E agora?

É muito difícil sair desse nosso microuniverso enquanto o medo está tão presente.

Mas nenhuma explicação racional é capaz de dar conta de toda a história. Nenhuma.

Este avanço conservador está no mundo. Trump, Brexit, Le Pen, Macri. E está mais agressivo, mais intolerante.

Não é explicável do ponto de vista das ciências políticas ou sociais.

É biológico. É irracional. É de ordem emocional.

Os próximos 5 minutos, a partir de 1h39m55s, deste vídeo do Bruno Torturra sintetizou muito bem o que também venho sentindo.

É sobre a humanidade tomando consciência do seu fim.

E, sem saber lidar, fazendo escolhas para excluir parte de nós por qualquer critério absurdo que favoreça a auto-preservação.

Estamos diante de problemas de altíssima complexidade, em nível planetário, como o aquecimento global, sem a menor ideia de como reverter.

Ideias até existem, na verdade. Mas nos falta prática. Nos faltam referências de outros jeitos de nos alimentarmos, convivermos, nos organizarmos socialmente, politicamente e economicamente de tal forma que a nossa própria existência não seja uma ameaça para nós mesmos.

As raríssimas referências que temos remontam a um passado indígena que nossa mentalidade desenvolvimentista é incapaz de entender sem jogar no campo do regresso ao passado.

É desesperador ter de lidar com a iminência da morte sem saber como lidar.

E assim preferimos ficar nos nossos pequenos mundos, com nossos pequenos problemas que, esperamos, serão resolvido por um salvador da pátria, por um governo sem corrupção, por armas que resolvem toda criminalidade num gatilho, por Deus.

Estamos fugindo do assunto enquanto podemos. Estamos diante do elefante na sala sem falarmos sobre ele.

James Lovelock, um dos maiores pensadores do nosso tempo, que cunhou a Teoria de Gaia, acredita que já passamos do ponto de não-retorno. Ou seja, não somos capazes de frear os impactos que causamos no planeta.

E agora? Fudeu?

Estou entendendo que sim.

A primeira opção é negar. Ignorar, ridicularizar.

A segunda é se desesperar. Vociferar, se desconectar.

A terceira é se salvar às custas dos demais - o que parece ser a mais estúpida, já que todos estamos no mesmo barco, não há para onde fugir.

E a quarta é a única que ainda pode nos fazer manter alguma sanidade.

Só podemos viver a vida, integralmente, reconhecendo o direito à vida de todos os seres.

Aceitando a morte e a transformação como leis universais da vida.

Só nos resta viver com arte, expressando a humanidade que há em nós. Arte que nos coloca no campo da imaginação, da conexão, da crítica pacífica.

Viver em comunidade, com apoio mútuo, proximidade, contato, aceitação, afeto e resiliência.

Viver em harmonia, nos integrando ao fluxo natural da vida.

Se nosso fim se aproxima a cada dia, é o que nos resta, não dá pra acelerá-lo ainda mais.

E agora? Bem, agora, só nos resta o agora.