Todo mundo precisa de estruturas

Precisamos delas para vivermos sensações de segurança, pertencimento, reconhecermos identidade, nos sentirmos aceitos. É aquela base pra gente viver e seguir em frente.

Alguns encontram estrutura na família, no emprego, na religião, numa empresa que empreendeu. Em tudo ao mesmo tempo.

Quanto mais desapegados, críticos e questionadores, mais desajustados nos encontramos nas estruturas tradicionais.

Quanto mais privilegiados, mais possível nos desapegarmos de estruturas prontas e antigas e recorrer a outras. Infelizmente.

Largar tudo, mudar de vida, sabático são coisas de quem está trocando de estrutura. Mas, ainda assim, pode se apegar a outras para isso.

As estruturas que nos ajudam a trucar o sistema e mudar de vida são as que tem nos permitido mais questionamentos, mobilidade, velocidade e efemeridade no trabalho, nas relações, nas comunidades em que vivemos.

Na nossa sociedade, no nosso tempo, as novas estruturas começaram a se tornar mais líquidas, intangíveis, leves como um trabalho freelancer remoto, uma uma conta no Instagram, uma profissão que há pouco tempo não existia.

Mas qualquer nova estrutura é uma estrutura frágil. São simulacros que nos protegem de frustrações, opressões, convívio com o mundo real.

Então o que nos restou? Atalhos para rapidamente estruturarmos a nova vida que buscamos. Cursos, coach, cargos novos, criar signos que significam algum tipo de estrutura.

Todos eles ainda frágeis por que são novos. Dão alguma sensação de adequação, mas não atendem a todas as necessidades humananas.

Precisamos de estruturas. Se questionamos o emprego, precisamos de espiritualidade. Se questionamos a família tradicional, precisamos dos amigos do cohousing. Se questionamos o dinheiro, precisamos de alguma estrutura familiar, por exemplo.

Mas ainda que a gente possa eventualmente entender as regras do jogo, isso não significará que a gente saiba jogar bem.

Todo mundo precisa de estruturas, a questão é  jogar com as que a gente pode e está disposto a lidar, de tal forma que a gente não fique sem chão algum.

E, ainda, quem sabe, se livre da necessidade de ser algo para além do que se é.

Desobediência à autoridade

“Pessoas comuns, simplesmente fazendo seu trabalho, e sem qualquer animosidade pessoal, podem tornar-se agentes de processos terrivelmente destrutivos. Além disso, mesmo quando os efeitos nocivos de seu trabalho se tornam claros e eles são orientados a continuar ações incompatíveis com seus padrões fundamentais de moralidade, relativamente poucas pessoas têm os recursos necessários para resistir à autoridade.” - Stanley Milgram.

As pessoas aprendem mais quando recebem punição ao errar?

Duas pessoas comuns são voluntárias nesse experimento. Uma encara o papel de professor, a outra de aprendiz, aleatoriamente.

Elas ficam em salas diferentes e se comunicam por microfones e sistemas de som.

O professor lê uma sequência de palavras para serem memorizadas pelo aprendiz.

Quando o aprendiz erra, o professor aperta um botão que dá um choque no aluno. A cada erro, o choque se intensifica.

O aprendiz reclama, pede que pare, diz ter problemas cardíacos, pára de responder.

Há um cientista conduzindo o experimento, quando o professor hesita, ouve um estímulo de cada vez:

“Por favor, continue. O experimento requer que você continue. É absolutamente essencial que você continue. Você não tem outra escolha a não ser continuar.”

O experimento de Milgram não é sobre punição ao errar, é sobre obediência à autoridade, sobre como pessoas comuns podem ferir outras pessoas apenas porque estão recebendo ordens.

O aprendiz é um ator, ninguém recebe choques de verdade. Exceto o próprio professor, no começo do experimento. Ele toma um de 30 volts para sentir o que é uma dor de um choque nessa potência.

100% das pessoas que encarnaram o professor chegaram a 300 volts. Simplesmente porque era o que pedia o experimento.

65% das pessoas que assumem o papel de professores seguem dando choques até o nível máximo, 450 volts.

A maioria das pessoas não se nega a machucar a outra, só por que alguém mandou.

É aquela isenção de responsabilidade, o jogar pra cima, o famoso “eu só trabalho aqui”.

Nunca é culpa nossa, sempre tem alguém em um nível hierárquico acima de nós que parece mais responsável pela merda do que a gente.

Milgram era de origem judia e iniciou os experimentos para entender como tantas pessoas comuns trabalharam para os nazistas.

Uma das possibilidades é justamente essa divisão do trabalho e essa nossa tendência pela obediência ao superior, sem qualquer crítica.

E ainda tem o dinheiro. Os voluntários, professores ou aprendizes, recebiam uma quantia por participarem do experimento.

Tem um amigo meu dos tempos de publicidade que chamava dinheiro de “cala a boca”.

Em 2010, participei de uma campanha política. Fui contratado como designer para a campanha de um deputado federal razoavelmente alinhado com meus valores.

Fiz santinhos, banners, placas e material pra internet.

Pela lei, em cada material impresso você precisa declarar a tiragem num cantinho. Tipo, cada santinho tem escrito: "tiragem de 10 000 unidades".

Lá pelas tantas, recebi uma tabela com números diferentes. Um número para pôr no impresso, outro que era a verdadeira ordem de impressão.

