A arte de dizer "não"

Se tem algo que mina o ser humano é fazer o que não quer para tentar ser quem não é.

Temos todos milhões de distrações, pedidos e convites para tentarmos nos encaixar em posições que não são nossas.

É aquele trabalho que não é o ideal, mas é alguma coisa.

É aquela pessoa que não agrega, mas é quem está disponível.

É o momento inapropriado, mas que se não for agora, talvez não tenha outra chance.

É o compromisso sem nenhum sentido, mas que lá no passado foi firmado - nem lembramos mais por quê.

São as pequenas concessões que, acumuladas, se tornam um pesado fardo.

Quando dizemos “sims” demais, involuntariamente, desviamos energia, tempo, atenção, dinheiro, trabalho. Tiramos nosso foco, perdemos o trilho.

Dizer “sim” parece mais legal. Coisa de quem é querida, gente boa.

Em vários momentos, é claro, “sim” nos ajuda a ampliar as possibilidades.

Mas a gente se afoga nos “sims” facilmente.

Cortamos um pouquinho da nossa carne para sermos quem esperam que a gente seja, não quem a gente é.

E ao parecermos ser quem não somos, surgem mais distrações, pedidos e convites baseados na pessoa que escolheu “sim”, mas na verdade sentiu e desejou “não”.

Para economizar no “sim” autodestrutivo, há o “não” gentil, consciente e embuido de amor próprio.

Um bom “não” costuma vir com tranquilidade, confiança, tempo.

É difícil soltar um “não” de bate pronto. Mais difícil ainda é receber um.

Então, a gente precisa aprender a dizer bons “nãos”.

- Não é pra mim, agora. Pode ser que seja no futuro. Quando vem algum convite que não me pega de primeira, às vezes jogo ele pra frente. Eu mudo, você muda, as coisas mudam. Agora, não é pra mim, mas pode ser que eu mude e este convite se torne mais adequado, obrigado.

- Não é pra mim. Quem sabe posso indicar alguém. Não posso te ajudar diretamente, mas posso tentar encontrar uma pessoa pra te ajudar, pode ser? Não posso fazer mais do que isso. Mas não é por isso que não estamos juntos, ou que eu não posso contribuir de alguma forma.

- Não é sobre nós, é sobre essa situação. Às vezes a gente fica com medo de ofender alguém ao dizer “não”. Por isso, quero deixar claro, não é nada entre nós, te admiro, te respeito e nada entre a gente será quebrado por conta do meu “não". Podemos olhar especificamente para este convite e entendermos que ele não fuciona pra mim, agora?

- Este “não” não fecha uma porta, pra sempre, entre nós, ok?

A cada "não", criamos espaço para o que genuinamente importa, as raras coisas que nos fazem bem. Os "sims" mais valiosos.

E você, como tem exercitado a arte de dizer “não”?