Intolerância

"Cultivar um interesse genuíno pelos outros é o melhor jeito de ajudar a si mesmo. Não há diferença. Qualquer mínima sensação de isolamento que sentimos (dos outros serem superiores, inferiores ou não terem interesse em nossa vida, por exemplo) vem justamente do medo de quebrar esse ciclo e ousar o primeiro movimento.” - O Lugar.

Nestes tempos, é mais fácil se desconectar das pessoas do que se conectar de verdade.

Burro, ignorante, block.

Mas não tem jeito, de onde veio, tem mais. Vai passar essa eleição e, esperamos, teremos outras.

Por mais que a gente abomine, um percentual de nós é fascista, homofóbico, machista, autoritário, corrupto.

E, infelizmente, continuarão existindo e persistindo por algum tempo. Essa é nossa realidade.

Não temos outra opção, precisamos conviver com as famílias, os colegas de trabalho, a vizinhança, estamos todos no mesmo país, no mesmo planeta.

Parte de mim tem o desejo de desconexão, de eliminação, da solução fácil. Em algum lugar alimento a divisão acalorada entre opostos, que separa os meus dos deles.

Outra parte sabe que somos todos um, que sempre é preciso encontrar humanidade nos olhos de quem prolifera ódio. Que estamos todos nos transformando, no tempo que há. Precisamos cultivar esperança de evolução ou estamos perdidos. Não há nós contra eles.

Neste ano, procurei me manter curioso para entender os porquês de quem pensa completamente diferente de mim. Vi vídeos que defendem outro lado, tentei conversar com quem levanta a bandeira do que repudio, li as propostas.

Não é fácil, exige um grande esforço. Grande, porém menor do que o esforço de reparar uma guerra. Grande, mas menor do que o esforço de reestabelecer uma democracia.

Essa eleição tem me ajudado a perceber o quanto preciso de entrega, de disposição e de mais habilidade para criar pontes. Aqui, ainda falta muito, admiro quem consegue com mais equanimidade e peito aberto.

Admiro quem consegue entender de antemão a discussão que vale a pena, ou o papo que não merece grande energia porque, sabemos, só nos desgastaremos.

Quero aprender com quem consegue criar uma ponte à partir do que nos conecta, ainda que as estratégias para fazer algo sejam completamente diferentes.

Respeito muito quem é capaz de divergir, ampliar os debates, discordar veementemente e ter a certeza de que não há nada, nenhuma relação em risco.

Me incomoda muitas vezes minha aproximação ser mais pelo estudo, pelo desejo que fica lá no fundo de convencer, ou mostrar meu ponto. E não porque quem pensa diferente é digno de ser escutado. Gostaria de lembrar mais vezes que a gente pode construir algo juntos.

E me ajudar a viver com esperança e compaixão.

Este é o jogo que quero jogar. Qualquer coisa fora disso é tentativa de silenciar, é acreditar que os outros são inferiores, que existem outros. E que a polarização, o jogo ganha-perde é o único caminho.

Só há um limite claro para minha tolerância que é não tolerar os intolerantes, aqueles que ameaçam a vida humana (#EleNão) e colocam a própria tolerância em risco. Tem um paradoxo aí que vale infinitos debates e a escuta desse lindo episódio do podcast Mamilos.

Fora isso, a gente tem que dialogar, debater e viver essa coisa frágil, porém infinitamente melhor do que qualquer outra possibilidade, que é a democracia.

 O paradoxo da tolerância pelo filósofo Karl Popper.   Uma sociedade tolerante deve tolerar a intolerância?   “Você quer mais tolerância? Respeite minhas ideias!”   A resposta é não.   É um paradoxo, mas tolerância ilimitada pode nos levar à extinção da tolerância.   Quando a gente estende a tolerância àqueles que são abertamente intolerantes…   “Vamos dá-los uma chance! “  Os tolerantes é quem acabam sendo destruídos. E a tolerância também.   Qualquer movimento que prega intolerância e perseguição deve estar fora da lei.   Por mais paradoxo que isso possa parecer, defender a tolerância exige não tolerar o intolerante.

O paradoxo da tolerância pelo filósofo Karl Popper.

Uma sociedade tolerante deve tolerar a intolerância?

“Você quer mais tolerância? Respeite minhas ideias!”

A resposta é não.

É um paradoxo, mas tolerância ilimitada pode nos levar à extinção da tolerância.

Quando a gente estende a tolerância àqueles que são abertamente intolerantes…

“Vamos dá-los uma chance! “

Os tolerantes é quem acabam sendo destruídos. E a tolerância também.

Qualquer movimento que prega intolerância e perseguição deve estar fora da lei.

Por mais paradoxo que isso possa parecer, defender a tolerância exige não tolerar o intolerante.


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