"Você vai prestar vestibular pra quê?"

"Empregos dos sonhos são mais frequentemente criados do que encontrados, sendo assim são raramente atingidos através de buscas convencionais. Sua criação exige um grande autoconhecimento." - Business Model You.

Há algumas semanas, participei de um encontro sobre "ansiedade" pela Comunidade.cc. Foi a primeira vez que encontrei estudantes do último ano do ensino médio participando do mesmo curso livre que eu, aos 31 anos.

Estavam ansiosas por conta da pressão de um ano letivo saturado. Em busca das notas no vestibular. Sem nenhuma certeza sobre a profissão que estavam escolhendo, sobre o que vai ser daqui pra frente. Aquela angústia.

Problema doloroso que também vivi, que um monte de gente vive. E que geração após geração continuamos vivendo.

Mas calma lá. Não te parece absurda a ideia de escolher uma profissão no "auge da nossa sabedoria", com 17 anos?

Geralmente, é justamente nessa idade que não temos nenhuma experiência real em termos de trabalho. Nos sentimos extremamente inseguros e com baixa autoestima. Estamos confusos em relação aos nossos sonhos, vida adulta e a relação com os pais. É aquela bagunça. É o ápice da doutrinação escolar, da pressa e da nossa necessidade de acertar tudo. Mas é claro que a gente ainda não sabe disso.

Não bastasse a situação, tem a pressão do vestibular e a famigerada pergunta: "você vai prestar pra quê?". Lembro de um amigo genial, o Walter, que respondia "pra ver se passo". Ele não sabia, eu não sabia, e os poucos que diziam que sabiam, na real, não sabiam de nada.

Passei pra Design. Na verdade, escolhi Comunicação e Expressão Visual (com habilitação em Design Gráfico). Um curso da UFSC que mudou o nome pra Design quando estava no segundo ano. Ou seja, foi quase um acaso virar designer. Escolhi o que achava que estava mais perto de uma das coisas que me interessava, comunicação. Só depois de me meter é que fui entendendo onde estava me metendo. E olhe lá.

Acredito que boa parte dos meus colegas também escolheram no susto. Um curso com esse nome, Comunicação e Expressão Visual, atraia gente de toda sorte. O pessoal estava ali por interesses diversos: identidade visual, tipografia, animação, histórias em quadrinhos, cinema, publicidade, marketing, moda, ilustração, teatro, festa. Era um circo. E era massa por isso.

No fim das contas, por ser um curso abrangente, criamos muitas possibilidades, cada um foi pra um lado, e nem dá pra precisar o quanto a faculdade realmente foi fundamental pras nossas carreiras. Teve gente que mudou completamente. Poucos viraram só "designers".

Hoje, as pesquisas mais recentes vão muito mais pelo caminho da experimentação e autoconhecimento do que do teste vocacional e do currículo para encontrar um trabalho que nos contempla.

Cada vez menos os diplomas importam. Daqui pro futuro, nossas experiências e reputação vão contar ainda mais. Nossas habilidades criativas, tolerância, colaboração e autonomia é que importam. Aprender a aprender é mais significativo do que decorar e fazer contas.

Ironicamente, são pouquíssimos os ambientes escolares que fazem algo por essa mudança de cenário. A escola é o tipo de instituição que mais tem dificuldade de aprender.

Se tivesse outra chance, não me preocuparia em escolher a profissão certa aos 17 anos. Não pensaria em fazer algo que me garantisse um bom emprego. Não sofreria pelo vestibular.

Porque sempre é possível mudar. Aliás, as mudanças vão acontecer inevitavelmente. Em nós, no mercado, nas carreiras e nas profissões. Na própria ideia de "trabalho". Como diria o pai do Tiago Mattos: "meu filho, não se preocupe em escolher algo agora, sua profissão nem existe ainda." Aliás, se quiser se aprofundar mais no futuro do trabalho, veja este vídeo do Tiago.

Por isso, Larussinho de 17 anos, se um dia existir tecnologia para fazer este texto voltar ao passado, fica aqui minha sugestão: apenas viva a vida.

Aproveite ao máximo a possibilidade de experimentar o que tiver vontade e se conheça. Escolha bons problemas pra se envolver. Ajude as pessoas, se conecte e aprenda com elas. Vai com fé e paixão. Tente fazer um troco. Busque um emprego, empreenda, faça cursos livres, faça uma faculdade sem pressão, se joga. Olhe pra si, medite, mesmo que pareça coisa de bicho grilo. As respostas sobre a vida nunca serão 100% claras. E, se um dia forem, não serão porque você estudou pro vestibular.

No auge da minha sabedoria.

No auge da minha sabedoria.