Lidando com nosso momento

Que nesse tempo sombrio a gente se apoie.

Fica aqui minha pequena contribuição.

Algumas das palavras que mais me acolheram.


"Essa é a situação que vivemos no momento atual. Somos governados pelo medo. Temos medo dos vizinhos, dos socialistas, dos capitalistas, dos negros, dos brancos, dos hindus, dos muçulmanos, dos cristãos. Estamos todos divididos em grupos e tememos alguém. Não se admira que estejamos votando em líderes que gastam tantos recursos naturais em armamento! Pode não ser fácil ver a conexão entre paz pessoal e paz política, entre paz interior e paz mundial, mas esses dois aspectos estão completamente interligados. Não estou afirmando que devemos deixar de lado o trabalho pela paz mundial até que tenhamos paz interior. É preciso trabalhar nas duas frentes simultaneamente." - Satish Kumar



E agora?

É muito difícil sair desse nosso microuniverso enquanto o medo está tão presente.

Mas nenhuma explicação racional é capaz de dar conta de toda a história. Nenhuma.

Este avanço conservador está no mundo. Trump, Brexit, Le Pen, Macri. E está mais agressivo, mais intolerante.

Não é explicável do ponto de vista das ciências políticas ou sociais.

É biológico. É irracional. É de ordem emocional.

Os próximos 5 minutos, a partir de 1h39m55s, deste vídeo do Bruno Torturra sintetizou muito bem o que também venho sentindo.

É sobre a humanidade tomando consciência do seu fim.

E, sem saber lidar, fazendo escolhas para excluir parte de nós por qualquer critério absurdo que favoreça a auto-preservação.

Estamos diante de problemas de altíssima complexidade, em nível planetário, como o aquecimento global, sem a menor ideia de como reverter.

Ideias até existem, na verdade. Mas nos falta prática. Nos faltam referências de outros jeitos de nos alimentarmos, convivermos, nos organizarmos socialmente, politicamente e economicamente de tal forma que a nossa própria existência não seja uma ameaça para nós mesmos.

As raríssimas referências que temos remontam a um passado indígena que nossa mentalidade desenvolvimentista é incapaz de entender sem jogar no campo do regresso ao passado.

É desesperador ter de lidar com a iminência da morte sem saber como lidar.

E assim preferimos ficar nos nossos pequenos mundos, com nossos pequenos problemas que, esperamos, serão resolvido por um salvador da pátria, por um governo sem corrupção, por armas que resolvem toda criminalidade num gatilho, por Deus.

Estamos fugindo do assunto enquanto podemos. Estamos diante do elefante na sala sem falarmos sobre ele.

James Lovelock, um dos maiores pensadores do nosso tempo, que cunhou a Teoria de Gaia, acredita que já passamos do ponto de não-retorno. Ou seja, não somos capazes de frear os impactos que causamos no planeta.

E agora? Fudeu?

Estou entendendo que sim.

A primeira opção é negar. Ignorar, ridicularizar.

A segunda é se desesperar. Vociferar, se desconectar.

A terceira é se salvar às custas dos demais - o que parece ser a mais estúpida, já que todos estamos no mesmo barco, não há para onde fugir.

E a quarta é a única que ainda pode nos fazer manter alguma sanidade.

Só podemos viver a vida, integralmente, reconhecendo o direito à vida de todos os seres.

Aceitando a morte e a transformação como leis universais da vida.

Só nos resta viver com arte, expressando a humanidade que há em nós. Arte que nos coloca no campo da imaginação, da conexão, da crítica pacífica.

Viver em comunidade, com apoio mútuo, proximidade, contato, aceitação, afeto e resiliência.

Viver em harmonia, nos integrando ao fluxo natural da vida.

Se nosso fim se aproxima a cada dia, é o que nos resta, não dá pra acelerá-lo ainda mais.

E agora? Bem, agora, só nos resta o agora.

Intolerância

"Cultivar um interesse genuíno pelos outros é o melhor jeito de ajudar a si mesmo. Não há diferença. Qualquer mínima sensação de isolamento que sentimos (dos outros serem superiores, inferiores ou não terem interesse em nossa vida, por exemplo) vem justamente do medo de quebrar esse ciclo e ousar o primeiro movimento.” - O Lugar.

Nestes tempos, é mais fácil se desconectar das pessoas do que se conectar de verdade.

Burro, ignorante, block.

Mas não tem jeito, de onde veio, tem mais. Vai passar essa eleição e, esperamos, teremos outras.

Por mais que a gente abomine, um percentual de nós é fascista, homofóbico, machista, autoritário, corrupto.

E, infelizmente, continuarão existindo e persistindo por algum tempo. Essa é nossa realidade.

Não temos outra opção, precisamos conviver com as famílias, os colegas de trabalho, a vizinhança, estamos todos no mesmo país, no mesmo planeta.

Parte de mim tem o desejo de desconexão, de eliminação, da solução fácil. Em algum lugar alimento a divisão acalorada entre opostos, que separa os meus dos deles.

Outra parte sabe que somos todos um, que sempre é preciso encontrar humanidade nos olhos de quem prolifera ódio. Que estamos todos nos transformando, no tempo que há. Precisamos cultivar esperança de evolução ou estamos perdidos. Não há nós contra eles.

Neste ano, procurei me manter curioso para entender os porquês de quem pensa completamente diferente de mim. Vi vídeos que defendem outro lado, tentei conversar com quem levanta a bandeira do que repudio, li as propostas.

Não é fácil, exige um grande esforço. Grande, porém menor do que o esforço de reparar uma guerra. Grande, mas menor do que o esforço de reestabelecer uma democracia.

Essa eleição tem me ajudado a perceber o quanto preciso de entrega, de disposição e de mais habilidade para criar pontes. Aqui, ainda falta muito, admiro quem consegue com mais equanimidade e peito aberto.

Admiro quem consegue entender de antemão a discussão que vale a pena, ou o papo que não merece grande energia porque, sabemos, só nos desgastaremos.

