Crise de subjetividade

É uma crise de subjetividade.

Se não cuidar, a gente perde a capacidade de imaginar, sonhar desajustado, ser utópico. A gente deixa de amar e fica só no raso possível.

Se deixar, a gente se enquadra e para de questionar os porquês, os comos, os quens. Normatiza o que não é normal, este estado velho e doentil.

Se não resistir à normalidade, a gente perde a chance de quebrar as regras com intenção, crítica e gosto. A gente vira boneco facilmente neste mundinho urbano e programado.

Estamos vivendo uma crise de subjetividade. O drama de sermos obedientes demais, incapazes de fugir do ordinário. Estamos presos no que nossas percepções limitadas ainda conseguem lidar.

E assim rejeitamos o incompreensível, o arriscado demais, o louco, o vivo.

E como sai dessa? A gente tem que incluir sensibilidade. Abrir, dar, cultivar e investir neste espaço. A gente precisa de arte, de sensações, de experiências, de não fazer sentido.

Não há vida sem subjetividade.


Semana passada não teve publicação. Poderia dar mil desculpas. Mas a melhor justificativa é que essas coisas acontecem.

Ações para lidar com o fim do mundo

Ideias em constante construção. Não necessariamente nesta ordem.

  1. Buscar autoconhecimento e confiar na própria intuição.

  2. Aprender a fazer, simplificar e entregar valor objetivamente.

  3. Valorizar e preservar todas as formas de vida.

  4. Contemplar e expressar subjetividades.

  5. Cultivar comunidades e relações saudáveis.

  6. Reconhecer e abrir mão de privilégios.

  7. Identificar hábitos incoerentes e fazer ajustes graduais.

  8. Permitir-se errar, mudar de ideia ou desistir.

  9. Amar incondicionalmente, de todas as formas.

  10. Fazer arte.

Lidando com a iminência do nosso fim

Escolhi encarar e aceitar o caos e a iminência do nosso fim.

Não com uma esperança arrogante.

Nem com um pessimismo triste.

Estou entendendo que, bem, é isso aí, amigues.

Calhamos de nascer no começo do fim perceptível e escancarado. Ou nas primeiras gerações conscientes de que estamos nos autodestruindo.

Mudanças significativas precisam acontecer no modo que vivemos, no impacto que geramos, na economia, nas relações e, principalmente, na nossa cosmovisão.

Quem sabe, assim, teremos uma pequena chance de minimamente revertermos nosso cenário.

Algumas mudanças acontecerão, outras não.

Isso não depende de mim, ainda que faça o máximo que puder por isso.

Morrerei daqui 80, 50, 20, 5 anos, não sei. Qualquer coisa que eu faça, por menor ou mais grandioso que seja, será irrisório pro planeta.

Porém, será a coisa mais importante da minha vida.

Então, farei o máximo, com alegria, para viver bem, ser amável e deixar uma boa contribuição.

E que a gente possa curtir com amor nossas últimas dezenas, centenas, milhares ou milhões de anos na Terra.

Fazendo retrospectivas no trabalho

Toda semana, na Seasoned, a gente faz uma retrospectiva do que aconteceu nos últimos dias.

É um momento de uns 30 a 60 minutos pra gente refletir e compartilhar o que não gostamos e o que gostamos.

Simples e poderoso assim.

Nos reunimos virtualmente, tentamos nos lembrar dos últimos acontecimentos referentes a um projeto ou trabalho e aí a coisa começa.

Abrimos um documento compartilhado e, cada um, abre seu próprio bloco de notas individual.

Por três minutos, em silêncio, cada um escreve suas respostas mais honestas sobre: “O que eu não gostei?”

Vale qualquer coisa. Não ter feito um bom trabalho, um mal entendido que rolou, um atraso, um dia em que fiquei doente. Toda reclamação merece ser escutada.

Ao fim dos três minutos, cada um traz, ponto a ponto, o que não gostou para todo o grupo. As queixas se acumulam no documento compartilhado.

