Está tudo mudando. E está tudo bem.

"A tão anunciada grande mudança do mundo está a pleno vapor. Mas sua visibilidade requer uma atenção mais sutil ao que acontece à nossa volta, pois não são mudanças óbvias e evidentes, mas sutis transformações nos padrões e valores que começam a ser manifestados em todo o planeta, nas suas mais diferentes esferas." - Monika Von Koss.

Já acreditei que uma onda de colaboração ia salvar este mundo.

Já deixei de acreditar que o mundo precisa ser salvo.

Já achei que o afeto ia derrubar cada isolamento.

Que a liberdade ia vencer o medo.

Que a abundância ia se mostrar mais verdadeira que a escassez.

E que o amor e o poder iam se enamorar.

Mas aí veio a onda conservadora, autoritária e belicosa em diversos cantos do planeta.

E eu cheguei a achar que não ia dar tempo, não ia dar pé, que entramos de vez no jogo ganha-perde em que, no final, todos perdem.

Mas não demora e mais uma vez o paradigma velho, que está em derrocada, mostra por quê está nessa situação.

O modelo de isolamento, codependente, autoritário, arbitrário, centralizado, linear, cartesiano, baseado em acúmulo e poder dá seus últimos golpes da maneira que consegue.

Os esforços para a manutenção do status quo se mostram cada vez mais toscos e frágeis. 

Se a gente prestar atenção, vê como chega a ser ridículo, ineficiente e ingênuo.

São os gritos de desespero de quem perde poder e relevância.

Podem ganhar uma batalha aqui, uma eleição ali, um absurdo acolá, mas dura pouco, pouquíssimo. É só pra mostrar que não dá mais mesmo. 

Quanto mais tentam se salvar pelas estratégias desintegradoras mais se desintegram.

Há bilhões de micro-revoluções em curso. Elas não são mensuráveis, nem perceptíveis com métricas velhas.

Uma métrica velha é acreditar que revoluções  precisam de gritaria. Pode até ser. Mas é só a cartada final.

Antes disso, elas são sutis, silenciosas, dispersas, diversas. Vão ganhando corpo pouco a pouco e, quando vai ver, já foi.

As mudanças que desejamos precisam de atenção, cuidado, resiliência, afeto e inclusão.

Elas não são escolhas, estão acontecendo de qualquer forma. 

Está tudo mudando. E está tudo bem. 

Não é uma questão de querer.

Mas de se dispôr a estar conectado com os movimentos da sociedade que amadurece, evolui e se integra. 

Ou tentar resistir, e sofrer em vão.

Confiança

Confiança das pessoas é o maior bem que se pode ter.

Ser aquela pessoa que se pode confiar, que é ponta firme, é de um raro valor nessa jornada.

Porque quem é digno de confiança abre caminho pra um mar de possibilidades.

Chegam os convites, as conexões e a gratidão.

Confiança não é algo simples de se conquistar.

Ela vai se formando lentamente, dia após dia, a cada vez que você ajuda, entrega valor, com generosidade e consistência.

Confiança é aquele tipo de certeza que tolera as intempéries da vida.

A confiança de que você vai entregar. Vai se entregar.

De que vai se manter incorruptível diante de seus valores.

De que você vai cuidar direitinho.

E, se não der, vai pedir ajuda.

A confiança de que vai ser honesta.

Vai dar um jeito quando der ruim.

E que vai ficar tudo bem.

Porque você estará lá, bem ao lado de quem quer te dar confiança.

Juntas

“Se você colocar “líder” no Google verá que, à primeira vista, quase todo mundo usa terno, é homem e tem certezas absolutas. Ainda é preciso aprofundar e refinar um pouquinho a pesquisa pra chegar em pessoas reais. Tipo a gente. Sem terninhos (você também leu calça jeans, cores e os sapatos sem salto?), mulheres que admitem errar bastante. Que pedem desculpa. Assumem não saber. Certas de que é preciso menos controle, mais consciência e que, se você encontrar em um elevador, pode nem imaginar que acabou de decidir algo que vai impactar na vida de mais de 600 pessoas espalhadas em diversas cidades do Brasil.” - Gabriela Guerra e Caroline Cintra.

Quando foi que cravamos que o mais alto posto de uma organização deve ser ocupado por uma pessoa só?

Li nos últimos dias o livro da Gabi Guerra e da Caroline Cintra. O Juntas. É uma delícia. E foi lançado pela Belas Letras, a mesma editora do 333 Páginas.

Elas contam suas jornadas como duas jovens lideranças que se tornaram presidentes da ThoughtWorks Brasil, uma das mais interessantes empresas de tecnologia que já conheci.

E elas fizeram isso juntas. Duas pessoas, duas mulheres, duas líderes, ao mesmo tempo.

Não é estranho pensar que é fora do comum duas pessoas ocuparem, simultaneamente, a posição de líderes?

Por que nos surpreende tanto pessoas trabalharem como uma dupla à frente de uma organização com centenas de pessoas?

Deveria ser normal, o padrão, grandes responsabilidades serem compartilhadas.

Mas não.

Criamos o mito do líder herói. A pessoa solitária que sabe de tudo e nos salva.

E criamos à rebote a frágil ideia de que existem certezas.

De que a hierarquia se mantém simplesmente pelo poder, pelo cargo, porque uns mandam, outros obedecem.

Criamos a lenda de que liderar é ser imbatível e jamais estar errado.

Criamos grandes mentiras.

E isso se reflete na política, nas famílias, no patriarcado, nas nossas exigências sobre os outros e nós mesmo.

Deu errado. E a gente precisa fazer diferente.

É tempo de rever cada certeza cravada e experimentar outros jeitos de trabalhar, conviver e viver.

Está mais do que na hora de vivermos lideranças femininas, sem gênero, compartilhadas, distribuídas, rotativas, humanas.

Um dia inesquecível

Como as coisas são, não é mesmo?

Escrevo de Porto Alegre. Ontem, lançamos 333 Páginas Para Tirar Seu Projeto do Papel na 64ª Feira do Livro.

Eu nunca imaginei que isso pudesse acontecer. Parece papinho. Já ouvi isso de outras pessoas. Mas agora estou entendendo, me deixe explicar.

Tinham pessoas incríveis da Editora Belas Letras, gente que faz contato, contrato, que edita, distribui, carrega caixa, vêm de Caxias, dá sorrisos, gente que faz um baita esforço pra levar palavras pra outras pessoas.

Tinha Tiago Mattos (Just get it done), Gabriela Guerra (Juntas), Gabriel Gomes (333 Páginas), Luciano Braga (333 Páginas e O poder do tempo livre), Mari Pelli (minha companheira de vida), pessoas que eu amo de outros carnavais. E também Lau Patrón (71 Leões), Ana Cardoso (A mamãe é rock), Tito Gusmão (Papo de grana) e Caroline Cintra (Juntas), todos também autores, pessoas que passei a amar neste carnaval.

Pessoas admiráveis, sensíveis, com histórias de vida cheias de riquezas, vulnerabilidades e descobertas que viraram livros editados pela Belas Letras.

Tinha uma mesa pra gente falar com as pessoas e autografar. Uma coisa que me deixa sem graça, mas também muito grato pelo contato olho no olho, pelos agradecimentos, pela confiança.

Não é um baita voto de confiança alguém comprar um livro que a gente fez?

