Dez dias de silêncio - Minha experiência num curso de Meditação Vipassana

Dez dias podem passar voando. Mas esses meus foram longos como um mês inteiro.

Ouvi falar de Vipassana há uns quatro anos, quando um amigo foi pra um curso de meditação, dez dias de silêncio. Me pareceu loucura, algo para fazer, por mim, quando tivesse coragem.

Os benefícios da meditação bateram à minha porta frequentemente nos últimos tempos. Mindfulness, atenção plena, felicidade genuína, presença. Tudo muito bonito, mas distante. Até que me bateu. Outro amigo comentou que ia rolar a oportunidade. Me inscrevi sem pensar muito, fiquei na lista de espera, aconteceram desistências e eu fui.

Em dez dias sem falar, sem ler, sem escrever, sem qualquer contato com o mundo externo, ouvindo apenas alguns cânticos, instruções de meditação e palestras do professor Goenka, é possível pensar muito e em muita coisa. Mesmo que o objetivo principal fosse observar as sensações do corpo e deixar os pensamentos irem embora naturalmente.

Sem interrupções, distrações, estímulos, as ideias ficam largas e profundas. Nunca tinha me dado uma oportunidade tão rica quanto essa para me escutar, me observar e me sentir conectado.

Milhões de pensamentos me vieram e se foram. Lembranças da escola, a escalação do Palmeiras de 99, pessoas com quem me relacionei, brigas em que me envolvi, desejos profissionais, o passado da minha família, pessoas que morreram, o futuro da humanidade, a primeira coisa que vou fazer quando sair daqui. Tudo veio e, em algum momento, foi embora.

Ficar em silêncio não foi um problema pra mim. Gosto da quietude, da paz que me traz, da chance de prestar atenção nas coisas que não costumo observar. Entre elas, eu mesmo. Devo ter sentido vontade de conversar depois de uma semana. Mesmo que o grande medo das pessoas costume ser ficar sem falar, na minha experiência, essa foi a parte fácil.

Eram 110 homens ali, cada um movido por motivações mil, todos desenvolvendo, pouco a pouco, um sentido de comunidade e cumplicidade. Fomos orientados a não nos comunicar. Nem por olhares, nem gestos. Mas do quarto dia em diante senti que, de alguma forma, a gente estava junto nessa, estavamos unidos pelo Nobre Silêncio.

Esse texto não pode explicar a experiência. Mas, provavelmente, se você um dia viver a experiência, quem sabe esse texto fará mais sentido.

Por que Vipassana é sobre ver as coisas como elas realmente são. Com seus próprios olhos, sua própria vivência. Não há possibilidade alguma de viver pelo relato de outrem, cada experiência é absolutamente única e efêmera. Como na vida. A gente tem que caminhar o caminho com nossos pés. Não adianta alguém contar como o caminho é pra gente chegar em um lugar.

Tanto que pelo menos um terço dos meditadores estava lá pela segunda, terceira ou décima vez, fazendo o mesmo curso e vivendo coisas completamente diferentes. Em vários momentos, pensei “nunca mais eu volto aqui”, mas hoje, com a sabedoria que a distância dá, eu certamente voltarei a fazer silêncio por dez dias.

Senti, pela primeira vez, que meditei de verdade, profundamente. Já havia praticado algumas várias vezes na vida, sob orientação, com técnica de respiração, respirando naturalmente, com música, em silêncio, depois da Yoga, e até num curso de dois dias que fiz na Tailândia. Mas nada disso se compara à intensidade de aprendizados que tive nesse curso de meditação Vipassana.

É importante dizer que este foi um curso, tem uma técnica e, se você for, aprende ela. Não tem caráter religioso. Frisam que cristãos, muçulmanos, hindus, judeus, budistas, ateus, todos são bem-vindos e não precisam abandonar suas crenças.