No impresso ia “Tiragem: 10 000”. Mas eu tinha que mandar a gráfica imprimir 20 000.

Fiquei de cara. Não sabia como me portar. Era caixa dois. Eu estava entendendo o esquema.

Perguntei se era isso mesmo. Meu chefe com uma cara sem graça respondeu que sim.

E eu fiz o que ele mandou, contrariando minha moral.

Para minha felicidade, naquela eleição, o candidato para quem trabalhei não foi eleito.

Me prometi nunca mais entrar nessa. Mas, ainda assim, minha consciência ficou pesadíssima porque eu dei choques no aprendiz, fui até o fim.

Contrariar autoridade é difícil. Pedir demissão é difícil. Dizer “não” é difícil.

A gente tá cheio de “autoridades” por aí, reais e abstratas: o patriarcado, a carreira, patrões opressores, o “mercado”, “o que vão pensar”, “a família”.

Aprendi que desobediência à autoridade é uma habilidade. Requer auto-consciência e coragem. Não é simples.

Auto-consciência é sobre a capacidade de se perguntar: “Peraí, o que eu tô fazendo é certo pra mim? Estou só seguindo ordens que não concordo? Estou sendo pressionado a fazer o que não quero?”

E coragem é sobre enfrentar o medo das consequências que a gente nem sabe direito quais são. “Vou ficar sem grana? Não serei mais aceito? Vou me ferrar mais ainda?”

Está cada vez mais claro pra mim que a gente só vai tornar este mundo mais justo quando abrirmos mão dos nossos privilégios.

Isso significa dizer não. “Não vou comprar de você”, “Não vou trabalhar pra você”, “Não vou aceitar sua opressão”, ainda que a gente perca dinheiro, oportunidades, reputação, ou outras ilusões.

Não é bolinho, tem atrito, dor, incerteza, quebra. É uma bosta.

Mas, pra mim, pouco a pouco, tem valido muito a pena. A liberdade e a consciência limpa não têm preço.

Os “nãos” têm que ser ditos e as autoridades têm que ser questionadas.

Ou, então, poderosos continuam no poder, ricos continuam cada vez mais ricos, oprimidos seguem sendo oprimidos e seguiremos dando e tomando choques que não nos fazem aprender nada.

O experimento de Milgram tá na Netflix.

As histórias que contamos criam nossa realidade

“As histórias que contamos uns aos outros nos levam às ações que tomamos.” - Seth Godin.

Tem um pedacinho da Espanha em território africano fortemente murado para impedir que as pessoas que estão no Marrocos cheguem à “Europa” por terra.

Existe toda uma comunidade de milhares de norte-coreanos que vivem em Tokyo, no Japão, como se estivessem na Coréia do Norte, falando sua língua, frequentando sua própria escola, vivendo sua cultura e venerando seu ditador.

Com as mudanças climáticas e o degelo do Pólo Norte, novas terras passam a se tornar habitáveis, mares passam a ser navegáveis e o ser humano começa uma corrida pela exploração econômica de uma terra que, até então, era de ninguém.

Eu não sabia nada disso até devorar a série de vídeos da Vox chamada Borders (Fronteiras), no Youtube.

A série é cheia de pequenos e ricos episódios. Alguns tem legenda, outros não.

Borders me ajuda a perceber o quão grande é o mundo, quão ignorante eu sou e quão capaz nós somos de criar histórias que mudam a vida de bilhões.

Fronteiras são histórias que contamos pra nós mesmos. Por que não existem fronteiras reais num mundo redondo.

Governos desenharam e nós vivemos dentro dessas linhas imaginárias. Por conta delas, pessoas compram e vendem, fazem guerra, arriscam vidas, morrem.

Assim como fronteiras, existem outras tantas abstrações não-naturais que convencionamos. Nacionalidade, emprego, dinheiro, casamento, religião.

Ser uma história não significa ser menos real. Histórias são nosso elo de ligação. A cola social, o que nos conecta.

Mas histórias são mais poderosas do que a própria realidade, já que elas se sobrepõem a qualquer uma.

Não há poder maior do que entender as histórias, criticar as histórias e, mais sofisticadamente, criar as histórias que desejamos viver.

Por isso, para toda história, fronteira, nacionalidade, emprego, dinheiro, casamento, religião, há um espaço lindo de criação.

Sempre há a possibilidade de desconstrução da história que conhecemos para que a gente crie a história que desejamos.

Dê sua opinião

“Give your damn opinion.” - James Victore

Parte de nós tenta se esconder atrás de cargos, diplomas e Linkedins.

E parte de nós opina, se posiciona, coloca o que acredita na sua arte.

Steve Cutts acredita que “a insanidade geral da humanidade é um pote infinito de inspiração.”

É ilustrador e faz animações.

Mas é mais conhecido por que, desde 2011, emplaca vídeos que causam fissuras no status quo.

Consumo, felicidade, trabalho, as coisas da vida viram críticas contundentes no traço de Steve.

Ele dá suas opiniões.

Vivemos tempos em que a arte se mistura com a profissão.

O por quê você faz é tão importante quando o quê você faz.

O bicho está pegando e pedindo sua expressão.

Como nunca, temos a chance de tocar as pessoas, criar comunidades e doar nossas contribuições únicas.

Com gentileza ou pé na porta. Para poucos ou para massas. De forma simples e invisível ou clamando aos quatro ventos, nunca foi tão convidativo.

