Sobre tâmaras e blockchain

Em 2011, comecei um negócio que partia do pressuposto de que todo mundo tem algo a ensinar, o Nós.vc. A ideia era um site onde qualquer pessoa pudesse criar um encontro, um curso, um workshop pra compartilharmos e aprendermos sobre qualquer coisa.

Você cria uma conta, publica informações sobre o encontro, o local, como funcionam as inscrições e, se o número mínimo de pessoas que você estipulou se inscreverem, o encontro acontece.

Na época, algumas pessoas me perguntavam descrentes: “mas quem é o ‘professor'?”, eu respondia confiante “qualquer um, pessoas como você e eu”. “Mas a 'aula' pode ser sobre qualquer coisa?”, “sim, surfe, como fazer pão, Illustrator, tango, autoconhecimento, o que surgir.”

Hoje, cursos livres são muito comuns. Chovem convites, eventos no Facebook, Sympla, Eventbrite e spam chamando pra espaços livres de aprendizagem, liderados por pessoas. E não apenas ancorados por instituições de ensino tradicionais.

Chega a ser até meio bobo pra mim lembrar de um tempo em que não existia tanta oferta de alternativas para aprender. Pra chegarmos nesse ponto, algumas pessoas tiveram que desbravar novos caminhos e alimentar uma cultura.

O Nós.vc ainda existe, não me envolvo com ele diretamente desde 2014. Pra mim, ele cumpriu lindamente seu papel e já surgiram outras ferramentas ainda melhores. Mas ele precisou sair do papel para dar sua contribuição por um movimento maior.

Tem uma lenda circulando sobre um antigo ditado árabe. Não sei o quanto é verdadeira, o importante é a mensagem.

"Quem planta tâmaras não colhe tâmaras”. Isso porque as tamareiras levam de 80 à 90 anos para darem os primeiros frutos. Certa vez, um jovem encontrou um senhor de idade plantando tâmaras e logo perguntou: “por que o senhor planta tâmaras se o senhor não vai colher?” O senhor respondeu: “Se todos pensassem como você, ninguém comeria tâmaras. Cultive, construa e plante ações que não sejam apenas para você, mas que sirvam para todos. Nossas ações de hoje refletem no futuro. Se não é tempo de colher, é tempo de semear.”

Parece que as técnicas de cultivo mais recentes permitem que a gente plante tamareiras que frutificam em cinco anos. Ou seja, tem que plantar hoje pra colher em alguns anos de qualquer forma. Talvez você coma as tâmaras que plantou, talvez não. Não é sobre comer, é sobre plantar.

Há um novo fruto sendo semeado agora. Uma grande revolução está emergindo, de novo. Com impactos nas nossas vidas ainda mais profundos do que os que a era digital nos trouxe.

Você já deve ter ouvido falar de blockchain. Talvez o TED talk abaixo te ajude a entender mais do que qualquer palavra minha.

A internet está para a comunicação assim como o blockchain está para o valor.

Descobrir e explorar os potenciais do blockchain, hoje, pra mim, é como tentar entender a internet em 1990. Consigo imaginar que a gente vai trocar mensagens com muito mais facilidade. Porém sinto falta de um e-mail, um ICQ ou Whatsapp pra “materializar” a ideia.

Tudo isso é muito verde pra mim. Ainda que imagine mudanças profundas no sistema financeiro, democrático e de tudo que envolve troca e confiança, ainda não tenho referências para tornar o aprendizado tão concreto. Minhas poucas experimentações foram frustrantes e cheias de aprendizados ricos.

De qualquer forma, é necessário mergulhar no novo agora, explorar, testar e praticar pra que a gente tenha frutos mais saborosos e carnudos no futuro.

Estou organizando com o Impact Hub São Paulo, o #Hack4ClimateSP, um evento que vai acontecer dia 25 de setembro, em São Paulo, para a criação de ideias para enfrentarmos as mudanças climáticas com o uso de blockchain.

As inscrições são gratuitas e estão abertas no site: www.hack4climatesp.com

Este é um evento prévio do hackathon que vai acontecer durante a COP23, Conferência do Clima da ONU, em novembro na Alemanha. 100 pessoas do mundo serão convidadas, com tudo pago, para criarem ideias iniciais que envolvam identificação e rastreamento de emissão, preço do carbono, energia descentralizada, uso sustentável da terra, transporte sustentável e o que mais vier. Quem quiser, já pode aplicar no site do evento também.

Se você conhece desenvolvedores, interessados e pessoas que têm proximidade com blockchain, agradeço se puder me indicar e/ou compartilhar.

Nós não sabemos pra onde isso vai nos levar. Nem sabemos se comeremos as tâmaras. Mas é preciso semear agora.