Redes sociais e o distanciamento da realidade

Meu condomínio tem um grupo de Whatsapp. Imagina a eterna reunião.

Cheio de boas intenções, um morador repassa a história de pessoas que estão se fantasiando de agentes de controle da dengue para assaltar casas.

Boato. Fake. História.

Essa é a parte fácil de estar nesse grupo. E na internet.

A parte difícil é que as redes sociais nos distanciam da realidade. A crua e direta experiência da vida.

Dedos tocando o chão gelado, cheiro de café, olhar curioso, atmosfera calorosa, palavras não ditas, relações profundas, nada disso se reproduz digitalmente.

Já fui defensor da ideia de complementariedade, vida on e offline são uma só.

Mas o que estou percebendo em mim é uma mudança de comportamento que está me levando à substituição. Perigo.

Sai realidade. Entra simulacro. Sai consciência sobre o que está acontecendo. Entra medo de coisas abstratas, “a direita”, “a esquerda”, “a corrupção”, “o mercado”.

É assim que deixamos de escutar a voz sutil das pessoas para dar trela pro grito aloprado dos extremistas. É o famoso “bater palma pra maluco dançar”.

Lemos, nos emocionamos, nos preocupamos, tomamos partido pelo relato que o outro tenta fazer através do seu olhar enviezado.

Estamos constuindo e enxergando o mundo por lentes tortas, por conta da facilidade de publicar qualquer coisa mal pensada.

Destilamos veneno contra corruptos, golpistas, juízes ladrões, enquanto confortavelmente deslizamos os dedos por telas de vidro.

Lula foi preso com todo esse quiprocó e, apesar de tudo, continuamos aqui. Amanhã temos que acordar cedo.

Essa narrativa digital não é a vida. Nossas vidas começam quando desligamos as telas.

Já não tenho publicado no facebook, nem instagram. Parei de alimentar os monstrinhos. Muito raramente tô no twitter.

Vou deixar de consumir conteúdo aleatório dessas plataformas. Porque me fazem mais mal do que bem. Não sou mais feliz, nem mais esperançoso, depois de gastar horas na timeline.

Serei ainda mais seletivo daqui pra frente, alguns canais de Youtube, notíticas, livros, conversas específicas com amigos, este blog e deu.

Claro que tem gente que trabalha com isso. Eu vivo de internet, quase todos os meus clientes moram em cidades distantes.

Mas, gente, nossa conexão precisa ser mais valiosa. Nossa atenção é cara. Nosso tempo de vida é curto. Não dá pra desperdiçar.

Estou na internet pra viver melhor, ser melhor, contribuir. Se não funciona assim, de que vale?

Queremos conexão, amizade, reconhecimento? Ótimo, vamos fazer com qualidade e realidade. Horário nobre, canal rico, fora das mídias sociais. Quem quiser, estou disponível.