Como que isso pôde acontecer? Como a gente chegou neste ponto?

O Braga até tentou nos alertar:

- Vocês estão ligados que hoje será um dia inesquecível, né?

Não, eu não estava ligado mesmo.

Este dia não foi planejado, não por mim, não foi promessa de ano novo, nem pedido de aniversário.

Esses convites incríveis surgem fora da hora imaginada, mas de algum jeito sempre na hora certa. Parece que acontecem como consequência de uma série de pequenas decisões e aproximações que vão se desenrolando ao longo da vida.

Já escrevi aqui como conheci o Braga e o Gab, meus parceiros no 333 Páginas. Mas antes de escrevermos um livro juntos, a gente trocou muitos aprendizados, dividimos mesas e medos, descobrimos como nossas histórias eram parecidas, mas também únicas, passamos tempos nos dedicando às nossas coisas, duvidando delas, achando que não era bem isso, mas a gente foi fazendo, experimentando, errando e mudando.

E, um dia, a gente lançou um livro na Feira do Livro. Este é o dia que a gente vai se lembrar.

Todos os outros estão virando um purê de memórias. São dias comuns, com louça pra lavar, boleto pra pagar e trabalho pra entregar. Um grande bloco de coisas que vão acontecendo, que não parecem nos levar a lugar algum.

Não poderia imaginar escrever um livro que estaria nas livrarias, nem que teria gente que curtisse de verdade, até começar a fazer algo real por isso.

A gente vai fazendo com generosidade, tentando pôr pra fora o que acredita, aceitando quem a gente é, apesar de todas as dores. E, um dia, acontece um dia inesquecível.

333 Páginas para Tirar Seu Projeto do Papel está na boa livraria perto de você

Pausa para o merchan.

Às vezes, a gente só precisa de uma boa desculpa para acabar com as desculpas.

Papel aceita tudo. Este livro não vai julgar sua loucura.

Espero que ele tenha a chance de tirar de você o que você sempre quis pôr pra fora.

333 Páginas para Tirar Seu Projeto do Papel está na boa livraria perto de você. E também no site da nossa editora, a Belas Letras.

E na sexta, em Porto Alegre, a gente vai lançar o livro oficialmente. Se você estiver por lá, vamos nos encontrar.

Mais infos aqui.

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Unicidade

Traduzi o texto abaixo de Sean Illing para a Vox. Cabe no nosso momento e para além dele. Poderíamos entender “tribalismo” como polarização. E poderíamos entender unicidade como “somos todos um”. Seguimos conectados.


Como meditação e drogas psicodélicas poderiam consertar o tribalismo.

Sim, é sério.

E se eu lhe dissesse que a solução para o tribalismo político é surpreendente - quase constrangedoramente - simples?

Talvez, apenas talvez, tudo se resume a acreditar que tudo é um.

De acordo com uma série de novos estudos sobre a crença na unicidade de Kate Diebels e Mark Leary, psicólogos da Duke University, a maneira básica como entendemos o universo, e nosso lugar nele, determina fortemente como nos relacionamos com outras pessoas. Como “unicidade”, os autores definem a crença de que tudo no mundo faz parte do mesmo todo e que a ilusão da separação é apenas isso - uma ilusão.

Acontece que "a crença na unicidade de tudo", como eles dizem, é uma perspectiva profunda e potencialmente revolucionária para esses tempos terríveis.

É impossível falar de "unidade" sem se deixar levar por platitudes hippies sobre paz, amor e harmonia na Terra. Compreendo. No entanto, quero sugerir que nossa falta de unicidade, nossa incapacidade de ver o mundo através dos olhos de outras pessoas, de encontrar algum fundamento para o entendimento mútuo, é provavelmente nossa maior falha moral.

Se simplesmente mudar nossa orientação sobre o mundo poderia transformar radicalmente nossa política, deveríamos saber sobre isso, mesmo que não consigamos alcançá-la. Além disso, há ciência real para apoiar isso, então não é apenas um exercício de metafísica.

Assim, nesse espírito, vamos dar uma olhada na pesquisa, suas implicações e duas ferramentas que podem nos ajudar a cultivar a unicidade agora mesmo.

O poder da crença

Se a "crença na unicidade de tudo" parece confuso, bem, é porque é. Mas é uma visão de mundo perfeitamente sensata.

Cientistas como Albert Einstein e líderes espirituais como o Dalai Lama argumentam que tudo o que existe é fundamentalmente conectado, interdependente, parte da mesma substância ou processo, e que a sensação de separação que sentimos é uma ilusão nascida da autoconsciência.

Podemos certamente debater se isso é verdade ou não, mas uma questão ainda mais intrigante é: quais são as conseqüências de acreditar nisso? Até agora, não tivemos um teste confiável dessa proposta.

Diebels e Leary publicaram dois estudos relacionados na edição de junho de 2018 do The Journal of Positive Psychology, com um total de 513 participantes. No primeiro, eles estabeleceram a frequência com que seus participantes realmente pensavam sobre “unicidade”: 20,3% dos participantes responderam “frequentemente” ou “muitas vezes”, enquanto 25,9% disseram “raramente” e 12,5% “nunca” pensaram sobre isso.

Eles criaram uma escala para medir a crença na unicidade, que consistia nos seis itens a seguir:

  • Além das aparências superficiais, tudo é fundamentalmente um.

  • Embora existam muitas coisas aparentemente separadas, todas fazem parte do mesmo todo.

  • No nível mais básico da realidade, tudo é um.

  • A separação entre coisas individuais é uma ilusão; na realidade tudo é um.

  • Tudo é composto da mesma substância básica, quer se pense nela como espírito, consciência, processos quânticos ou qualquer outra coisa.

  • A mesma essência básica permeia tudo o que existe.

Para avaliar a crença, eles pediram a cada participante para avaliar como era fácil para eles acreditarem em cada uma das seis afirmações em uma escala de 5 pontos (1 = muito difícil acreditar que isso é verdade, 5 = muito fácil de acreditar isso é verdade). Quanto mais alta a pessoa pontuou, menos solipsista ela foi, ou seja, sua identidade se estendeu além de si mesma para incluir o mundo mais amplo. Mas não apenas com o mundo natural; eles também se sentiram mais conectados a outras pessoas, pessoas que nunca conheceram.

Se o principal obstáculo à empatia é a incapacidade de se identificar com a experiência de outra pessoa, é fácil ver como a visualização do mundo dessa maneira pode resolver - ou pelo menos atenuar - esse problema.

O segundo estudo explorou como o sistema de valores de alguém foi impactado pela crença na unicidade. Eles descobriram, sem surpresa, que a maior compaixão por outros seres humanos aumentava com a intensidade da crença na unicidade. Então, quanto mais alguém acreditasse que tudo e todos estavam conectados, maior a probabilidade de eles reconhecerem a humanidade que compartilhavam com outras pessoas.

Leary, um dos pesquisadores envolvidos, tem o cuidado de não exagerar a importância dos resultados. “Embora a crença na unicidade esteja claramente associada a benefícios pessoais e sociais”, ele me disse, “estritamente falando, não sabemos com certeza que ter uma crença na unicidade causa esses efeitos benéficos.”

"É possível que as pessoas que chegam mais facilmente a essa crença sejam diferentes das pessoas que não o fazem", acrescentou ele, “pode ser que elas já estejam mais preocupadas com as outras pessoas e com o mundo natural, mesmo antes de desenvolver a crença".