Mas, ainda assim, parte de nós tenta se esconder atrás de cargos, diplomas e Linkedins genéricos, sem sal, nem humanidade.

Que todos nós, por necessidade ou por desejo, tenhamos a chance de em algum momento experimentarmos o trabalho como arte, expressão de quem somos e do que acreditamos.

Alguns trabalhos de Steve Cutts:

Entregamos porque compartilhamos nossos erros

Felipe Duarte toca o Visual Quest, ajudando as pessoas a compreenderem seus processos criativos através da pintura.

A última etapa é “entregar”.

Não basta observar, se envolver, se dedicar, fazer, criar.

É preciso entregar nossa arte, nossa criação, para alguém, ou alguéns.

Por quê?

Porque, generosamente, somos seres que "compartilhamos nossos erros”, nas palavras dele.

Não poderia concordar mais.

Entregamos como um presente a possibilidade de criarmos uma conexão entre nós através do processo de tentar, criar, se expressar, se desenvolver.

Não como uma intenção vazia, não é legal errar. É desconfortável, parece arriscado, pode ser frustrante. Entregar nossos erros, à primeira vista, parece egoísta e displicente.

Mas como um processo de entrega, conexão, aceitação e evolução. Somos seres que erram. Somos humanos. Estamos aqui, na mesma página, tentando. Gostaria de estar ao meu lado?

A gente doa, generosamente, o que quer que consigamos fazer, nos conectamos através da criação, aceitamos, incluímos o que nascer disso e evoluímos à partir desse erro.

É um erro porque é imperfeito, é um processo torto, nem sempre claro, que a gente não sabe nem onde vai dar. Mas é cheio de verdade.

Aqui está, cheio de erros, em processo. É o que é. Obrigado por aceitar o compartilhamento deste erro.

A fagulha da confiança

No verão, todo domingo Joe Hatchiban leva sua bicicleta aparelhada com caixas de som até o Mauerpark, em Berlin.

Desde 2009, a cena se repete. Ele instala os microfones no centro de um anfiteatro aberto, abre o guarda-sol mambembe e o espetáculo começa.

A cada show de talentos escondidos, umas mil pessoas se acomodam para aplaudir quem quer que se arrisque.

Alguns mais comedidos, outros empolgados além da música, uns cantando bem e nervosos, outros mal e confiantes. Não importa.

Joe introduz cada voluntário com empolgação e incentiva, puxa palmas, dá todo apoio: “vai lá, se você for mal, ninguém se importa.”

Ele não é a estrela, nem o centro das atenções, o show é feito por cada um de nós, cantores e plateia.

Jovens vendem vodka com cereja, imigrantes carregam caixas de cerveja parcialmente geladas, uma economia paralela sustenta o ecossistema.

E num flashmob que se repete todo final de semana, pessoas de todas as nacionalidades cantam “Hey Jude” a plenos pulmões, dançam Beyoncé sem temor e mandam um “Fuck You” a Donald Trump na letra de Cee-Lo Green.

Joe Hatchiban acende a fagulha da confiança e ela vira uma intensa fogueira com a dedicação espontânea das pessoas.

Durante as apresentações, o chapéu é passado, Joe não fica um segundo sem receber contribuições em Euro.

Mas isso é fruto da consistência. Apesar de cada show ser único e imprevisível, todos nós temos uma certeza. No domingo que vem vai ter Karaokê no Mauerpark.

Dar sua contribuição ao evento, seja cantando, aplaudindo, ou dando gorjeta, simboliza que o show não pode parar.

No mundo fora do Mauerpark, parece que o padrão social é do tipo "paguei, quero resultado, benefício, desempenho, performance, entrega."

Neste karaokê, não. Ele é um ambiente seguro e que acolhe com aplausos o som que vier. Ninguém precisou dessas instruções ao chegar, o clima é esse, é assim que funciona.

Talvez este seja nosso verdadeiro padrão como seres sociais. Somos confiantes e confiamos, somos acolhedores e generosos. Só precisamos da fagulha inicial para nos lembrarmos disso e o show já pode começar.

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O poderoso "Comece com 'por quê'?"

“Acredito que todo ser humano merece ser mais livre e autônomo. Trabalho de forma autônoma. Sou designer.” É muito mais interessante que “sou designer, trabalho como autônomo.”

Este TED Talk tem quase 10 anos. Já foi visto 39 milhões de vezes. É o terceiro mais popular da história. Você já deve ter assistido, talvez conheça a ferramenta Golden Circle. Simon Sinek traz uma mensagem simples e forte, fortíssima.

A ideia é poderosa: a estrutura de narrativa que mais toca, convence, conecta ou desperta atenção responde, nessa ordem, às perguntas: “por quê?”, “como?” e “o quê”?

“Sou designer”, “fazemos a melhor pizza do bairro”, “trabalho com vendas”, “sou formada em administração pela UFSC”, “temos álbum de figurinhas da Copa” é o que entra por um ouvido e sai pelo outro, todos os dias. É o que deveria ficar lá pro final do texto.

“Dedico minha vida ao combate às mudanças climáticas”, “acredito na arte como forma de transformação social”, “a gente não precisa de roupas novas, a gente precisa de um novo olhar” são palavras que, no mínimo, nos fazem parar pra escutar. Deveriam estar no começo de qualquer conversa.

Começar com “por quê” nos cutuca pelo que importa, pelas nossas crenças, pela nossa visão de mundo, nos põe para sonhar, para imaginar e compartilhar um universo de possibilidades.

