Vivendo a vida e experimentando a prática

Estava na Schumacher College, numa aula sobre a teoria da complexidade, quando o professor trouxe uma frase de Descartes.

Basicamente, o francês acreditou, e convenceu, que o universo seria inteiramente compreendido pelas lentes da matemática.

Eu já acreditei cegamente nessa ideia. A matemática, tão racional, tão perfeita, tão crível, previsível e científica é extremamente confortável aos olhos de quem a compreende.

Nessa aula, o ponto era que este é um - e apenas um - dos jeitos de enxergar o mundo. E não o único. Há muito mais que o método cartesiano. Nem tudo a racionalidade explica. Há toda uma complexidade que emerge entre nós - e em nós.

A lógica linear, de causa e efeito, molda nosso pensamento. Valorizamos o racional, o que a mente consegue planejar, prever e avaliar. O mundo corporativo e a escola alimentam a ideia de que tudo que pode ser medido e pré-moldado é mais valioso.

“Cheguei onde cheguei porque tudo que planejei deu errado.”  - Rubem Alves.

Mas vem a vida e te dá um balão.

Quando tinha 23 anos, era um jovem profissional que lia tudo sobre finanças pessoais, frequentava eventos e poupava de acordo com o manual. Queria me aposentar com 35 anos. Não poderia dar errado.

Mas deu.

Meus dias eram 100% diferentes do que desejava viver. Trabalhava freneticamente para, enfim, parar de trabalhar. Estúpido, né?

A prática matou, aniquilou, liquidou qualquer chance da teoria valer a pena.

Quanto mais vivia os dias, mais descompasso enxergava entre o planejamento e a realidade. Fiquei mal, muito mal. Com minhas referências de hoje, teria procurado ajuda profissional, terapia, alguma coisa.

Não estou aqui pra compartilhar uma história de reviravolta e busca por propósito. Só quero compartilhar uma ideia: planejamento não é tudo. E outra: a prática vale a pena ser vivida.

A gente pode planejar o quanto quiser, mas na hora do vamos ver, o buraco é mais embaixo. Não há quem explique o fracasso de um plano perfeito. Exceto a falta de prática. A vida ensina.

Tenho uma hipótese. Gostamos tanto de planejar, arquitetar, simular, porque essas atividades nos protegem. São confortáveis. Nos dão a sensação de liberdade na segurança de nossos cadernos e PowerPoints.

É muito mais fácil e cômodo dizer, pensar, inventar do que, de fato, viver, fazer, experimentar.

Porque quando a gente faz, o sonho se desfaz. Encaramos a dura realidade de nossas ações ansiosas, toscas, precipitadas ou frustrantes.

Mas olha que louco. Quanto mais planejamos, menos fazemos. Quanto menos fazemos, menos aprendemos. Quanto menos aprendemos, menos evoluímos.

Logo, quanto mais planejamento sem ação, menos evolução.

Um faixa preta não é faixa preta porque estudou. Ele caiu tantas vezes no tatame, sujou tantas vezes a faixa, até que ela foi ficando escura. A faixa preta não é feita de teoria, ela é pura prática.