Criação é uma questão de morte

Há uns anos atrás, estava numa palestra sobre criatividade. Me perdoe o palestrante, esqueci seu nome. Mas sua mensagem ficou forte pra mim. "Criação é uma questão de morte". Parecia paradoxal. Não é. Hoje, faz todo o sentido.

Para algo nascer, alguma coisa precisa ir. É assim que a vida funciona. O solo fértil é aquele com matéria orgânica decomposta, feito de fins de vida.

Quando estamos vivendo a situação, o trabalho, o projeto, é improvável olhar pro lado, enxergar diferente, crer em alternativas. Mas é quando a empreitada chega ao fim que novos sonhos ganham contorno.

Se estamos vivendo momentos difíceis, achamos que é melhor ter um emprego ruim, um trabalho qualquer, do que não ter nada. Talvez seja verdade, em muitos casos. Mas tem aqueles em que não dá pra visualizar nada que dê esperança enquanto a gente ainda está preso no que não nos alimenta.

É difícil começar algo novo mantendo velhos hábitos. É pesado começar um projeto paralelo quando nossas cabeças já estão saturadas. Somos muito bons em nos apegar e evitar o fim das coisas. Quando os fins são mal conduzidos, fica mesmo uma dor, um desconforto, uma ponta solta.

Por isso, finalizar, deixar ir, desapegar, abandonar, deixar quieto são habilidades valiosas.

Quanto mais conseguimos soltar ideias, projetos e compromissos que não nos engajamos, mais liberamos espaço e energia para a criação de algo significativo.

Meus tempos de publicidade me ensinaram esse processo de forma dolorida. Quanto mais conseguia gerar ideias, maiores eram as chances de fazer um bom trabalho. Mas, para isso, era preciso desapegar. Matar meu orgulho, silenciar o ego e seguir em frente. A próxima ideia era sempre a melhor. Quanto mais estivesse lidando bem com essas mortes metafóricas, melhor me daria com o nascimento do novo.

Se você se interessou pela arte de abandonar, tenho três indicações.

As mulheres da Contente.vc fizeram um projeto lindo sobre "como matar um projeto”. Está cheio de olhares ricos.

Tem um livrinho ótimo sobre a hora de desistir, do Seth Godin. Em inglês, The Dip. Em português, O melhor do mundo. Escrevi sobe ele aqui.

Este vídeo do Derek Sivers, que já passou por este blog e dá nome a minha não-agência digital, Hell Yeah.