Uma história de fracasso. Ou uma hipótese que foi testada.

“Experimentos não falham, eles apenas testam hipóteses.” - Luciano Braga.

A ideia era ótima.

Todo mundo gosta de receber cartas. Mas ninguém mais escreve com papel e caneta. Por isso, ninguém mais recebe nada pelo correio, exceto contas e encomendas. E se tivesse um serviço que transformasse emails em cartas escritas a mão, que seriam cuidadosamente enviadas pelo correio?

A causa era nobre.

Melhor ainda. As pessoas que transcrevem as cartas, a mão, são adultos sendo alfabetizados, treinando as primeiras letras. Ou idosos em asilos, praticando a caligrafia novamente, se sentindo úteis. Presidiários em busca de uma nova chance, caprichando no bê-a-bá. Pessoas especiais, com tempo ocioso e que precisam de ajuda.

O modelo de negócio era promissor.

Você, remetente, escreve o email, escolhe um destinatário e paga R$ 10. Metade vai pro nosso serviço e seus custos de operação. A outra metade remunera a pessoa que vai transcrever sua carta, letra por letra, sem tirar nem pôr, com todo o capricho. Nós cuidamos de enviar a carta pro seu destinatário, alguém que você ama. Faríamos rios de dinheiro? Não sei. Mas começávamos com algum modelo de negócio, algo raro hoje em dia.

A equipe era perfeita.

A ideia nasceu entre os Global Shapers de Porto Alegre. Jovens de diferentes áreas que foram reconhecidos pelo Fórum Econômico Mundial como seres de enorme potencial. Tinha designers maravilhosos, pessoas de negócios, pensadores e fazedores. Convidamos desenvolvedores picas da galáxia para essa missão. O time estava pronto.

A execução foi maravilhosa.

Aproveitamos uma competição internacional e executamos tudo em pouco mais de um fim-de-semana. Identidade visual, site, sistema de pagamento. Tudo foi ao ar, ficou lindo. Dear Friend, um nome fofo. No Brasil, virou Herói Postal. Nós fritamos os miolos para achar esse nome, já que Querido Amigo não parecia tão bom. Quando lançamos, chuvas de compartilhamentos e destaque no Mashable, um portal sobre internet, gringo e famoso. A ideia foi apresentada em Gebebra, num evento do Fórum.

A linda apresentação do Herói Postal.

Mas não vingou.

O Dear Friend passou uns meses sendo gerido por uma pessoa remunerada, por um pequeno capital semente inicial. Tinha alguns usuários cadastrados para transcreverem cartas. Mas pouquíssimas, ou nenhuma carta para ser transcrita. Não foram mais de dez em três meses.

Nem eu, um dos fundadores, usei o Dear Friend. Eu me perguntava: “Pra quem vou escrever uma carta? Mas eu vou escrever um email e alguém vai transcrever com a sua própria letra, a mão? Como se fosse eu? Vou ter que cuidar com as palavras? Isso não parece estranho?” Eu achava interessante e esquisito, mas não acreditei que as outras pessoas também fariam essas perguntas. Mas elas fizeram e o Herói Postal morreu.

O que deu errado? Mil coisas. Ou nada. Se foi um experimento, testamos uma hipótese, na verdade várias ao mesmo tempo, e descobrimos que eram só hipóteses. Era uma ideia, e não uma verdade.

As pessoas adoram receber cartas. Mas não gostam tanto de escrever. As que realmente gostam, escrevem. E pronto.

O Dear Friend resolvia um problema que não existia, criava uma oferta de serviço sem demanda. Naufragou e aprendemos com isso. Felizmente, investindo pouco, testando, experimentando e sem pôr enormes expectativas.

Superar essa derrocada e partir pra próxima foi fácil. Todo mundo já tinha outras coisas pra fazer, e o Dear Friend nunca foi o projeto principal, nem o sonho de ninguém. Que bom. Depois dessa, nos tornamos mais espertos, mais cuidadosos e mais dispostos a experimentar mais.

Se você acredita que seu negócio é você, você não vai tolerar a possibilidade de que ele falhe. Isso significaria dizer que você não deu certo. E isso não existe. O negócio é seu, a criação é sua, mas não é você. Você é maior que isso e continua sendo um ser cheio de vida e potencial criativo, mesmo que seu projeto falhe.

Falhar ou ter sucesso é uma escolha, já que quem define o que é um, ou outro, é você, empreendedor, criador, fazedor. Se o foco é o aprendizado, o experimento, não há falha, só há uma hipótese que não vingou e, por isso, trouxe novas descobertas.

Era lindo. Mas virou história e aprendizado.