Ajustes de coerência

Vocês viram Okja, o filme da Netflix sobre porcos gigantes de laboratório que critica a indústria da carne?

Tem um personagem coadjuvante, que passa quase despercebido. É um dos ativistas, aquele que desmaia por falta de comida. Ele se recusa a sustentar a indústria de agrotóxicos e, por isso, passa fome e tem problemas de saúde.

Por falar nisso, não como carne. Tenho meus motivos. Mas ainda compro ração pra nossa cadelinha. Ração feita com vísceras, carne, provavelmente, das piores. Sou um financiador da indústria que não me serve, que não acredito. Estou buscando alimentação natural pro dog, mas ainda não é uma realidade na minha rotina.

Em casa, já lavamos as roupas com sabão de côco e vinagre. Compostamos o que conseguimos. Não usamos guardanapos descartáveis, nem sacolinhas plásticas. Mas ainda tem vezes que é mais fácil, rápido e cômodo usar OMO, comer um congelado que gera lixo, pedir um delivery cheio de embalagens.

Coerência total é uma ilusão.

Esses dias conheci o trabalho de Gilles Lipovetsky, Da Leveza é o livro. Resumindo grosseiramente, estamos caminhando para uma sociedade que valoriza cada vez mais o que é leve. É o celular, a nuvem, o nomadismo digital, o yoga, a alimentação saudável, etc. Mas essa busca obsessiva por leveza pode, paradoxalmente, se tornar um peso enorme em nossas vidas.

Nem sempre o que fazemos, vivemos, ou trabalhamos consegue ser plenamente coerente com nossa visão de mundo, nossos valores e expectativas.

A busca por coerência no meu dia a dia, no trato com as pessoas, nas minhas escolhas profissionais e de consumo é, muitas vezes, um caminho desgastante.

Isso traz um sentimento ruim. E também a possibilidade de evolução.

Por isso, tenho pensado sobre ajustes de coerência. Ajustes são refinamentos, melhorias simples. E não pesadas e distantes soluções perfeitas.

Se não é possível eliminar todo o lixo agora, como podemos diminuir? Se seus serviços aumentam a desigualdade social, como poderiam ser um pouco mais acessíveis? Se teu trabalho não é dos sonhos, como é possível cultivar pequenos sonhos nele? Se não dá pra alimentar a indústria de agrotóxicos, como podemos escolher, de vez em quando, alimentos orgânicos?

Que pequenos, leves e baratos ajustes podemos fazer para que nossa contribuição não seja um fardo? Como a mudança que queremos ver se encaixe pouco a pouco na nossa rotina?