Uma certa loucura

"Zorba: Pelo amor de Deus, chefe, gosto muito de você e não posso deixar de falar. Você tem tudo, menos uma coisa: loucura! Um homem precisa de uma certa loucura, senão...

Basil: Senão o quê?

Zorba: ... ele nunca vai ter coragem de cortar a corda e se libertar."

Do filme Zorba, o grego, de 1964.

É claro que não vi este filme. Nem sei como encontrar. Mas achei essa citação no livro "Como Encontrar O Trabalho Da Sua Vida" de Roman Krznaric (faz parte de uma série da School of Life, escola que tive o prazer de conhecer em Londres).

Estou interessado em descobrir mais sobre os motivos pelos quais muitos de nós passa a vida toda sofrendo em trabalhos que não desejamos, suportando horas de aprisionamento num escritório e um estilo de vida cheio de reclamações.

Não sou fã do título do livro. Mas se eu fosse você, não julgaria ele pela capa.

Krznaric investiga as razões históricas da nossa busca por sentido, fluxo e liberdade. Traz uma série de exemplos de pessoas que fizeram suas transições e os métodos que encontraram - geralmente, misturando intolerância aos seus empregos, acaso e coragem. Pesquisa filósofos, antropólogos e cientistas que investigam como fazer uma transição de carreira.

Tudo isso para chegar em conclusões simples. Mas poderosas. As mesmas que estou descobrindo ao longo de cinco anos em que estou fora do mundo do emprego, mas feliz em termos de trabalho.

Para encontrar um trabalho significativo é preciso levar a vida como um experimento. Criar condições para assumir pequenos riscos e explorar nossos potenciais. Tipo um dos meus mantras favoritos: dê passos de bebê.

Temos cada vez mais condições de criar trabalhos diferentes, alternativas, aproveitando nosso tempo livre e a infinidade de novas conexões que este mundo nos permite tecer.

Na medida em que a brincadeira vai acontecendo, vamos descobrindo coisas. Sobre nós. Nossos desejos. Nosso jeito de trabalhar. E o que realmente nos toca. Ou seja, não há planejamento, nem teste vocacional, que dê conta de toda a peculiaridade que cada ser humano tem.

"A verdade inconveniente é que chega um ponto em que você precisa parar de pensar e simplesmente agir."

Tendemos a transformar nossos portos seguros em prisões. E abdicamos de nossa autonomia. É preciso uma certa dose de loucura para saciar nosso desejo de liberdade.

"Como vou me sustentar? Será que vou conseguir? E se eu estiver errado?" Todas essas perguntas são legítimas, reais, dolorosas. Já perdi o sono por conta delas.

Mas surpreendentemente as coisas só começam a ficar mais claras quando damos os primeiros passos em direção ao escuro. Quando cortamos a corda e caminhamos livremente.

"A maioria de nós vive presa aos nossos temores e inibições. Mas se quisermos ir além, cortar a corda e ser livres, precisamos tratar a vida como um experimento e descobrir a parcela de loucura que todos guardamos dentro de nós."