Desobediência à autoridade

“Pessoas comuns, simplesmente fazendo seu trabalho, e sem qualquer animosidade pessoal, podem tornar-se agentes de processos terrivelmente destrutivos. Além disso, mesmo quando os efeitos nocivos de seu trabalho se tornam claros e eles são orientados a continuar ações incompatíveis com seus padrões fundamentais de moralidade, relativamente poucas pessoas têm os recursos necessários para resistir à autoridade.” - Stanley Milgram.

As pessoas aprendem mais quando recebem punição ao errar?

Duas pessoas comuns são voluntárias nesse experimento. Uma encara o papel de professor, a outra de aprendiz, aleatoriamente.

Elas ficam em salas diferentes e se comunicam por microfones e sistemas de som.

O professor lê uma sequência de palavras para serem memorizadas pelo aprendiz.

Quando o aprendiz erra, o professor aperta um botão que dá um choque no aluno. A cada erro, o choque se intensifica.

O aprendiz reclama, pede que pare, diz ter problemas cardíacos, pára de responder.

Há um cientista conduzindo o experimento, quando o professor hesita, ouve um estímulo de cada vez:

“Por favor, continue. O experimento requer que você continue. É absolutamente essencial que você continue. Você não tem outra escolha a não ser continuar.”

O experimento de Milgram não é sobre punição ao errar, é sobre obediência à autoridade, sobre como pessoas comuns podem ferir outras pessoas apenas porque estão recebendo ordens.

O aprendiz é um ator, ninguém recebe choques de verdade. Exceto o próprio professor, no começo do experimento. Ele toma um de 30 volts para sentir o que é uma dor de um choque nessa potência.

100% das pessoas que encarnaram o professor chegaram a 300 volts. Simplesmente porque era o que pedia o experimento.

65% das pessoas que assumem o papel de professores seguem dando choques até o nível máximo, 450 volts.

A maioria das pessoas não se nega a machucar a outra, só por que alguém mandou.

É aquela isenção de responsabilidade, o jogar pra cima, o famoso “eu só trabalho aqui”.

Nunca é culpa nossa, sempre tem alguém em um nível hierárquico acima de nós que parece mais responsável pela merda do que a gente.

Milgram era de origem judia e iniciou os experimentos para entender como tantas pessoas comuns trabalharam para os nazistas.

Uma das possibilidades é justamente essa divisão do trabalho e essa nossa tendência pela obediência ao superior, sem qualquer crítica.

E ainda tem o dinheiro. Os voluntários, professores ou aprendizes, recebiam uma quantia por participarem do experimento.

Tem um amigo meu dos tempos de publicidade que chamava dinheiro de “cala a boca”.

Em 2010, participei de uma campanha política. Fui contratado como designer para a campanha de um deputado federal razoavelmente alinhado com meus valores.

Fiz santinhos, banners, placas e material pra internet.

Pela lei, em cada material impresso você precisa declarar a tiragem num cantinho. Tipo, cada santinho tem escrito: "tiragem de 10 000 unidades".

Lá pelas tantas, recebi uma tabela com números diferentes. Um número para pôr no impresso, outro que era a verdadeira ordem de impressão.

No impresso ia “Tiragem: 10 000”. Mas eu tinha que mandar a gráfica imprimir 20 000.

Fiquei de cara. Não sabia como me portar. Era caixa dois. Eu estava entendendo o esquema.

Perguntei se era isso mesmo. Meu chefe com uma cara sem graça respondeu que sim.

E eu fiz o que ele mandou, contrariando minha moral.

Para minha felicidade, naquela eleição, o candidato para quem trabalhei não foi eleito.

Me prometi nunca mais entrar nessa. Mas, ainda assim, minha consciência ficou pesadíssima porque eu dei choques no aprendiz, fui até o fim.

Contrariar autoridade é difícil. Pedir demissão é difícil. Dizer “não” é difícil.

A gente tá cheio de “autoridades” por aí, reais e abstratas: o patriarcado, a carreira, patrões opressores, o “mercado”, “o que vão pensar”, “a família”.

Aprendi que desobediência à autoridade é uma habilidade. Requer auto-consciência e coragem. Não é simples.

Auto-consciência é sobre a capacidade de se perguntar: “Peraí, o que eu tô fazendo é certo pra mim? Estou só seguindo ordens que não concordo? Estou sendo pressionado a fazer o que não quero?”

E coragem é sobre enfrentar o medo das consequências que a gente nem sabe direito quais são. “Vou ficar sem grana? Não serei mais aceito? Vou me ferrar mais ainda?”

Está cada vez mais claro pra mim que a gente só vai tornar este mundo mais justo quando abrirmos mão dos nossos privilégios.

Isso significa dizer não. “Não vou comprar de você”, “Não vou trabalhar pra você”, “Não vou aceitar sua opressão”, ainda que a gente perca dinheiro, oportunidades, reputação, ou outras ilusões.

Não é bolinho, tem atrito, dor, incerteza, quebra. É uma bosta.

Mas, pra mim, pouco a pouco, tem valido muito a pena. A liberdade e a consciência limpa não têm preço.

Os “nãos” têm que ser ditos e as autoridades têm que ser questionadas.

Ou, então, poderosos continuam no poder, ricos continuam cada vez mais ricos, oprimidos seguem sendo oprimidos e seguiremos dando e tomando choques que não nos fazem aprender nada.

O experimento de Milgram tá na Netflix.