Começar com “o quê” nos coloca em caixinhas de percepções pré-determinadas, baseadas exclusivamente nas referências triviais que já temos. É desinteressante, não convida pra nada, encerra a conversa.

Quase todo profissional, quase toda empresa, só está dizendo o que faz. E raramente por quê faz o que faz.

Como papagaios, dizemos aos quatro ventos o que fazemos porque é fácil, é concreto, visível. 

O que você faz é substituível, é parecido com o que o outro faz, não me traz nada de novo.

A questão é que a maior parte de nós não sabe exatamente por que faz o que faz.

Ou, se a gente investigar, fazemos o que fazemos por motivos que importam pouco, por medo, só por dinheiro ou necessidade de aprovação.

Começar com o “por quê” é poderosíssimo porque não é só sobre a forma da gente se comunicar.

É sobre como escolhemos viver nossas vidas, nos relacionar, é sobre como enxergamos o mundo.

Se começamos pelo “por quê”, potencialmente temos a oportunidade de ver a vida pelas lentes dos propósitos que damos a ela. E, ao mesmo tempo, convidar quem nos lê a viajar na mesma batida.

A mente do principiante

"Se sua mente está vazia, está pronta para qualquer coisa; ela está aberta a tudo. Há muitas possibilidades na mente do principiante, mas poucas na do perito." - Shunryu Suzuki

Sábio não é quem sabe fazer com maestria, mas quem consegue manter por muito tempo o frescor da novidade.

É no mar de possibilidades de quem está começando que mora a vida, a criação e a conexão.

Quem "já sabe" tem pouco a criar, pois tudo que faz é repetir. Ficamos facilmente presos e restritos àquilo que acreditamos que dominamos.

Mihaly Csikszentmihalyi trouxe brilhantemente a combinação entre situação altamente desafiadora e pessoa altamente habilidosa como caminho para atividades tão significativas que nos colocam em estado de fluxo.

Gosto de encarar como a habilidade necessária, nem mais, nem menos. Somente necessária para encarar algo desafiador o suficiente, no momento.

Como um dia já foram nossos primeiros passos enquanto bebês, os primeiros acordes de quem faz música, o primeiro texto de quem escreve.

Podemos cultivar nossas mentes livres do criticar, analisar, tomar partido, processar, do "isso eu já sei", do "tenho que" para curtirmos o momento presente.

Para mentes viciadas e cheias de frágeis "certezas", como a minha, é um trabalhão.

Mas para minha mente de principiante não, tudo pode se tornar curioso, estimulante, desafiador e novo.

Por mais diversão e leveza

“Se você se diverte com alguma coisa, você fará essa coisa várias vezes, e, ao fazê-la várias vezes, você terá um desempenho ainda melhor.” - Felix Scheinberger.

Não sei de onde tiraram que trabalho tem que ser coisa tão séria.

Eu acho que tem é que ser divertido.

Disciplinadamente, deliciosamente, diariamente divertido.

Felix Scheinberger é meu artista favorito da última semana.

Ilustrador que carrega a bandeira dos sketchbooks - esses cadernos sem pauta pra levar a todo lugar e fazer desenhos livres.

Seu traço é solto, descompromissado, confiante, sujo e lindo.

Tenho certeza que seu trabalho é divertidíssimo.

Isso não significa que sejam só gargalhadas e facilidades.

Como todos nós, ele vive muitos momentos desafiadores e complicados.

Mas sua arte é nitidamente divertida porque tem sentimento, prazer, entrega plena. É feito por gente de verdade, interessante, cheia de defeitos e belíssimas qualidades.

É como se continuasse a brincar como criança, mas agora com a responsablidade e os boletos do adulto. Humano, demasiadamente humano.

A gente cresce tentando separar brincadeira de trabalho, diversão de responsabilidade, leveza de seriedade, subjetividade de objetividade, profissionalismo de humanidade.

E aí criamos uma enorme tensão, uma luta sem fim contra nossa natureza íntegra. Como diria o saudoso Oswaldo Oliveira, “separou, fudeu.”

Não é porque temos que ser responsáveis que temos que ser sérios, cisudos, rígidos.

Responsabilidade é nossa auto-imposta capacidade de fazer acontecer. No caso do artista, todo dia. Excelente.

Seriedade deve ser essa coisa cisuda que deixa tudo mais pesado do que realmente é.

Que te pressiona mais do que deveria. Que te impede de fazer mais e mais vezes e, consequentemente, melhor e cada vez melhor.

Seriedade tem pouco valor fora do mundo militar, industrial, ou hierárquico que exigem altíssima previsibilidade e baixíssima humanidade.

Para qualquer outro trabalho que almeja alimentar não somente a pança, mas também a alma, que seja divertido e leve.

Assim teremos mais chances de, veja só, termos melhores desempenhos. E, por consequência, melhores rendimentos.

 Felix Scheinberger

Felix Scheinberger

O tamanho do meu privilégio é o tamanho da minha responsabilidade

Com contribuições de Mari Pelli.

 

Sou extremamente privilegiado como homem, branco, heterossexual, de origem nipônica vivendo no Sul do Brasil.