Para afirmar definitivamente que a crença na unicidade é a causa de um extenso círculo empático, os participantes precisariam ser expostos aleatoriamente ou não expostos a argumentos que pudessem mudar suas crenças. Mas a evidência que temos agora é tentadoramente sugestiva.

Então, quais são as implicações políticas de tudo isso?

Antídotos ao tribalismo

Frases como “tribalismo” e “política de identidade” (no nosso contexto brasileiro, polarização) provavelmente são usadas em excesso hoje em dia, e sua aplicação muitas vezes obscurece mais do que revela. Mas nós definitivamente temos um problema. Um estudo do Pew Research Center de 2016, por exemplo, mostrou que cerca de 40% dos republicanos e democratas acreditam que as políticas da outra parte são tão perigosas que representam uma ameaça existencial para a nação.

Essa divisão se manifesta principalmente nas linhas partidárias, mas isso ocorre porque nosso sistema foi projetado para ativar essa identidade específica. As clivagens são muito mais profundas do que as do partido, e você pode dividi-las em várias dimensões - raça, geografia, renda, educação etc. Quando as identidades do grupo se solidificam, todo mundo fora da nossa experiência imediata pode se tornar um “outro”. membro de algum grupo externo cujo bem-estar não tem nada a ver com o nosso.

Mesmo que os partidos pareçam mais ideologicamente diversos do que antes, o desprezo pelo outro lado só se intensificou. Grande parte disso é o resultado de viver em um ambiente fragmentado de informações, em que o consumo de notícias equivale a compras. Se você tem uma visão de mundo particular ou está investido em uma história ideológica particular, sabe para onde ir para que a visão de mundo e a história sejam transmitidas a você - os conservadores vão para a Fox News, liberais para a MSNBC.

Onde, então, isso nos deixa?

O tribalismo parece um problema intratável, algo que é tão profundo que não está claro o que podemos fazer a respeito. Mas a pesquisa acima aponta para algo como uma solução, ou seja, fazer com que mais pessoas acreditem que tudo é uma coisa só.

A questão agora é como cultivar a crença na unicidade?

Quando fiz essa pergunta a Leary, ele disse que deveríamos fazer da maneira que fariam qualquer outra crença: "ensinar às pessoas os méritos de acreditar nisso". E você pode defender a unicidade em bases seculares, científicas ou espirituais, ou seja, pode ser adaptado para pessoas com diferentes crenças preexistentes.

Psicodélicos e meditação

Permita-me sugerir dois remédios adicionais: psicodélicos e meditação.

Em seu último livro sobre psicodélicos, Michael Pollan argumenta que enfrentamos dois problemas enormes e relacionados como uma sociedade agora. A primeira é uma crise ambiental, que, segundo ele, decorre de nossa distância percebida da natureza. Apesar de todas as suas armadilhas, o moderno mundo tecnocrático nos encorajou a tratar a natureza como um objeto, algo a ser dominado e instrumentalizado.

O segundo problema é o tribalismo, ou o nosso impulso de reduzir o mundo a uma disputa de soma zero entre "nós" e "eles". Ambos os problemas são sobre desconexão. Como Pollan me disse em uma entrevista, eles "estão vendo o outro, seja o outro uma planta ou um animal, ou uma pessoa de outra fé ou outra raça, como objetos".

Mas se você puder dar um passo atrás e ver o mundo como vivo, como algo de que você é uma pequena parte, e se você puder ver outros seres humanos compartilhando essa condição, então torna-se muito mais doloroso abusar do planeta ou maltratar outras pessoas.

No início deste ano, escrevi um ensaio para a Vox sobre minha própria experiência com a ayahuasca, uma mistura vegetal que contém o alucinógeno natural conhecido como DMT. Explodiu minhas barreiras emocionais e, pelo menos por um momento, me conectou a algo muito maior do que eu. Eu ainda não tenho certeza do que era essa coisa, ou o que isso significava - tudo o que posso dizer é que me senti sem importância e totalmente liberada das pequenas vaidades que normalmente dominam a minha consciência.

Essa experiência não foi uma panacéia psicológica. Meu ego persiste, e verificar isso continua sendo uma batalha diária - muitas vezes perdida. Mas o evento alterou meu autoconhecimento em um nível profundo e instintivo, e quanto mais aprendemos sobre a neurociência dos psicodélicos, mais comum parece ser essa experiência.

Robert Wright fez um argumento semelhante sobre o poder da meditação em seu livro Why Buddhism Is True. "Uma das coisas que mais carecem no mundo não é empatia emocional, é empatia cognitiva", ele me disse em uma entrevista recente. Empatia emocional é mais sobre compartilhar um sentimento físico com alguém, como se suas emoções fossem contagiosas, enquanto a empatia cognitiva é sobre a compreensão da perspectiva de outra pessoa. "Temos dificuldade em ver as coisas do ponto de vista de outras pessoas", diz ele. "Isso é mais urgente do que a empatia emocional".

A meditação é um corretivo para esse problema. Concentrando sua mente no presente, você começa a ver seus pensamentos e emoções como ondas passageiras. É por isso que os meditadores experientes muitas vezes experimentam uma perda do senso de si e uma maior consciência de outras pessoas e outras formas de consciência.

A filosofia budista sustenta que o "eu" é ilusório e que o nosso sofrimento é o resultado do apego a objetos impermanentes, como sentimentos e pensamentos. Para os budistas, a crença em um eu fixo prende você em uma ilusão sobre quem e o que você é. Se você meditar o suficiente, se prestar atenção à sua experiência momento a momento, essa história se dissolve e você descobre que todas as coisas são fundamentalmente interdependentes.

Perder uma sensação de si, alguns budistas argumentam, não é o mesmo que sentir a unidade com o mundo inteiro. Você poderia facilmente concluir que a vida é interdependente no sentido de que a vida depende de outra vida para sobreviver, mas isso não significa necessariamente que tudo é um. Independentemente disso, usar psicodélicos (idealmente com um guia treinado) ou praticar a meditação como um meio de abandonar a ilusão da individualidade coloca você no meio do caminho para perceber que outras pessoas não são tão “outras”.

Mas isso é difícil de fazer. Estamos presos a cérebros que evoluíram sob condições muito diferentes: durante a maior parte da história humana, vivemos em pequenos grupos e, como resultado, estamos preparados para ver o mundo em termos tribais. O tribalismo é apenas uma conseqüência coletiva do egoísmo; é sobre colocar um muro entre um grupo e outro, assim como o ego coloca um muro entre um indivíduo e o mundo.

Não, isso não vai consertar tudo

Existem lutas reais no mundo sobre recursos e poder e como esses bens devem ser distribuídos na sociedade. É improvável que essas disputas e os valores que as conduzam desapareçam. De fato, se todos valorizassem as mesmas coisas igualmente, não haveria necessidade de política em primeiro lugar.

Mas há utilidade em entender como seria um mundo menos tribal e como poderíamos construí-lo. Temos essas ferramentas bem à nossa frente, ferramentas que expandem a consciência e cortam a ilusão da individualidade, e agora temos evidências que mostram seus efeitos potencialmente transformadores.

Como Leary me disse, “para pessoas que desejam promover visões mais igualitárias na sociedade, esta pesquisa sugere que fomentar crenças na unicidade fundamental de todas as coisas - ou pelo menos na unicidade de todas as coisas vivas - pode empurrar os sentimentos das pessoas de uma forma mais direção positiva.”

