O que queremos?

O que a gente quer quando começamos um negócio?

Por que gastamos dias e noites, nos afastamos de pessoas, queimamos pestana, tempo e dinheiro?

Nossos desejos e sonhos são emaranhados. Vários deles podem desaguar num empreendimento, num projeto, numa arte, numa startup.

Nossos desejos são humanos, comuns e, individualmente especiais.

Queremos ser vistos, percebidos, validados, respeitados, admirados.

Ousamos sanar uma dor, dar um jeito num problema que já nos machucou profundamente.

Secretamente, ou não, tentamos mostrar que podemos, que a gente é capaz de exercer poder.

Fazemos para nos manifestarmos, mostrar nossa expressão pro mundo.

Queremos nos conectar a um grupo, uma comunidade, uma família, e por isso trabalhamos duro.

Feio ou bonito, queremos controlar, sentir segurança e ter alguma previsibilidade na vida.

O que a gente quer é conforto, certeza de felicidade, por mais improvável que isso seja.

Seres sociais que somos, secretamente, ou não, desejamos status, reconhecimento e diferenciação.

Entregar ao mundo, o que quer que seja, generosamente, é sobre também deixar nossa marca, nosso legado.

Pode ser que a gente queira tudo isso, ou um pouco de cada, ou nada disso, explicitamente.

Queremos viver bem e trilhar nossa caminhada com autonomia.

Eeste caminho é uma das mais importantes aventuras que a gente pode viver.

Performance

Estou lendo "Peak Performance".

O assunto "alta performance" me trás algo ruim.

Talvez pelo trauma de já ter sofrido prejuízos na saúde física e mental por conta dessa busca.

Talvez por ainda estar nessa corrida e me ver num mato sem cachorro por muitas vezes.

Mandar excelentemente bem no trabalho, nos esportes, na criatividade, no que for, parece exigir um esforço sobre-humano, um gasto de energia a mais.

Alta performance está pertinho de sacrifício, afastamento da família, duplas ou triplas jornadas de trabalho. Sempre tem um custo altíssimo.

Mas, tem mesmo que ser assim?

O que o livro ensina, a partir de estudos com super atletas ou pessoas comuns, é que o segredo pra trabalhar muito bem é descansar muito bem.

É possível ter alta performance sem burn-out. Mais do que isso, é necessário.

Precisamos encontrar um lugar entre o trabalho desafiador o suficiente para nos empolgar e o descanso intenso que nos recupera plenamente.

Trabalhar bem tem mais a ver com descansar bem do que com trabalhar muito.

É tudo sobre alternar espaços de sono de qualidade com boas jornadas de trabalho. Pequenos intervalos ao longo do dia. Alternância entre atividade exigente e ócio despretensioso. 

A origem de toda a treta

Quando os primeiros europeus aqui chegaram, os povos nativos os entenderam como mais uma tribo diferente para conviver, em meio a tantas outras. Não começou com treta.

Tinha pra todo mundo. Espaço, comida, água, terra fértil, amor. Tudo que fosse necessário a vida estava disponível.

Aquelas pessoas viviam a experiência da vida abundante. O que elimina qualquer necessidade de competição. E, por isso, a prática normal é incluir a todos, tolerar, aceitar, acolher.

Pros portugueses, não. A vida era dura na Europa. Os que aqui chegaram toparam arriscar suas vidas, deixaram tudo pra trás e se lançaram pelo desconhecido.

Foi preciso catequizar, exterminar, tomar pra si e estuprar. O moto era extrair tudo que fosse possível e tirar vantagem.

Aquelas pessoas viviam a experiência da vida escassa. O que gera a necessidade de competir. E, por isso, a prática normal é dominar, roubar, proteger os seus e excluir todos os outros.

Este comportamento segue entre nós, centenas de anos depois de Cabral.

E nem precisa estar associado a escassez ou abundância reais.

Mesmo os mais abastados financeiramente enxergam o mundo pela lente da escassez.

Mesmo que tenham quase tudo que é necessário a vida, vivem orientados a reservar o seu, estocar, competir e, o mais dolorido, excluindo os que não são do seu clã.

