Três caminhos para o trabalho criativo

Trabalho criativo tem três caminhos. Inspiração, punição ou tranco.

A gente pode acreditar em inspiração, em talento, em hora certa e esperar. Pode ser que aconteça, mas é raro como cometa. Quando vem, não tem outro jeito, tem que aproveitar, pegar e fazer. Porque não se sabe quando a inspiração virá de novo. 

Punição é o que acontece quando não tem mais jeito. Você tem que fazer, ou vai se ferrar. É o tipo de trabalho que mais causa ansiedade, que gera os piores resultados, mas que, ainda, funciona. É a motivação pelo medo. Vai vir demissão, não vai ter dinheiro pra pagar o aluguel, vai ser vexatório, vai dar merda. Então, você vai lá e faz.

O terceiro caminho é o tranco. É o que acontece quando a gente cria o contexto, faz a cama para a inspiração se deitar. É aquele momento em que a gente se enche de referências, conteúdos, puxa pela memória, relê anotações, tenta criar novas conexões. Esse é o trabalho de quem aprendeu como funciona seu próprio processo.

Tranco é o jeito pelo qual os profissionais trabalham. Profissionais não podem confiar no milagre da inspiração, porque precisam criar todos os dias. Profissionais não viveriam bem com medo de punição, apesar de muitos sobreviverem assim. Quem depende de sua criação precisa de um caminho, um método, ainda que turvo, bagunçado e imprevisível.

O pior jeito de realizar um trabalho é tentando se livrar dele. O melhor jeito é entendendo o processo, curtindo o desenrolar, mais do que o resultado. Por isso, o tranco é o caminho de quem presta atenção no seu próprio funcionamento.

É essencial entender como a gente trabalha melhor. Pode ser quando a gente mergulha na coisa, se suja de letras, de tinta, de ideias novas. Pode ser de manhã, com o frescor da energia matinal. Pode ser na calada da noite, com a cabeça fervilhando os aprendizados do dia. Pode ser sozinho, pode ser em grupo. Pode ser de mil jeitos, o importante é aprender com o próprio processo.

Nossa mente criativa não é como um robozinho que liga e executa o quê e quando a gente quer. Podemos aprender a aquecer os motores, dar as voltas que precisamos dar e ir direto ao ponto quando percebemos que a criação está vindo. Tranco é improvisado, às vezes duro, mas funciona.