Os princípios morais e políticos são baseados em toda uma gama de crenças mais fundamentais sobre outras pessoas e como o mundo funciona. Se esta pesquisa estiver correta, “unicidade” é uma dessas crenças centrais, e devemos fazer tudo o que pudermos para ensiná-la e cultivá-la.

Isso significa que todos deveriam usar o LSD em seu cereal matinal? Absolutamente não. A longo prazo, a meditação é um caminho mais seguro e sustentável para a autotranscendência.

Talvez seja quixotesco dizer que o mundo seria menos atomizado e mais compassivo se todos meditassem e tomassem psicodélicos, mas isso não o torne falso. Pelo contrário, há todos os motivos para acreditar que é exatamente isso que aconteceria.

O que acontece quando chegamos no fundo do poço?

Neste mês, a ONU lançou um relatório que traz um grande sinal de alerta. Se não tivermos ações verdadeiramente relevantes para conter o aquecimento global em 12 anos, viveremos o pior cenário previsto pelos cientistas. Isso pode significar, por exemplo, o êxodo de 1 bilhão de pessoas num futuro próximo.

Para grandes mudanças acontecerem, alguns poços precisam ser cavados até o fundo. Infelizmente.

É triste. Dói demais. É terrível.

Mas as grandes transformações que precisamos não vão acontecer de forma linear, tranquilamente. Ainda ter que doer mais, vai ter que doer muito.

Os saltos de consciência e prática que necessitamos não vão se dar na mesma velocidade dos impactos que causamos a nós mesmos.

Precisamos de mudanças profundas no jeito que entendemos a economia, a política, o que comemos, consumimos, como vivemos, como nos transportamos e produzimos energia. Precisamos mudar nossa visão de que há um planeta a nosso serviço.

São mudanças complexas que, na escala global, precisariam de muita boa vontade do 1% mais rico e também mudanças de hábitos dos 99% mais pobres que os sustentam. Não há responsabilidade menor, nem maior. Estamos todos ferrados.

Seres humanos são extremamente adaptáveis. A gente se acostuma com a miséria, com a poluição, com relacionamentos abusivos e trabalhos sem sentido. Estamos nos acostumando até com nosso iminente fim, como espécie.

A gente se adapta e topa a corrida dos ratos em busca de mais dinheiro para satisfazer nossas necessidades mais fúteis e efêmeras.

Tentamos nos desconectar ainda mais dos outros, dos problemas, do que não gostamos, através do consumo e das pequenas injeções de dopamina.

Talvez, só talvez, a gente vai ter que chegar no fundo do poço para tomar atitudes mais concretas.

Porque no desespero a gente apela para a conexão.

É aí que a gente chama a mãe, Deus, Gaia, quem for.

O único caminho para nos salvar em qualquer situação de morte próxima é a conexão.

É a abertura e entrega à vida que nos acolhe.

É a certeza de que somos um neste planeta.

Lidando com nosso momento

Que nesse tempo sombrio a gente se apoie.

Fica aqui minha pequena contribuição.

Algumas das palavras que mais me acolheram.


"Essa é a situação que vivemos no momento atual. Somos governados pelo medo. Temos medo dos vizinhos, dos socialistas, dos capitalistas, dos negros, dos brancos, dos hindus, dos muçulmanos, dos cristãos. Estamos todos divididos em grupos e tememos alguém. Não se admira que estejamos votando em líderes que gastam tantos recursos naturais em armamento! Pode não ser fácil ver a conexão entre paz pessoal e paz política, entre paz interior e paz mundial, mas esses dois aspectos estão completamente interligados. Não estou afirmando que devemos deixar de lado o trabalho pela paz mundial até que tenhamos paz interior. É preciso trabalhar nas duas frentes simultaneamente." - Satish Kumar



E agora?

É muito difícil sair desse nosso microuniverso enquanto o medo está tão presente.

Mas nenhuma explicação racional é capaz de dar conta de toda a história. Nenhuma.

Este avanço conservador está no mundo. Trump, Brexit, Le Pen, Macri. E está mais agressivo, mais intolerante.

Não é explicável do ponto de vista das ciências políticas ou sociais.

É biológico. É irracional. É de ordem emocional.

Os próximos 5 minutos, a partir de 1h39m55s, deste vídeo do Bruno Torturra sintetizou muito bem o que também venho sentindo.

É sobre a humanidade tomando consciência do seu fim.

E, sem saber lidar, fazendo escolhas para excluir parte de nós por qualquer critério absurdo que favoreça a auto-preservação.

Estamos diante de problemas de altíssima complexidade, em nível planetário, como o aquecimento global, sem a menor ideia de como reverter.

Ideias até existem, na verdade. Mas nos falta prática. Nos faltam referências de outros jeitos de nos alimentarmos, convivermos, nos organizarmos socialmente, politicamente e economicamente de tal forma que a nossa própria existência não seja uma ameaça para nós mesmos.

As raríssimas referências que temos remontam a um passado indígena que nossa mentalidade desenvolvimentista é incapaz de entender sem jogar no campo do regresso ao passado.

É desesperador ter de lidar com a iminência da morte sem saber como lidar.

E assim preferimos ficar nos nossos pequenos mundos, com nossos pequenos problemas que, esperamos, serão resolvido por um salvador da pátria, por um governo sem corrupção, por armas que resolvem toda criminalidade num gatilho, por Deus.

Estamos fugindo do assunto enquanto podemos. Estamos diante do elefante na sala sem falarmos sobre ele.

James Lovelock, um dos maiores pensadores do nosso tempo, que cunhou a Teoria de Gaia, acredita que já passamos do ponto de não-retorno. Ou seja, não somos capazes de frear os impactos que causamos no planeta.

E agora? Fudeu?

Estou entendendo que sim.

A primeira opção é negar. Ignorar, ridicularizar.

A segunda é se desesperar. Vociferar, se desconectar.

A terceira é se salvar às custas dos demais - o que parece ser a mais estúpida, já que todos estamos no mesmo barco, não há para onde fugir.

E a quarta é a única que ainda pode nos fazer manter alguma sanidade.

Só podemos viver a vida, integralmente, reconhecendo o direito à vida de todos os seres.

Aceitando a morte e a transformação como leis universais da vida.

Só nos resta viver com arte, expressando a humanidade que há em nós. Arte que nos coloca no campo da imaginação, da conexão, da crítica pacífica.

Viver em comunidade, com apoio mútuo, proximidade, contato, aceitação, afeto e resiliência.

Viver em harmonia, nos integrando ao fluxo natural da vida.

Se nosso fim se aproxima a cada dia, é o que nos resta, não dá pra acelerá-lo ainda mais.

E agora? Bem, agora, só nos resta o agora.

Intolerância

"Cultivar um interesse genuíno pelos outros é o melhor jeito de ajudar a si mesmo. Não há diferença. Qualquer mínima sensação de isolamento que sentimos (dos outros serem superiores, inferiores ou não terem interesse em nossa vida, por exemplo) vem justamente do medo de quebrar esse ciclo e ousar o primeiro movimento.” - O Lugar.

Nestes tempos, é mais fácil se desconectar das pessoas do que se conectar de verdade.

Burro, ignorante, block.