A ascensão dos intolerantes que vivemos reflete a incapacidade que temos de enxergar o mundo pela lente da abundância. Reflete a escassez virtual de recursos e a escassez real de amor, conexão, empatia, escuta, afeto 

Pra Paulo Freire só há duas bases ideológicas, inclusiva ou exclusiva.

O primeiro capítulo da série documental Guerras do Brasil me fez perceber que a exclusão nasce da visão de escassez. Ela que aqui está presente firmemente desde 1500.

O único caminho que destitui a tríade escassez/exclusão/morte é o investimento sem freio em abundância/inclusão/amor.

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Divergente e convergente

Consideramos uma pergunta, um desafio, um ponto de partida comum.

- O que vamos comer hoje?

E, com o intuito de responder, resolver ou criar, a gente começa a divergir.

- Que tal pizza?

- Queria sushi...

Se a gente diverge pouco, logo toma uma decisão óbvia. Não criamos. Ficamos nos caminhos já percorridos, nenhuma novidade.

- Marguerita.

Mas se toleramos um pouco mais a divergência, corremos o saboroso risco de fazer diferente.

- Tem delivery de comida mexicana aqui?

Divergir é desconfortável, porque precisamos lidar com o não-saber, escutar outras possibilidades, abrir mão, mudar de ideia, convencer ou entrar num concenso. É tão desconfortável que a gente começa a reclamar do processo de criação e a demora da decisão. Nosso primeiro impulso é tentar convergir logo.

- Chega dessa indecisão. Marguerita e deu.

O ponto em que começamos a reclamar por excesso de possibilidades é também o espaço em que podemos deixar emergir o novo.

- Marguerita de novo?

- O que tem de promoção no ifood?

- O que tem na geladeira pra inventar?

- Vamos sair de casa?

Em algum momento, teremos que fechar as possibilidades, tomar uma decisão e convergir. Mas quanto mais sustentamos o movimento divergente e a emergência do diverso, mais chances temos de convergir em algo realmente novo.

- Vamos perguntar pro vizinho o que podemos fazer juntando os ingredientes que ele tiver e o que temos aqui?

- E se a gente entrar no primeiro restaurante que encontrarmos na rua?

- Já comeu comida tailandesa?

O desafio pra inovar de verdade é encontrar o balanço entre divergir, sustentar a zona de reclamação e convergir.

O modelo divergente-convergente pode ser usado pra decidir o jantar. E também como processo de inovação em empresas. Ou como um jeito de viver com mais flexibilidade uma vida tolerante.

Não é sobre escolher um ou outro modo de pensar, abrindo ou fechando possibilidades, é sobre saber a hora de cada momento. E ser ótimo em todos eles. Sempre podemos ir além, considerar outras vozes e encontrar caminhos ainda não vistos. 

Qualidade antes de velocidade

Meng To é um designer excepcional, que entrega qualidade e ensina. Desenha, programa e escreve.

Mas, pra ele, seu processo é mais lento do que o da maioria dos designers.

"Eu pensava que aprendia muito mais devagar do que a maioria das pessoas. Então, percebi que enquanto eles aprendem mais rápido, em poucos minutos, eu aprendo mais rápido ao longo de dias e semanas por causa de um fator: paixão.”

Qualidade é lenta.

E, poxa, tem que gostar muito da coisa pra, lentamente, alcançar qualidade.

Tem que curtir o processo pra poder seguir com ele por tanto tempo.

A gente precisa encontrar nosso ritmo.

Mas, antes, precisa encontrar algo que valha a pena dedicar horas e horas, semanas, anos.

Mesmo que a pessoa experiente pareça ser rápida no que faz, na verdade demorou um tempão pra alcançar essa velocidade.

Velocidade não deve ser perseguida antes de qualidade.

É através do domínio da técnica, da entrega constante, que nos tornamos mais rápidos.

A armadilha do "faça o que você ama"

Nem sempre o que a gente ama é o que a gente faz bem.

Nem sempre encontramos rápido o suficiente as pessoas que desejam comprar o que a gente ama fazer.