Esta edição foi realizada num espaço católico alugado, todas as imagens de Jesus Cristo, crucifixos e a Santa Ceia do refeitório foram cobertos ou temporariamente retirados. Nenhuma distração, nenhuma imagem, nenhuma divindade.

A rotina era exigente. Meditações na sala de meditação, algumas podem ser no quarto, das 4:30 às 21:00. Em geral, sessões de uma hora ou uma hora e meia que totalizam dez por dia. Se você seguir à risca, serão 100 horas de meditação.

No começo da tarde, recebemos novas instruções. Gradualmente, a técnica é aprofundada. Começamos observando apenas a respiração natural, o ar que, assim como entra, sai. Terminamos observando as sensações mais sutis, por todo o corpo, e compartilhando liberdade com todos os seres.

Três refeições, café da manhã às 6:30, almoço às 11:00 e duas frutas às 17:00. Pros alunos antigos, que já completaram o curso pelo menos uma vez, depois do almoço, só limonada. Meditar de barriga cheia é mais difícil. Em alguns momentos, senti cada movimento do intestino e o samba que a bile tocava depois do rango.

Pela noite, a palestra do professor Goenka. O curso de Vipassana foi a experiência de Ensino à Distância mais rica que já tive. Todo ele é dado por gravações integrais de um curso ministrado pelo professor de Mianmar. Consta que a antiga Birmânia preservou a forma original de Vipassana através dos milênios. Depois da sua voz em inglês com sotaque indiano, a tradução em português com sotaque carioca. Histórias da Índia, ensinamentos de Buda, o Dhamma, tudo muito didático.

Goenka começou a ensinar a técnica em 1969. Era um empresário cheio de dores de cabeça, literalmente, e foi ensinado por Sayagyi U Ba Khin a observar muito mais do que isso. No site, você pode ler que “Satya Narayan Goenka respirou pela última vez em setembro de 2013, com 89 anos.” Suas gravações continuam relevantes e atemporais. Agora, traduzidas em dezenas de línguas permitem que todo curso tenha exatamente o mesmo conteúdo em qualquer lugar do mundo.

A interface humana que representa o conhecimento foi dada por dois professores. No meu caso, era um casal que se sentava de frente pra turma e davam o play na gravação. Meditavam por horas como todos os estudantes. Só que, naturalmente, mais equânimes, digamos.

Nos intervalos após o almoço, era possível agendar uma breve conversa com um dos professores. Para tirar dúvidas sobre a técnica ou botar uma inquietude pra fora. No fim do dia, uma pequena fila se formava na sala de meditação para uma discreta pergunta em público, com resposta baixinha, mas que pode ser ouvida por quem estiver bem perto. Sou um cara comedido, perguntei uma vez só.

Tudo foi organizado, executado e cozido pelos voluntários. Homens e mulheres que já completaram o curso podem servir nas edições seguintes. Graças a eles, não precisamos falar nada, tudo já está previamente definido. Seu lugar de comer, meditar e dormir, seus pertences estão bem guardados e sua comida está pronta. Não deve ser nada fácil cozinhar pra 110 homens. Sou muito grato a eles.

Não teve valor de inscrição, nem atividades comerciais. Minha carteira ficou guardada todo esse tempo, inútil. Todos os cursos são realizados com as doações de alunos antigos. Depois de completar o curso, você está habilitado a doar. Isso faz os cursos Vipassana serem extremamente inclusivos e movidos pela generosidade de quem se beneficia pela técnica. Coerência.

Nos intervalos, não se tem muito o que fazer. Alguns alongam, sentam na grama, penduram toalhas no varal, sentam de novo, esperam. Tudo em silêncio. Um clima estranho de Big Brother misturado manicômio. Mas aparentemente todo mundo está muito consciente e tranquilo.

Para não ficar sem exercícios, inventei um circuito de caminhada pelo pátio. Durava dois minutos, contei por um dos três relógios de parede. Fazia dez, vinte voltas em círculo. Como andei.

