Você compra um produto para manter o emprego de alguém?

Estava hoje num evento ouvindo a Mari do Roupa Livre e a Renata Flores da L'Afrikana falarem sobre a importância de diminuírmos e tomarmos mais consciência sobre o consumo, no caso, de roupas.

Um homem trouxe a pergunta, que já ouvi em outros contextos:

"Se todo mundo parar de comprar roupas, o que vai acontecer com quem trabalha - ainda que em péssimas condições - nessa indústria? Vão ficar sem empregos? E as suas famílias?"

Quando a indústria demite, as pessoas buscam outras possibilidades para se sustentarem. Por mais duro que isso seja, sempre foi assim. Outras indústrias já retraíram, já acabaram, e vão continuar acabando se não forem mais interessantes pras pessoas.

Mas o que mais me incomoda é como, em geral, buscamos manter nossos privilégios com o argumento de que estamos ajudando o outro.

Amigo, você realmente compra um produto para manter o emprego das pessoas em Bangladesh?

Você pede táxi para ajudar o taxista? Se hospeda num hotel para manter a indústria hoteleira empregando?

Ninguém faz isso. 

Como vai ser quando as pessoas deixarem de ser exploradas em condições de trabalho análogas à escravidão?

Vai ser ótimo.

Essa pergunta fazia sentido para o Senhor de Engenho. E, hoje, faz sentido pra nós, que tememos perder o conforto das roupas novas e baratas parceladas no cartão.

A mudança passa por nós, pelas nossas escolhas diárias, por perder intencionalmente os privilégios e os confortos da exploração passiva.