Nem sempre encontramos essas pessoas em quantidade suficiente, na hora certa, no lugar correto.

Nem sempre o que a gente ama fazer entrega valor o suficiente para as pessoas.

Nem sempre o que a gente ama fazer paga os boletos.

Seria cruel demais matar o sonho de viver do que a gente ama.

Ainda mais pra uma geração que tem mais possibilidades do que qualquer outra.

Uma geração que é inundada de instagrams de pessoas "bem sucedidas", cursos que prometem muito, livros que "ensinam" o caminho do "sucesso".

Aprendizados, propósito, uma baita equipe, trabalho remoto, autonomia, significado, ajudar as pessoas, um bom dinheiro, contas pagas e um futuro promissor, tudo isso é válido e busco todos os dias.

É absolutamente legítimo perseguir no trabalho todo tipo de realização pessoal. Sou daqueles que não abre mão e apoia quem tá nessa.

Mas entendo que é coisa demais pra se esperar de uma fonte só, de um empreendimento só, de uma atividade só, numa tacada só, aqui, agora, antes dos 30 anos.

Não sou do time "faça o que você ama e nunca mais trabalhe na vida."

Viver do que se ama dá trabalho pra caramba, toma tempo demais, requer muito esforço, condições ímpares, apoio familiar, habilidades raras, contexto favorável, privilégios mil, ainda mais em um país com tanta desigualdade e tão baixa mobilidade social.

Bater essa real me foi importante para não cair num conto de fadas.

É preciso encontrar resiliência, desenvolver gradualmente as habilidades, os conhecimentos, e cultivar a confiança dos clientes e parceiros. Um passinho de cada vez, trabalhando todo dia.

Conseguir viver do que se ama é, infelizmente, para poucos. É um privilégio gigantesco não ter que trabalhar com o que for possível pra sobreviver.

Ter um trabalho é um privilégio. Poder escolher, então, meu deus.

Mas nem essa dificuldade toda significa, pra mim, matar o "faça o que você ama". 

Que possamos todos cultivar aquilo que amamos fazer com, veja só, amor.

Amor mesmo, desses que respeita o tempo das coisas, que aceita incondicionalmente, que cuida. 

Como se cuida de uma frágil mudinha, entendendo que vai dar frutos. Mas precisa regar muito, adubar a terra, podar e passar uns bons anos até florescer.

Enquanto isso, que a gente também consiga amar o que for necessário, possível e real, agora.

E que a gente siga se transformando, aprendendo a fazer e a amar.

Honrar o passado é o primeiro passo para criar o futuro

Para seguir com segurança, é preciso beber da sabedoria dos que vieram antes de nós.

Mas para desfrutar da liberdade, é importante sair do ninho e voar por si próprio.

Ambos os movimentos exigem maturidade. A honra de quem reconhece os que já foram. E a coragem de dar um passo pra frente responsavelmente.

Tradição e inovação são faces da mesma moeda. Um alimenta o outro.

Só é possível inovar porque há tradição, aquele comportamento esperado, comum pra todo mundo, que precisa ser quebrado.

Só há tradição porque inovar de verdade é dolorido, e a gente precisa de alguma previsibilidade para nos mantermos sãos.

Diante de dualidades, a gente acaba se vendo entre se agarrar ao passado que foi melhor ou quebrar com tudo e construir um novo futuro.

Mas esta não é uma escolha entre um caminho ou outro. É sobre um e outro.

Para criar nossos futuro é fundamental honrar o passado.

Honrar, não se prender. Agradecer, reconhecer, celebrar.

E, então, seguir em frente.

Honramos quem veio antes de nós, nossos pais, mestres, chefes, treinadores, ídolos.

Mas, em algum momento, precisamos traí-los.

Não no sentido ingrato. Trair, aqui, é sobre evoluir, não seguir à risca o esperado. É sobre dar nosso tempero único, nossa contribuição mais íntima pro fluxo da vida.

Porque a vida anda quando a gente deixa de se prender pelo que sempre foi. E começa a viver nossa história, criar nossos casos e deixar a nossa marca, sem lutar contra o passado.