Quero aprender com quem consegue criar uma ponte à partir do que nos conecta, ainda que as estratégias para fazer algo sejam completamente diferentes.

Respeito muito quem é capaz de divergir, ampliar os debates, discordar veementemente e ter a certeza de que não há nada, nenhuma relação em risco.

Me incomoda muitas vezes minha aproximação ser mais pelo estudo, pelo desejo que fica lá no fundo de convencer, ou mostrar meu ponto. E não porque quem pensa diferente é digno de ser escutado. Gostaria de lembrar mais vezes que a gente pode construir algo juntos.

E me ajudar a viver com esperança e compaixão.

Este é o jogo que quero jogar. Qualquer coisa fora disso é tentativa de silenciar, é acreditar que os outros são inferiores, que existem outros. E que a polarização, o jogo ganha-perde é o único caminho.

Só há um limite claro para minha tolerância que é não tolerar os intolerantes, aqueles que ameaçam a vida humana (#EleNão) e colocam a própria tolerância em risco. Tem um paradoxo aí que vale infinitos debates e a escuta desse lindo episódio do podcast Mamilos.

Fora isso, a gente tem que dialogar, debater e viver essa coisa frágil, porém infinitamente melhor do que qualquer outra possibilidade, que é a democracia.

 O paradoxo da tolerância pelo filósofo Karl Popper.   Uma sociedade tolerante deve tolerar a intolerância?   “Você quer mais tolerância? Respeite minhas ideias!”   A resposta é não.   É um paradoxo, mas tolerância ilimitada pode nos levar à extinção da tolerância.   Quando a gente estende a tolerância àqueles que são abertamente intolerantes…   “Vamos dá-los uma chance! “  Os tolerantes é quem acabam sendo destruídos. E a tolerância também.   Qualquer movimento que prega intolerância e perseguição deve estar fora da lei.   Por mais paradoxo que isso possa parecer, defender a tolerância exige não tolerar o intolerante.

O paradoxo da tolerância pelo filósofo Karl Popper.

Uma sociedade tolerante deve tolerar a intolerância?

“Você quer mais tolerância? Respeite minhas ideias!”

A resposta é não.

É um paradoxo, mas tolerância ilimitada pode nos levar à extinção da tolerância.

Quando a gente estende a tolerância àqueles que são abertamente intolerantes…

“Vamos dá-los uma chance! “

Os tolerantes é quem acabam sendo destruídos. E a tolerância também.

Qualquer movimento que prega intolerância e perseguição deve estar fora da lei.

Por mais paradoxo que isso possa parecer, defender a tolerância exige não tolerar o intolerante.


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Dinheiro grátis para todos

Acredito que todo ser humano deveria ter dignidade.

Todo mundo, sem exceção, deveria ter garantido o mínimo para comer e se abrigar, o direito de ter uma vida digna.

Não dá pra acreditar que a gente manda robô pra Marte, planta comida para alimentar carro, aluga casas ociosas pelo celular, desperdiça um quarto de tudo que produzimos e ainda tem um monte de gente no mundo passando fome.

Já temos o suficiente para todos. Mas continuamos tentando inventar formas de justificar a distribuição desigual para quem "merece". Ao acreditarmos em escassez, a tornamos real.

Precisamos desassociar o direito à vida do trabalho.

Trabalho é importante demais. Mas todos nós passamos ou passaremos um tempo sem. E, nem por isso, merecemos morrer ou viver sem dignidade.

Escutei por quase duas horas a voz rouca de Eduardo Suplicy no Anticast e me emocionei. Ele advoga pela Renda Básica de Cidadania há uns bons anos e conseguiu aprovar em 2004 a lei que garante que nosso poder executivo vai implementá-la no Brasil. A ideia não é dele, nem nova. Pensadores alinhados à esquerda e à direita já a defenderam.

Renda Básica de Cidadania, Renda Básica Universal, ou Universal Basic Income é a proposta em que todos os cidadãos, sem qualquer distinção, recebem mensalmente uma quantia suficiente para ter o mínimo. Uma grana para não faltar comida e abrigo, por exemplo. Os valores que se fala por aí são variados. R$ 1000, U$ 1000. Vamos entender como um salário mínimo. Independente do emprego, da idade, de qualquer condição. Seja rico ou seja pobre a graninha sempre vem.

Nossa cabeça que enxerga o mundo pela lente da escassez racha ao entrar em contato com o conceito de Renda Básica Universal.

"Como assim dinheiro de graça para todos?" Sim. Descondicionar dinheiro recebido de trabalho feito é revolucionário. Porque, cá entre nós, nenhum modelo econômico testado acabou com a fome globalmente. E se todos os países seguirem o exemplo dos países "desenvolvidos", não teremos planeta Terra que dê conta dos recursos naturais explorados.

"Ah mas ninguém vai querer trabalhar." Se ganhasse um salário mínimo, eu trabalharia da mesma forma, e você? Você, provavelmente, também. Os estudos apontam que 99% das pessoas também. Alguns trabalhariam menos, outros deixariam de trabalhar por um tempo. Seres humanos perseguem significado, pertencimento, querem se sentir úteis. Se alguns poucos de nós se contentarem em viver com o mínimo, por que isso seria  problema?

"Ah mas tem trabalhos importantes que ninguém vai querer fazer, daí." Eu acho uma crueldade acreditarmos que alguns de nós devem fazer trabalhos que não tem nenhum significado, não acrescentam nada ao espírito humano, para que poucos de nós possam viver bem. As atividades que não merecem ser feitas não deveriam ser feitas. Se houver algum trabalho essencial que uma máquina não pode fazer, ele deveria ser muito bem remunerado, porque é valioso. Entendo que este é um cenário ideal e que o mundo de hoje não funciona assim. Mas a gente precisa tensioná-lo e, gradativamente, possibilitar que todo ser tenha a oportunidade de viver plenamente fazendo algo que o engrandeça. A Renda Básica Universal deve começar pequena e ir aumentando pouco a pouco. Não acredito que será um "deus nos acuda, não temos mais sub-empregos" de um dia pro outro.