Mas não tem jeito, de onde veio, tem mais. Vai passar essa eleição e, esperamos, teremos outras.

Por mais que a gente abomine, um percentual de nós é fascista, homofóbico, machista, autoritário, corrupto.

E, infelizmente, continuarão existindo e persistindo por algum tempo. Essa é nossa realidade.

Não temos outra opção, precisamos conviver com as famílias, os colegas de trabalho, a vizinhança, estamos todos no mesmo país, no mesmo planeta.

Parte de mim tem o desejo de desconexão, de eliminação, da solução fácil. Em algum lugar alimento a divisão acalorada entre opostos, que separa os meus dos deles.

Outra parte sabe que somos todos um, que sempre é preciso encontrar humanidade nos olhos de quem prolifera ódio. Que estamos todos nos transformando, no tempo que há. Precisamos cultivar esperança de evolução ou estamos perdidos. Não há nós contra eles.

Neste ano, procurei me manter curioso para entender os porquês de quem pensa completamente diferente de mim. Vi vídeos que defendem outro lado, tentei conversar com quem levanta a bandeira do que repudio, li as propostas.

Não é fácil, exige um grande esforço. Grande, porém menor do que o esforço de reparar uma guerra. Grande, mas menor do que o esforço de reestabelecer uma democracia.

Essa eleição tem me ajudado a perceber o quanto preciso de entrega, de disposição e de mais habilidade para criar pontes. Aqui, ainda falta muito, admiro quem consegue com mais equanimidade e peito aberto.

Admiro quem consegue entender de antemão a discussão que vale a pena, ou o papo que não merece grande energia porque, sabemos, só nos desgastaremos.

Quero aprender com quem consegue criar uma ponte à partir do que nos conecta, ainda que as estratégias para fazer algo sejam completamente diferentes.

Respeito muito quem é capaz de divergir, ampliar os debates, discordar veementemente e ter a certeza de que não há nada, nenhuma relação em risco.

Me incomoda muitas vezes minha aproximação ser mais pelo estudo, pelo desejo que fica lá no fundo de convencer, ou mostrar meu ponto. E não porque quem pensa diferente é digno de ser escutado. Gostaria de lembrar mais vezes que a gente pode construir algo juntos.

E me ajudar a viver com esperança e compaixão.

Este é o jogo que quero jogar. Qualquer coisa fora disso é tentativa de silenciar, é acreditar que os outros são inferiores, que existem outros. E que a polarização, o jogo ganha-perde é o único caminho.

Só há um limite claro para minha tolerância que é não tolerar os intolerantes, aqueles que ameaçam a vida humana (#EleNão) e colocam a própria tolerância em risco. Tem um paradoxo aí que vale infinitos debates e a escuta desse lindo episódio do podcast Mamilos.

Fora isso, a gente tem que dialogar, debater e viver essa coisa frágil, porém infinitamente melhor do que qualquer outra possibilidade, que é a democracia.

 O paradoxo da tolerância pelo filósofo Karl Popper.   Uma sociedade tolerante deve tolerar a intolerância?   “Você quer mais tolerância? Respeite minhas ideias!”   A resposta é não.   É um paradoxo, mas tolerância ilimitada pode nos levar à extinção da tolerância.   Quando a gente estende a tolerância àqueles que são abertamente intolerantes…   “Vamos dá-los uma chance! “  Os tolerantes é quem acabam sendo destruídos. E a tolerância também.   Qualquer movimento que prega intolerância e perseguição deve estar fora da lei.   Por mais paradoxo que isso possa parecer, defender a tolerância exige não tolerar o intolerante.

O paradoxo da tolerância pelo filósofo Karl Popper.

Uma sociedade tolerante deve tolerar a intolerância?

“Você quer mais tolerância? Respeite minhas ideias!”

A resposta é não.

É um paradoxo, mas tolerância ilimitada pode nos levar à extinção da tolerância.

Quando a gente estende a tolerância àqueles que são abertamente intolerantes…

“Vamos dá-los uma chance! “

Os tolerantes é quem acabam sendo destruídos. E a tolerância também.

Qualquer movimento que prega intolerância e perseguição deve estar fora da lei.

Por mais paradoxo que isso possa parecer, defender a tolerância exige não tolerar o intolerante.


PS.: A nova edição do livro 333 Páginas para tirar seu projeto do papel está linda e em pré-venda com um brinde da Post-it especial. Só até 05/10 no site da Editora Belas Letras.

Dinheiro grátis para todos

Acredito que todo ser humano deveria ter dignidade.

Todo mundo, sem exceção, deveria ter garantido o mínimo para comer e se abrigar, o direito de ter uma vida digna.

Não dá pra acreditar que a gente manda robô pra Marte, planta comida para alimentar carro, aluga casas ociosas pelo celular, desperdiça um quarto de tudo que produzimos e ainda tem um monte de gente no mundo passando fome.

Já temos o suficiente para todos. Mas continuamos tentando inventar formas de justificar a distribuição desigual para quem "merece". Ao acreditarmos em escassez, a tornamos real.

Precisamos desassociar o direito à vida do trabalho.

Trabalho é importante demais. Mas todos nós passamos ou passaremos um tempo sem. E, nem por isso, merecemos morrer ou viver sem dignidade.

Escutei por quase duas horas a voz rouca de Eduardo Suplicy no Anticast e me emocionei. Ele advoga pela Renda Básica de Cidadania há uns bons anos e conseguiu aprovar em 2004 a lei que garante que nosso poder executivo vai implementá-la no Brasil. A ideia não é dele, nem nova. Pensadores alinhados à esquerda e à direita já a defenderam.

Renda Básica de Cidadania, Renda Básica Universal, ou Universal Basic Income é a proposta em que todos os cidadãos, sem qualquer distinção, recebem mensalmente uma quantia suficiente para ter o mínimo. Uma grana para não faltar comida e abrigo, por exemplo. Os valores que se fala por aí são variados. R$ 1000, U$ 1000. Vamos entender como um salário mínimo. Independente do emprego, da idade, de qualquer condição. Seja rico ou seja pobre a graninha sempre vem.

Nossa cabeça que enxerga o mundo pela lente da escassez racha ao entrar em contato com o conceito de Renda Básica Universal.

"Como assim dinheiro de graça para todos?" Sim. Descondicionar dinheiro recebido de trabalho feito é revolucionário. Porque, cá entre nós, nenhum modelo econômico testado acabou com a fome globalmente. E se todos os países seguirem o exemplo dos países "desenvolvidos", não teremos planeta Terra que dê conta dos recursos naturais explorados.

"Ah mas ninguém vai querer trabalhar." Se ganhasse um salário mínimo, eu trabalharia da mesma forma, e você? Você, provavelmente, também. Os estudos apontam que 99% das pessoas também. Alguns trabalhariam menos, outros deixariam de trabalhar por um tempo. Seres humanos perseguem significado, pertencimento, querem se sentir úteis. Se alguns poucos de nós se contentarem em viver com o mínimo, por que isso seria  problema?