Saber fazer

Para ter autonomia é preciso saber fazer.

Com as próprias mãos, sem ter que esperar, pagar ou convencer ninguém.

É claro que fazer com mais pessoas é, em geral, mais seguro, divertido, às vezes produtivo.

Mas conseguir fazer é poder. Ser capaz é tão importante do que fazer de fato. Dá confiança, amplia as possibilidades, faz a gente ter mais liberdade criativa.

Mas aprender a fazer não é simples. Toma tempo. É prática, experimentação. É mensurável, tem curso, livro, gente pra aprender. Custa energia.

Vale a pena. Saber fazer é a base pra dar nossa contribuição nesse mundo e tocar nosso barquinho.

Fazer é técnico, prático, tangível, entregável, real.

O planejar é idealizado, teórico, intangível, fica no papel, é sonho.

Planejar é importante, é claro, mas o que faz acontecer é o saber fazer.

O fazer é que muda o jogo.

Façamos arte

Peixes nadam.

Pássaros voam.

Cães andam.

E humanos fazem arte.

A gente veio pra nos expressar, criar, dar significado, sentir e nos conectar.

Não importa se é teatro, música, texto, foto, esporte, moda, código, comida, negócios.

Toda expressão genuína é, potencialmente, uma forma de arte.

Toda forma de arte é uma oportunidade de explorar sentidos, aplicar habilidades, cutucar o mundo, estar presente, dar um grito e formar comunidade.

A gente pode não se achar artista, mas arte a gente tem que fazer sempre.

Por que o que nos faz humanos é nossa capacidade de fazer arte. Alguma arte, qualquer arte.

Significado é o que nos conecta

Toda grande causa, arte, manifestação, comunidade é cheia de significado. E, por isso, proporciona engajamento, manifesta humanidade e deixa legado.

Cada cartão de visita, cada reunião, pequeno projeto, grande produto, processo, contrato, cada coisinha só se torna relevante quando faz sentido, quando há significado.

Pode ser simples, rotineiro, complexo, inusitado, particular, ou trivial. Mas, acima de tudo tem que ser significativo para que a gente se sinta parte um do outro.

Tocar nosso interior importa. Nos sensibilizar é a porta para conexão verdadeira, sonho grande e aceitação de quem for.

A busca por significado é uma busca pela natureza humana. Somos sedentos pela construção de uma vida significativa ao lado de nossos pares.

Desistir

Pra fazer acontecer, outras coisas precisam deixar de ser feitas.

Um novo espaço só é aberto quando o velho espaço ocupado deixa de existir.

Desistir é uma arte.

Porque nos faz lidar com nossas projeções de futuro. Aquilo que sonhamos vai ter que morrer e se transformar em outra coisa.

Desistir nos faz lidar com a frustração de deixar algo pela metade. Nos faz questionar se realmente somos capazes de, não somente começar, mas finalizar.

Acabar com um projeto é cuidar dos envolvidos. Não deixar pontas soltas. Reconhecer o caminho andado, aprender e seguir.

Desistir é desapegar do que poderia ser. E aceitar o que é.

Incompleto. Frustrante. Desajeitado. Cheio de aprendizados. Da próxima vez, será melhor.

Desisitir é abrir espaço pra outra coisa nascer.

Criaré, essencialmente, um exercício de desistência, recomeços e evolução.

Como ser mais criativo?

O que eu diria pro jovem Larusso do passado, iniciando uma caminhada em busca de mais criatividade na vida, no trabalho e em sua arte?

Colecione referências

É a matéria-prima. Experiências na vida, arte, leituras, repertório. Vivências distintas dão mais chances pra gente criar em cima. Nada é 100% original. Então, o negócio é beber de fontes diversas pra dar aos nossos cérebros um grande baú de possibilidades que ficam só esperando a hora de dar as caras.

Leve tudo como experimentação

E se…? Criatividade é sobre testar. Fazer experimentações pra ver no que dá. Quem experimenta pode até esperar resultados. Mas o mais importante é pagar pra ver. Aceitar a possibilidade de que a hipótese inicial não seja validada. É só um teste, nada é definitivo. Pode ser que fique bom. Pode ser que não, e tudo bem.