(Sobre este último, vale um parêntese. De uns tempos pra cá, ser o japonês da turma me faz experienciar um tipo de julgamento que me privilegia ainda mais. Por exemplo, há a crença de que orientais são inteligentes, bons de matemática e tecnologia, e isso é um privilégio. Ao longo do tempo, fui mais incentivado, reconhecido, talvez fui beneficiado em alguma entrevista de emprego, por professores ou clientes.)

É muito fácil viver os benefícios de ser privilegiado. Por que está incorporado no dia-a-dia, na visão de mundo, nas oportunidades que me deram. Sou beneficiado pelos crimes, preconceitos, exclusões que não sofro.

“Quanto mais privilégio você tem, menos você consegue entender o que é privilégio.” é uma das melhores frases do vídeo abaixo sobre o Jogo (ou Caminhada) do Privilégio. Uma dinâmica genial.

Se é fácil viver os benefícios, é muito difícil reconhecer os próprios privilégios. Por isso a Caminhada do Privilégio é tão importante. Ela mostra fisicamente, rapidamente, concretamente, as diferenças entre as facilidades e dificuldades que nossas vidas têm.

Sim, a vida de todo mundo é dura. Mas, para muita gente, ela é ainda mais dura por questões de gênero, raça, orientação sexual, origem. Muito mais. Tão mais que talvez eu e você não consigamos compreender.

"Privilégio branco não quer dizer que sua vida não tem sido difícil. Quer dizer apenas que a cor da sua pele não foi uma das coisas que fez ela mais difícil.” - Li essa reprodução no Twitter e adoraria dar os créditos para quem sacou essa.

Já estive no lugar de refletir como abrir mão de privilégios para dar aos menos privilegiados mais oportunidades, acesso. Ainda acredito que é um exercício que preciso manter vivo.

Mas este texto do Alex Castro traz um olhar ainda mais amplo que me tocou. Não é sobre culpa, é sobre responsabilidade. “Se a culpa é paralisante, a responsabilidade é energizante.”

Privilégios trazem responsabilidades. É como uma dívida a ser paga generosamente. E não para um único credor. Mas para toda a sociedade.

Se tenho mais privilégios, tenho mais possibilidades. Por isso, é ainda mais viável fazer pequenas e grandes decisões que não sejam exclusivamente para benefício próprio.

A gente pode consumir, trabalhar, escolher como vamos dedicar nosso tempo. A gente pode fazer escolhas que acolham mais pessoas, que não fodam mais com o Planeta, que dêem mais liberdade a quem tem menos.

Podemos escolher não privilegiar ainda mais quem tem mais privilégios.

A Caminhada do Privilégio por Alex Castro.

Se você entende inglês, é privilegiado, dê um passo a frente e aperte o play.

Cota não é esmola

Dá pra empreender dentro da empresa?

"A transição começa pela mudança de consciência, e por um novo entendimento dos papeis das empresas. Um deles: toda empresa passa a ser uma aceleradora de empreendedores.” - Tiago Mattos

Precisamos de mudanças de consciência, mais do que nunca o mundo pede. Precisamos de novos tipos de empreendimentos. Humanos, verdadeiros, responsáveis.

No entanto, ainda temos muito pela frente. Contaria com uma mão as empresas que funcionam, de verdade, como campo fértil para novos empreendedores e empreendimentos.

Me desculpem as pessoas de fé, mas, para mim, o intra-empreendedorismo efetivo, que emancipa pessoas, é um mito.

Quando acontece algum estímulo, a maioria esmagadora das empresas visam, na verdade, diversificar seu próprio negócio para garantir sua sustentação, sua saúde financeira.

Não buscam apoiar iniciativas independentes que emancipam colaboradores.

Não apoiam empreitadas que façam as pessoas voarem tão alto que as empresas se tornem irrelevantes para elas.

Não estão dispostas a bancar os custos que a liberdade traz.

Não sabem acolher os erros que o processo criativo de empreender carregam.

Não estão verdadeiramente abertas para os aprendizados que as pessoas autônomas podem gerar.

Você pode fazer o que quiser, desde que mantenha sua jornada dentro dos limites da organização. Então, já começa cheio de restrições.

A intenção maior da empresa é o resultado financeiro da organização, sua sobrevivência e manutençnao. A intenção é alcançar os propósitos da empresa, sejam quais forem.

A intenção não é o auto-desenvolvimento, a emancipação, nem a auto-responsabilidade, ou autonomia. A intenção não é permitir que as pessoas alcancem seus próprios propósitos, sejam quais forem.

Isso acontece por conta da natureza do ambiente corporativo. E também por conta da postura dos empregados.

No início da jornada empreendedora autônoma há uma particularidade que difere muito das iniciativas in company. Não há salário. E isso muda tudo. 

O empreendedor independente precisa de algum jeito conciliar seu sonho, desejo, contribuição ao mundo com seu ganha pão.

A grana vai ter que entrar como resultado do próprio trabalho, não há uma estrutura à parte que o sustente.

O que existe é uma necessidade latente, que parte de si, internamente, não é uma busca atribuída. Não há onde se apoiar. Então, o único jeito é fazer acontecer.

Quando a responsabilidade é direta, cada pequena decisão é tomada de outra forma.

Fazer um cartão de visitas e botar na conta da empresa é uma coisa.

Agora, desenhar, arcar com os custos, distribuir e esperar retornos reais é outra parada, completamente diferente, quando você é o empreendedor.

O ambiente estruturado demais inibe a tomada de risco, a pró-atividade, porque necessidade não tem a mesma urgência.

