Só votar não dá

“Somos seres complexos, num mundo complexo, cada vez mais caótico. Não dá pra achar que tem solução simples pra nada. Não tem frase pronta que dê conta da realidade em que a gente vive. Não dá pra achar que é só apertar um botão pra resolver toda a treta. É a soma de várias ações que vai resultar em alguma mudança, a eleição é só uma destas ações diante de tantas outras que podemos exercitar todos os dias.” - Mari Pelli.

Uma coisa interessante que acontece nesses tempos de eleições é o interesse que se desperta pela coisa pública.

A “festa da democracia” nos faz acreditar que o voto é essa coisa valiosa. E é. Muito melhor ter do que não ter. É uma conquista que espero que seja ampliada.

Mas seu impacto é mínimo. Um voto é só um entre 147 milhões no pleito nacional. A chance de um voto decidir uma eleição pra presidente é irrisória, é (quase) impossível.

Voto é uma grande escolha que vale muito pouco, que se dilui ao longo de quatro ou oito longos anos.

Se sua candidata perder, não importa quantos votos teve, sua opinião não valeu absolutamente nada neste jogo “democrático”. Todos os perdedores têm suas opiniões descartadas.

Por isso, só votar não dá. Só votar é muito pouco diante das transformações que precisamos.

As decisões sobre a vida pública acontecem todos os dias, a todo instante, quando a gente quer e quando a gente não quer.

Fazemos escolhas políticas a cada compra. A cada escolha mais consciente. A cada vez que damos mais dinheiro para quem queremos que siga produzindo no mundo. Ou quando compramos só um negocinho de uma grande empresa lucrativa que fode com o planeta.

Fazemos escolhas políticas a cada não-compra. A cada roupa usada ao máximo, a cada eletrônico consertado, a cada toneira fechada, a cada lixo poupado, a cada canudinho economizado.

Fazemos escolhas políticas a cada compartilhar de conteúdo relevante. A cada conversa esclarecedora ou a cada diálogo sem escuta. A cada vez que privilegiamos privilegiados ou quando criamos oportunidades para quem tem menos.

Fazemos escolhas políticas a cada trabalho realizado, escolhido ou negado. A cada energia empregada para a construção do mundo que a gente quer para todos. Ou a cada grana que a gente faz ignorando as más consequências para todos os outros.

Fazemos escolhas políticas a cada doação generosa. A cada distribuição de recursos. A cada escolha por financiar e fazer acontecer um mundo mais acolhedor, tolerante e responsável.

Espero que seu voto seja o mais consciente possível. E que cada decisão verdadeiramente impactante seja ainda mais.

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