"Isso não aumentaria a inflação?" Não sei dizer. Tendo a acreditar que não, porque é uma questão de transferência de renda, não criação de dinheiro. Vem dos impostos. Não há circulação de dinheiro novo.

"Quem paga por isso?" Espera-se que o crime diminua. Porque as pessoas que não têm possibilidade alguma terão o mínimo garantido para que não precisem roubar ou traficar, por exemplo, diminuindo os custos de segurança. Espera-se que os custos de saúde pública diminuam. Porque as pessoas terão o mínimo para se cuidarem, se alimentarem, talvez comprarem remédios básicos, espera-se que as pessoas não precisem se prostituir. A hipótese é que é mais barato, rápido e simples dar dinheiro pras pessoas se cuidarem do que ficar tentando cuidar delas.

"As pessoas vão gastar tudo com bobagens." Talvez. Talvez alguns de nós, talvez por um tempo. Mas é natural do ser humano querer viver bem. E acredito que cada um sabe o que é bom pra si. A gente muda. A pergunta que me fica é: quem se importa com a forma que o outro gasta seu salário? Isso não parece um problema, não é mesmo?

A verdade é que não temos respostas concretas. Porque a Renda Básica Universal tem pouquíssimos exemplos. Suplicy cita Alaska e Macau como cases de sucesso. Estudos são feitos em 40 países.

A gente poderia entender que o Bolsa Família foi um protótipo. Considero que mais ou menos, porque tem suas condições, não é pra todos, nem pra sempre como sugere a ideia de Universal Basic Income.

Ser pra sempre e pra todos muda tudo.

Porque você terá a segurança de que sua vida não estará nunca em risco por falta de grana. Isso nos dá liberdade para estudar por paixão, perseguir um trabalho significativo, viver mais plenamente. Partimos de um patamar mínimo para exercermos nosso potencial máximo.

Diferentemente do Bolsa Família, a Renda Básica de Cidadania é para todos, sem divisão. Sem qualquer critério abstrato ou arbitrário que separa as pessoas. Porque simplifica, desburocratiza e, o mais importante, não faz a pessoa questionar se vale a pena ganhar mais trabalhando e perder o benefício. Ou continuar pobre, mas recebendo a bolsa.

Renda Básica Universal é a mais poderosa ideia do nosso século para eliminar a pobreza. Espero vê-la acontecer em breve. Para mim, é tão significativa quanto o fim da escravidão. É uma ideia baseada em confiança nas pessoas, em liberdade segura, em dignidade universal e merecemos, todos, viver isso.

Só votar não dá

“Somos seres complexos, num mundo complexo, cada vez mais caótico. Não dá pra achar que tem solução simples pra nada. Não tem frase pronta que dê conta da realidade em que a gente vive. Não dá pra achar que é só apertar um botão pra resolver toda a treta. É a soma de várias ações que vai resultar em alguma mudança, a eleição é só uma destas ações diante de tantas outras que podemos exercitar todos os dias.” - Mari Pelli.

Uma coisa interessante que acontece nesses tempos de eleições é o interesse que se desperta pela coisa pública.

A “festa da democracia” nos faz acreditar que o voto é essa coisa valiosa. E é. Muito melhor ter do que não ter. É uma conquista que espero que seja ampliada.

Mas seu impacto é mínimo. Um voto é só um entre 147 milhões no pleito nacional. A chance de um voto decidir uma eleição pra presidente é irrisória, é (quase) impossível.

Voto é uma grande escolha que vale muito pouco, que se dilui ao longo de quatro ou oito longos anos.

Se sua candidata perder, não importa quantos votos teve, sua opinião não valeu absolutamente nada neste jogo “democrático”. Todos os perdedores têm suas opiniões descartadas.

Por isso, só votar não dá. Só votar é muito pouco diante das transformações que precisamos.

As decisões sobre a vida pública acontecem todos os dias, a todo instante, quando a gente quer e quando a gente não quer.

Fazemos escolhas políticas a cada compra. A cada escolha mais consciente. A cada vez que damos mais dinheiro para quem queremos que siga produzindo no mundo. Ou quando compramos só um negocinho de uma grande empresa lucrativa que fode com o planeta.

Fazemos escolhas políticas a cada não-compra. A cada roupa usada ao máximo, a cada eletrônico consertado, a cada toneira fechada, a cada lixo poupado, a cada canudinho economizado.

Fazemos escolhas políticas a cada compartilhar de conteúdo relevante. A cada conversa esclarecedora ou a cada diálogo sem escuta. A cada vez que privilegiamos privilegiados ou quando criamos oportunidades para quem tem menos.

Fazemos escolhas políticas a cada trabalho realizado, escolhido ou negado. A cada energia empregada para a construção do mundo que a gente quer para todos. Ou a cada grana que a gente faz ignorando as más consequências para todos os outros.

Fazemos escolhas políticas a cada doação generosa. A cada distribuição de recursos. A cada escolha por financiar e fazer acontecer um mundo mais acolhedor, tolerante e responsável.

Espero que seu voto seja o mais consciente possível. E que cada decisão verdadeiramente impactante seja ainda mais.

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Poder

O “mercado” e a “democacria” são muito frágeis. Porque são suscetíveis ao poder.

E este, o poder, é um prato cheio e suculento para os sociopatas, os insensíveis e os opressores.

O sistema político, do jeito que desenhamos, é um jogo do tipo ganha-perde. É sobre vencer, derrotar, diminuir o outro, quando deveria ser um jogo para todos ganharem. É o campo preferido de quem vê o mundo como uma batalha entre nós e eles.

O mercado financeiro não escolhe para onde o dinheiro vai considerando o que é melhor para todos. A grana flui em direção à potencialização dos lucros, custe o que custar. Viver nesse mundo e dormir com a consciência tranquila não é para os sensíveis.

As grandes corporações. Elas só existem e se mantém porque tem muita gente que não se importa com as externalidades, as consequências de, por exemplo, tirar carbono que há milhares de anos dorme no fundo do mar para queimar e transformar em gás carbônico na atmosfera.