Se abra e se conecte

Novos amigos. Novos ambientes. Novas histórias. Cara de pau. Criatividade é sobre juntar coisas que, inicialmente pareciam desconexas. É sobre conectar pontos que, até então, eram entendidos como universos distintos. É sobre se entregar pro novo.

Desenvolva resiliência

O processo é confuso, parece que não vai dar. Mas se mantenha no fluxo, sustente a dúvida e resista ao desejo de resolver logo. A criação precisa de tensão e, pra se livrar da necessidade de controle, é preciso ser flexível, resistir e seguir.

Arrisque e aceite

A paralisia em frente à folha em branco se resolve sujando logo o papel. Criatividade vem com mais “sims” do que “nãos”. A gente aceita os limões que a vida dá e segue em frente. Se criatividade é sobre arriscar, a gente tem que aceitar o que vier desse risco e juntar as peças que vão surgindo.

Um terceiro caminho sempre é possível

Parecia que não ia dar. Era um querendo uma coisa, e o outro outra completamente diferente.

Numa negociação, a pessoa que estava do outro lado, soltou:

Chegaremos numa solução excelente pra você e pra mim.

Esta simples frase mudou o jeito que passei a enxergar o bate bola da negociação.

Sempre podemos encontrar um terceiro caminho para vender, contratar, comprar, firmar uma parceria, um compromisso, fazer qualquer negócio.

Excelente pros dois. Não pra um lado só.

O senso comum pressupõe que, numa situação difícil entre uma escolha ou outra, um dos dois envolvidos vai perder ou ter que abrir mão. Talvez o acordo nem saia.

Mas há sempre a possibilidade de explorar um caminho ainda não imaginado, que talvez não seja nem pra um lado, nem pra outro, mas para além do que podemos enxergar.

Pra isso, temos que baixar a guarda e entender que o processo criativo envolve uma tensão. Uma área do não saber, do estressar, em que nem eu, nem você nos apegaremos às primeiras soluções.

Precisaremos contruir, nos dedicar, entender o que importa pra cada lado, as necessidades de cada um até chegar no que ainda não enxergamos inicialmente.

Quanto mais a vontade nesse lugar nebuloso, maiores as chances de encontrarmos soluções novas, improváveis e, quem sabe, excelentes para todos.

Comida, água, ar, abrigo e afeto

Semana duríssima com os noticiários sobre massacres e assassinatos movidos por ódio.

Não tá fácil escrever hoje não. Nem tirar algum aprendizado, umas palavras boas que dêem alguma perspectiva.

Fico tentando entender o que não é racional.

Buscandoapressadamente encontrar possibilidades para vivermos um futuro em que a cultura de violência não seja nosso padrão.

Mas o fato é que a gente já perdeu. Como sociedade, falhamos.

Falhamos ao não conseguirmos nos conectar com alguma humanidade que possa existir por trás da monstruosidade.

Falhamos por parte de nós considerar a a morte do outro como única possibilidade para a própria vida, ou pior, a própria morte.

Falhamos ao não conseguirmos distribuir opções incondicionais e abundantes de amor e conexão. Em que todo ser humano possa ser incluído e aceito.

Que todos possam ter a garantia de que não faltará comida, água, ar, abrigo e afeto.


Recomendo a leitura da Psicologia do Massacre, no TAB.

Copiar

Copiar é uma arte. Copiar é fonte de aprendizado. Copiar é entender o trabalho que dá.

Copiar não é feio. Porque todo mundo nasceu copiando. Imitar é da natureza humana.

Feio é se passar pelo original. Não atribuir os créditos. Plagiar. Falsificar.

Copiar faz parte do processo, é engenharia reversa. Até a gente fazer do nosso próprio jeito.

Cópia é a base do trabalho criativo. Criatividade nada mais é do que juntar coisas diferentes que já existem, copiar.

Cópia é o começo da melhoria. A gente copia para avançar, aprender com o que já foi feito e ir além.

