Não faça o que você ama. Construa sua história significativa.

A pessoa ama ver bolos no Pinterest.

Coleciona glacês, compra livros de receitas, faz cursos.

Aí resolve viver fazendo o que ama.

Torra suas economias para inaugurar mais um café no bairro.

O tempo passa e a rotina se estabelece.

Passa os dias ligando pra fornecedores, gerenciando funcionários e fazendo contabilidade.

Dor de cabeça, horário pra cumprir, contas pra pagar.

Os bolos são só uma parte muito pequena do trabalho cotidiano.

Para manter um café, ou uma doceria, ou qualquer outro empreendimento precisamos de, pasmem, trabalho.

Outra pessoa ama desenhar.

Cursa publicidade e entra numa agência. 

Seus dias são de brainstorming, clientes sisudos, chefe difícil.

Desenhar é um momento raro, e cada vez mais raro, que acontece nos finais de semana.

O que estava por trás da publicidade era o desenhar. Mas o desenhar se tornou uma habilidade eventualmente útil.

Amar uma atividade é lindo, né? A gente entra em fluxo, não vê o tempo passar.

Mas é muito improvável que uma profissão seja feita apenas da atividade que amamos.

Junto de todo trabalho que amamos vem o trabalho chato, a fila do banco, a cobrança a ser feita, as planilhas, a sujeira, as reuniões. Cada um tem seu terror.

E outra, esse amor pelas coisas às vezes passa. Tem mais cara de paixão. A gente muda e nossos gostos também.

Dizem que o inferno é fazer repetidamente, eternamente, aquilo que mais amamos fazer, até se tornar insuportável.

Por isso, tenho deixado de lado a ideia do “faça o que você ama”. A princípio, ela parece muito boa, mas muitas vezes me parece frágil e inocente.

Se apresenta mais honesta a ideia de “construir uma história significativa”. Nossa própria história.

Com autonomia, busca pessoal, presença, responsabilidade, decisões.

Como toda boa história, faz parte dela aceitarmos altos e baixos, aprendizados e decepções, sucessos e desafios. Tudo é vida.

É mais crível entender nossa jornada profissional como uma história cheia de aventuras.

E não como uma busca pelo Santo Graal da atividade especial que amamos e faremos eternamente.

Porque até o café dos sonhos muda, a vida de agência pode ser terrível, o empreendimento que sempre desejamos pode ser um pesadelo. Nós mudamos o tempo todo.

Quando a gente está mais pela história do que pela atividade em si, as transformações ficam mais leves.

Porque uma construção ao longo do tempo entende que toda atividade, pequena ou grande, velha ou nova, merece ser feita.

Cada tijolinho ganha mais sentido, sendo ele amável e divertido ou chato e pesado.

Nossa história está para além das coisas que fazemos.