Todos os demais escutam e lêem. E, se for o caso, endossam, aumentam o coro sobre um ponto não gostado.

Esta é a hora de lavar a roupa suja. Não buscamos soluções, não nos justificamos. Apenas abrimos espaço para que os erros sejam vistos, os incomodos ganhem luz e os sentimentos negativos sejam expurgados.

Quando todos trouxeram tudo que não gostaram, é hora de frisar o que gostamos.

Em silêncio, por três minutos, cada um escreve individualmente o que gostou.

É muito importante escrever. É uma oportunidade para organizar as ideias e, além de tudo, deixa um registro para a gente recorrer depois.

O que gostamos? Vale qualquer coisa, um elogio pra alguém da equipe, um aprendizado adquirido, uma entrega caprichada, um emoji bem usado.

Ao fim do processo, listamos as ações concretas, específicas e simples que podem ser feitas para contemplar os "não gostei" e os “gostei".

Retrospectivas são um investimento poderoso. Uma hora riquíssima para não deixar passar os incômodos, registrar processos e aprendizados, e evoluir em grupo.

O Silêncio dos Homens

Essa semana saiu O Silêncio dos Homens. Documentário essencial a todos nós para jogarmos luz nessa triste ironia.

Homens têm muita voz, toda a voz. E, ainda assim, raríssimas vezes falam com o coração.

Se você está na Terra, já sacou que homens falam a todo instante. São as falas mais presentes na política, nas lideranças, na mesa do jantar.

Apesar disso, nossas vozes não falam tudo. Na verdade, não falam nada. Nos escondemos, não nos vulnerabilizamos. Estamos sempre mantendo uma casca dura, viril e fictícia que, supostamente, nos protege.

A verdade é que somos analfabetos emocionais. Não sabemos falar sobre sentimentos. Não sabemos demonstrar amor.

Nossa inabilidade muitas vezes é herdada dos nossos pais ausentes ou incapazes de manifestar afeto. Eles que, quando tiveram pais, foram educados com base na porrada.

Nossa inabilidade é alimentada por nossos pares machistas, nossa falta de coragem e de boas referências.

Sem recursos, homens usam a violência como linguagem. Violentam, matam e são mortos por isso.

A você que é homem, fica o convite para que veja o filme e encontre seus pares para conversas francas, sensíveis, com escuta profunda e presença.

E pra você que não é homem, minhas sinceras desculpas pela masculinidade tóxica que machuca e mata a todos nós.

As melhores pessoas que conheço

As melhores pessoas que conheço, não são. Elas estão.

E, agora, estão outras.

Elas não são suas profissões, suas empresas, seus cargos.

Não são suas origens, seus sobrenomes.

São mais do que mães, pais, filhos.

As pessoas mais interessantes que conheço não se escondem atrás de nenhum rótulo.

Elas honram seu passado, mas não se apegam a ele e superam cicatrizes.

Elas olham pra frente, mas navegam conforme o vento, e derrubam as expectativas.

Elas são sensíveis ao agora, estão atentamente se observando, questionando, acolhendo.

As melhores pessoas que vi passar por este mundo abriram mão de suas identidades pré-fabricadas para forjarem artesanalmente suas próprias identidades.

E, um dia, elas aceitam a mudança, jogam tudo pro alto e começam de novo.

Elas apenas são o que são, agora.

Cota não é esmola

Hoje a letra é da Bia Ferreira.

