A arte de pedir ajuda

“Se você amar as pessoas o suficiente, elas te darão tudo.” - Amanda Palmer.

Isis clicou aqui em “Posso te ajudar?” e começamos as sessões de mentoria.

Em geral, procuro me conectar com a necessidade do momento e me colocar à disposição pro que vier.

Era como uma torneira fechada acumulando água na mangueira. Quando abriu, jorraram ideias, desejos e projetos. Me entreguei e trabalhamos nas questões dela.

Algumas boas semanas depois, me veio com uma pergunta que me paralisou.

- Sou grata pela sua ajuda. Mas gostaria de saber: como eu posso te ajudar?

Não respondi na hora e tenho a sensação de que não tenho uma resposta honesta até hoje. Isis trouxe à tona um dos meus calcanhares de Aquiles. Sou péssimo em pedir ajuda.

O simples questionamento dela virou o jogo. Um jogo que eu nem queria que existisse. Mas parece que a relação de prestador de serviço e cliente nos joga pra essas posições. Um está à serviço do outro. O que equilibra a troca é a entrega de serviço e o pagamento em dinheiro, fim de papo.

No modelo tradicional, o prestador de serviços é um robô impávido, infalível, inquebrável, sabe o que está fazendo. Minha arrogância dificilmente me permite sair desse lugar, pedir ajuda e trabalhar de igual pra igual. Fora os dedos, a preocupação, não estaria explorando a boa vontade alheia?

“Eu vendo, você compra, fim” é uma lógica que me esforço para levar a um próximo nível. Seria possível cultivar relações de trabalho com entregas mais generosas, livres e naturalmente equilibradas?

Eu posso te ajudar. Você pode me ajudar. Pronto.

Ou, ainda, eu posso te ajudar e ajudar mais gente. Outras pessoas, ainda, me ajudam. No fim das contas, o saldo é positivo pra todo mundo.

Amanda Palmer está construindo neste exato momento uma linda história. Estátua viva, garçonete, estudante de artes, stripper, cantora, artista, amante, tuiteira, escritora, mãe.

Ela continua se entregando plenamente, cheia de medos, mas indo até o talo. E a ajuda vem. De alguma forma, ela chega, o fluxo só aumenta de intensidade. Entrega arte, chega intimamente perto, recebe mais. Não conheço ninguém que se entregue tanto e receba tanto.

Seu TED e seu livro mergulham profundamente no título deste texto. Amanda é uma das pessoas que mais me inspiram rumo a um estilo de vida de entrega generosa.

Há alguns anos venho fazendo experiências nesse sentido. Preciso ir além.

Publico neste blog pra quem quiser. Experimento o “pague quanto acha justo” no curso online LAUNCH! e no livro 333 Páginas para tirar seu projeto do papel. Sou um privilegiado por ter o apoio de pessoas que contribuem financeiramente com a minha existência e a continuidade do meu trabalho através do Unlock.

Essas iniciativas me conectam com novos e antigos amigos. Me rendem dinheiro, mais trabalho e, principalmente, a oportunidade de criar mais projetos que considero significativos, a arte que quero ver no mundo.

A verdade é que ajuda e troca parecem ir além de coisas e dinheiro. Tem entrega. Tem grana. Mas é mais que isso. É sobre proximidade, conexão. Eu te enxergo, você me enxerga. De algum jeito, estamos tentando nos mostrar, nos aceitar e nos dar força para que sejamos um pouco mais nós mesmos.

Nessa dinâmica, tendemos a um equilíbrio entre dar e receber. Quanto mais dou, mais recebo. Se condiciono a entrega, condiciono o recebimento.

Em todos os momentos que caí e me conectei profundamente com uma necessidade real minha, as pessoas estiveram lá me amparando. Sem grana, sem rumo, sem ninguém. Elas estavam lá, dando tudo que fosse necessário. Qualquer coisa pode ser resolvida pedindo ajuda. Só precisamos encontrar as pessoas apropriadas pro momento.

E se há algo que aprendi nessa roda é que temos que começar doando, entregando, sem qualquer expectativa de retorno. Porque é o condicionamento, a escassez artificial e o freio na energia isso que diminuem a potência da arte.

Nessa jornada, descobri que nós já começamos esse jogo ganhando. Ganhamos a vida dos nossos pais e antepassados e um planeta inteiro cheio de ar, água e terra para nos alimentar.

Daí em diante, é só se esforçar para retribuir ao mundo a vida que ele te deu. Dia após dia, consistentemente, abertamente, generosamente, com todo o amor e raiva que a gente conseguir encontrar.

Acredite ou não, o ciclo se completa. O que quer que a gente entregue vem de volta. Uma hora vem. Sempre vem. Se a gente ajuda, é ajudado. Se a gente entrega, a gente recebe.