Meditava, comia, pensava, ia ao banheiro, andava, tomava banho e dormia. Era isso. Era tudo isso.

O quarto era justo. Duas camas de solteiro, um banheiro com chuveiro a gás, piso de taco, janela pro mato. Não tive a chance de conversar com o cara que dormiu ao meu lado.

- Opa.
- Op.
- Se quiser, pode pôr sua toalha aqui.
- Capaz.

Deve ser gaúcho. Ele saiu, fomos pro refeitório onde recebemos instruções iniciais e o silêncio começou a valer logo em seguida.

Ao longo dos dias, descobri que seu nome era Matheus só porque estava escrito na fita crepe colada em seu copo.

O guri novo que sentava na minha diagonal na hora do almoço sempre comia de colher sua montanhazinha. No terceiro dia, não apareceu. Nem no quarto. E aí eu entendi.

Pensei em desistir algumas vezes. Mas em nenhuma me levei a sério. Meu ego falou mais alto. Ou mais baixo. Pra essas coisas, sou durão, persistente e até competitivo. Quando esse tipo de pensamento vinha, eu meditava.

O cara que sentava atrás de mim parecia um sábio mestre. Magro, discreto, estava sempre em posição de lótus, de olhos fechados, enquanto eu ainda ajeitava minhas duas humildes almofadas.

Quando acabava a sessão, era uma orquestra de suspiros, respirações mais profundas, alguns gemidos, estaladas, roupa roçando, nenhuma palavra. Meu vizinho de trás, imóvel, continuava meditando.

No oitavo dia, caminhava meu circuito de dois minutos depois do almoço. Ele estava no pátio carregando suas malas. Sentou como se estivesse esperando alguém. Completei mais uma volta, ele continuava lá. Cinco voltas, e nada. Acho que ele estava meditando. Talvez se certificando de que estava fazendo a coisa certa pra ele. Ou deixando os pensamentos sobre a notícia urgente do mundo externo que acabara de receber irem embora. Vai saber.

Ao longo dos dias, percebi que algumas marcações de lugares da sala de meditação recebiam etiquetas escritas à mão. Cada tipo de ausência era uma sigla. PRD, DNT, FGU. Vi uns dois que foram meditar encostados na parede. Outro ficou doente. Atrás de mim, um FGU de canetão azul, fugiu.

Sono, fome, solidão, impaciência, saudades, desejos, dores. Devem existir muitos motivos para desistir. Pra mim, o que mais pegou foram as dores. Joelhos, pernas, costas. Não havia alongamento que desse conta. Devia ter feito isso ao longo de anos e anos da vida.

Sentar por muitas horas como índio dói pra um ocidental. Prometi pra mim mesmo praticar mais exercícios e sentar mais no chão saindo dali. Mas de alguma forma, eu sabia que ia passar, que valeria a pena.

Vipassana não é sobre sofrimento, nem penitência. Mas desconfortos são comuns.

Vipassana não é sobre êxtase, nem relaxamento. Mas sensações prazerosas são comuns.

A premissa é que todas as sensações, as que despertam avidez ou aversão, não importa, têm uma única característica. A característica da impermanência. Assim como vieram, elas se vão. Por isso, nos mantemos equânimes e conscientes.

Matheus não era de acordar cedo. Eu também não sou. Nos cinco primeiros dias acordei com o badalo das 4 da manhã e antes das 4 e meia já estava meditando. No quinto dia, estava acabado. Mal consegui meditar pela manhã, sugado pelo sono. No sexto dia, ignorei o sino e só fui dar as caras no café da manhã, às 6:30. No sétimo, fui pra meditação da madrugada, aguentei por meia hora e voltei pra cama. Vocês não imaginam o esforço que é pra um notívago acordar na hora que poderia estar indo dormir.