As estruturas hierárquicas, baseadas em poder, favorecem quem se interessa por poder. Quão mais capaz de passar por cima de tudo e todos, mais capaz se é de galgar posições nessas estruturas.

Essas entidades que criamos, como o “mercado”, parecem ter poder demais. E têm, porque interferem diretamente na vida de todos nós, ocupam o noticiário, nos dão dor de cabeça e medo.

Nos cabe criar estruturas mais autônomas, livres e inclusivas possíveis. Cabe a nós distribuir poder.

Comprar do pequeno, alimentar redes de apoio, fazer escolhas para além do óbvio, abrir mão de privilégios e não dar mais poder aos que são capazes de fazer qualquer coisa por ele.

Faça a arte que você quer ver no mundo

Dê sua opinião. Me conta o que você pensa. O que mexe contigo. Faça teu barulho.

Espalha o que há de mais importante no que você está aprendendo.

Sua visão crítica, sua dor, sua proposta, seu jeito único de ver o mundo é importante demais.

Nunca foi tão fácil entregar um pedacinho das nossas angústias, erros, reflexões e fragilidades.

Mas você, que pensa demais, acha que não vão gostar. Que podia ser melhor. Que não é bom o suficiente. Que é uma bobagem.

E não publica, não compartilha. Deixa escondido. Deixa pra depois. Deixa pra lá.

Quem está ignorante pensa diferente.

Quem não se importa com o outro, o ignora e, por isso, publica, vomita no G1, xinga no twitter, encaminha meme do candidato mais ignorante ainda.

Todos nós, que apanhamos da Internet que não queremos, começamos a acreditar que o mundo assim mesmo, cheio de gente estúpida, intolerante e sem empatia.

Mas não.

Todos nós temos algo a contribuir. Todos nós podemos dar menos ouvidos aos nossos medos e, generosamente, produzir beleza, conexão e arte através da nossa opinião.

Se você é do vídeo, faz o canal no YouTube que você gostaria que existisse.

Se é do texto, escreva o livro que você quer ler.

Se é da dança, expresse através do corpo o que você acredita.

Usa teu Instagram pra dar aos teus seguidores mais esperança.

Ajuda o Facebook a te conectar com quem tem algo pra te ensinar.

Rebata no Whatsapp através da mensagem que cria pontes e nos aproxima.

Faz agora, comece pequeno, amplie na medida em que ganha confiança.

Mas não pare, a gente precisa de ritmo e de bons exemplos.

E você ainda terá a chance de se cercar de possibilidades ainda mais ricas e surpeendente.

O mundo precisa da sua generosidade. E você é quem mais vai ganhar com isso.

Tudo vai ficar bem

Tudo vai ficar bem.

Tudo está bem.

Agora.

Todo problema, complexo, simples, está se desfazendo ao longo deste tempo que está se desenrolando.

Daqui a muito, ou pouco, todo problema terá desaparecido.

Surgirão outros. Mas estes, bem, estes se vão.

Toda emoção, dolorosa ou eufórica, é passageira.

Por mais intensa e duradoura que fosse, toda alegria e toda tristeza veio e passou.

Toda rejeição, aversão, medo já foi aceitação, desejo, coragem. E, depois, mudou de novo.

Toda expectativa que alimentamos, todos "e se..." que mudariam o passado nos jogam para longe da vida presente.

Quando a gente está imerso no problema, parece que tudo gira em torno dele. Nossa atenção, nossa emoção e nossa ação.

No calor do problema, às favas o "vai passar", está doendo agora, queremos solução apressada.

Aquela que gera angústia ainda maior justamente por demorar a chegar.

A solução que vale a pena cultivar é o deixar ir.

Por que por mais cretino que possa parecer, vai passar mesmo. Vai sim.

Enquanto isso, que se viva o melhor que for possível agora.

Para elevar o nível da discussão no grupo da família

Infelizmente, dizer aos eleitores que certo candidato é homofóbico, machista e racista, não os faz mudar de ideia.

Porque eles, seus eleitores, também são, velada ou explicitamente. Triste.

Tempos complexos são obviamente difíceis de entender.

Ainda mais para quem não está disposto a ir mais a fundo, parar um pouquinho, escutar e se conectar com o outro.

As referências binárias que serviam há pouco já não são mais suficientes para lidar com a vida. Na verdade, elas nunca foram.

A suposta calmaria de quem sempre oprimiu agora está abalada. Por que as minorias começaram a ter voz. Alguma voz que clama por empatia, respeito, por basta.

Quem sempre foi intolerante se vê perdido por que está, veja só, tendo que pensar duas vezes antes de vomitar sua violência fantasiada de zoeira, meritocracia, família tradicional brasileira.

Quem está se sentindo ameaçado pelo levante das minorias dá ainda mais atenção pro discurso baseado em medo.

Ele simplifica a complexidade do mundo e os protege de ter que lidar com a diversidade, a complexidade, a vida múltipla que sempre existiu.

É nessas situações que aquele que mais grita ganha palco. Quem é mais intolerante consegue ser a voz desesperada de quem tem poder ameaçado.

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Do lado de cá, tenho entendido que não adianta entrar na discussão pela ótica da intolerância, não podemos tocar a música pro maluco dançar.

Por que quem é intolerante reforça suas convicções facistas quando confrontado, quando tem que lidar com a multiplicidade.

A incapacidade de lidar com o outro, para essas pessoas, reafirma a necessidade de eliminá-lo.

Se, para alguns, não adianta ir pelo argumento contra a homofobia, o racismo, o machismo, vamos mostrar também a incompetência e a moralidade questionável do candidato.

Não faltam argumentos. Ele dá motivo, é tosco, raso, frágil. É fácil perceber sua incapacidade de governar.

Se você quiser elevar o nível da discussão no grupo da família no Whatsapp, compilei algumas notícias para trazer mais informações sobre este senhor.

Se você tiver mais links, me manda?

Seguimos.


