KaosPilot, a escola de pilotos do caos

Este post é um dos resultados do projeto Expedição Liberdade, de LarussoCuducos e Mabel. Entre outubro e novembro de 2013, conhecemos nove espaços e iniciativas de educação fora da caixa pela Europa. Agradecemos imensamente a cada um dos 110 apoiadores pelo Catarse, que tornaram possível a produção deste conteúdo livre pra todo mundo.

Em nossa única parada fora da Inglaterra conhecemos Aarhus. Uma pacata cidade européia, a segunda maior da Dinamarca. É lá onde vivem menos de 300 mil pessoas que comem pães maravilhosos. Entre esses felizardos estão os "Pilotos do Caos", como são conhecidos os vibrantes estudantes da Kaospilot. Quase metade deles são da Dinamarca e região, Suécia, Finlândia e Noruega. Os outros são de todos os cantos do mundo.

O início

A Kaospilot nasceu em 1991. Seu fundador, Uffe Elbæk, bebeu nas fontes do ativismo cultural, da Bauhaus, do movimento cooperativo, da cultura Beatnik e das escolas superiores populares. Como dizem, criou "um híbrido entre escola de design e de negócios". São quatro disciplinas principais: design de liderança criativa, design de projeto criativo, design de negócios criativos e design de processos criativos.

Esse caldo dá, até hoje, o tom do ambiente. A Kaospilot é viva, ativista, criativa e, pelo que sentimos, está sempre buscando se adaptar às necessidades de um mundo em constante transformação. A busca não é por habilidades e conhecimentos para controlar ou gerenciar, mas para liderar e navegar no caos em que vivemos. Nos negócios, nas questões sociais e culturais. É um ambiente de aprendizado para líderes e empreendedores dispostos a construir soluções criativas em tempos e turbulência.

Os estudantes

Cada turma funciona como um grande time de 36 jovens, na casa dos vinte e poucos anos. Em 2015, as inscrições foram para o Team 22, a 22ª turma de Pilotos do Caos. E quem facilitou parte do processo seletivo foi a turma anterior, no caso, o Team 21. Há uma peneira inicial, através de perguntas online provocativas e filosóficas. Depois dinâmicas e desafios em grupo. O objetivo é formar um Team extremamente diverso, para que os estudantes possam aprender uns com os outros e se complementarem.

Ao iniciar o programa, cada estudante recebe cartões de visita com seu nome, um endereço de email personalizado e o número do seu time. Essa será sua identificação por três anos. Nesse meio tempo, se envolverá com problemas complexos, criará projetos, conhecerá pessoas das mais diversas origens e se apresentará como um Piloto do Caos.

Além do programa que equivale a uma graduação, existem cursos curtos sobre liderança, criatividade e educação, e serviços de consultoria para grandes empresas, como a escandináva Lego, que ajuda a manter a escola. Além da sede em Aarhus, há uma unidade em Bern, na Suíça.

O dia-a-dia

Tivemos a oportunidade de acompanhar um dia típico na escola. O que mais marca a Kaospilot é a energia vibrante que paira no ar. O clima é de diversão, criatividade e arte. As paredes são livremente desenhadas, o mobiliário colorido, os estudantes descolados e muito à vontade. Aplausos, gritos e comemorações fazem parte do dia-a-dia. Todos estão comprometidos em manter o clima positivo, a energia pra cima.

É claro que há também concentração, trabalho duro e desafios que os colocam em situações difíceis. Quando o clima fica pesado demais, alguém puxa um "Energizer", uma dinâmica, um jogo, algo que os faça mexer os corpos, talvez passar por ridículo e quebrar o gelo. Energizar ajuda a manter o ambiente criativo e motivado. Ajuda a manter o grupo em sintonia e pra cima. Essa é uma prática que incorporamos no Estaleiro Liberdade.

O aprendizado

A aprendizagem se dá, principalmente, através de projetos. É comum os estudantes procurarem clientes reais para serviços de consultoria e desenvolvimento de novos negócios. É através de casos reais que praticam as ferramentas estudadas e refletem o quão eficazes foram.

O Team Leader, que seria o equivalente a um facilitador, interfere muito pouco no processo dos alunos. É muito mais um questionador do que um transmissor de conteúdo. É o responsável por criar e conduzir uma cultura de aprendizado autônomo e colaborativo. Ele até pode convidar professores e especialistas externos. Há teoria, mas o foco é aprender fazendo.

Autonomia para aprender

Na aula que acompanhamos, o Team Leader deixou uma pergunta para os estudantes "Como vocês vão compartilhar entre vocês o que estão aprendendo através dos projetos que estão desenvolvendo?". E saiu da sala. Rapidamente, o pessoal do Team 20 entrou numa discussão técnica sobre ferramentas online para registrar as etapas dos projetos. Alguns defenderam fóruns e listas de discussões. Veio mais argumentação, sugeriram uma votação, o clima pesou.