Os impactos negativos podem ser maiores porque a empresa já tem uma história e um jeito de fazer. Logo, as ações são mais comedidas.

Para quem tem em si o desejo de empreender, de verdade, em algum momento, ter um emprego pode atrapalhar.

Se sustentar e empreender não é nada fácil, e é completamente irresponsável jogar tudo pro alto sem nenhuma perspectiva de entrada se você já tem compromissos com saídas.

Acredito muito mais em caminhadas graduais, genuínas, que envolvem experimentação, novas conexões e muita entrega de valor.

Não é um salário, nem uma organização ordenada, que fará o empreendedor fazer acontecer.

Meu último aprendizado... bem, ele não é o último

Toda semana eu minto. Não estou escrevendo sobre meu último aprendizado.

E sim sobre algum aprendizado mais solidificado do que o último.

Algo que aprendi. Não estou mais aprendendo. E nem é recente. Cresceu vagarosamente pelo tempo até se tornar ideia e, então, texto.

Os últimos, verdadeiramente últimos, aprendizados ainda estão verdes, em processo, sedimentando, ganhando forma e palavras na minha cabeça.

Talvez, daqui umas semanas ou anos se transformem em texto. Talvez não. Talvez virem prática. Talvez não.

Aprendizados precisam de contraste, contrapontos, contato com realidades, ritmo, pares, tempo.

A ação está sempre atrasada em relação ao aprendizado abstrato.

Ou na frente, adiantada, instintiva, como uma brincadeira que depois de um tempão vira razão.

Agir, fazer, se mexer, exige muito mais do que pensar, entender, compreender.

Descobrimos, imaginamos, processamos, experimentamos e só depois esse bolo mental vira prática e, muito depois, hábito.

Nunca me esquecerei da definição que o amigo Guto Gutierrez me trouxe para sucesso e fracasso.

“Sucesso é o estado em que estamos prontos para aprender. Fracasso é o estado em que estamos aprendendo.”

Enquanto estamos aprendendo, estamos fracassando, não incorporamos as descobertas ainda. É tudo torto e incoerente.

Talvez por isso que a gente sabe a importância, mas não composta, não pratica exercício, não come bem, não é generoso, emptático, nem tem tanto auto-cuidado assim.

A gente sabe o que tem que fazer. Mas fazer é outro quinhentos.

É por isso que tenho buscado mais tolerância. Comigo e com os outros.

A coerência entre o pensar, aprender, fazer e conseguir é granular através do tempo.

Estamos todos aprendendo, tentando, fazendo o que nossos aprendizados incompletos nos permitem fazer.

Suficiência

Está tudo uma merda para quem está cheio de expectativas e ainda não chegou lá. Lá?

Ser humano é um bicho único mesmo. Quando criança, quer ser adulto.

Quando adulto, quer dinheiro, família, propósito, algo além.

Quando tem, quer mais.

Ou outra coisa.

E outra.

Podia ser melhor naquilo.

Ainda gostaria de aprender tal coisa.

Fazer de outro jeito, mudar, mexer, ajustar incoerências.

Crescer, ganhar, alavancar, impactar, alcançar, conquistar, superar.

Estamos quase o tempo todo rejeitando o presente e esperando pelo o futuro.

Um dia, a vida que temos agora foi o que mais desejamos. O dia chegou, é hoje, e então?…

Suficiência é um dos aprendizados mais importantes que se pode ter.

A percepção, a escolha, a consciência de que a vida é o que é.

E não é o que deveria ser, nem o que gostaríamos que fosse.

Suficiência não é conformismo, nem fatalismo.

É a percepção de que sofrimentos vêm e vão.

Não há fuga. Se há vida, temos sofrimentos.

Vamos lidando com o que temos.

Suficiência é abundância.

É liberdade, autonomia.

Já há o suficiente.

Já temos.

Já somos.

Um pálido ponto azul de 4 bilhões de anos

Um amigo certa vez me contou que, para meditar, se concentra em lembrar quão infinito é o tempo, e quão grande é o universo.

Em 2013, tive a oportunidade de viver uma das experiências mais significativas da minha vida. O Deep Time Walk, que agora tem app.

Na Schumacher College, caminhei em grupo por 4,6 quilômetros, mentalizando que cada passo dado, de mais ou menos um metro, representava um milhão de anos de evolução da Terra.

Afasta uma mão da outra, pensa em um metro. Imagina que ele representa um milhão de anos. Um milhão. Agora multiplica isso por 4600. Essa é a idade da Terra.

Ao longo da caminhada, o professor Stephan Harding conta a extraordiária história do nosso planetinha, desde o seu surgimento, passando por eras, (muitos) tempos sem vida, surgimento de seres primários, extinções, fogo e gelo. Gelo só mais tarde, na verdade, porque por milhões de anos não existia água.

Em 4,6 quilômetros, você consegue sentir fisicamente, no corpo, o tamanho do tempo. É espaço suficiente para cansar, se distrair, ficar com fome, sentar e pensar em quão pequena é nossa existência.

Pra ter uma ideia, depois de dar uma suadinha caminhando, no último pé, ou 35 centímetros, nasceu a humanidade. E a era Cristã tem 2 milímetros nessa régua. Milímetros.

Todos os impactos que conhecemos, o petróleo que tiramos do fundo do mar, os campos de soja, tudo que já fizemos cabem nesses centímetros finais. Tudo, tudo.

