Precisamos de grandes corporações para uma grande mudança?

Soube que Jamie Oliver fez uma parceria com a Sadia.

Causou um reboliço, porque é contraditório.

De um lado, um cara que defende comida de verdade, criando uma linha de congelados. Produtos que ele não vende e, provavelmente, não come.

Do outro, uma megacorporação de comida processada contratando um ativista popstar que era contra comida industrializada e de baixa qualidade.

Os ativistas do Food Revolution ficaram pelo meio do caminho. Muitos se desligando da organização de Jamie.

Desespero de todo lado. Tem muita coisa errada nessa história, mesmo.

Jamie já disse que pode estar errado. “Se queremos uma grande mudança, precisamos das grandes corporações. Pode ser que eu esteja errado. Mas prefiro tentar”.

E admite a contradição. “Estou errado? Talvez. Mas, para mim, estar dentro dessa máquina, uma empresa que é responsável por 18% do frango no mundo é algo positivo. E digo que, certamente, eu poderia estar ganhando mais dinheiro fazendo outra coisa. É claro, estou entrando num ambiente estranho, até incestuoso, complicado. Mas em um ano vamos conversar e eu vou te mostrar o resultado do que fiz.”

Ao meu ver, a fé de que a única possibilidade de mudança é centralizada, industrial, gigantesca e cara é o centro da discussão.

Se você acredita nisso, provavelmente vai tentar uma mudança de dentro pra fora. Vai acreditar que este é o jeito de impactar milhões de pessoas, e que bom que estão querendo mudar.

Eu tenho outra fé. Não acredito que um enorme impacto em larga escala pode reverter os problemas gerados pela própria produção em larga escala.

O problema é justamente este modelo industrial. Centralização não se resolve com soluções centralizadas. Pra mim, o caminho é a descentralização. Produção local, pequena, e autossuficiente. Tornar a indústria menos poderosa. E, no futuro, irrelevante.

Quando a comida de verdade é produzida por uma indústria, ela deixa de ser comida de verdade. Vai ter química, vai ter mais lixo sendo produzido, vai ter uma busca por mais lucratividade, que vai criar mais processos distantes do ciclo natural do alimento.

Comida é coisa séria. Nos desconectamos demais dela. Jamie sabe muito bem disso. E me entristece vê-lo acreditar que não dá mais tempo de aprendermos a produzir e preparar nossos alimentos.

O recado que ele parece estar dando é: "não vai dar tempo de ampliar nossa consciência. Esqueçam meus programas na tevê, esqueçam o trabalho de formiguinha. Vamos depender de Sadias."

Espero que esteja errado, como ele também parece torcer, lá no fundo.

A cada escolha do tipo "vamos mudar de dentro pra fora", mais a grande indústria se fortalece. Ainda que Jamie crie sua linha de congelados saudáveis (como?), a Sadia continuará vendendo seus frangos, salsichas e pizzas recheadas de conservantes, gorduras trans, problemas cardíacos e câncer. Agora com a imagem associada ao chef.

Biel Baum, 14 anos, mandou um recado pro seu amigo inglês. Minha esperança está na próxima geração.

“Precisamos apoiar os pequenos agricultores, mobilizar políticos para não deixar alimentos transgênicos parar no prato das crianças, criar cooperativas de consumo de orgânicos, evitar comida congelada cheia de conservantes, pressionar a ANVISA para deixar de envenenar a gente permitindo tantos agrotóxicos, diminuir impostos para produtores de frutas e verduras orgânicas, proibir junk food nas cantinas das escolas, ter horta nas escolas e universidades.... eu sei, é muita coisa. Mas todos juntos, podemos conseguir mudar para o BEM, de verdade!”

E eu acrescentaria: precisamos nos responsabilizar o quanto pudermos pelos nossos alimentos. Conhecer sua origem, produzir, cozinhar, tocar o alimento que nos dá vida. Precisamos diminuir os intermediários, depender menos de grandes indústrias, governos e do poder financeiro. Não pode ser mais difícil do que já está.

Jamie, nos mostre como os nuggets são feitos pela Sadia.