Existe muita coisa que não te disseram na escola
Cota não é esmola!
Experimenta nascer preto na favela pra você ver!
O que rola com preto e pobre não aparece na TV
Opressão, humilhação, preconceito
A gente sabe como termina, quando começa desse jeito
Desde pequena fazendo o corre pra ajudar os pais
Cuida de criança, limpa casa, outras coisas mais
Deu meio dia, toma banho vai pra escola a pé
Não tem dinheiro pro busão
Sua mãe usou mais cedo pra poder comprar o pão
E já que tá cansada quer carona no busão
Mas como é preta e pobre, o motorista grita: não!
E essa é só a primeira porta que se fecha
Não tem busão, já tá cansada, mas se apressa
Chega na escola, outro portão se fecha
Você demorou, não vai entrar na aula de história
Espera, senta aí, já já dá 1 hora
Espera mais um pouco e entra na segunda aula
E vê se não atrasa de novo! A diretora fala

Chega na sala, agora o sono vai batendo
E ela não vai dormir, devagarinho vai aprendendo que
Se a passagem é 3,80 e você tem 3 na mão
Ela interrompe a professora e diz, 'então não vai ter pão'
E os amigos que riem dela todo dia
Riem mais e a humilham mais, o que você faria?
Ela cansou da humilhação e não quer mais escola
E no natal ela chorou, porque não ganhou uma bola
O tempo foi passando e ela foi crescendo
Agora la na rua ela é a preta do suvaco fedorento
Que alisa o cabelo pra se sentir aceita
Mas não adianta nada, todo mundo a rejeita

Agora ela cresceu, quer muito estudar
Termina a escola, a apostila, ainda tem vestibular
E a boca seca, seca, nem um cuspe
Vai pagar a faculdade, porque preto e pobre não vai pra USP
Foi o que disse a professora que ensinava lá na escola
Que todos são iguais e que cota é esmola
Cansada de esmolas e sem o dim da faculdade
Ela ainda acorda cedo e limpa três apê no centro da cidade
Experimenta nascer preto, pobre na comunidade
Cê vai ver como são diferentes as oportunidades

E nem venha me dizer que isso é vitimismo
Não bota a culpa em mim pra encobrir o seu racismo!
E nem venha me dizer que isso é vitimismo

E nem venha me dizer que isso é vitimismo
Não bote a culpa em mim pra encobrir o seu racismo!
E nem venha me dizer que isso é vitimismo

São nações escravizadas
E culturas assassinadas
É a voz que ecoa do tambor
Chega junto, venha cá
Você também pode lutar, ei!
E aprender a respeitar
Porque o povo preto veio para revolucionar

Não deixe calar a nossa voz não!
Não deixe calar a nossa voz não!
Não deixe calar a nossa voz não!
Revolução
Não deixe calar a nossa voz não!
Não deixe calar a nossa voz não!
Não deixe calar a nossa voz não!
Revolução

Nascem milhares dos nossos cada vez que um nosso cai
Nascem milhares dos nossos cada vez que um nosso cai, ei
Nascem milhares dos nossos cada vez que um nosso cai
Nascem milhares dos nossos cada vez que um nosso cai
E é peito aberto, espadachim do gueto, nigga samurai!

É peito aberto, espadachim do gueto, nigga
É peito aberto, espadachim do gueto, nigga
É peito aberto, espadachim do gueto, nigga
É peito aberto, espadachim do gueto, nigga samurai!

É peito aberto, espadachim do gueto, nigga
É peito aberto, espadachim do gueto, nigga
É peito aberto, espadachim do gueto, nigga
É peito aberto, espadachim do gueto, nigga samurai!

Vamo pro canto onde o relógio para
E no silêncio o coração dispara
Vamos reinar igual Zumbi, Dandara
Odara, Odara

Vamo pro canto onde o relógio para
No silêncio o coração dispara
Odara, Odara, ei!

Experimenta nascer preto e pobre na comunidade
Você vai ver como são diferentes as oportunidades
E nem venha me dizer que isso é vitimismo
Não bota a culpa em mim pra encobrir o seu ra-cis-mo!
Existe muita coisa que não te disseram na escola!

Cota não é esmola!
Cota não é esmola!
Cota não é esmola!
Eu disse:Cota não é esmola!
Cota não é esmola!
Cota não é esmola!
Cota não é esmola!