Na maior parte desses dias, o Matheus ficou meditando - ou dormindo - no quarto. No sexto dia, entrei no quarto e ele arrumava as malas. Pensei que ia ficar com o quarto só pra mim.

Mas na tarde daquele dia ele estava lá, ocupando seu lugar ao lado de uma centena de homens silenciosos. Ele desistiu de desistir. Ou só estava arrumando as roupas.

Eu mesmo fiz isso umas duas vezes. Na contagem regressiva dos últimos quatro dias, empilhei uma cueca, uma camiseta e um par de meias pra cada data e os posicionei em fila milimetricamente.

Meu primeiro dia foi de descoberta. O segundo, muito difícil, “como vou aguentar ficar aqui mais oito?”. O terceiro, também. A técnica avançava a passos lentos pra minha ansiedade.

Inicialmente, observamos nossa própria respiração natural. Se fosse forte, era forte. Se fosse fraca, era fraca. Quando fosse pela narina direita, assim era. E também pela esquerda, às vezes por ambas. Assim como o ar entrava, saia. Era o que era.

Enquanto conseguia observar as sensações, calor, frio, o ar entrando, saindo, um leve pulsar, uma coceira, uma sutil vibração, estava tudo bem. Quando não conseguia, a mente vinha com ideias, sugestões, análises e críticas.

Mas no quarto dia foi como se tivesse tomado a pílula vermelha do Morpheus. Depois de afiar a mente observando cada sensação sutil em um ponto específico, abaixo das narinas, acima do lábio superior, fomos orientados pelo mestre Goenka a mover a atenção por cada parte do corpo. Apenas observando o que viesse, fosse o que fosse.

Do topo da cabeça a cada pedacinho da face, testa, nariz, maçãs do rosto, bochechas, boca, queixo. Atrás da cabeça, na nuca. Em cada um dos ombros, braços, antebraços, mãos e dedos. Pelo tronco e em cada parte dele, pela barriga. As costas, cada pedacinho da perna.

Neste momento, já estava consciente das sensações grosseiras, como o toque do tecido na pele, e de algumas sensações sutis, como um constante pulsar, uma vibração silenciosa em algumas partes do corpo.

Foi aí que a ficha caiu pelas palavras do mestre. Todas as sensações são efêmeras, inconstantes. Vêm e vão. De que adiantaria me apegar às prazerosas se elas vão embora? De que adiantaria sofrer pelas desgostosas se elas são tão passageiras? Seja qual for a sensação, essa é a lei da natureza. Impermanência. Mudança.

Através de Vipassana, pude experienciar pela moldura do corpo a constante vibração da vida - e também da morte. Por que tudo está, ao mesmo tempo, agora, se transformando, mudando, nascendo e desaparecendo. Não é fantástico?

Já tinha entendido esse conceito racionalmente. Escutei, li. Mas só depois de viver a experiência compreendi como observar conscientemente a impermanência me livra dos sofrimentos. Equanimidade.

Do quinto dia em diante, mais Vipassana, e o fluxo de sensações uniformes pelo corpo ganhou liberdade. Movi a atenção por partes e partes do corpo. Por fora e por dentro. Em alguns momentos, senti o pulsar do coração em outros locais, um intenso fluxo na testa, uma desintegração com o ambiente, uma dissolução do “eu”.

Tudo de forma serena, imóvel, desapegado, apenas observando, sem magia alguma.

No sétimo dia, estava empolgado. Voltei pro quarto depois de uma sessão, abri a porta com cuidado e me assustei. A cama do Matheus estava sem lençol. Suas malas tinham ido embora. Ele tinha fugido.

Entrei no banheiro úmido por conta do banho dele, recém tomado. No espelho, desenhado com o dedo sobre o vapor, uma palavra grifada: “Gratidão”.

Ri como nunca tinha feito no curso. Gargalhei. Ele me surpreendeu. Impermanência. Não conversamos nada, e por isso deixou seu voto silencioso. Eu que agradeço, Matheus.