Comece sem inspiração

Inspiração é tão efêmera, tão imprevisível, tão frágil.

Preguiça é tão frequente, tão oportunista, tão presente.

Se eu dependesse de inspiração, não trabalharia, não criaria, não escreveria este texto.

O mesmo aconteceria se deixasse a preguiça triunfar - como faço tantas vezes.

Não vai dar pra esperar a inspiração vir. Porque ela não vai chegar à toa.

Criação vem com intenção. E nem precisa ser um esforço hercúleo.

Trabalhando profissionalmente com criação há 15 anos, descobri que a gente precisa dar uma forcinha pro trabalho sair.

Um caminho é apelar pras inspirações. Pôr pra dentro, se alimentar de informações e ideias.

Ler um livro, fazer um curso, explorar o trabalho de alguém, buscar referências.

É um caminho valioso, claro. Porém traiçoeiro.

Consumir referências pode ser um caminho sem fim, que não gera nada além da sensação de sempre precisar se preparar mais.

Para criar é essencial pôr pra fora. Pôr pra dentro não é o bastante.

Pra mim, o mais importante é começar.

Se desenhamos, sujamos a folha com um rabisco.

Se escrevemos, digitamos as primeiras palavras que vêm na cabeça.

Se procuramos uma ideia nova, rabiscamos no papel a primeira ideia idiota que aparecer.

Testamos, experimentamos, brincamos, agimos.

Depois, criamos em cima.

Puxamos pro lado. Fazemos de outro jeito. Tentamos de novo. Adicionamos mais alguma coisa, melhoramos, refinamos, excluímos.

Mas nunca deixamos a folha em branco.

De algum jeito, o importante é começar.

Sem se preocupar tanto com o trabalho final.

Mais tarde o filtro da qualidade vai ter seu momento.

No começo, ele fica guardado.

Escrever um livro parece impossível.

Mas escrever uma frase é fácil.

Todo livro começa com uma frase.

Então, este é o melhor jeito de começar.

Escrevendo uma frase.

Só depois outra.

E mais outra.