Essa experiência me voltou à cabeça quando, nessa semana, vi a foto da Voyager 1, feita em 1990, a 6 bilhões de quilômetros da Terra. Este pixel azulzinho é nosso planetão.

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Por um lado, como conseguimos fazer tanto alvoroço e ameaçar a existência de tantas vidas em tão pouco tempo? Como somos causadores.

Por outro, esta é uma chance de reconhecer nossa pequenez, enquanto o mundão tá aí girando e evoluindo há bilhões de anos. Como somos insignificantes.

Todas as cidades do mundo, os estádios da Odebretch, a internet, os elefantes, toda comida produzida que conhecemos está aqui.

Todas as pessoas que conhecemos, nos esquecemos ou conheceremos estão ou estarão contidas nesse pequeno ponto.

Todos os nossos problemas, preocupações, certezas e mágoas estão neste pequeno ponto pálido azul.

Boa semana.

Comece sem inspiração

Inspiração é tão efêmera, tão imprevisível, tão frágil.

Preguiça é tão frequente, tão oportunista, tão presente.

Se eu dependesse de inspiração, não trabalharia, não criaria, não escreveria este texto.

O mesmo aconteceria se deixasse a preguiça triunfar - como faço tantas vezes.

Não vai dar pra esperar a inspiração vir. Porque ela não vai chegar à toa.

Criação vem com intenção. E nem precisa ser um esforço hercúleo.

Trabalhando profissionalmente com criação há 15 anos, descobri que a gente precisa dar uma forcinha pro trabalho sair.

Um caminho é apelar pras inspirações. Pôr pra dentro, se alimentar de informações e ideias.

Ler um livro, fazer um curso, explorar o trabalho de alguém, buscar referências.

É um caminho valioso, claro. Porém traiçoeiro.

Consumir referências pode ser um caminho sem fim, que não gera nada além da sensação de sempre precisar se preparar mais.

Para criar é essencial pôr pra fora. Pôr pra dentro não é o bastante.

Pra mim, o mais importante é começar.

Se desenhamos, sujamos a folha com um rabisco.

Se escrevemos, digitamos as primeiras palavras que vêm na cabeça.

Se procuramos uma ideia nova, rabiscamos no papel a primeira ideia idiota que aparecer.

Testamos, experimentamos, brincamos, agimos.

Depois, criamos em cima.

Puxamos pro lado. Fazemos de outro jeito. Tentamos de novo. Adicionamos mais alguma coisa, melhoramos, refinamos, excluímos.

Mas nunca deixamos a folha em branco.

De algum jeito, o importante é começar.

Sem se preocupar tanto com o trabalho final.

Mais tarde o filtro da qualidade vai ter seu momento.

No começo, ele fica guardado.

Escrever um livro parece impossível.

Mas escrever uma frase é fácil.

Todo livro começa com uma frase.

Então, este é o melhor jeito de começar.

Escrevendo uma frase.

Só depois outra.

E mais outra.

Menos "ou" e mais "e"

Mais possibilidades, menos certezas.

E aí vêm as dúvidas, as inseguranças. Juntamente com os especialistas, os gurus, os coachs, os políticos, os pitaqueiros.

Para cada problema confuso, uma solução dura e concreta.

Até que surge um conta-ponto e vamos todos pra outro lado em manada.

Ou nos armamos para lutar contra os errados do outro lado.

Dormir o quanto precisar ou começar às 5h? Escutar as pessoas ou acreditar na própria proposta? Distribuir conteúdo ou restringir? Programas sociais ou livre mercado? Direita ou esquerda?

Cada vez menos acredito em “ou”.

Possibilidades binárias e excludentes não dão conta da vida real. Porque a vida é complexa, abundante e diversa.

Escutando o Mamilos “Saída: Direita ou Esquerda?”, entrei em contato com uma síntese do Denis Burgierman que me contempla. Estamos vivendo uma era cheia de complexidades e, como tal, precisamos de soluções igualmente complexas.

Todas as escolhas e jornadas que vivemos são muito mais cheias de detalhes, contextos e possibilidades do que ir pra um lado ou outro.

A gente vai ter que ir pra algum lugar, mas provavelmente não teremos apenas dois caminhos.

Para lidar com abundância, precisamos incluir diversidade.

Vamos ter que experimentar diversos caminhos, explorar, construir juntos e acolher as diferenças.

Pode ser que doa, que seja aparentemente mais difícil ou trabalhoso.

Mas não temos escolha, estamos todos no mesmo barco.

Para problemas complexos, precisamos de diversas e inúmeras soluções, com mais interação, cuidado e criação do que exclusão.

Mais possibilidades, menos certezas e mais chances de caminhos que cuidam de todos.

Autoconfiança

Um grande amigo dizia que "mais importante do que ser forte é sentir-se forte".

Ter experiência, dinheiro, disciplina, saber fazer contas, atender bem as pessoas, ter destreza num instrumento, dominar uma técnica, ter milhões de seguidores. Nada disso tem valor se não houver autoconfiança.

A sensação de capacidade é mais decisiva na hora do "vamo vê" do que qualquer habilidade, recurso ou talento. Por que quem acredita que pode dá um jeito. Enquanto quem não acredita nem começa.

Autoconfiança é um privilégio. A maioria de nós carrega traumas de pais exigentes, ou ausentes, chefes insatisfeitos, avaliações duras, contextos opressores, perfeccionismo exagerado.

