"Você só precisa de uma coisa na vida"

Andy Kaufman era um artista intenso. Deixava a plateia na corda bamba entre o riso e o desconforto, a adoração e a repulsa. Seus shows se estendiam para além do palco, mesmo com as câmeras desligadas, gerando aquela dúvida. Ele é mesmo maluco assim ou está interpretando? É uma piada ou é sério? É genial ou estúpido?

Vi o documentário Jim & Andy, sobre a visceral interpretação de Jim Carrey no filme O Mundo de Andy (1999), em que ele incorpora o falecido Kaufman. Jim Carrey estudou a fundo o interpretado e não saiu do personagem Andy durante as gravações. Encarnou o cara por meses. Arrumou brigas, confundiu o elenco, deu dor de cabeça à produção (como se ela já não tivesse…), emocionou a família verdadeira de Andy. E ainda rendeu um documentário que registra um pedacinho da extensa carreira.

Andy não teve medo. Nem Jim. Ou tiveram, e seguiram mesmo assim. Foram longe demais? Eles foram profundos demais. Profundos neles mesmos. Mergulharam na vida.

Não há longe demais. Ainda que a gente acredite que “não dá, não pode, não tem como, é muito cedo, não vai dar certo, eu não consigo.” Ninguém que só tentou agradar chegou longe, nem perto.

Todos os medos vêm da nossa necessidade de sermos aceitos, admirados e amados. Queremos amigos, família, companhia, gente ao nosso redor nos dando suporte.

A dúvida que está por trás dos nossos temores é a dúvida da aceitação. Será que sou digno de ser aceito nesse mundo? Se for esquisito demais, inadequado demais, imperfeito demais, receberei respeito, cuidado e atenção das pessoas? Ou serei completamente abandonado e exluído da Terra, assim como fui expulso da teta da mãe quando desmamei?

Nunca vi alguém que se entregou à vida e à arte, como Jim e Andy, deixar de ser amado.

Não que sejam adorados por todos. Talvez, deixaram pra trás alguns amigos. Mas esses não amavam quem eram, e sim suas projeções.

Jim e Andy são aceitos, admirados e amados por muita gente. Porque são reais, autênticos, estranhos, são eles mesmos. Na aritmética, vale a pena.

Nós não vamos nos separar, nos afastar, nem sermos expulsos. Porque não há outro lugar para ir. Continuaremos para sempre tendo que conviver nesse mundo, nesse sistema solar.

E quão mais verdadeiros, profundos, autênticos, humanos, mais aceitação, respeito, amor e conexão. Todo mundo quer verdade, coragem, vulnerabilidade e entrega.

Para ser feliz, como diz Kaufman, você só precisa de uma coisa na vida.