Um estudante mais empolgado chamou um "Energizer!", que foi fortemente aceito. Mas, antes do jogo começar, veio um comentário lá do fundo que mudou os rumos do dia. "Vocês já repararam que toda vez o que Team Leader sai, nós ficamos perdidos?". O Piloto do Caos foi ovacionado pelos seus colegas. Mas silenciosamente, com mãos tremulando no ar, um código para mostrar concordância sem atrapalhar a fala preciosa.

Foi isso que aprenderam naquele dia. Que precisam aprender a se organizar. Que precisam aprender a navegar no caos. Não chegaram a uma conclusão sobre como compartilhar os aprendizados entre si. Mas aprenderam fazendo, discutindo, errando, refletindo e se tornaram, assim, mais conscientes do próprio processo.

A celebração dos erros

A coragem é valorizada na KaosPilot. Os erros são celebrados. Errar não é, necessariamente, ruim. É sempre uma oportunidade para aprender. Há um forte incentivo para o estudante prototipar, testar, lançar, descobrir aprendizados com os projetos. Caso falhe, a questão não é como se justificar ou cortar relações com clientes, mas como melhorar e tornar a soluções reais e melhores.

Se você não celebrar os erros, nunca aprenderá com isso. E, assim, nunca se tornará melhor.

Siri Nymannm

Os projetos

O clima é de autonomia e colaboração. Os estudantes são estimulados a trocarem, se relacionarem entre si e resolverem problemas a partir de suas diferenças culturais. Cada grupo de cinco ou seis estudantes escolhe um problema, investiga, cocria, busca soluções e desenvolve um projeto que, no começo é regional, mas pode alcançar nível global. É comum os estudantes viajarem e passarem meses trabalhando em outros países, resolvendo problemas locais e aprendendo ao se relacionarem com outras culturas. Os Pilotos do Caos procuram a confusão, lugares especiais em qualquer parte do planeta onde estejam acontecendo mudanças profundas.

Apesar de muito ser feito em grupo, as experiências individuais fazem da escola um caminho único para cada participante. O processo é sobre autoconhecimento, sobre reflexão pessoal e descobertas a respeito da própria liderança. Faz parte do aprendizado lidar com habilidades e limites pessoais e aceitá-los para fazer o melhor com parceiros complementares. Os projetos são dos mais diversos. Uma marca de roupas de hipohop socialmente responsável; um bebedouro em que você pode doar para organizaões comprometidas com o saneamento básico em países subdesenvolvidos ou uma partida de futebol que chama atenção do mundo inteiro. Em 2001, um estudante da KaosPilot organizou uma disputa entre a seleção do Tibet e a Groenlândia e deu identidade de nação a um território que luta contra a ocupação chinesa.

A visita

Coincidentemente, enquanto estávamos em Aarhus, o CEO da escola, Christer Windeløv-Lidzélius, estava em Porto Alegre para palestrar no TEDxUnisinos. Aproveitou a estadia e foi conhecer o Estaleiro Liberdade. Comentou que uma das ideias pra nome da escola foi Kaos Pirates. Isso já nos aproximava. Ouviu interessadamente o que cada Marujo estava desenvolvendo e se admirou com a ousadia da nossa escola pirata. Os europeus estão mais habituados com apoios financeiros por parte de governos e empresas. Nas bandas de cá, fazemos tudo de forma independente e criamos nossos modelos de negócios.

Christer Windelov-Lidzelius, CEO da KaosPilot, no TEDxUnisinos.

Zona de expansão

Conversamos com Siri Nymannm, que se formou na KaosPilot e agora trabalha na escola. Ela nos ensinou sobre o quão importante é, pra eles, saírem da Zona de Conforto, mas sem se colocarem em problemas que são grandes demais. Desenhou num papel três circunferências circunscritas. No miolo, a Zona de Conforto, tão conhecida por todos nós. Se ficamos nela, não aprendemos nada. Afinal, já sabemos o que fazer e só reproduzimos os mesmos comportamentos. Depois, a Zona de Expansão. Onde os desafios são um pouco maiores e as perspectivas são outras. É onde trabalhamos com pessoas diferentes e fazemos o que nunca fizémos, mas avançamos. Por fim, a Zona de Perigo, onde o desconforto é tão grande que não há aprendizado, onde não há esperança. Em geral, reconhecemos que sair da Zona de Conforto é importante. Mas tememos entrar numa Zona de Perigo. O que Siri nos mostrou é essa área intermediária, a Zona de Expansão. É nela que mora o aprendizado. É tocando, sem adentrar, a área perigosa que descobrimos o novo, nos desenvolvemos e expandimos nossa capacidade.