Quando acreditamos que nada é bom o suficiente, não há entrega que chegue. Com a confiança minada, paralisamos e deixamos de fazer o que nos traria mais confiança.

Se tivesse uma escola da autoconfiança, ela seria baseada em autonomia. Eu faria meu caminho de aprendizagem mais ou menos por aqui, sem ordem:

Sentir-se capaz de fazer. 

Sentir-se capaz de aprender.

Sentir-se capaz de descobrir.

Sentir-se capaz de começar.

Sentir-se capaz de criar vínculos.

Sentir-se capaz de se transformar.

Sentir-se capaz de comunicar.

Sentir-se capaz de se expressar.

Sentir-se capaz de experimentar.

Sentir-se capaz de amar e ser amado.

Redes sociais e o distanciamento da realidade

Meu condomínio tem um grupo de Whatsapp. Imagina a eterna reunião.

Cheio de boas intenções, um morador repassa a história de pessoas que estão se fantasiando de agentes de controle da dengue para assaltar casas.

Boato. Fake. História.

Essa é a parte fácil de estar nesse grupo. E na internet.

A parte difícil é que as redes sociais nos distanciam da realidade. A crua e direta experiência da vida.

Dedos tocando o chão gelado, cheiro de café, olhar curioso, atmosfera calorosa, palavras não ditas, relações profundas, nada disso se reproduz digitalmente.

Já fui defensor da ideia de complementariedade, vida on e offline são uma só.

Mas o que estou percebendo em mim é uma mudança de comportamento que está me levando à substituição. Perigo.

Sai realidade. Entra simulacro. Sai consciência sobre o que está acontecendo. Entra medo de coisas abstratas, “a direita”, “a esquerda”, “a corrupção”, “o mercado”.

É assim que deixamos de escutar a voz sutil das pessoas para dar trela pro grito aloprado dos extremistas. É o famoso “bater palma pra maluco dançar”.

Lemos, nos emocionamos, nos preocupamos, tomamos partido pelo relato que o outro tenta fazer através do seu olhar enviezado.

Estamos constuindo e enxergando o mundo por lentes tortas, por conta da facilidade de publicar qualquer coisa mal pensada.

Destilamos veneno contra corruptos, golpistas, juízes ladrões, enquanto confortavelmente deslizamos os dedos por telas de vidro.

Lula foi preso com todo esse quiprocó e, apesar de tudo, continuamos aqui. Amanhã temos que acordar cedo.

Essa narrativa digital não é a vida. Nossas vidas começam quando desligamos as telas.

Já não tenho publicado no facebook, nem instagram. Parei de alimentar os monstrinhos. Muito raramente tô no twitter.

Vou deixar de consumir conteúdo aleatório dessas plataformas. Porque me fazem mais mal do que bem. Não sou mais feliz, nem mais esperançoso, depois de gastar horas na timeline.

Serei ainda mais seletivo daqui pra frente, alguns canais de Youtube, notíticas, livros, conversas específicas com amigos, este blog e deu.

Claro que tem gente que trabalha com isso. Eu vivo de internet, quase todos os meus clientes moram em cidades distantes.

Mas, gente, nossa conexão precisa ser mais valiosa. Nossa atenção é cara. Nosso tempo de vida é curto. Não dá pra desperdiçar.

Estou na internet pra viver melhor, ser melhor, contribuir. Se não funciona assim, de que vale?

Queremos conexão, amizade, reconhecimento? Ótimo, vamos fazer com qualidade e realidade. Horário nobre, canal rico, fora das mídias sociais. Quem quiser, estou disponível.

Sobriedade

Pepe Mujica é uma pessoa de frases simples e fortes.

Gosto muito da palavra “sobriedade”.

O modelo de vida frenético, competitivo, de acúmulo, individualista falhou.

A corrida sem fim pelo próximo item de consumo não faz sentido.

Nos satisfaz por alguns instantes e gera prejuízos duradouros.

E assim nos perdemos numa vida voltada ao trabalho e ao dinheiro.

Não é dinheiro. É tempo. Tempo de vida sendo trocado por coisas que não importam.

Mujica fala de uma sobriedade voluntária.

Gostaria muito de entender - e praticar - mais essa ideia.

Enxergo com muito mais carinho um estilo de vida baseado em moderação, equilíbrio, serenidade.

Me parece que este caminho, também entendido aqui como “Small is beautiful”, Equanimidade, Decrescimento, Suficiência, é o único possível neste mundo de impactos individuais, sociais e ambientais exponenciais.

Tenho pensado mais sobre o “como?”, já que o “o quê?” e o “por quê?” se apresentam mais claros, pra mim.

Algumas pistas que têm se apresentado:

  • Ser corajoso para praticar “nãos”.
  • Reconhecer os próprios privilégios.
  • Criar conexões e rede de apoio.
  • Desenvolver consciência sobre um estilo de vida minimalista.
  • Curtir a vida que é de graça.
  • Reconhecer que esta é uma longa caminhada.
  • A cada desejo de consumo, perguntar se realmente preciso.
  • Consertar, trocar, estender a vida do que já tenho.
  • Cultivar trabalhos que desenvolvem autonomia.
  • Entregar valor de forma inclusiva, com consistência e generosidade.
  • Encarar a caminhada com leveza, dando pequenos passos.
  • Me livrar da necessidade de aprovação alheia.
  • Abrir mais fluxos do que acumular.