São nações escravizadas
E culturas assassinadas
É a voz que ecoa do tambor!
Chega junto, venha cá
Você também pode lutar
E aprender a respeitar
Porque o povo preto veio revolucionar

Cota não é esmola!

Composição: Bia Ferreira

"Ideias para adiar o fim do mundo"

Estou tocado pelas palavras de Ailton Krenak, um dos nossos maiores pensadores indígenas.

Esta humanidade, este mundo, está se acabando.

O caminho mais estúpido é negar. E cagar dia sim, dia não.

O caminho epidêmico é a depressão. O isolamento. A desilusão. A desconexão.

E o único caminho viável é cultivar, cuidar, explorar, compartilhar e enriquecer nossas subjetividades. Nossa diversidade. Nossa capacidade de viver a liberdade.

Pra você, um trechinho de "Ideias para adiar o fim do mundo".

"Por que nos causa desconforto a sensação de estar caindo? A gente não fez outra coisa nos últimos tempos senão despencar. Cair, cair, cair. Então por que estamos grilados agora com a queda? Vamos aproveitar toda nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos. Vamos pensar no espaço não como um lugar confinado, mas como o cosmos onde a gente pode despencar em paraquedas coloridos.

Há centenas de narrativas de povos que estão vivos, contam histórias, cantam, viajam, conversam e nos ensinam mais do que aprendemos nessa humanidade. Nós não somos as únicas pessoas interessantes no mundo, somos parte do todo. Isso talvez tire um pouco da vaidade dessa humanidade que nós pensamos ser, além de diminuir a falta de reverência que temos o tempo todo com as outras companhias que fazem essa viagem cósmica com a gente.

(…)

Cantar, dançar e viver a experiência mágica de suspender o céu é comum em muitas tradições. Suspender o céu é ampliar o nosso horizonte; não o horizonte prospectivo, mas existencial. É enriquecer as nossas subjetividades, que é a matéria que este tempo que nós vivemos quer consumir. Se existe uma ânsia por consumir a natureza, existe também uma por consumir subjetividades - as nossas subjetividades. Então vamos vivê-las com a liberdade que fomos capazes de inventar, não botar ela no mercado. Já que a natureza está sendo assaltada de uma maneira tão indefensável, vamos, pelo menos, ser capazes de manter nossas subjetividades, nossas visões, nossas poéticas sobre a existência. Definitivamente não somos iguais, e é maravilhoso saber que cada um de nós que está aqui é diferente do outro, como constelações. O fato de podermos compartilhar esse espaço, de estarmos juntos viajando não significa que somos iguais; significa exatamente que somos capazes de atrair uns aos outros pelas nossas diferenças, que deveriam guiar nosso roteiro de vida. Ter diversidade, não isso de uma humanidade com o mesmo protocolo. Porque isso até agora foi só uma maneira de homogeneizar e tirar nossas alegria de estar vivos.

Seu Catita

Seu Catita nasceu na Vila do Pesqueiro, em Soure, Ilha do Marajó, Pará. Um vilarejo com umas 10 casinhas de madeira, de frente pro mar. E, de lá, nunca saiu.

O mar é sua casa, seu trabalho, sua fonte de vida. Filhote, dourada, camarão, caranguejo, um tipo de tainha. Baiacu não presta, segundo ele, sorridente.

Nos últimos anos, a vida melhorou. O trajeto diário era no remo, demorava três horas. Agora, 30 minutos no motor. A família do Seu Catita tem caixa d'água. Antes, tinha que buscar. No balde.

Seu Catita me perguntou em quem o povo da minha cidade votou. E eu respondi, constrangido, os resultados das urnas.

- Ele é de lá?

- Não, senhor.

- Ajuda as pessoas lá, né?

- Não ajuda. Tem muita gente rica lá.

- Por quê?

Por quê? Não soube dizer.

Oportunidades

Se um cliente pede por mais do que podemos dar, isso é uma oportunidade.