"Ah mas tem trabalhos importantes que ninguém vai querer fazer, daí." Eu acho uma crueldade acreditarmos que alguns de nós devem fazer trabalhos que não tem nenhum significado, não acrescentam nada ao espírito humano, para que poucos de nós possam viver bem. As atividades que não merecem ser feitas não deveriam ser feitas. Se houver algum trabalho essencial que uma máquina não pode fazer, ele deveria ser muito bem remunerado, porque é valioso. Entendo que este é um cenário ideal e que o mundo de hoje não funciona assim. Mas a gente precisa tensioná-lo e, gradativamente, possibilitar que todo ser tenha a oportunidade de viver plenamente fazendo algo que o engrandeça. A Renda Básica Universal deve começar pequena e ir aumentando pouco a pouco. Não acredito que será um "deus nos acuda, não temos mais sub-empregos" de um dia pro outro.

"Isso não aumentaria a inflação?" Não sei dizer. Tendo a acreditar que não, porque é uma questão de transferência de renda, não criação de dinheiro. Vem dos impostos. Não há circulação de dinheiro novo.

"Quem paga por isso?" Espera-se que o crime diminua. Porque as pessoas que não têm possibilidade alguma terão o mínimo garantido para que não precisem roubar ou traficar, por exemplo, diminuindo os custos de segurança. Espera-se que os custos de saúde pública diminuam. Porque as pessoas terão o mínimo para se cuidarem, se alimentarem, talvez comprarem remédios básicos, espera-se que as pessoas não precisem se prostituir. A hipótese é que é mais barato, rápido e simples dar dinheiro pras pessoas se cuidarem do que ficar tentando cuidar delas.

"As pessoas vão gastar tudo com bobagens." Talvez. Talvez alguns de nós, talvez por um tempo. Mas é natural do ser humano querer viver bem. E acredito que cada um sabe o que é bom pra si. A gente muda. A pergunta que me fica é: quem se importa com a forma que o outro gasta seu salário? Isso não parece um problema, não é mesmo?

A verdade é que não temos respostas concretas. Porque a Renda Básica Universal tem pouquíssimos exemplos. Suplicy cita Alaska e Macau como cases de sucesso. Estudos são feitos em 40 países.

A gente poderia entender que o Bolsa Família foi um protótipo. Considero que mais ou menos, porque tem suas condições, não é pra todos, nem pra sempre como sugere a ideia de Universal Basic Income.

Ser pra sempre e pra todos muda tudo.

Porque você terá a segurança de que sua vida não estará nunca em risco por falta de grana. Isso nos dá liberdade para estudar por paixão, perseguir um trabalho significativo, viver mais plenamente. Partimos de um patamar mínimo para exercermos nosso potencial máximo.

Diferentemente do Bolsa Família, a Renda Básica de Cidadania é para todos, sem divisão. Sem qualquer critério abstrato ou arbitrário que separa as pessoas. Porque simplifica, desburocratiza e, o mais importante, não faz a pessoa questionar se vale a pena ganhar mais trabalhando e perder o benefício. Ou continuar pobre, mas recebendo a bolsa.

Renda Básica Universal é a mais poderosa ideia do nosso século para eliminar a pobreza. Espero vê-la acontecer em breve. Para mim, é tão significativa quanto o fim da escravidão. É uma ideia baseada em confiança nas pessoas, em liberdade segura, em dignidade universal e merecemos, todos, viver isso.

Só votar não dá

“Somos seres complexos, num mundo complexo, cada vez mais caótico. Não dá pra achar que tem solução simples pra nada. Não tem frase pronta que dê conta da realidade em que a gente vive. Não dá pra achar que é só apertar um botão pra resolver toda a treta. É a soma de várias ações que vai resultar em alguma mudança, a eleição é só uma destas ações diante de tantas outras que podemos exercitar todos os dias.” - Mari Pelli.

Uma coisa interessante que acontece nesses tempos de eleições é o interesse que se desperta pela coisa pública.

A “festa da democracia” nos faz acreditar que o voto é essa coisa valiosa. E é. Muito melhor ter do que não ter. É uma conquista que espero que seja ampliada.

Mas seu impacto é mínimo. Um voto é só um entre 147 milhões no pleito nacional. A chance de um voto decidir uma eleição pra presidente é irrisória, é (quase) impossível.

Voto é uma grande escolha que vale muito pouco, que se dilui ao longo de quatro ou oito longos anos.

Se sua candidata perder, não importa quantos votos teve, sua opinião não valeu absolutamente nada neste jogo “democrático”. Todos os perdedores têm suas opiniões descartadas.

Por isso, só votar não dá. Só votar é muito pouco diante das transformações que precisamos.

As decisões sobre a vida pública acontecem todos os dias, a todo instante, quando a gente quer e quando a gente não quer.

Fazemos escolhas políticas a cada compra. A cada escolha mais consciente. A cada vez que damos mais dinheiro para quem queremos que siga produzindo no mundo. Ou quando compramos só um negocinho de uma grande empresa lucrativa que fode com o planeta.

Fazemos escolhas políticas a cada não-compra. A cada roupa usada ao máximo, a cada eletrônico consertado, a cada toneira fechada, a cada lixo poupado, a cada canudinho economizado.

Fazemos escolhas políticas a cada compartilhar de conteúdo relevante. A cada conversa esclarecedora ou a cada diálogo sem escuta. A cada vez que privilegiamos privilegiados ou quando criamos oportunidades para quem tem menos.

Fazemos escolhas políticas a cada trabalho realizado, escolhido ou negado. A cada energia empregada para a construção do mundo que a gente quer para todos. Ou a cada grana que a gente faz ignorando as más consequências para todos os outros.

Fazemos escolhas políticas a cada doação generosa. A cada distribuição de recursos. A cada escolha por financiar e fazer acontecer um mundo mais acolhedor, tolerante e responsável.

Espero que seu voto seja o mais consciente possível. E que cada decisão verdadeiramente impactante seja ainda mais.

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Poder

O “mercado” e a “democacria” são muito frágeis. Porque são suscetíveis ao poder.

E este, o poder, é um prato cheio e suculento para os sociopatas, os insensíveis e os opressores.

O sistema político, do jeito que desenhamos, é um jogo do tipo ganha-perde. É sobre vencer, derrotar, diminuir o outro, quando deveria ser um jogo para todos ganharem. É o campo preferido de quem vê o mundo como uma batalha entre nós e eles.

O mercado financeiro não escolhe para onde o dinheiro vai considerando o que é melhor para todos. A grana flui em direção à potencialização dos lucros, custe o que custar. Viver nesse mundo e dormir com a consciência tranquila não é para os sensíveis.

As grandes corporações. Elas só existem e se mantém porque tem muita gente que não se importa com as externalidades, as consequências de, por exemplo, tirar carbono que há milhares de anos dorme no fundo do mar para queimar e transformar em gás carbônico na atmosfera.

As estruturas hierárquicas, baseadas em poder, favorecem quem se interessa por poder. Quão mais capaz de passar por cima de tudo e todos, mais capaz se é de galgar posições nessas estruturas.

Essas entidades que criamos, como o “mercado”, parecem ter poder demais. E têm, porque interferem diretamente na vida de todos nós, ocupam o noticiário, nos dão dor de cabeça e medo.

Nos cabe criar estruturas mais autônomas, livres e inclusivas possíveis. Cabe a nós distribuir poder.

Comprar do pequeno, alimentar redes de apoio, fazer escolhas para além do óbvio, abrir mão de privilégios e não dar mais poder aos que são capazes de fazer qualquer coisa por ele.

Faça a arte que você quer ver no mundo

Dê sua opinião. Me conta o que você pensa. O que mexe contigo. Faça teu barulho.

