A ilusão de segurança que o emprego já me deu

A vida de empregado já me trouxe a sensação de segurança. Salário, 13º, CLT.

Ainda que, vira e mexe, alguém fosse demitido, do nada.

Mesmo que, de vez em quando, alguém não aguentava mais e pedia demissão. Seja com um plano em mente, ou apenas a desesperada necessidade de fuga.

Segurança era só uma ilusão. Daquelas gostosas, que caem na conta todo mês. Mas, ainda assim, uma ilusão.

Fora dos limites do escritório, a segurança não valia nada. O desemprego é um assassino de autoestima. A batalha por uma nova posição não tem nada de segura. Não há garantia, não tem bônus. Você só volta ao jogo se alguém te aprovar, não depende de ti. Fora dali, era como se não fosse ninguém. Tem que começar praticamente do zero. O que há de segurança nisso?

Há cinco anos vivo sem carteira assinada, fazendo minha grana com cursos, consultorias, livros, financiamento coletivos, sites, design, mentorias, palestras, facilitação e o que vier. Não comecei assim. Os caminhos foram se mostrando, pouco a pouco, me puxando pra um lado ou sendo abertos de outro.

No começo, tinha medo da falta de segurança que só um bom emprego parecia dar. Quando me dei conta da fragilidade dessa suposta segurança, ganhei confiança para apostar em mim, nas minhas habilidades e nos meus sócios e parceiros.

Ao longo dos anos, reconheci a segurança que preciso em um trabalho cada vez mais autoral, autônomo e, quem sabe, autêntico. Não foi mais fácil, rápido, nem maravilhoso. Não acredito que sirva pra todo mundo. Mas aconteceu, dia após dia.

Me sinto seguro com a segurança que tenho agora. E com a insegurança também. Não tenho aqui um poço infinito de segurança. Mas, pelo menos, parece bem mais real.

A lógica é mais simples que em um emprego. Se trabalho e entrego algo valioso pras pessoas, vem o retorno delas. Se não, não vem. Simples, direto e seguro assim.

Tenho sentido que o caminho em busca de mais autonomia é mais seguro, afinal é amparado por mim mesmo e pela rede ao meu redor, que também sou eu. Depende de mim, e de mais ninguém.

Porque ter várias possibilidades de renda é mais seguro do que ter uma só.

Ter clientes distribuídos é mais seguro do que trabalhar pra um só.

Ser reconhecido pelo valor que há em mim é mais seguro do que construir a reputação de uma organização.

Ter agilidade e rapidez, típico de pequenos negócios, é mais seguro do que a burocracia e lentidão típica das grandes corporações.

Ter fluxo contínuo de grana e trabalho é mais seguro do que depender de uma única oportunidade.

Ter uma comunidade de apoio, que sustenta meu trabalho é muito mais seguro do que ter um cargo que pode se desfazer com a decisão de uma pessoa qualquer.

Ter plena decisão e controle sobre meu tempo é muito mais seguro do que entregar esse valioso bem pra alguém.

Cravar minha própria visão, missão e valores parece bem mais seguro do que ter que me adequar a essa coisa toda de uma entidade abstrata.

Viver o próprio sonho é mais seguro do que viver o sonho de outra pessoa.

Segurança, no fim, é mesmo uma ilusão. Mas a gente tem a chance de escolher a qual se apegar.