Se existe um problema que ninguém ousa resolver, isso é uma oportunidade.

Se há uma desconexão pronta pra se transformar, isso é uma oportunidade.

Se nossas lideranças são estúpidas e ignorantes, isso é uma oportunidade.

Se há descuido, irresponsabilidade, desinteresse, isso é uma oportunidade.

Se há tempo livre.

Se há não saber.

Se há imperfeição.

Se há burocracia.

Se há frieza.

Se há alguma condição de adicionar uma camada de valor, solução, energia, temos uma oportunidade.

Este caminho tem um coração

"Antes de embarcar em qualquer jornada, faça a pergunta: Este caminho tem um coração? Se a resposta é não, você saberá, e então você deve escolher outro caminho. O problema é que ninguém faz a pergunta; e quando uma pessoa finalmente se dá conta de que tomou um caminho sem um coração, o caminho está a ponto de aniquilá-lo. Nesse momento, muito poucas pessoas conseguem parar para deliberar, e abandonar aquele caminho. Um caminho sem um coração nunca é agradável. Você precisa dar duro só para aceitá-lo. Por outro lado, um caminho com um coração é fácil; ele não exige que você se esforce para gostar dele." - Carlos Castaneda.

Quem lê este blog há mais tempo, já deve saber que recorro sempre a este Castaneda.

Conforme a vida vai andando, mais a gente vai entendendo e reconhecendo os caminhos que tem um coração.

Um caminho que tem um coração, se me permitem discordar, não é exatamente fácil.

Mas ele vale a pena com facilidade, ainda que seja difícil, desafiador, cheio de pedras.

Quando tem um coração, a gente sabe que não há intenção velada, objetivo mesquinho, nem sentimento ruim por trás.

Um caminho que tem um coração é aberto, limpo, generoso. Ele nasce confiante, corajoso, com mais amor do que medo.

Este caminho é fácil de gostar. Porque ele também gosta da gente.

Cadeados e chaves

“Não faz sentido primeiro fazer uma chave e, depois, sair correndo em busca de um cadeado para abrir. A única solução produtiva é encontrar um cadeado e, então, fazer uma chave. É mais fácil criar produtos e serviços para os clientes que deseja atender do que encontrar clientes para seus produtos e serviços.” - Seth Godin.

Nos fechamos em nossos mundos tentando criar nossa chave, nosso produto, nosso serviço.

Damos as costas pros cadeados que já estão por aí.

Já temos problemas demais no mundo.

E cada um deles precisa de múltiplas soluções.

De todos os tamanhos, com todas as intensidades.

Tem cadeado demais bloqueando a vida.

Todos eles prontinhos para receber chaves sob medida.

AmarElo

Fazia tempo que não me aparecia uma peça dessa.

Arte de altíssima qualidade. Que toca, emociona, provoca, proclama e dá ânimo na vida.

Música e poesia que reaquece o imaginário, cria sentido, reesquenta a história e transforma dor em arte.

Fazia tempo que as surradas cores brasileiras estavam institucionalizadas, enlameadas, apropriadas por uma elite que exclui, que ignora, que prega moralismo com a arma na mão.

Pena do verde e amarelo que foi tomado por uma gente que morre de medo da mistura, da diferença, da diversidade, da única certeza que há na vida que é a transformação. Gente patriota que odeia o Brasil.

A arte brasileira estava carente de povo. Carente de se ver. A maioria de nós é marginalizada e dá suas voltas pra fazer acontecer.  Em tempos de epidemias de depressão precidamos de arte que tem sede de vida real, fresca, autêntica.

Agradeço Emicida, Majur e Pabllo Vittar pelo verde da esperança. O sinal já tá pra lá de amarelo e precisamos de muita arte.

O que queremos?

O que a gente quer quando começamos um negócio?

Por que gastamos dias e noites, nos afastamos de pessoas, queimamos pestana, tempo e dinheiro?