Espalha o que há de mais importante no que você está aprendendo.

Sua visão crítica, sua dor, sua proposta, seu jeito único de ver o mundo é importante demais.

Nunca foi tão fácil entregar um pedacinho das nossas angústias, erros, reflexões e fragilidades.

Mas você, que pensa demais, acha que não vão gostar. Que podia ser melhor. Que não é bom o suficiente. Que é uma bobagem.

E não publica, não compartilha. Deixa escondido. Deixa pra depois. Deixa pra lá.

Quem está ignorante pensa diferente.

Quem não se importa com o outro, o ignora e, por isso, publica, vomita no G1, xinga no twitter, encaminha meme do candidato mais ignorante ainda.

Todos nós, que apanhamos da Internet que não queremos, começamos a acreditar que o mundo assim mesmo, cheio de gente estúpida, intolerante e sem empatia.

Mas não.

Todos nós temos algo a contribuir. Todos nós podemos dar menos ouvidos aos nossos medos e, generosamente, produzir beleza, conexão e arte através da nossa opinião.

Se você é do vídeo, faz o canal no YouTube que você gostaria que existisse.

Se é do texto, escreva o livro que você quer ler.

Se é da dança, expresse através do corpo o que você acredita.

Usa teu Instagram pra dar aos teus seguidores mais esperança.

Ajuda o Facebook a te conectar com quem tem algo pra te ensinar.

Rebata no Whatsapp através da mensagem que cria pontes e nos aproxima.

Faz agora, comece pequeno, amplie na medida em que ganha confiança.

Mas não pare, a gente precisa de ritmo e de bons exemplos.

E você ainda terá a chance de se cercar de possibilidades ainda mais ricas e surpeendente.

O mundo precisa da sua generosidade. E você é quem mais vai ganhar com isso.

Tudo vai ficar bem

Tudo vai ficar bem.

Tudo está bem.

Agora.

Todo problema, complexo, simples, está se desfazendo ao longo deste tempo que está se desenrolando.

Daqui a muito, ou pouco, todo problema terá desaparecido.

Surgirão outros. Mas estes, bem, estes se vão.

Toda emoção, dolorosa ou eufórica, é passageira.

Por mais intensa e duradoura que fosse, toda alegria e toda tristeza veio e passou.

Toda rejeição, aversão, medo já foi aceitação, desejo, coragem. E, depois, mudou de novo.

Toda expectativa que alimentamos, todos "e se..." que mudariam o passado nos jogam para longe da vida presente.

Quando a gente está imerso no problema, parece que tudo gira em torno dele. Nossa atenção, nossa emoção e nossa ação.

No calor do problema, às favas o "vai passar", está doendo agora, queremos solução apressada.

Aquela que gera angústia ainda maior justamente por demorar a chegar.

A solução que vale a pena cultivar é o deixar ir.

Por que por mais cretino que possa parecer, vai passar mesmo. Vai sim.

Enquanto isso, que se viva o melhor que for possível agora.

Para elevar o nível da discussão no grupo da família

Infelizmente, dizer aos eleitores que certo candidato é homofóbico, machista e racista, não os faz mudar de ideia.

Porque eles, seus eleitores, também são, velada ou explicitamente. Triste.

Tempos complexos são obviamente difíceis de entender.

Ainda mais para quem não está disposto a ir mais a fundo, parar um pouquinho, escutar e se conectar com o outro.

As referências binárias que serviam há pouco já não são mais suficientes para lidar com a vida. Na verdade, elas nunca foram.

A suposta calmaria de quem sempre oprimiu agora está abalada. Por que as minorias começaram a ter voz. Alguma voz que clama por empatia, respeito, por basta.

Quem sempre foi intolerante se vê perdido por que está, veja só, tendo que pensar duas vezes antes de vomitar sua violência fantasiada de zoeira, meritocracia, família tradicional brasileira.

Quem está se sentindo ameaçado pelo levante das minorias dá ainda mais atenção pro discurso baseado em medo.

Ele simplifica a complexidade do mundo e os protege de ter que lidar com a diversidade, a complexidade, a vida múltipla que sempre existiu.

É nessas situações que aquele que mais grita ganha palco. Quem é mais intolerante consegue ser a voz desesperada de quem tem poder ameaçado.

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Do lado de cá, tenho entendido que não adianta entrar na discussão pela ótica da intolerância, não podemos tocar a música pro maluco dançar.

Por que quem é intolerante reforça suas convicções facistas quando confrontado, quando tem que lidar com a multiplicidade.

A incapacidade de lidar com o outro, para essas pessoas, reafirma a necessidade de eliminá-lo.

Se, para alguns, não adianta ir pelo argumento contra a homofobia, o racismo, o machismo, vamos mostrar também a incompetência e a moralidade questionável do candidato.

Não faltam argumentos. Ele dá motivo, é tosco, raso, frágil. É fácil perceber sua incapacidade de governar.

Se você quiser elevar o nível da discussão no grupo da família no Whatsapp, compilei algumas notícias para trazer mais informações sobre este senhor.

Se você tiver mais links, me manda?

Seguimos.


Todo mundo precisa de estruturas

Precisamos delas para vivermos sensações de segurança, pertencimento, reconhecermos identidade, nos sentirmos aceitos. É aquela base pra gente viver e seguir em frente.

Alguns encontram estrutura na família, no emprego, na religião, numa empresa que empreendeu. Em tudo ao mesmo tempo.

Quanto mais desapegados, críticos e questionadores, mais desajustados nos encontramos nas estruturas tradicionais.

Quanto mais privilegiados, mais possível nos desapegarmos de estruturas prontas e antigas e recorrer a outras. Infelizmente.

Largar tudo, mudar de vida, sabático são coisas de quem está trocando de estrutura. Mas, ainda assim, pode se apegar a outras para isso.

As estruturas que nos ajudam a trucar o sistema e mudar de vida são as que tem nos permitido mais questionamentos, mobilidade, velocidade e efemeridade no trabalho, nas relações, nas comunidades em que vivemos.

Na nossa sociedade, no nosso tempo, as novas estruturas começaram a se tornar mais líquidas, intangíveis, leves como um trabalho freelancer remoto, uma uma conta no Instagram, uma profissão que há pouco tempo não existia.

Mas qualquer nova estrutura é uma estrutura frágil. São simulacros que nos protegem de frustrações, opressões, convívio com o mundo real.

Então o que nos restou? Atalhos para rapidamente estruturarmos a nova vida que buscamos. Cursos, coach, cargos novos, criar signos que significam algum tipo de estrutura.

Todos eles ainda frágeis por que são novos. Dão alguma sensação de adequação, mas não atendem a todas as necessidades humananas.

Precisamos de estruturas. Se questionamos o emprego, precisamos de espiritualidade. Se questionamos a família tradicional, precisamos dos amigos do cohousing. Se questionamos o dinheiro, precisamos de alguma estrutura familiar, por exemplo.

Mas ainda que a gente possa eventualmente entender as regras do jogo, isso não significará que a gente saiba jogar bem.

Todo mundo precisa de estruturas, a questão é  jogar com as que a gente pode e está disposto a lidar, de tal forma que a gente não fique sem chão algum.

E, ainda, quem sabe, se livre da necessidade de ser algo para além do que se é.

