Provavelmente, você será demitido

Tenho 31 anos. Alguns dos meus amigos da minha geração perderam recentemente seus empregos. Ficaram caros demais pros seus postos. É triste, mas é bom a gente tocar nesse assunto.

Aconteceu o que imaginei que aconteceria um dia comigo, quando eu mesmo substituí alguém mais experiente, mais velho e mais caro do que eu. Acontece com todo mundo, mais cedo ou mais tarde. Quando é com a gente, sempre parece mais cedo.

Há poucos anos atrás, nossa galera era o bom negócio do empregador. Jovens, porém com alguma experiência, cheios de vontade e, principalmente, baratos.

Mas o tempo passa, o salário precisa aumentar e aí o custo fica maior que o benefício. Minha geração é a mais forte candidata à demissão. É o pessoal da zona intermediária, nem começando, nem consolidada. Completamente substituível.

Pra cada chefão, existem uns poucos chefinhos. E pra cada chefinho existe um monte de gente mais abaixo na hierarquia. Logo, não tem espaço pra todo mundo no topo da pirâmide. Ou você sobe, ou sai do jogo. Pouquíssimos sobem nessa escala, que é limitadíssima.

"Ah, mas quando a empresa cresce, você cresce junto!" Até que venha uma crise qualquer, um corte de custos, e pronto. Os primeiros a serem chamados no RH são os caros que não retornam o que custam.

Há um critério lógico, mas não tão claro nessa dinâmica. É preciso manter alguns, não os melhores, nem os mais experientes - como nos fazem pensar - mas sim os que representam o melhor custo-benefício, os que valem a pena.

Ninguém está garantido. Mas os insubstituíveis são os que mais valem a pena pra empresa. Pra esses, qualquer salário é barato. Se a sua empresa não sobrevive sem você, provavelmente você vale muito mais do que o seu salário. Se você aceita, beleza. Se não, parece injusto, não é mesmo?

Por outro lado, sua empresa não quer se tornar refém de um empregado. Por isso, fará o possível para que outras pessoas, mais baratas, aprendam a fazer o que você faz. Seja pra te substituir, ou pra te "ajudar".

Se você ganha demais, você precisa entregar ainda mais valor do que custa. Quanto maior o salário, mais improvável conseguir fazer entregas tão valiosas. Ser promovido não significa que você está com o seu emprego garantido. Pelo contrário, cada vez que você recebe aumento, maiores são as chances de ser demitido.

É aí que entra o novo trabalhador iniciante que ganha muito menos, mas entrega quase a mesma coisa, pra te substituir. Ele é muito mais interessante do ponto de vista do custo-benefício, já que o custo é baixo e o benefício é suficiente.

Existem fábricas de jovens trabalhadores, eles estão sendo preparados para substituir a mão-de-obra cara. Faculdades, estágios, programas de trainee, planos de carreira. Você já foi um deles, eu também. Não importa qual é o seu posto, sempre vai ter alguém vindo logo atrás.

Demorei uns dois ou três anos trabalhando como empregado para entender essa dinâmica. Foi rápido o suficiente para eu pedir demissão e sair por mim mesmo, antes de ser demitido. Mas foi um processo mais lento e arrastado do que eu gostaria.

Estou escrevendo isso por um único motivo. Eu gostaria de saber dessa dinâmica quando comecei a trabalhar como empregado. Pode ser que seja uma reflexão útil pra você. O que você vai fazer com essa informação? Não sei. Mas já que ninguém tocou nesse assunto comigo antes, eu mesmo resolvi tratar disso com você.