Precisamos lidar com a nossa merda

Nos últimos séculos, nós criamos coisas. Deixamos a vida no mato para criar cidades.

Criamos carros, trânsito, aviões, aquecimento global, bancos, pobreza, luxúria, desigualdade, guerra, nutella, pizza, câncer, computadores, indústrias, agrotóxicos, terrorismo e escravidão.

Nós criamos coisas para vivermos mais e com mais conforto. Nós criamos dinheiro, trabalho, débito ou crédito e uma corrida sem fim a um lugar seguro e tranquilo, onde ninguém nunca esteve enquanto procurou fora de si.

Criamos intermediários, instituições e organizações para terceirizar a responsabilidade sobre nossas vidas. Inventamos agências especializadas em criar vozes e discursos para quem não consegue falar por si próprio. Desenhamos escalas de poder para que pouquíssimos de nós “representem” muitos de nós.

E assim a gente foi ferrando o mundo. Nossa única casa, colocando ela em risco. Ferramos com a gente mesmo, como humanidade, já que nos comportamos como um vírus na Terra. Temos orgulho disso, maravilhados com nossa civilização, continuamos mantendo e aprofundando nosso comportamento doentio.

Criamos cidades para estarmos mais próximos. Não as deixamos porque queremos nos sentir em um lugar seguro. Mas não é o que acontece. Nós estamos perto, mas não conectados. Nós não nos importamos profundamente com os outros. É impossível, em uma cidade com tantas almas famintas, ser empático com todo mundo. Criamos chaves, muros e vidros elétricos. E assim vamos nos sentindo sozinhos, com medo e isolados, ao lado de milhares de outras pessoas igualmente isoladas em nossos prédios, escritórios e shoppings lotados.

Nós criamos cidades para termos tempo. Se alguém planta, processa, cozinha e entrega minha comida, eu tenho mais tempo, certo? Se não preciso limpar minha casa, porque alguém limpa pra mim, eu consigo ficar mais tempo com a minha família, não é mesmo? Parece que não. Estamos produzindo e consumindo produtos e serviços que nos prometem mais tempo livre e ainda assim continuamos na correria. Ocupamos nosso tempo nos preparando para o trabalho, trabalhando, nos preocupando com trabalho ou tentando esquecer do trabalho.

Nós criamos cidades para deixarmos de lidar com a nossa merda. Mas cada vez que apertamos a descarga, nos abstemos de limpar a água que sujamos. Nos isentamos de lidar com a sujeira que produzimos. E assim nos desconectamos, e deixamos de perceber que o nosso cocô, como o de qualquer outro animal, é a matéria-prima mais perfeita e natural de uma terra fértil, que gera comida boa, energia e vida. Este é o ciclo que nós deixamos de enxergar.

Nós falhamos, amigos. É difícil admitir, mas nós falhamos como espécie. Somos muitos, e cada vez mais. E nosso estilo de vida consumirá nossa única casa em poucas gerações, vocês sabem disso.

Eu não acredito mais no discurso “vamos salvar o mundo”. O mundo vai ficar bem. O problema somos nós. Nós temos que nos salvar de nós mesmos. Salvar o outro é exatamente o mesmo erro que estamos cometendo há várias gerações.

Nós precisamos lidar com nós mesmos e com a vida natural. Terra, sujeira, comida, merda, gente. Nós precisamos nos integrar plenamente com a nossa natureza. Nós temos que sentir e esperar o tempo das estações. Nos dar conta e nos responsabilizar. Da origem do nosso alimento, ao destino do nosso cocô - no fundo, a mesma coisa. Temos que aprender a conviver com todo mundo, da pessoa que julgamos mais escrota ao amigo namastê. Precisamos tocar o mundo natural exterior e perceber nosso universo interior.

Se continuarmos acreditando que dominar e nos afastar da vida é uma boa estratégia de sobrevivência, continuaremos alimentando nossos medos.

Posso imaginar que plantar, produzir a própria energia renovável, fazer nossas coisas naturais, tratar nossa água, resíduos, fezes, cuidar de nossa saúde, educação, construir laços profundos e tudo mais que nos importa não vai ser apenas uma tendência. Mais do que isso, essa vida neo-hippie será nossa única alternativa.

Vai ser mais difícil do que ver Netflix. Não vai ser tão confortável. Mas vai ter que ser feito. Não é top. Não é cool. Talvez não seja o tipo de coisa que nossas famílias se orgulhem, nem o melhor assunto da mesa do bar. Alguns vão achar que é coisa de maluco, bicho grilo, hiponga, com o intuito de manter as coisas “confortáveis” como são. A todos vocês, eu digo, pode ser confortável, mas não é seguro. É mais seguro buscar uma vida “desconfortável”.

Nós temos que aceitar e curtir a sabedoria construída todos os dias ao longo de 3,5 bilhões de anos. Tão mais velha do que todos os nossos cientistas, futuristas e vencedores de prêmios.

Não vejo mais outros caminhos, além da autonomia, autenticidade, autossuficiência e empatia. Lidar com a própria merda. Em todos os níveis. Parar de comprar. Parar de produzir lixo. Mas não mais como nós, humanos apressados, sempre fazemos. É preciso fazer dia após dia, de forma consistente e integral, para deixar de ser um câncer pra cada ser que mora aqui, na Terra.

Precisamos fazer. E, além de fazer, compartilhar. Estamos conectando bilhões de mentes como um enorme cérebro nunca visto antes. Agora, podemos criar juntos e compartilhar novas soluções e sair, ou mergulhar, na merda.