Nossos desejos e sonhos são emaranhados. Vários deles podem desaguar num empreendimento, num projeto, numa arte, numa startup.

Nossos desejos são humanos, comuns e, individualmente especiais.

Queremos ser vistos, percebidos, validados, respeitados, admirados.

Ousamos sanar uma dor, dar um jeito num problema que já nos machucou profundamente.

Secretamente, ou não, tentamos mostrar que podemos, que a gente é capaz de exercer poder.

Fazemos para nos manifestarmos, mostrar nossa expressão pro mundo.

Queremos nos conectar a um grupo, uma comunidade, uma família, e por isso trabalhamos duro.

Feio ou bonito, queremos controlar, sentir segurança e ter alguma previsibilidade na vida.

O que a gente quer é conforto, certeza de felicidade, por mais improvável que isso seja.

Seres sociais que somos, secretamente, ou não, desejamos status, reconhecimento e diferenciação.

Entregar ao mundo, o que quer que seja, generosamente, é sobre também deixar nossa marca, nosso legado.

Pode ser que a gente queira tudo isso, ou um pouco de cada, ou nada disso, explicitamente.

Queremos viver bem e trilhar nossa caminhada com autonomia.

Eeste caminho é uma das mais importantes aventuras que a gente pode viver.

Performance

Estou lendo "Peak Performance".

O assunto "alta performance" me trás algo ruim.

Talvez pelo trauma de já ter sofrido prejuízos na saúde física e mental por conta dessa busca.

Talvez por ainda estar nessa corrida e me ver num mato sem cachorro por muitas vezes.

Mandar excelentemente bem no trabalho, nos esportes, na criatividade, no que for, parece exigir um esforço sobre-humano, um gasto de energia a mais.

Alta performance está pertinho de sacrifício, afastamento da família, duplas ou triplas jornadas de trabalho. Sempre tem um custo altíssimo.

Mas, tem mesmo que ser assim?

O que o livro ensina, a partir de estudos com super atletas ou pessoas comuns, é que o segredo pra trabalhar muito bem é descansar muito bem.

É possível ter alta performance sem burn-out. Mais do que isso, é necessário.

Precisamos encontrar um lugar entre o trabalho desafiador o suficiente para nos empolgar e o descanso intenso que nos recupera plenamente.

Trabalhar bem tem mais a ver com descansar bem do que com trabalhar muito.

É tudo sobre alternar espaços de sono de qualidade com boas jornadas de trabalho. Pequenos intervalos ao longo do dia. Alternância entre atividade exigente e ócio despretensioso. 

A origem de toda a treta

Quando os primeiros europeus aqui chegaram, os povos nativos os entenderam como mais uma tribo diferente para conviver, em meio a tantas outras. Não começou com treta.

Tinha pra todo mundo. Espaço, comida, água, terra fértil, amor. Tudo que fosse necessário a vida estava disponível.

Aquelas pessoas viviam a experiência da vida abundante. O que elimina qualquer necessidade de competição. E, por isso, a prática normal é incluir a todos, tolerar, aceitar, acolher.

Pros portugueses, não. A vida era dura na Europa. Os que aqui chegaram toparam arriscar suas vidas, deixaram tudo pra trás e se lançaram pelo desconhecido.

Foi preciso catequizar, exterminar, tomar pra si e estuprar. O moto era extrair tudo que fosse possível e tirar vantagem.

Aquelas pessoas viviam a experiência da vida escassa. O que gera a necessidade de competir. E, por isso, a prática normal é dominar, roubar, proteger os seus e excluir todos os outros.

Este comportamento segue entre nós, centenas de anos depois de Cabral.

E nem precisa estar associado a escassez ou abundância reais.

Mesmo os mais abastados financeiramente enxergam o mundo pela lente da escassez.

Mesmo que tenham quase tudo que é necessário a vida, vivem orientados a reservar o seu, estocar, competir e, o mais dolorido, excluindo os que não são do seu clã.

