Leve no pessoal

Tenho vendido livros pela internet. Eu mesmo embalo, escrevo a mão o endereço, vou aos Correios, pego fila, vivo o processo e as pessoas se surpreendem com isso. Outro dia fui pessoalmente entregar um livro aqui em Floripa. A pessoa não acreditou.

Talvez exista a ideia de que a impessoalidade é mais glamurosa ou bem sucedida do que nosso contato direto. Quem sabe seja por conta do que percebemos com as grandes empresas. Geralmente, são impessoais, padronizadas. A pessoa que te atende é quase uma não-pessoa que reproduz um roteiro pré-definido.

Pro empreendedor individual, talvez exista a ideia de que é necessário se passar por algo maior do que se é. "Nós fazemos isso...", "Acreditamos naquilo...", "Manda um email pro contato@..." Que coisa, se é um negócio de uma pessoa só, por que fala no plural?

Mas veja que irônico. Big corps estão buscando humanização. Tentam se posicionar como pessoas que têm sentimentos, visões de mundo. Não é à toa. Seres humanos querem contato pessoal, quente, de verdade.

Vi uma entrevista com a Marta, jogadora de futebol, explicando que ela não tem o padrão de vida dos jogadores homens famosos. Ela não tem empregada doméstica. Ela mesma lava, cozinha, como a maior parte das pessoas. Pode ser por necessidade, por opção. O fato é que é a realidade dela e de quase todo mundo. É a minha e da Mari, minha companheira. Não tem glamour, tem responsabilidade individual e direta.

Sim, todo dia preciso de serviços terceirizados. Quase todos projetos em que me envolvo tem mais gente envolvida, trabalhando por ele. Trabalho e já trabalhei com diversas equipes. Mas nada disso faz criar entre nós algo maior e abstrato que tira nosso compromisso pessoal. E nossa necessidade de conexão direta entre pessoas.

Importante essa franqueza, nua e crua. Pessoalidade, contato direto, real, tête-à-tête. Na maior parte do tempo, o negócio é movido por trabalho direto, entrega individual, alguém escrevendo, criando, contando, falando, vivendo, assumindo a bronca e lidando intimamente com outro ser.

Neste momento, sou eu mesmo, e nada muito além disso, escrevendo.

Henrique Bastos soltou essa e tô aqui engrossando o caldo. Esse lance é pessoal.