Milhões de anos de evolução biológica têm como base a cópia de material genético, mistura e mutação.

Copiando a famosa frase, “Nada se cria, tudo se copia.” Se mistura, se inspira, até ganhar cara própria, identidade, autenticidade.

O que aprendi sobre aprender

morei, mas aprendi que educação formal não é pra mim. Durante muito tempo, foi a única opção possível. Fui obrigado, acreditei, insisti e joguei o jogo. Mas depois que pude aprender de outras formas, a educação formal ficou lenta, burocrática e cara. Ainda assim, não é simples construir os próprios caminhos, exige disciplina, responsabilidade, disponibilidade, tempo.

Aprender não é linear.

O sistema formal nos faz pensar que há uma única sequência lógica para aprender. Mas não é assim que a banda toca, não é assim que nosso corpo evoluiu e não é assim que o mundo se aprensenta pra gente. Tudo é muito mais caótico, diverso e não-sequencial do que as séries da escola.

Aprender é sobre fazer.

O que a gente vive, experimenta, registra um aprendizado no corpo. Um dos maiores problemas da educação formal é que a gente memoriza, é testado, mas não aplica. Passa o tempo e esquecemos, a verdade é que nunca aprendemos, só decoramos. Mas ao fazer a coisa muda, quando a gente transforma conhecimento em reflexão e ação é que a aprendeizagem se dá.

Aprender é sentir.

Excluímos os processos emocionais dos processos de aprendizagem formais. Mas não conseguiremos jamais excluir de nós mesmos. Somos humanos, sofremos, sentimos, nos emocionamos. Não há sentido se não há sentimento.

Não se aprende nada sozinho.

Autodidatismo não é sobre solidão. Aprendizagem é sobre troca. A gente sempre se apoia em outras pessoas, que construíram aprendizados assim como nós, para fazermos nossa jornada. Além disso, é sempre rico ter referências, mentoras, mestres, ainda que diversos, distantes e passageiros. Em grupo, aprendemos muito mais.

Organizar para aprender.

A informação tá toda aí. As pessoas. Os vídeos no YouTube. O problema é organizar, saber por onde começar, identificar material de qualidade e saber pra onde ir depois. O que os cursos nos vendem raramente é o conteúdo, mas uma organização por fases, módulos, começo, meio e fim. O que é mais caro, ao aprender, é o fio condutor. E pra não perder o fio da meada, a gente tem que saber organizar, classificar, anotar, rever, sistematizar e estruturar.

Aprender a aprender.

A educação formal pressupõe que todos aprendemos da mesma forma. Mas não há ninguém igualzinho a você, neste mundo. Por isso, é tão importante descobrir qual é o teu próprio processo. Tem gente que prefere ouvir, tem gente que prefere ver. Aprender trabalhando, ouvindo música, copiando, tentado e errando. Há tantas formas quanto pessoas na Terra.

Compartilhar é aprender.

Nenhum processo me é tão rico quanto compartilhar aprendizados. Aquilo que estou aprendendo só vira aprendizado mesmo quando consigo compartilhar, escerever, distribuir.

Profundidade requer tempo.

Muito tempo, disciplina, insistência. A grande vantagem da academia é a profundidade, o sistema, a ciência. Para quem está fora desses limites, é necessário redobrar o cuidado para conseguir mergulhar e não focar só na superfície.

Habilidades que abrem caminhos

“A chave para buscar a excelência é adotar um processo orgânico de aprendizagem de longo prazo e não viver em uma concha de mediocridade estática e segura.” - Derek Sivers.

Escrever, desenhar, programar, fazer foto, fazer conta, editar vídeo, fazer acontecer.

Se pudesse escolher por onde recomeçar meus aprendizados profissionais, buscaria primeiro as pecinhas que podem construir outros caminhos.

As habilidades técnicas que criam mais possibilidades, que servem ao mundo, que se somam a grandes missões são as que mais se adequam a tempos incertos.

Nenhuma técnica se resolve sozinha. Está sempre a serviço de algo e, por isso, pode se flexibilizar, explorar diferentes mercados, encontrar outros usos, se reinventar.