A ascensão dos intolerantes que vivemos reflete a incapacidade que temos de enxergar o mundo pela lente da abundância. Reflete a escassez virtual de recursos e a escassez real de amor, conexão, empatia, escuta, afeto 

Pra Paulo Freire só há duas bases ideológicas, inclusiva ou exclusiva.

O primeiro capítulo da série documental Guerras do Brasil me fez perceber que a exclusão nasce da visão de escassez. Ela que aqui está presente firmemente desde 1500.

O único caminho que destitui a tríade escassez/exclusão/morte é o investimento sem freio em abundância/inclusão/amor.

upload.png
upload.png

Divergente e convergente

Consideramos uma pergunta, um desafio, um ponto de partida comum.

- O que vamos comer hoje?

E, com o intuito de responder, resolver ou criar, a gente começa a divergir.

- Que tal pizza?

- Queria sushi...

Se a gente diverge pouco, logo toma uma decisão óbvia. Não criamos. Ficamos nos caminhos já percorridos, nenhuma novidade.

- Marguerita.

Mas se toleramos um pouco mais a divergência, corremos o saboroso risco de fazer diferente.

- Tem delivery de comida mexicana aqui?

Divergir é desconfortável, porque precisamos lidar com o não-saber, escutar outras possibilidades, abrir mão, mudar de ideia, convencer ou entrar num concenso. É tão desconfortável que a gente começa a reclamar do processo de criação e a demora da decisão. Nosso primeiro impulso é tentar convergir logo.

- Chega dessa indecisão. Marguerita e deu.

O ponto em que começamos a reclamar por excesso de possibilidades é também o espaço em que podemos deixar emergir o novo.

- Marguerita de novo?

- O que tem de promoção no ifood?

- O que tem na geladeira pra inventar?

- Vamos sair de casa?

Em algum momento, teremos que fechar as possibilidades, tomar uma decisão e convergir. Mas quanto mais sustentamos o movimento divergente e a emergência do diverso, mais chances temos de convergir em algo realmente novo.

- Vamos perguntar pro vizinho o que podemos fazer juntando os ingredientes que ele tiver e o que temos aqui?

- E se a gente entrar no primeiro restaurante que encontrarmos na rua?

- Já comeu comida tailandesa?

O desafio pra inovar de verdade é encontrar o balanço entre divergir, sustentar a zona de reclamação e convergir.

O modelo divergente-convergente pode ser usado pra decidir o jantar. E também como processo de inovação em empresas. Ou como um jeito de viver com mais flexibilidade uma vida tolerante.

Não é sobre escolher um ou outro modo de pensar, abrindo ou fechando possibilidades, é sobre saber a hora de cada momento. E ser ótimo em todos eles. Sempre podemos ir além, considerar outras vozes e encontrar caminhos ainda não vistos. 

Qualidade antes de velocidade

Meng To é um designer excepcional, que entrega qualidade e ensina. Desenha, programa e escreve.

Mas, pra ele, seu processo é mais lento do que o da maioria dos designers.

"Eu pensava que aprendia muito mais devagar do que a maioria das pessoas. Então, percebi que enquanto eles aprendem mais rápido, em poucos minutos, eu aprendo mais rápido ao longo de dias e semanas por causa de um fator: paixão.”

Qualidade é lenta.

E, poxa, tem que gostar muito da coisa pra, lentamente, alcançar qualidade.

Tem que curtir o processo pra poder seguir com ele por tanto tempo.

A gente precisa encontrar nosso ritmo.

Mas, antes, precisa encontrar algo que valha a pena dedicar horas e horas, semanas, anos.

Mesmo que a pessoa experiente pareça ser rápida no que faz, na verdade demorou um tempão pra alcançar essa velocidade.

Velocidade não deve ser perseguida antes de qualidade.

É através do domínio da técnica, da entrega constante, que nos tornamos mais rápidos.