Dá pra empreender dentro da empresa?

"A transição começa pela mudança de consciência, e por um novo entendimento dos papeis das empresas. Um deles: toda empresa passa a ser uma aceleradora de empreendedores.” - Tiago Mattos

Precisamos de mudanças de consciência, mais do que nunca o mundo pede. Precisamos de novos tipos de empreendimentos. Humanos, verdadeiros, responsáveis.

No entanto, ainda temos muito pela frente. Contaria com uma mão as empresas que funcionam, de verdade, como campo fértil para novos empreendedores e empreendimentos.

Me desculpem as pessoas de fé, mas, para mim, o intra-empreendedorismo efetivo, que emancipa pessoas, é um mito.

Quando acontece algum estímulo, a maioria esmagadora das empresas visam, na verdade, diversificar seu próprio negócio para garantir sua sustentação, sua saúde financeira.

Não buscam apoiar iniciativas independentes que emancipam colaboradores.

Não apoiam empreitadas que façam as pessoas voarem tão alto que as empresas se tornem irrelevantes para elas.

Não estão dispostas a bancar os custos que a liberdade traz.

Não sabem acolher os erros que o processo criativo de empreender carregam.

Não estão verdadeiramente abertas para os aprendizados que as pessoas autônomas podem gerar.

Você pode fazer o que quiser, desde que mantenha sua jornada dentro dos limites da organização. Então, já começa cheio de restrições.

A intenção maior da empresa é o resultado financeiro da organização, sua sobrevivência e manutençnao. A intenção é alcançar os propósitos da empresa, sejam quais forem.

A intenção não é o auto-desenvolvimento, a emancipação, nem a auto-responsabilidade, ou autonomia. A intenção não é permitir que as pessoas alcancem seus próprios propósitos, sejam quais forem.

Isso acontece por conta da natureza do ambiente corporativo. E também por conta da postura dos empregados.

No início da jornada empreendedora autônoma há uma particularidade que difere muito das iniciativas in company. Não há salário. E isso muda tudo. 

O empreendedor independente precisa de algum jeito conciliar seu sonho, desejo, contribuição ao mundo com seu ganha pão.

A grana vai ter que entrar como resultado do próprio trabalho, não há uma estrutura à parte que o sustente.

O que existe é uma necessidade latente, que parte de si, internamente, não é uma busca atribuída. Não há onde se apoiar. Então, o único jeito é fazer acontecer.

Quando a responsabilidade é direta, cada pequena decisão é tomada de outra forma.

Fazer um cartão de visitas e botar na conta da empresa é uma coisa.

Agora, desenhar, arcar com os custos, distribuir e esperar retornos reais é outra parada, completamente diferente, quando você é o empreendedor.

O ambiente estruturado demais inibe a tomada de risco, a pró-atividade, porque necessidade não tem a mesma urgência.

Os impactos negativos podem ser maiores porque a empresa já tem uma história e um jeito de fazer. Logo, as ações são mais comedidas.

Para quem tem em si o desejo de empreender, de verdade, em algum momento, ter um emprego pode atrapalhar.

Se sustentar e empreender não é nada fácil, e é completamente irresponsável jogar tudo pro alto sem nenhuma perspectiva de entrada se você já tem compromissos com saídas.

Acredito muito mais em caminhadas graduais, genuínas, que envolvem experimentação, novas conexões e muita entrega de valor.

Não é um salário, nem uma organização ordenada, que fará o empreendedor fazer acontecer.