemos empreender aumenta a diferença entre quem tem grana e quem não tem. Isso traz mais angústia pra quem quer começar.

Eu nem sei que negócio você empreendeu e quebrou. Mas arrisco dizer: é possível começar qualquer coisa com os recursos e conhecimentos que já temos disponíveis. Já estamos suficientemente prontos para prototipar, experimentar e começar. Tenho comprovado isso no LAUNCH!.

Com alguma coisa pronta, melhoramos, evoluímos. Desistimos ou persistimos. Mas, o mais importante, aprendemos com isso.

Para empreender não é necessário investir muito dinheiro. Não é necessário ter recursos de sobra. Nem pai milionário. É necessário ter a coragem para começar. E a humildade para começar pequeno.

Quando você começa pequeno, com o pouco que já tem, você descobre as competências que precisa melhorar em tempo real. O seu tamanho é adequado. Você lida com problemas do seu porte. Você aprende naturalmente, na medida que as necessidades vão surgindo.

"Na maioria das vezes a parte que mais gosta, criar, vai ficar de lado."

Realmente, empreender não é um moranguinho. Não vai ser fácil. Nem vai ser um mar de rosas todo dia. Mas isso não significa que você deve, na maioria das vezes, deixar de lado a parte que mais gosta.

É a parte que você mais gosta que, provavelmente, entrega mais valor. É o que justifica você ter empreendido. É o que você escolheu. Se matar isso, acaba tudo!

Você não deve deixar de fazer o que gosta. Se o fizer, estará mais longe de se realizar e mais longe de fazer algo que é valioso pras pessoas.

A questão é otimizar e distribuir o que você não gosta, ou não é bom, ainda. A pergunta é: como diminuir a dependência do que não é sua atividade chave? Ou, como ter outras pessoas ao seu lado com desejos similares e habilidades complementares?

“Caso ache que está pronto para empreender, vá antes trabalhar para alguém na área.”

Não. Caso ache que está pronto para empreender, vá tentar fazer um produto minimamente viável.

Trabalhar para alguém da área pode ser exatamente o que você não procura. Se você quer empreender, a melhor coisa a fazer é empreender. E não se empregar.

Trabalhando pra alguém da área, você vai aprender a ser um funcionário. A entrar na engrenagem. Não vai aprender como você lidera, como você decide, como você sonha e cria o próprio caminho.

Sim, é importante viver a vida, experimentar, ser curioso e mergulhar na área que te interessa. Mas trabalhar pra alguém, na área, é só um dos jeitos de fazer isso.

Se você quer empreender uma lanchonete, não vá fritar hambúrger por um ano no McDonalds. Vá criar sua receita. Vá chamar seus amigos, na sua casa. Vá cozinhar na casa deles. Vá transformar sua bicicleta num food bike, sei lá. Vá aprender fazendo, pouco a pouco.

"Tome sempre decisões cujas consequências possa suportar."

Seria um excelente conselho se não fosse impossível.

Nós jamais saberemos as verdadeiras consequências das nossas decisões. Não há planejamento que consiga prever tudo. Como você bem disse, empreender é sobre “viver a inconstância”.

Por isso, o problema não é a falta de planejamento. Planejar sem saber o que estamos fazendo é uma loucura ainda maior. (E nunca sabemos, de fato, o que estamos fazendo).

O problema é o excesso de dinheiro investido, é a expectativa, é o medo de errar e a falta de humildade para começar pequeno.

E pra dizer que não falei das flores, o que assinaria embaixo (de lápis):

"Empreender não significa ser super-herói."

"Ser empresário é viver a inconstância."

"Não aceitar o conselho de outras pessoas e ter transformado minhas certezas absolutas em estátuas de concreto estão entre os erros que cometi."

Mais uma vez, obrigado.

Grande abraço!