Não quero mais mudar o mundo

Um dia, meu grande amigo e sócio no Estaleiro Liberdade, Felipe Amaral soltou:

- Não quero mais mudar o mundo. Só posso mudar meu mundo.

Rebati:

- Como assim? E agora? O sonho acabou?

Demorei um bom tempo, meses, para captar a mensagem.

Não acreditava que tudo que estávamos fazendo poderia ser somente pra nós, e não pras outras pessoas. E a generosidade? E os problemas que o mundo tem? Vamos fechar os olhos?

Mas não era sobre isso. Eu que não tinha entendido nada. Confundia, como muita gente, autoconsciência com egoísmo. Generosidade com convencimento.

Estou escrevendo pra você numa tentativa de trazer atenção para uma sutileza que mudou minha vida.

Escrevo por mim, não por você. Se quiser, pegue, mude, transforme, jogue fora, ignore. Todas as opções são legítimas e não há nenhum juízo de valor sobre elas. Pra mim, está sendo útil. Seguimos.

As mensagens aqui são simples: Precisamos tomar cuidado demais com a lógica do convencimento. Toda transformação é de dentro pra fora. Estamos inevitavelmente conectados.

"Paradigma é como um par de óculos que usamos no cérebro, em vez de sobre os olhos, para enxergar a realidade de certa forma." - Bernardo Toro.

Se você não tirar os óculos da guerra, do convencimento, da conquista - como já fiz - será difícil entender.

Existe, pelo menos, mais um par de óculos, do cuidado, da aceitação, do diálogo, da curiosidade e abertura.

Vamos chamá-los de óculos da guerra e óculos do cuidado.

É muito fácil dizer o que o outro deve fazer. Professores, chefes, parentes e colonizadores fazem isso há muito tempo. Eu faço. Você faz. É nosso modus operandi. Os óculos da guerra estão embutidos em nossas faces.

Se você apanha muito, então, fica ainda mais difícil deixar cairem os óculos da guerra. Requer um baita esforço se defender sem guerrear. Quando todo mundo está gritando, falar baixo e escutar o outro é um ato revolucionário.

Exige esforço ainda maior abdicar do desejo de ser herói. Heróis são vangloriados na nossa cultura. Sucesso, poder, vitória também. Gritaria e violência é linguagem comum, em todas as línguas da Terra. Quem topa parar de perseguir o topo?

Mas é justamente essa visão, da guerra, que nos cria a ilusão de separação e, consequentemente, mais violência, em todos os níveis.

Não estamos em guerra. Não somos maus, nem bons. Não há topo. Estamos todos aqui, apenas buscando conexões, amor e viver momentos felizes. Todos. Não há escapatória, seguiremos eternamente conectados em um mesmo planeta. Não há "fora". Precisamos conviver bem para sermos felizes. Somente este mundo é possível.

Se falar é fácil, difícil é fazer por si próprio, ser exemplo. Viver conexões, amor e felicidades. Mesmo que a gente "saiba o que fazer", fazer é outra história. É um compromisso diário vestir esses óculos do cuidado. É uma busca, não uma conquista.

Demorou pra cair a ficha, mas compreendi que me posicionar como solucionador, salvador, resolvedor, pressupõe o julgamento de que o outro tem um problema, precisa ser salvo, eu posso resolver. Você é menor do que eu e precisa da minha ajuda.

Nada pode ser mais violento do que isso. Os óculos da guerra, a postura colonizadora gera, é claro, mais contra-ataques. Violência gera violência. Se você assistir, sem os óculos da guerra, as polaridades Coxinhas e Petralhas saberá do que estou falando.

Ou, ainda, a postura salvadora é também colonizadora e inconsequente. Li recentemente sobre os efeitos dos calçados doados pela TOMS. "Não provocaram uma mudança significativa na vida das pessoas. Pelo contrário, como efeito negativo, criou-se um modelo de dependência para as comunidades."

Por outro lado, se levarmos a sério essa história de buscar conexões, amor e felicidade, inevitavelmente criaremos em nós uma maior capacidade empática e generosa. Estamos conectados, não há isolamento. Toda ação, pequena ou grande, reverbera em todo o sistema.

Acredito cada vez mais que a mudança é de dentro para fora. No fim das contas, se há algum controle, é sobre si. Se há alguma mudança que pode ser feita com total responsabilidade é a própria mudança. Não posso condicionar minha felicidade ao comportamento, ou existência, do outro. Não posso esperar que o mundo viverá de acordo com as minhas expectativas. Estarei perdido. Só me resta aceitar, incluir, conviver e viver.

Mas e agora, esse mundo cheio de problemas, como contribuir positivamente? Vivendo a própria história, gerando o mínimo de impacto, sendo exemplo, regenerando a vida.

Hoje, tento oferecer pro mundo o que consigo, com o máximo de abertura e liberdade. Me dedico a criar recursos que você pode se apropriar. Se te serve, massa. Se não, massa também.

Busco me manter curioso, empático, aberto, o quanto minha energia permitir, tentando aumentar a intensidade com o tempo. Sem pressa, sem uma busca por grandiosidade. Para mudar o mundo, é preciso abrir mão dos meus privilégios. E isso não significa perder nada. É possível viver melhor com menos. É real a possibilidade de viver com mais leveza e menos pressão.

Talvez você se questione o quanto esses óculos do cuidado são eficazes. O quanto mudam o mundo. Eu realmente não sei dizer, mas posso afirmar com certeza que este esforço tem mudado o meu mundo. E isso muda tudo.