Menos impacto. Já estamos impactados demais.

“Gerar impacto” entrou tanto nos nossos vocabulários que nem questionamos mais a expressão. Admiramos e aplaudimos empresas e pessoas que causam alto impacto. É como uma medida de sucesso. É mesmo?

Acredito que já causamos impacto demais no planeta e em nós. Precisamos agora gerar menos impacto.

Retiramos matéria orgânica do fundo do mar. Ela demorou milhões de anos para chegar lá. Processamos, transformamos em combustível, enchemos nossos tanques e queimamos para nos transportar mais rapidamente, jogando o que sobra na atmosfera em forma de gases tóxicos. Achamos normal. Sofremos com a mudança climática.

O caminho comum na vida é passar anos dentro de escritórios, com horários controlados, fazendo trabalhos pouco significativos, “embaralhando papel e batucando num teclado” (Tim Ferris) . Os objetivos? Tornar as pessoas ricas mais ricas, vender coisas que ninguém precisa e ocupar o cargo mais alto possível nessa escalada. Enquanto isso, tentamos compensar esse vazio consumindo qualquer coisa desenfreadamente. Esperamos nos aposentar para tratar as doenças que adquirimos.

As organizações que buscam alto impacto são (ir)responsáveis por essas questões. Os problemas sociais, econômicos e ambientais que enfrentamos são os impactos que elas geram.

Mesmo os negócios que se propõem fazer algo para “mudar o mundo” se posicionam como geradores de “impacto positivo”. A melhor maneira de fazer as transformações que queremos é mesmo impactando mais, ainda que “positivamente”? Será que sabemos mesmo o que é positivo?

Os colonizadores portugueses acreditavam que estavam fazendo o melhor ao converter os índios que aqui estavam. Não viveram tempo suficiente para ver as consequências da colonização. E se nós também estivermos errados? E se o problema não era somente o que pregavam, mas como faziam, mudando em larga escala a vida das pessoas e o ambiente a partir de suas visões?

Eu entendo que todo mundo está cheio de boas intenções e eu entendo a urgência. “Impacto positivo” é uma expressão pra demonstrar o sonho de tornar as coisas melhores, agora. Mas a ideia de impacto também esconde soberba. Há uma fé de que podemos resolver os problemas dos outros em larga escala através do choque proporcionado pelas nossas soluções.

Eu sugiro revermos a estratégia por trás do impacto e:

  • Substituir a ética guerreira, que busca a conquista e a vitória sobre o outro, pela ética do cuidado, que busca acolhimento e a conexão com o outro.
     
  • Resolver os problemas que nos tocam, de forma menos impactante, com mais simplicidade e leveza.
     
  • Aumentar nossa capacidade de incluir, aceitar e harmonizar o que consideramos diferente.
     
  • Buscar mais espaço para soluções variadas e distribuídas. E nos preocupar menos em escalar a nossa própria solução.
     
  • Tirar o pé do acelerador para viver o tempo natural das coisas.
     
  • Tornar os negócios sustentáveis, prósperos, justos e comprometidos mais com suas causas do que, apenas, com a lucratividade.

Hoje, o meu desejo não é por mais impacto ou por impacto mais positivo. Estou engajado em diminuir o impacto que geramos no planeta e em nós mesmos.

Vamos devagar porque eu tenho pressa.