Juntas

“Se você colocar “líder” no Google verá que, à primeira vista, quase todo mundo usa terno, é homem e tem certezas absolutas. Ainda é preciso aprofundar e refinar um pouquinho a pesquisa pra chegar em pessoas reais. Tipo a gente. Sem terninhos (você também leu calça jeans, cores e os sapatos sem salto?), mulheres que admitem errar bastante. Que pedem desculpa. Assumem não saber. Certas de que é preciso menos controle, mais consciência e que, se você encontrar em um elevador, pode nem imaginar que acabou de decidir algo que vai impactar na vida de mais de 600 pessoas espalhadas em diversas cidades do Brasil.” - Gabriela Guerra e Caroline Cintra.

Quando foi que cravamos que o mais alto posto de uma organização deve ser ocupado por uma pessoa só?

Li nos últimos dias o livro da Gabi Guerra e da Caroline Cintra. O Juntas. É uma delícia. E foi lançado pela Belas Letras, a mesma editora do 333 Páginas.

Elas contam suas jornadas como duas jovens lideranças que se tornaram presidentes da ThoughtWorks Brasil, uma das mais interessantes empresas de tecnologia que já conheci.

E elas fizeram isso juntas. Duas pessoas, duas mulheres, duas líderes, ao mesmo tempo.

Não é estranho pensar que é fora do comum duas pessoas ocuparem, simultaneamente, a posição de líderes?

Por que nos surpreende tanto pessoas trabalharem como uma dupla à frente de uma organização com centenas de pessoas?

Deveria ser normal, o padrão, grandes responsabilidades serem compartilhadas.

Mas não.

Criamos o mito do líder herói. A pessoa solitária que sabe de tudo e nos salva.

E criamos à rebote a frágil ideia de que existem certezas.

De que a hierarquia se mantém simplesmente pelo poder, pelo cargo, porque uns mandam, outros obedecem.

Criamos a lenda de que liderar é ser imbatível e jamais estar errado.

Criamos grandes mentiras.

E isso se reflete na política, nas famílias, no patriarcado, nas nossas exigências sobre os outros e nós mesmo.

Deu errado. E a gente precisa fazer diferente.

É tempo de rever cada certeza cravada e experimentar outros jeitos de trabalhar, conviver e viver.

Está mais do que na hora de vivermos lideranças femininas, sem gênero, compartilhadas, distribuídas, rotativas, humanas.