Desobediência à autoridade

“Pessoas comuns, simplesmente fazendo seu trabalho, e sem qualquer animosidade pessoal, podem tornar-se agentes de processos terrivelmente destrutivos. Além disso, mesmo quando os efeitos nocivos de seu trabalho se tornam claros e eles são orientados a continuar ações incompatíveis com seus padrões fundamentais de moralidade, relativamente poucas pessoas têm os recursos necessários para resistir à autoridade.” - Stanley Milgram.

As pessoas aprendem mais quando recebem punição ao errar?

Duas pessoas comuns são voluntárias nesse experimento. Uma encara o papel de professor, a outra de aprendiz, aleatoriamente.

Elas ficam em salas diferentes e se comunicam por microfones e sistemas de som.

O professor lê uma sequência de palavras para serem memorizadas pelo aprendiz.

Quando o aprendiz erra, o professor aperta um botão que dá um choque no aluno. A cada erro, o choque se intensifica.

O aprendiz reclama, pede que pare, diz ter problemas cardíacos, pára de responder.

Há um cientista conduzindo o experimento, quando o professor hesita, ouve um estímulo de cada vez:

“Por favor, continue. O experimento requer que você continue. É absolutamente essencial que você continue. Você não tem outra escolha a não ser continuar.”

O experimento de Milgram não é sobre punição ao errar, é sobre obediência à autoridade, sobre como pessoas comuns podem ferir outras pessoas apenas porque estão recebendo ordens.

O aprendiz é um ator, ninguém recebe choques de verdade. Exceto o próprio professor, no começo do experimento. Ele toma um de 30 volts para sentir o que é uma dor de um choque nessa potência.

100% das pessoas que encarnaram o professor chegaram a 300 volts. Simplesmente porque era o que pedia o experimento.

65% das pessoas que assumem o papel de professores seguem dando choques até o nível máximo, 450 volts.

A maioria das pessoas não se nega a machucar a outra, só por que alguém mandou.

É aquela isenção de responsabilidade, o jogar pra cima, o famoso “eu só trabalho aqui”.

Nunca é culpa nossa, sempre tem alguém em um nível hierárquico acima de nós que parece mais responsável pela merda do que a gente.

Milgram era de origem judia e iniciou os experimentos para entender como tantas pessoas comuns trabalharam para os nazistas.

Uma das possibilidades é justamente essa divisão do trabalho e essa nossa tendência pela obediência ao superior, sem qualquer crítica.

E ainda tem o dinheiro. Os voluntários, professores ou aprendizes, recebiam uma quantia por participarem do experimento.

Tem um amigo meu dos tempos de publicidade que chamava dinheiro de “cala a boca”.

Em 2010, participei de uma campanha política. Fui contratado como designer para a campanha de um deputado federal razoavelmente alinhado com meus valores.

Fiz santinhos, banners, placas e material pra internet.

Pela lei, em cada material impresso você precisa declarar a tiragem num cantinho. Tipo, cada santinho tem escrito: "tiragem de 10 000 unidades".

Lá pelas tantas, recebi uma tabela com números diferentes. Um número para pôr no impresso, outro que era a verdadeira ordem de impressão.

No impresso ia “Tiragem: 10 000”. Mas eu tinha que mandar a gráfica imprimir 20 000.

Fiquei de cara. Não sabia como me portar. Era caixa dois. Eu estava entendendo o esquema.

Perguntei se era isso mesmo. Meu chefe com uma cara sem graça respondeu que sim.

E eu fiz o que ele mandou, contrariando minha moral.

Para minha felicidade, naquela eleição, o candidato para quem trabalhei não foi eleito.

Me prometi nunca mais entrar nessa. Mas, ainda assim, minha consciência ficou pesadíssima porque eu dei choques no aprendiz, fui até o fim.

Contrariar autoridade é difícil. Pedir demissão é difícil. Dizer “não” é difícil.

A gente tá cheio de “autoridades” por aí, reais e abstratas: o patriarcado, a carreira, patrões opressores, o “mercado”, “o que vão pensar”, “a família”.

Aprendi que desobediência à autoridade é uma habilidade. Requer auto-consciência e coragem. Não é simples.

Auto-consciência é sobre a capacidade de se perguntar: “Peraí, o que eu tô fazendo é certo pra mim? Estou só seguindo ordens que não concordo? Estou sendo pressionado a fazer o que não quero?”

E coragem é sobre enfrentar o medo das consequências que a gente nem sabe direito quais são. “Vou ficar sem grana? Não serei mais aceito? Vou me ferrar mais ainda?”

Está cada vez mais claro pra mim que a gente só vai tornar este mundo mais justo quando abrirmos mão dos nossos privilégios.

Isso significa dizer não. “Não vou comprar de você”, “Não vou trabalhar pra você”, “Não vou aceitar sua opressão”, ainda que a gente perca dinheiro, oportunidades, reputação, ou outras ilusões.

Não é bolinho, tem atrito, dor, incerteza, quebra. É uma bosta.

Mas, pra mim, pouco a pouco, tem valido muito a pena. A liberdade e a consciência limpa não têm preço.

Os “nãos” têm que ser ditos e as autoridades têm que ser questionadas.

Ou, então, poderosos continuam no poder, ricos continuam cada vez mais ricos, oprimidos seguem sendo oprimidos e seguiremos dando e tomando choques que não nos fazem aprender nada.

O experimento de Milgram tá na Netflix.

As histórias que contamos criam nossa realidade

“As histórias que contamos uns aos outros nos levam às ações que tomamos.” - Seth Godin.

Tem um pedacinho da Espanha em território africano fortemente murado para impedir que as pessoas que estão no Marrocos cheguem à “Europa” por terra.

Existe toda uma comunidade de milhares de norte-coreanos que vivem em Tokyo, no Japão, como se estivessem na Coréia do Norte, falando sua língua, frequentando sua própria escola, vivendo sua cultura e venerando seu ditador.

Com as mudanças climáticas e o degelo do Pólo Norte, novas terras passam a se tornar habitáveis, mares passam a ser navegáveis e o ser humano começa uma corrida pela exploração econômica de uma terra que, até então, era de ninguém.

Eu não sabia nada disso até devorar a série de vídeos da Vox chamada Borders (Fronteiras), no Youtube.

A série é cheia de pequenos e ricos episódios. Alguns tem legenda, outros não.

Borders me ajuda a perceber o quão grande é o mundo, quão ignorante eu sou e quão capaz nós somos de criar histórias que mudam a vida de bilhões.

Fronteiras são histórias que contamos pra nós mesmos. Por que não existem fronteiras reais num mundo redondo.

Governos desenharam e nós vivemos dentro dessas linhas imaginárias. Por conta delas, pessoas compram e vendem, fazem guerra, arriscam vidas, morrem.

Assim como fronteiras, existem outras tantas abstrações não-naturais que convencionamos. Nacionalidade, emprego, dinheiro, casamento, religião.

Ser uma história não significa ser menos real. Histórias são nosso elo de ligação. A cola social, o que nos conecta.

Mas histórias são mais poderosas do que a própria realidade, já que elas se sobrepõem a qualquer uma.

Não há poder maior do que entender as histórias, criticar as histórias e, mais sofisticadamente, criar as histórias que desejamos viver.

Por isso, para toda história, fronteira, nacionalidade, emprego, dinheiro, casamento, religião, há um espaço lindo de criação.

Sempre há a possibilidade de desconstrução da história que conhecemos para que a gente crie a história que desejamos.