Você pode ensinar

Em 2011, nós lançamos o Nós.vc. A ideia era simples, mas pra algumas pessoas, ousada demais.

Depois de um tempo experimentando, eu contava ela assim: “com o Nós.vc, qualquer pessoa pode criar um curso, um workshop, um espaço de aprendizagem e ensinar o que quiser, em qualquer lugar.”

De vez em quando, algumas pessoas não escondiam uma dose de espanto.

- Mas qualquer um pode ensinar?!

- Sim, todo mundo pode, inclusive você.

Uma vez, uma jornalista me perguntou isso ao vivo, na tevê. E eu respondi a mesma coisa. O espanto aumentava quando vinha o “inclusive você”.

Dizer pro outro “você pode” é extremamente poderoso. Ainda mais quando mexe com uma estrutura tradicional de poder que é a relação mestre-aprendiz.

Vivemos, desde criança, a experiência de que existem pessoas especializadas em ensinar. Elas, como detentoras do conhecimento, teriam o monopólio do ensino. A todas as outras restaria o papel de aprendiz.

Isso inibiu em nós a ideia de que todos nós, pessoas comuns, também temos conhecimento valioso para ser compartilhado. É como se umas pessoas estivessem completas a ponto de poderem transbordar sabedoria e as outras estivessem vazias, precisando se encher.

Essa visão trouxe, ainda, a ideia de que é necessário ter um alto nível de qualidade para que a aprendizagem seja valiosa. Em um mundo com escassez de espaços, informações e conexões, isso é verdade. Quando são raras as ofertas de ensino, elas devem servir para o máximo possível de pessoas. E por isso é preciso ter qualidade para todos.

Mas talvez essa qualidade para todos nunca aconteceu. Aí veio a revolução digital e arregaçou com a escassez. No mundo que estamos construindo, a qualidade quem define é, cada vez mais, quem vivencia o processo de aprendizagem. Porque há abundância de opções. De forma distribuída, é possível atender a diversos perfis de aprendizes. Ou seja, o que é ruim pra um, é bom pra outro.

Aquele canal de tutoriais no Youtube que eu acho horrível tem milhares de assinantes. Eles devem adorar. O aprendiz se apropria do seu processo de aprendizagem e escolhe o que é bom pra si. E isso é fantástico.

Se as pessoas vão aprender mal, de forma errada, torta, quem vai dizer é a vida, elas mesmas e as outras pessoas que vão se relacionar com ela. Me parece um aprendizado muito legítimo.

Coisas técnicas, teóricas, científicas, práticas, ancestrais, experimentais, não importa. Seja lá o que for, há muito saber distribuído nas pessoas. Afinal de contas, o conhecimento que precisamos vai muito além das referências formais e acadêmicas que temos.

Centenas de encontros depois, uma das coisas mais valiosas que o Nós.vc me ensinou é que: sim, nós realmente temos muito mais a ensinar do que pensamos - e a aprender também.

O que já aprendemos e dominamos, muitas vezes, nos parece óbvio demais, simples demais, inútil demais. Mas é preciso lembrar que um dia não tivemos esse conhecimento incorporado. Ou seja, o que temos agora é completamente novo pra outras pessoas.

Por isso, mais uma vez, eu diria: sim, todo mundo pode, inclusive você. E complementaria: é importante, necessário e essencial. Por favor, compartilhe o que você ama, do jeito que você pode, com o que você tem disponível.

Cria teu curso, chama as pessoas pra um encontro, faz um canal no Youtube, lança teu blog, faz um textão com os teus aprendizados. Ensina quem quer aprender.

Todos nós somos potenciais agentes ativos em processos de aprendizagem. Consequentemente, somos potenciais criadores, fazedores e transformadores do mundo que desejamos. Certamente, existem muitas pessoas precisando do que está aí guardado em você.