Todo mundo precisa de estruturas

Precisamos delas para vivermos sensações de segurança, pertencimento, reconhecermos identidade, nos sentirmos aceitos. É aquela base pra gente viver e seguir em frente.

Alguns encontram estrutura na família, no emprego, na religião, numa empresa que empreendeu. Em tudo ao mesmo tempo.

Quanto mais desapegados, críticos e questionadores, mais desajustados nos encontramos nas estruturas tradicionais.

Quanto mais privilegiados, mais possível nos desapegarmos de estruturas prontas e antigas e recorrer a outras. Infelizmente.

Largar tudo, mudar de vida, sabático são coisas de quem está trocando de estrutura. Mas, ainda assim, pode se apegar a outras para isso.

As estruturas que nos ajudam a trucar o sistema e mudar de vida são as que tem nos permitido mais questionamentos, mobilidade, velocidade e efemeridade no trabalho, nas relações, nas comunidades em que vivemos.

Na nossa sociedade, no nosso tempo, as novas estruturas começaram a se tornar mais líquidas, intangíveis, leves como um trabalho freelancer remoto, uma uma conta no Instagram, uma profissão que há pouco tempo não existia.

Mas qualquer nova estrutura é uma estrutura frágil. São simulacros que nos protegem de frustrações, opressões, convívio com o mundo real.

Então o que nos restou? Atalhos para rapidamente estruturarmos a nova vida que buscamos. Cursos, coach, cargos novos, criar signos que significam algum tipo de estrutura.

Todos eles ainda frágeis por que são novos. Dão alguma sensação de adequação, mas não atendem a todas as necessidades humananas.

Precisamos de estruturas. Se questionamos o emprego, precisamos de espiritualidade. Se questionamos a família tradicional, precisamos dos amigos do cohousing. Se questionamos o dinheiro, precisamos de alguma estrutura familiar, por exemplo.

Mas ainda que a gente possa eventualmente entender as regras do jogo, isso não significará que a gente saiba jogar bem.

Todo mundo precisa de estruturas, a questão é  jogar com as que a gente pode e está disposto a lidar, de tal forma que a gente não fique sem chão algum.

E, ainda, quem sabe, se livre da necessidade de ser algo para além do que se é.

Desobediência à autoridade

“Pessoas comuns, simplesmente fazendo seu trabalho, e sem qualquer animosidade pessoal, podem tornar-se agentes de processos terrivelmente destrutivos. Além disso, mesmo quando os efeitos nocivos de seu trabalho se tornam claros e eles são orientados a continuar ações incompatíveis com seus padrões fundamentais de moralidade, relativamente poucas pessoas têm os recursos necessários para resistir à autoridade.” - Stanley Milgram.

As pessoas aprendem mais quando recebem punição ao errar?

Duas pessoas comuns são voluntárias nesse experimento. Uma encara o papel de professor, a outra de aprendiz, aleatoriamente.

Elas ficam em salas diferentes e se comunicam por microfones e sistemas de som.

O professor lê uma sequência de palavras para serem memorizadas pelo aprendiz.

Quando o aprendiz erra, o professor aperta um botão que dá um choque no aluno. A cada erro, o choque se intensifica.

O aprendiz reclama, pede que pare, diz ter problemas cardíacos, pára de responder.

Há um cientista conduzindo o experimento, quando o professor hesita, ouve um estímulo de cada vez:

“Por favor, continue. O experimento requer que você continue. É absolutamente essencial que você continue. Você não tem outra escolha a não ser continuar.”

O experimento de Milgram não é sobre punição ao errar, é sobre obediência à autoridade, sobre como pessoas comuns podem ferir outras pessoas apenas porque estão recebendo ordens.

O aprendiz é um ator, ninguém recebe choques de verdade. Exceto o próprio professor, no começo do experimento. Ele toma um de 30 volts para sentir o que é uma dor de um choque nessa potência.

100% das pessoas que encarnaram o professor chegaram a 300 volts. Simplesmente porque era o que pedia o experimento.

65% das pessoas que assumem o papel de professores seguem dando choques até o nível máximo, 450 volts.

A maioria das pessoas não se nega a machucar a outra, só por que alguém mandou.

É aquela isenção de responsabilidade, o jogar pra cima, o famoso “eu só trabalho aqui”.

Nunca é culpa nossa, sempre tem alguém em um nível hierárquico acima de nós que parece mais responsável pela merda do que a gente.

Milgram era de origem judia e iniciou os experimentos para entender como tantas pessoas comuns trabalharam para os nazistas.

Uma das possibilidades é justamente essa divisão do trabalho e essa nossa tendência pela obediência ao superior, sem qualquer crítica.

E ainda tem o dinheiro. Os voluntários, professores ou aprendizes, recebiam uma quantia por participarem do experimento.

Tem um amigo meu dos tempos de publicidade que chamava dinheiro de “cala a boca”.

Em 2010, participei de uma campanha política. Fui contratado como designer para a campanha de um deputado federal razoavelmente alinhado com meus valores.

Fiz santinhos, banners, placas e material pra internet.

Pela lei, em cada material impresso você precisa declarar a tiragem num cantinho. Tipo, cada santinho tem escrito: "tiragem de 10 000 unidades".

Lá pelas tantas, recebi uma tabela com números diferentes. Um número para pôr no impresso, outro que era a verdadeira ordem de impressão.

No impresso ia “Tiragem: 10 000”. Mas eu tinha que mandar a gráfica imprimir 20 000.

Fiquei de cara. Não sabia como me portar. Era caixa dois. Eu estava entendendo o esquema.

Perguntei se era isso mesmo. Meu chefe com uma cara sem graça respondeu que sim.

E eu fiz o que ele mandou, contrariando minha moral.

Para minha felicidade, naquela eleição, o candidato para quem trabalhei não foi eleito.

Me prometi nunca mais entrar nessa. Mas, ainda assim, minha consciência ficou pesadíssima porque eu dei choques no aprendiz, fui até o fim.

