Estimule a auto-organização

"Auto-organização: líderes emergem, mas não devem existir donos."

Small Acts Manifesto.

Estamos cercados de instituições competitivas, exclusivas e estanques. Se você está imerso em uma organização hierárquica, aí vai o meu alento: há outra possibilidade.

A auto-organização é um dos caminhos para a autonomia de comunidades (e sempre estamos em comunidade). Permitir que múltiplos líderes emerjam dá vida a grupos mais colaborativos, inclusivos e criativos.

Quando uma instituição vai na contra-mão do status quo e se diz auto-organizada, a primeira pergunta é: “isso funciona?”.

Minha resposta: "se há clareza de princípios, sim. Se não há, não."

Um grupo auto-organizado precisa saber que é auto-organizado. A hierarquia é tão presente em nossa cultura que precisamos deixar muito claro quando o padrão de interação é diferente.

Deixar esses princípios claros e estimular a auto-organização vale a pena. É menos doloroso do que criar e obedecer regras arbitrárias.

No Estaleiro Liberdade e no Art of Hosting, pratiquei e aprendi alguns princípios que guiam a auto-organização em comunidades.

Permita a liderança rotativa

Há uma brutal diferença entre a liderança temporária e o controle permanente.

A alternância dos líderes é saudável e dá espaço para que uma maior variedade de caminhos sejam descobertos. Ao mesmo tempo, avançamos. Auto-organização não significa ausência de liderança. Ela existe e é efêmera. Emerge diante da necessidade do momento.

O controle, por outro lado, dá a sensação de permanência. Uma liderança autoritária inibe, é coerciva e dificulta o nascimento do novo. Manter as posições estanques aumenta o distanciamento entre as pessoas do grupo.

Reconheci nos maiores líderes uma capacidade ímpar de sair de cena. Eles deixam, com maestria, seus pares fazerem. Se você sabe tudo e ocupa todos os espaços, está deixando de permitir que outros assumam posições de liderança rotativa e aprendam também.

Assuma a responsabilidade compartilhada

Somos inteiramente responsáveis pelos rumos que tomamos. Se estamos chateados, eufóricos, felizes ou incomodados, somos os únicos que respondem por isso.

Sujou? Limpe.

Sempre haverá sujeira. Se incomodar, criar regras, jogar a culpa no outro e controlar é um caminho viável. Apesar de não ser o meu favorito. Limpar, tornar claro o que foi feito e como fazer também é possível. Se você percebeu a sujeira, ela é sua. Manter a relação saudável e resolver os problemas é eficiente. Mais do que responsabilizar o outro e criar regras.

Peça o que você precisa

Transparência é fundamental. Para que o grupo possa se organizar, é preciso existir um campo seguro para pedir ajuda, apresentar o que incomoda e trazer mais clareza aos acordos.

Se você não está contemplado em qualquer aspecto, traga isso à tona. Afinal, você é responsável pela comunidade. Ao pedir o que você precisa, você permite que alguém assuma a liderança e dê uma solução.

Ofereça o que você pode

É uma via de mão dupla. O espaço aberto para pedir é um espaço aberto para doar. Doe. Entregue e você se surpreenderá. Quem mais dá é quem mais ganha.

É oferecendo ajuda e soluções que você assume a liderança rotativa. Mas não espere ser convocado. Em uma comunidade auto-organizada, é preciso estar a todo instante atento e sendo honesto consigo próprio. Se você pode oferecer algo, ofereça.

Este é um texto da série Manifesto dos Pequenos AtosVocê pode se envolver, é só praticar.