A solução não é necessariamente a abundância

"Altos rendimentos não te trazem felicidade, e sim uma vida que você pensa que é melhor.” - Angus Deaton e Daniel Kahneman.

A ideia de que mais é melhor está enraizada em nós. Criamos a crença de que estamos indo bem se estamos mais ricos, se nossos números são maiores, se estamos “bem de vida”. Não é, necessariamente, uma verdade. Podemos criar nossos próprios parâmetros de sucesso.

Dinheiro faz a diferença mesmo. Até uma quantia suficiente para não ser uma preocupação, não faz mais. Pesquisadores da Universidade de Princeton chegaram o valor de 75 mil dólares anuais, o bastante para ter uma vida confortável. Depois disso, não importa quanto mais você ganhe, isso não refletirá em mais felicidade.

Sempre me perguntei por que um sujeito multimilionário continua numa corrida maluca por mais dinheiro. Não cheguei nem perto desse ponto, mas suspeito que tem a ver com a perda de noção do que é suficiente. Com a confusão entre crescimento e evolução.

Crescimento é sobre ser maior. Evolução é sobre ser melhor.

Duas histórias.

Um dia, eu tinha um emprego e era feliz nele. Depois de aprender muito, trabalhar muito, ganhar algum dinheiro e viver pouco, eu não era mais.

E nem o dobro do salário ou mais do que isso podia mudar essa situação. O problema não era o dinheiro, não era o trabalho. Era o meu próprio vazio.

Até certo ponto, mais grana representava melhorias na minha vida. Depois, não mais. Eu tinha alcançado o meu limite. Não era o limite de todo mundo. Era o meu. Demorei pra entender, não foi fácil, mas já era o suficiente.

Outra.

O Nós.vc era uma empresa em estágio inicial. Fazia algum dinheiro, não era muito. Precisávamos crescer. Afinal de contas, é isso que os negócios fazem.

Pra isso, teríamos que conseguir um investimento, nos mudar de cidade, trabalhar mais e ocupar todo nosso tempo. Mas, no fundo, nós não queríamos fazer nada disso, só queríamos fazer nossos encontros.

Peraí, nós já estávamos fazendo. Quando nos demos conta, mudamos de ideia. E se, ao invés de crescer a gente  encarasse o nosso tamanho como o suficiente?

E assim fizemos. Do que trabalhar mais, resolvemos trabalhar tanto quanto recebíamos e seguimos nossas vidas, sem buscar mais crescimento.

“Como artistas e seres humanos: se você tem medo da escassez, a solução não é necessariamente a abundância. Citando Brené Brown:

A abundância e a escassez são os dois lados da mesma moeda. O contrário de “nunca é suficiente” não é a abundância ou “mais do que você conseguiria imaginar”.

Ou seja, o contrário de “nunca é suficiente” é simplesmente: suficiente.” - Amanda Palmer.

Suficiente não é pouco, nem é em excesso. Se a água é radicalmente escassa, morremos de sede. Se a água é excessivamente abundante, morremos afogados. Só precisamos de água o suficiente.