Contrariar autoridade é difícil. Pedir demissão é difícil. Dizer “não” é difícil.

A gente tá cheio de “autoridades” por aí, reais e abstratas: o patriarcado, a carreira, patrões opressores, o “mercado”, “o que vão pensar”, “a família”.

Aprendi que desobediência à autoridade é uma habilidade. Requer auto-consciência e coragem. Não é simples.

Auto-consciência é sobre a capacidade de se perguntar: “Peraí, o que eu tô fazendo é certo pra mim? Estou só seguindo ordens que não concordo? Estou sendo pressionado a fazer o que não quero?”

E coragem é sobre enfrentar o medo das consequências que a gente nem sabe direito quais são. “Vou ficar sem grana? Não serei mais aceito? Vou me ferrar mais ainda?”

Está cada vez mais claro pra mim que a gente só vai tornar este mundo mais justo quando abrirmos mão dos nossos privilégios.

Isso significa dizer não. “Não vou comprar de você”, “Não vou trabalhar pra você”, “Não vou aceitar sua opressão”, ainda que a gente perca dinheiro, oportunidades, reputação, ou outras ilusões.

Não é bolinho, tem atrito, dor, incerteza, quebra. É uma bosta.

Mas, pra mim, pouco a pouco, tem valido muito a pena. A liberdade e a consciência limpa não têm preço.

Os “nãos” têm que ser ditos e as autoridades têm que ser questionadas.

Ou, então, poderosos continuam no poder, ricos continuam cada vez mais ricos, oprimidos seguem sendo oprimidos e seguiremos dando e tomando choques que não nos fazem aprender nada.

O experimento de Milgram tá na Netflix.

As histórias que contamos criam nossa realidade

“As histórias que contamos uns aos outros nos levam às ações que tomamos.” - Seth Godin.

Tem um pedacinho da Espanha em território africano fortemente murado para impedir que as pessoas que estão no Marrocos cheguem à “Europa” por terra.

Existe toda uma comunidade de milhares de norte-coreanos que vivem em Tokyo, no Japão, como se estivessem na Coréia do Norte, falando sua língua, frequentando sua própria escola, vivendo sua cultura e venerando seu ditador.

Com as mudanças climáticas e o degelo do Pólo Norte, novas terras passam a se tornar habitáveis, mares passam a ser navegáveis e o ser humano começa uma corrida pela exploração econômica de uma terra que, até então, era de ninguém.

Eu não sabia nada disso até devorar a série de vídeos da Vox chamada Borders (Fronteiras), no Youtube.

A série é cheia de pequenos e ricos episódios. Alguns tem legenda, outros não.

Borders me ajuda a perceber o quão grande é o mundo, quão ignorante eu sou e quão capaz nós somos de criar histórias que mudam a vida de bilhões.

Fronteiras são histórias que contamos pra nós mesmos. Por que não existem fronteiras reais num mundo redondo.

Governos desenharam e nós vivemos dentro dessas linhas imaginárias. Por conta delas, pessoas compram e vendem, fazem guerra, arriscam vidas, morrem.

Assim como fronteiras, existem outras tantas abstrações não-naturais que convencionamos. Nacionalidade, emprego, dinheiro, casamento, religião.

Ser uma história não significa ser menos real. Histórias são nosso elo de ligação. A cola social, o que nos conecta.

Mas histórias são mais poderosas do que a própria realidade, já que elas se sobrepõem a qualquer uma.

Não há poder maior do que entender as histórias, criticar as histórias e, mais sofisticadamente, criar as histórias que desejamos viver.

Por isso, para toda história, fronteira, nacionalidade, emprego, dinheiro, casamento, religião, há um espaço lindo de criação.

Sempre há a possibilidade de desconstrução da história que conhecemos para que a gente crie a história que desejamos.

Dê sua opinião

“Give your damn opinion.” - James Victore

Parte de nós tenta se esconder atrás de cargos, diplomas e Linkedins.

E parte de nós opina, se posiciona, coloca o que acredita na sua arte.

Steve Cutts acredita que “a insanidade geral da humanidade é um pote infinito de inspiração.”

É ilustrador e faz animações.

Mas é mais conhecido por que, desde 2011, emplaca vídeos que causam fissuras no status quo.

Consumo, felicidade, trabalho, as coisas da vida viram críticas contundentes no traço de Steve.

Ele dá suas opiniões.

Vivemos tempos em que a arte se mistura com a profissão.

O por quê você faz é tão importante quando o quê você faz.

O bicho está pegando e pedindo sua expressão.

Como nunca, temos a chance de tocar as pessoas, criar comunidades e doar nossas contribuições únicas.

Com gentileza ou pé na porta. Para poucos ou para massas. De forma simples e invisível ou clamando aos quatro ventos, nunca foi tão convidativo.

Mas, ainda assim, parte de nós tenta se esconder atrás de cargos, diplomas e Linkedins genéricos, sem sal, nem humanidade.

Que todos nós, por necessidade ou por desejo, tenhamos a chance de em algum momento experimentarmos o trabalho como arte, expressão de quem somos e do que acreditamos.

Alguns trabalhos de Steve Cutts:

Entregamos porque compartilhamos nossos erros

Felipe Duarte toca o Visual Quest, ajudando as pessoas a compreenderem seus processos criativos através da pintura.

A última etapa é “entregar”.

Não basta observar, se envolver, se dedicar, fazer, criar.

É preciso entregar nossa arte, nossa criação, para alguém, ou alguéns.

Por quê?

Porque, generosamente, somos seres que "compartilhamos nossos erros”, nas palavras dele.

Não poderia concordar mais.

Entregamos como um presente a possibilidade de criarmos uma conexão entre nós através do processo de tentar, criar, se expressar, se desenvolver.

Não como uma intenção vazia, não é legal errar. É desconfortável, parece arriscado, pode ser frustrante. Entregar nossos erros, à primeira vista, parece egoísta e displicente.

Mas como um processo de entrega, conexão, aceitação e evolução. Somos seres que erram. Somos humanos. Estamos aqui, na mesma página, tentando. Gostaria de estar ao meu lado?

