A Internet que eu quero

Adoro a Contente. Se tem gente que contribui na Internê com o que acredita, são elas. Essa semana recebi um baita convite, pra escrever pra uma seção do blog delas sobre “a Internet que a gente quer”. Melhor assunto. Reproduzo aqui meu textão-resposta.

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A Internet que eu quero ver não é nada mais, nem menos, do que ela já é. Generosa, inclusiva, diversa. Se fosse pra melhorar, focaria em mais acesso a todos, como um direito universal, com menor custo e maior autonomia.

Em 2011, me dei conta do tamanho da mudança que estava presenciando. Na Perestroika, entrei em contato com a ideia de que estamos vivendo uma mudança de era. E não somente uma era de mudanças.

Mudanças acontecem o tempo todo. Mas testemunhar o nascimento de uma era é raro. Minha geração, a de 1985, Millenials, Y, Whatever, deve ter sido a última que nasceu em um mundo analógico e assistiu ao parto do mundo digital. Não é pouca coisa. É tipo a Revolução Agrícola, o Iluminismo, a Revolução Industrial, ou algo que só vamos entender daqui umas centenas de anos. Ou mais rápido do que isso, porque o mundo que está nascendo é muito veloz.

Nesse recorte histórico, sinto que estamos vivendo o embrião. Mal engatinhamos como humanidade conectada. Ainda estamos perdidos, reproduzindo comportamentos de um velho mundo, em que a visão escassa de recursos, informação e pessoas perdura.

Mal entendemos o potencial do que está acontecendo. De qualquer forma, já dá pra sentir um gostinho. A Internet é a tecnologia mais inteligente que já inventamos para modelar o mundo que acreditamos. Mudou minha vida significativamente. E eu acho que a sua também. É a maior oportunidade que já criamos para experimentarmos um mundo abundante, em que tem de tudo pra todo mundo. Em contraponto a um mundo escasso, em que não tem pra todo mundo.

Generosidade, inclusão e diversidade. Pra mim, a fórmula mágica da evolução humana é o DNA da Internê.

A Internet tende à generosidade. Porque compartilhar é barato, rápido e traz benefícios imediatos. É um canal de expressão, contato de gente com gente. Traz o que todo ser humano busca em algum(ns) momento(s) da vida, de alguma forma. Generosidade é a gasolina da conexão. É por isso que tem tanto conteúdo, canal no Youtube, bobaginha no Twitter e textão de Facebook. Porque temos sede de conexão. O ato de compartilhar nos conecta.

A Internet é inclusiva. Porque cada vez menos são necessários filtros, intermediários, poderosos pra aprovarem o que é apropriado. Era muito caro se comunicar. Impossível em alguns contextos. Agora é real, viável. São poucos os espaços de expressão tão inclusivos. Se você quer ver gatinhos, terá. Se quiser publicar gatinhos, bem-vindo. Se quiser taekwondo, lasanha, alternativas para coleta de água, a Internet é o seu lugar sempre. E de mão dupla. Consuma e produza por aqui, crie seu filtro e seu conteúdo.

A Internet é diversa. E isso é lindo. Por mais que os tubarões nos dêem bolhas, há sempre a possibilidade de furá-las. Quer queira, quer não, sempre teremos gente se contrapondo, trazendo outro olhar, divergindo. Tudo que é novo nasce do contato entre o que é diferente. Em muitas situações, a Internet é o único canal para encontrar outro caminho, diferente da sua família, bairro, contexto. Ainda precisamos aprender a escutar e criar conexões profundas e verdadeiras com o outro. Acredito que estamos caminhando nessa direção.

Mas e os haters? Os monstros da Deep Web? As correntes de Whatsapp? Os comentários da Globo.com? As previsões de Black Mirror? Sim, tem muita coisa absurda na Internet. Bem-vindo ao mundo real. Ele é assim. Se a internet é hostil, dura, crítica, imediatista, perversa, polarizada, ela é o reflexo de como nos relacionamos. Nós, os sete bilhões de seres que habitam este planeta agimos assim, em algum nível, em algum contexto. Nada pode ser mais verdadeiro, humano, genuíno. Por isso, não tem como esconder, precisamos conviver com o que há de mais terrível em nós.

Isso é ruim? Pra mim, não. Vejo a linda oportunidade de aprendermos a lidar com a nossa condição e encontrar formas de evoluir como humanidade. A Internet merece ser livre, generosa, inclusiva e diversa. Não poderia haver contexto melhor para lidarmos com nossas sombras.

E com vocês, meus medos. A Internet ainda não é pra todo mundo. É só pra metade dele, e olhe lá. Mas vem crescendo. Algumas corporações ainda têm muito poder, e isso é tenso. Dependemos de governos e empresas para termos acesso. Por enquanto. Ainda existe uma enorme barreira de linguagem e tecnologia. Mas os índices de analfabetismo digital só caem. O paradigma da escassez ainda é senso comum. Mas a experiência abundante que a Internet nos oferece abre a cabeça para um mundo ainda mais generoso, inclusivo e diverso.

Tenho um compromisso de vida com a construção desse mundo. Compartilho meus aprendizados mais significativos através deste blog. Ajudo empreendedores não-convencionais a terem sua presença online. Dou workshops para quem quer aprender a fazer seus próprios sites. Ofereço conteúdo, cursos e livros que tendem ao preço zero, ou pague quanto acha justo. Persigo a ousada meta de desvincular minha entrega de valor de quem pode me pagar, através da generosidade do financiamento coletivo recorrente.

O que faço para construir a Internet que acredito ainda é pouquinho. Mas somos muitos. E nunca foi tão concreta a ideia de que com a pequenas contribuições podemos mudar o curso da história.

Um mini-doc da GVT que participei para falar sobre - pasmem - a Internet.