Aquele que tem 'por que' viver pode tolerar quase qualquer 'como'

“Aquele que tem por que viver pode tolerar quase qualquer como.” - Nietzsche

Em 2011, escrevi um texto sobre "essência". Chamei assim um algo imutável que vivia em mim, ainda que não tivesse palavras para descrevê-lo. Mesmo que não conseguisse pôr pra fora, intuí que era esse o caminho que devia buscar.

Na época, sabia exatamente o que fazia no meu emprego, sabia muito bem como fazer. Mas quando me perguntava "por que?" só me vinha: "para ganhar dinheiro, para pagar minhas contas, para viver bem".

Este porquê era frágil. É possível pagar contas fazendo muitas outras coisas. Pior, meu grande objetivo de vida era simplesmente continuar vivendo.

Não me conformava com isso. A vida era só isso, então? Acordar com o despertador, ir trabalhar, voltar, dormir, acordar com o despertador... Estava preso. Tive que sair dessa, fazer uma mudança significativa antes que fosse devorado pelas minhas escolhas.

De lá pra cá, comecei, mudei, larguei, me juntei, retomei uns tantos projetos, negócios, cidades. Vivi uns tantos "comos" diferentes. Plataforma de aprendizado colaborativo, escola de empreendedorismo através do autoconhecimento, plataforma de financiamento coletivo recorrente, casas colaborativas, não-agência digital, comunidade de aprendizado, blog.

Às vezes, os projetos parecem completamente distintos. Mas quando investigo os motivos que me pareceram fortes, eu enxergo um claro porquê. Essa coisa intangível e ao mesmo tempo tão sólida que é a essência, o propósito que me guia, meu ikigai.

Não foi algo que nasceu comigo, não foi algo encontrado. Foi um significado que forjei a cada escolha, a cada convite que fez meus olhos brilharem, dia após dia, indo na direção dos meus medos e transformando minhas dores em aprendizados.

Espero ainda me lambuzar de tantos outros "comos". Outras formas que ainda nem me passam pela cabeça. Cair outras vezes. Tentar de outra forma. Não quero apenas tolerar, mas curtir cada jeito possível de buscar essa coisa que, por enquanto, cabe na palavra autonomia.

Quando a gente se propõe a explorar profundamente nosso porquê, a vida ganha outro sentido. Ganha o sentido que a gente resolve dar.