A gente doa, generosamente, o que quer que consigamos fazer, nos conectamos através da criação, aceitamos, incluímos o que nascer disso e evoluímos à partir desse erro.

É um erro porque é imperfeito, é um processo torto, nem sempre claro, que a gente não sabe nem onde vai dar. Mas é cheio de verdade.

Aqui está, cheio de erros, em processo. É o que é. Obrigado por aceitar o compartilhamento deste erro.

A fagulha da confiança

No verão, todo domingo Joe Hatchiban leva sua bicicleta aparelhada com caixas de som até o Mauerpark, em Berlin.

Desde 2009, a cena se repete. Ele instala os microfones no centro de um anfiteatro aberto, abre o guarda-sol mambembe e o espetáculo começa.

A cada show de talentos escondidos, umas mil pessoas se acomodam para aplaudir quem quer que se arrisque.

Alguns mais comedidos, outros empolgados além da música, uns cantando bem e nervosos, outros mal e confiantes. Não importa.

Joe introduz cada voluntário com empolgação e incentiva, puxa palmas, dá todo apoio: “vai lá, se você for mal, ninguém se importa.”

Ele não é a estrela, nem o centro das atenções, o show é feito por cada um de nós, cantores e plateia.

Jovens vendem vodka com cereja, imigrantes carregam caixas de cerveja parcialmente geladas, uma economia paralela sustenta o ecossistema.

E num flashmob que se repete todo final de semana, pessoas de todas as nacionalidades cantam “Hey Jude” a plenos pulmões, dançam Beyoncé sem temor e mandam um “Fuck You” a Donald Trump na letra de Cee-Lo Green.

Joe Hatchiban acende a fagulha da confiança e ela vira uma intensa fogueira com a dedicação espontânea das pessoas.

Durante as apresentações, o chapéu é passado, Joe não fica um segundo sem receber contribuições em Euro.

Mas isso é fruto da consistência. Apesar de cada show ser único e imprevisível, todos nós temos uma certeza. No domingo que vem vai ter Karaokê no Mauerpark.

Dar sua contribuição ao evento, seja cantando, aplaudindo, ou dando gorjeta, simboliza que o show não pode parar.

No mundo fora do Mauerpark, parece que o padrão social é do tipo "paguei, quero resultado, benefício, desempenho, performance, entrega."

Neste karaokê, não. Ele é um ambiente seguro e que acolhe com aplausos o som que vier. Ninguém precisou dessas instruções ao chegar, o clima é esse, é assim que funciona.

Talvez este seja nosso verdadeiro padrão como seres sociais. Somos confiantes e confiamos, somos acolhedores e generosos. Só precisamos da fagulha inicial para nos lembrarmos disso e o show já pode começar.

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O poderoso "Comece com 'por quê'?"

“Acredito que todo ser humano merece ser mais livre e autônomo. Trabalho de forma autônoma. Sou designer.” É muito mais interessante que “sou designer, trabalho como autônomo.”

Este TED Talk tem quase 10 anos. Já foi visto 39 milhões de vezes. É o terceiro mais popular da história. Você já deve ter assistido, talvez conheça a ferramenta Golden Circle. Simon Sinek traz uma mensagem simples e forte, fortíssima.

A ideia é poderosa: a estrutura de narrativa que mais toca, convence, conecta ou desperta atenção responde, nessa ordem, às perguntas: “por quê?”, “como?” e “o quê”?

“Sou designer”, “fazemos a melhor pizza do bairro”, “trabalho com vendas”, “sou formada em administração pela UFSC”, “temos álbum de figurinhas da Copa” é o que entra por um ouvido e sai pelo outro, todos os dias. É o que deveria ficar lá pro final do texto.

“Dedico minha vida ao combate às mudanças climáticas”, “acredito na arte como forma de transformação social”, “a gente não precisa de roupas novas, a gente precisa de um novo olhar” são palavras que, no mínimo, nos fazem parar pra escutar. Deveriam estar no começo de qualquer conversa.

Começar com “por quê” nos cutuca pelo que importa, pelas nossas crenças, pela nossa visão de mundo, nos põe para sonhar, para imaginar e compartilhar um universo de possibilidades.

Começar com “o quê” nos coloca em caixinhas de percepções pré-determinadas, baseadas exclusivamente nas referências triviais que já temos. É desinteressante, não convida pra nada, encerra a conversa.

Quase todo profissional, quase toda empresa, só está dizendo o que faz. E raramente por quê faz o que faz.

Como papagaios, dizemos aos quatro ventos o que fazemos porque é fácil, é concreto, visível. 

O que você faz é substituível, é parecido com o que o outro faz, não me traz nada de novo.

A questão é que a maior parte de nós não sabe exatamente por que faz o que faz.

Ou, se a gente investigar, fazemos o que fazemos por motivos que importam pouco, por medo, só por dinheiro ou necessidade de aprovação.

Começar com o “por quê” é poderosíssimo porque não é só sobre a forma da gente se comunicar.

É sobre como escolhemos viver nossas vidas, nos relacionar, é sobre como enxergamos o mundo.

Se começamos pelo “por quê”, potencialmente temos a oportunidade de ver a vida pelas lentes dos propósitos que damos a ela. E, ao mesmo tempo, convidar quem nos lê a viajar na mesma batida.

A mente do principiante

"Se sua mente está vazia, está pronta para qualquer coisa; ela está aberta a tudo. Há muitas possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito." - Shunryu Suzuki

Sábio não é quem sabe fazer com maestria, mas quem consegue manter por muito tempo o frescor da novidade.

É no mar de possibilidades de quem está começando que mora a vida, a criação e a conexão.

Quem "já sabe" tem pouco a criar, pois tudo que faz é repetir. Ficamos facilmente presos e restritos àquilo que acreditamos que dominamos.

Mihaly Csikszentmihalyi trouxe brilhantemente a combinação entre situação altamente desafiadora e pessoa altamente habilidosa como caminho para atividades tão significativas que nos colocam em estado de fluxo.

