Use as habilidades que você já tem

"Sou publicitário, mas gosto mesmo é de cozinhar."

"Sou bibliotecário, mas queria viver de música."

"Sou advogado, mas, se pudesse, iria escrever."

"Sou jornalista, mas meu negócio é pesquisar."

Todos os dias ouço esse tipo de questão. Ela é cada vez mais usual, já que hoje em dia a gente tem mais possibilidades batendo à porta. Em uma vida só, dá pra ter dezenas de ocupações. E a tendência é sermos cada vez mais multi-profissionais.

O conselho “faça o que você ama” aparece em todo lugar, o que eu acho ótimo. Não vejo bons motivos para não vivermos a vida plenamente. Mas esse pitaco traz consigo a angústia do não saber como fazer funcionar. Como pagar as contas enquanto fazemos o que nos dá prazer?

A resposta que tem feito mais sentido, pra mim, é: faça uma transição gradual. Mas dê passos consistentes.

O primeiro impulso, ao iniciar numa área nova, é negarmos completamente a atividade anterior. “Agora quero ser chef de cozinha. Publicidade nunca mais.” Este é um caminho. Mas, provavelmente, será mais árduo do que fazer uma transição que se aproveita das habilidades que você já tem.

Um publicitário não precisa, necessariamente, começar a explorar o mundo da gastronomia como se não soubesse fazer mais nada na vida. Pode usar suas habilidades de comunicação para criar uma campanha de alimentação consciente; pode lançar um blog e compartilhar receitas; pode trocar uma campanha de comunicação por um curso de gastronomia. E, assim, ir se aproximando do novo universo.

Quando se dá conta, não é mais um publicitário, apenas, nem chef de cozinha, ainda. Mas um publicitário-chef, o que pode ser ainda mais interessante, especial e único.

Estudei design. Depois que saí dessa vida, por um tempo, eu neguei meu passado. Durou pouco, a necessidade de grana falou mais alto e peguei alguns freelas. As habilidades que eu já tinha financiaram o tempo de aprendizagem necessário para fazer dinheiro com outras atividades.

Nesse período de transição, dei aulas de Illustrator. Um software para diretores de arte, designers e pessoas que querem se comunicar visualmente. Eu estava vendendo o que sabia fazer. E, além de dinheiro, estava ganhando um rico aprendizado sobre como criar novos espaços de aprendizagem - o que realmente me interessava naquele momento. Ao mesmo tempo, eliminei o que me incomodava ao trabalhar como designer: noites viradas fazendo trabalhos sem significado, pra mim.

O que aprendi de mais importante: eu não precisava mudar de profissão. Eu precisava mudar o jeito que eu a exercia. Precisava me conectar a algo mais motivador e significativo pra mim. Assim, eu fui criando minha nova atividade. Somando design a outras áreas que estava descobrindo. Aos poucos, fui deixando de fazer o que não me tocava mais e mantendo em mim o que me atraiu no design: comunicar, fazer coisas, desenhar.

Sempre é possível encontrar esse caminho do meio. Geralmente, ele não é tão claro. Mas começa a se tornar mais visível na medida em que vamos explorando o que não sabemos, nos apoiando no que já sabemos. Use as habilidades que você já tem para fazer o que você ama. E, com consistência na caminhada, viabilize sua própria vida integral.