O problema é que, para saber fazer, é necessário tempo, prática, insistência e ritmo. Poucos de nós estão dispostos a percorrer o caminho das pedras até dominar uma habilidade.

E, aí, não tem jeito, a gente tem que ser muito apaixonado e/ou precisar muito aprender para manter uma rotina de aprendizados até se sentir pronto para fazer.

De qualquer forma, o aprender a fazer nos ajuda a encontrar um lugar no mundo e, mais do que isso, a moldá-lo.

Pequenos aprendizados que enviaria para o meu eu do passado

1. Conte suas intenções pra todo mundo.

2. Aprenda a fazer com as próprias mãos.

3. Transforme suas dores em arte.

4. Crie e entregue valor real genuinamente.

5. Resolva, generosamente, os problemas que te tocam.

6. Tenha sempre canais abertos para receber.

7. Encare tudo como aprendizado, pegue leve.

8. Comece e, então, continue.

9. Viva o momento presente e tenha um lindo futuro.

10. Para todos os medos, conecte-se. Consigo e com todos.

Os 20, os 30 e agora

O mundo mudou e dizem que os 30 são os novos 20.

Essa coisa geracional, sei não. Os 30 continuam sendo 30 voltas ao redor do sol.

Mas agora o casamento vem mais tarde, se é que vem.

As famílias são mais diversas e não seguem o roteiro tradicional com papai, mamãe, 2,5 filhos. O que é maravilhoso.

E a gente segue sem saber pra onde vai nossa vida profissional.

Diferentemente das gerações passadas, nosso leque de possibilidades é muito maior e mais incerto.

Menos estabilidade, mais potência. Mais liberdade, menos segurança.

Ainda assim, são 30 anos vividos. E dá pra fazer um monte de coisa nesse tempo.

Chegar aos 30 significa ter mais de uma década de experiência de vida adulta.

Dez anos de tentativas, responsabilidades, frustrações e conquistas.

Não dá pra acreditar que a vida de verdade só começa depois disso.

Entrei em contato com o conceito de "capital de identidade" pelo livro da psicóloga Meg Jay.

É sobre como construimos a nós mesmos ao longo do tempo. E como essa época, dos vinte e poucos aos trinta e poucos, é formidável e importantíssima.

É quando, provavelmente, conhecemos boa parte das pessoas mais importantes da nossa vida.

É quando desenvolvemos habilidades profissionais que nos acompanharão por muito tempo, mesmo que a gente mude de área inúmeras vezes.

É quando vivemos emoções diversas, que nos fazem amadurecer e assumir responsabilidades.

Nos meus 20, estava me arriscando na presidência do Centro Acadêmico do curso de Design da UFSC.

Aos 30, embarcava para uma vida como nômade digital na Tailândia, que acabou durando 3 meses.

No meio disso, comecei e quebrei a cara no mercado de trabalho para qual fui forjado.

Iniciei e terminei relacionamentos que um dia pareceram eternos. 

Me mudei para cidades novas até que ficassem velhas para mim.

Fundei e fechei negócios que me trouxeram impagáveis aprendizados.

Foi uma aventura e tanto. Teve muita dúvida, decepções, trabalhos e decisões que pareciam que não iam dar em nada. E a eterna pergunta: "o que estou fazendo da minha vida?"

Mas, de alguma forma, aconteceu. A cada passo inseguro que me distanciava do caminho tradicional, outras trilhas foram se abrindo.

E, agora, com 34, parece que os frutos das árvores plantadas há anos e anos atrás começam a amadurecer.

Foi completamente imprevisível, eu nunca poderia imaginar o ponto em que chegamos.

Tem aquela frase do Rubem Alves que adoro, "Cheguei onde cheguei por que tudo que planejei deu errado".

Enquanto estava esculpindo e polindo meu capital de identidade, sempre me pareceu que era o melhor que poderia fazer pelo  momento presente.

Os planos deram errado, mas funcionaram. 

Parece que o melhor que podemos fazer pelo nosso futuro é viver um presente pleno, ousado, cheio de energia.

A vida não começa nos 20, nem 30. A vida começa agora.