Gosto de encarar como a habilidade necessária, nem mais, nem menos. Somente necessária para encarar algo desafiador o suficiente, no momento.

Como um dia já foram nossos primeiros passos enquanto bebês, os primeiros acordes de quem faz música, o primeiro texto de quem escreve.

Podemos cultivar nossas mentes livres do criticar, analisar, tomar partido, processar, do "isso eu já sei", do "tenho que" para curtirmos o momento presente.

Para mentes viciadas e cheias de frágeis "certezas", como a minha, é um trabalhão.

Mas para minha mente de principiante não, tudo pode se tornar curioso, estimulante, desafiador e novo.

Por mais diversão e leveza

“Se você se diverte com alguma coisa, você fará essa coisa várias vezes, e, ao fazê-la várias vezes, você terá um desempenho ainda melhor.” - Felix Scheinberger.

Não sei de onde tiraram que trabalho tem que ser coisa tão séria.

Eu acho que tem é que ser divertido.

Disciplinadamente, deliciosamente, diariamente divertido.

Felix Scheinberger é meu artista favorito da última semana.

Ilustrador que carrega a bandeira dos sketchbooks - esses cadernos sem pauta pra levar a todo lugar e fazer desenhos livres.

Seu traço é solto, descompromissado, confiante, sujo e lindo.

Tenho certeza que seu trabalho é divertidíssimo.

Isso não significa que sejam só gargalhadas e facilidades.

Como todos nós, ele vive muitos momentos desafiadores e complicados.

Mas sua arte é nitidamente divertida porque tem sentimento, prazer, entrega plena. É feito por gente de verdade, interessante, cheia de defeitos e belíssimas qualidades.

É como se continuasse a brincar como criança, mas agora com a responsablidade e os boletos do adulto. Humano, demasiadamente humano.

A gente cresce tentando separar brincadeira de trabalho, diversão de responsabilidade, leveza de seriedade, subjetividade de objetividade, profissionalismo de humanidade.

E aí criamos uma enorme tensão, uma luta sem fim contra nossa natureza íntegra. Como diria o saudoso Oswaldo Oliveira, “separou, fudeu.”

Não é porque temos que ser responsáveis que temos que ser sérios, cisudos, rígidos.

Responsabilidade é nossa auto-imposta capacidade de fazer acontecer. No caso do artista, todo dia. Excelente.

Seriedade deve ser essa coisa cisuda que deixa tudo mais pesado do que realmente é.

Que te pressiona mais do que deveria. Que te impede de fazer mais e mais vezes e, consequentemente, melhor e cada vez melhor.

Seriedade tem pouco valor fora do mundo militar, industrial, ou hierárquico que exigem altíssima previsibilidade e baixíssima humanidade.

Para qualquer outro trabalho que almeja alimentar não somente a pança, mas também a alma, que seja divertido e leve.

Assim teremos mais chances de, veja só, termos melhores desempenhos. E, por consequência, melhores rendimentos.

 Felix Scheinberger

Felix Scheinberger

O tamanho do meu privilégio é o tamanho da minha responsabilidade

Com contribuições de Mari Pelli.

 

Sou extremamente privilegiado como homem, branco, heterossexual, de origem nipônica vivendo no Sul do Brasil.

(Sobre este último, vale um parêntese. De uns tempos pra cá, ser o japonês da turma me faz experienciar um tipo de julgamento que me privilegia ainda mais. Por exemplo, há a crença de que orientais são inteligentes, bons de matemática e tecnologia, e isso é um privilégio. Ao longo do tempo, fui mais incentivado, reconhecido, talvez fui beneficiado em alguma entrevista de emprego, por professores ou clientes.)

É muito fácil viver os benefícios de ser privilegiado. Por que está incorporado no dia-a-dia, na visão de mundo, nas oportunidades que me deram. Sou beneficiado pelos crimes, preconceitos, exclusões que não sofro.

“Quanto mais privilégio você tem, menos você consegue entender o que é privilégio.” é uma das melhores frases do vídeo abaixo sobre o Jogo (ou Caminhada) do Privilégio. Uma dinâmica genial.

Se é fácil viver os benefícios, é muito difícil reconhecer os próprios privilégios. Por isso a Caminhada do Privilégio é tão importante. Ela mostra fisicamente, rapidamente, concretamente, as diferenças entre as facilidades e dificuldades que nossas vidas têm.

Sim, a vida de todo mundo é dura. Mas, para muita gente, ela é ainda mais dura por questões de gênero, raça, orientação sexual, origem. Muito mais. Tão mais que talvez eu e você não consigamos compreender.

"Privilégio branco não quer dizer que sua vida não tem sido difícil. Quer dizer apenas que a cor da sua pele não foi uma das coisas que fez ela mais difícil.” - Li essa reprodução no Twitter e adoraria dar os créditos para quem sacou essa.

Já estive no lugar de refletir como abrir mão de privilégios para dar aos menos privilegiados mais oportunidades, acesso. Ainda acredito que é um exercício que preciso manter vivo.

Mas este texto do Alex Castro traz um olhar ainda mais amplo que me tocou. Não é sobre culpa, é sobre responsabilidade. “Se a culpa é paralisante, a responsabilidade é energizante.”

Privilégios trazem responsabilidades. É como uma dívida a ser paga generosamente. E não para um único credor. Mas para toda a sociedade.

Se tenho mais privilégios, tenho mais possibilidades. Por isso, é ainda mais viável fazer pequenas e grandes decisões que não sejam exclusivamente para benefício próprio.

A gente pode consumir, trabalhar, escolher como vamos dedicar nosso tempo. A gente pode fazer escolhas que acolham mais pessoas, que não fodam mais com o Planeta, que dêem mais liberdade a quem tem menos.

Podemos escolher não privilegiar ainda mais quem tem mais privilégios.

A Caminhada do Privilégio por Alex Castro.

Se você entende inglês, é privilegiado, dê um passo a frente e aperte o play.

Cota não é esmola