O que aprendi com o Estaleiro Liberdade

No Estaleiro Liberdade, o silêncio faz parte da conversa.

No começo, ele incomoda. Mas, depois, pode ser confortante.

Em geral, a gente acha que silêncio é constrangedor. Que deu errado.

Afinal, quando estamos em silêncio não há distração, ninguém nos dizendo o que deve ser feito, além de nós mesmos e nossas percepções.

Só há um vazio, que parece que precisamos preencher desesperadamente.

Durante muito tempo na minha vida, eu acreditei que eu mesmo era um vazio. E que precisava ser preenchido.

E, assim como todo mundo, fui estudar e trabalhar. Fui tentar me adequar a um mundo pronto.

Mas isso matou a vida que existia em mim.

Nos anos em que estudei e trabalhei eu poderia dizer que tirei boas notas, que ganhei algum dinheiro, que tive sucesso, mas a verdade é que apenas sobrevivi.

Hoje é meu último dia no Estaleiro Liberdade. A escola que eu gostaria de ter tido. E que criei, em 2012, em Porto Alegre, com o Cabral e o Amaral. Uma escola de empreendedorismo através do autoconhecimento. Só que pirata.

Nesses anos, meu deus, como eu vivi e como aprendi. A coisa mais importante que eu aprendi é que em todos nós há uma fagulha de vida.

Você pode chamar essa fagulha de amor, de poder, de fé, de deus, de energia, de alma, de consciência, de talento, do que quiser. Eu prefiro chamar só de fagulha por enquanto.

Ela fica mais evidente quando a gente mergulha na gente mesmo e põe ela pra fora em forma de chama.

Eu precisei reconhecer em mais de 100 pessoas que passaram pelo Estaleiro Liberdade esse poder, esse amor, essa fagulha. Para que, enfim, pudesse reconhecer que essa fagulha de vida também está em mim.

A gente já nasce com ela. E só está nessa vida para pô-la pra fora em forma de ação, projeto, arte, negócio, vida. Isso é o que eu chamo de empreendedorismo.

Mas a gente é ansioso. E se pergunta rapidamente, "como?" A melhor resposta que eu encontrei é: dando pequenos e constantes passos. Começando e continuando. Aquecendo diariamente essa fagulha.

Grandes mudanças começam pequenas.

Assim, fácil? Não. Não é nada fácil. Nesse meio tempo lidei com o medo de faltar de grana, com mudanças profundas, a morte do meu pai. E mil coisas que nenhum plano seria capaz de prever.

Eu descobri que a vida é instável. E tudo bem.

Isso dá medo mesmo. Medo de não ser aceito, de errar, de falhar, de não dar certo. Mas aprendi que medo é a lembrança de que estou vivo.

E nada é mais importante que isso. Estar vivo. Estar sentindo a vida. O medo vale a pena.

Pra sentir a vida, é preciso confiar que a fagulha está lá. Em mim e em todo mundo.

Por isso, foi fundamental ter uma comunidade segura para errar. O Estaleiro Liberdade é o ambiente que criamos para abrir esse espaço de autonomia.

Autonomia é a fé de que todo poder e todo amor está em mim e em você.

Quando a gente se conecta com a nossa fagulha, a gente pode fazer coisas. Projetos, arte, negócios, entregar valor e até receber dinheiro.

Quando a gente se conecta com a nossa fagulha, a gente se sente forte. Mesmo não sendo, de fato. Mas isso já é o suficiente pra enfrentar o mar.

Hoje é o meu último dia no Estaleiro Liberdade. Porque um estaleiro é um espaço de passagem, por natureza. É onde aparamos e construimos barcos que vão desfrutar águas claras e desbravar o mar revolto. É preciso deixá-lo para um dia retornar. O Estaleiro não é o mar.

E, por isso, hoje eu o deixo nas mãos do Gui, da Lella e do Lunaris. E de todo mundo que passou por ele.

Eu sou eternamente grato a essa escola de empreendedorismo através do autoconhecimento que, na verdade, se chama vida.