Dinheiro grátis para todos

Acredito que todo ser humano deveria ter dignidade.

Todo mundo, sem exceção, deveria ter garantido o mínimo para comer e se abrigar, o direito de ter uma vida digna.

Não dá pra acreditar que a gente manda robô pra Marte, planta comida para alimentar carro, aluga casas ociosas pelo celular, desperdiça um quarto de tudo que produzimos e ainda tem um monte de gente no mundo passando fome.

Já temos o suficiente para todos. Mas continuamos tentando inventar formas de justificar a distribuição desigual para quem "merece". Ao acreditarmos em escassez, a tornamos real.

Precisamos desassociar o direito à vida do trabalho.

Trabalho é importante demais. Mas todos nós passamos ou passaremos um tempo sem. E, nem por isso, merecemos morrer ou viver sem dignidade.

Escutei por quase duas horas a voz rouca de Eduardo Suplicy no Anticast e me emocionei. Ele advoga pela Renda Básica de Cidadania há uns bons anos e conseguiu aprovar em 2004 a lei que garante que nosso poder executivo vai implementá-la no Brasil. A ideia não é dele, nem nova. Pensadores alinhados à esquerda e à direita já a defenderam.

Renda Básica de Cidadania, Renda Básica Universal, ou Universal Basic Income é a proposta em que todos os cidadãos, sem qualquer distinção, recebem mensalmente uma quantia suficiente para ter o mínimo. Uma grana para não faltar comida e abrigo, por exemplo. Os valores que se fala por aí são variados. R$ 1000, U$ 1000. Vamos entender como um salário mínimo. Independente do emprego, da idade, de qualquer condição. Seja rico ou seja pobre a graninha sempre vem.

Nossa cabeça que enxerga o mundo pela lente da escassez racha ao entrar em contato com o conceito de Renda Básica Universal.

"Como assim dinheiro de graça para todos?" Sim. Descondicionar dinheiro recebido de trabalho feito é revolucionário. Porque, cá entre nós, nenhum modelo econômico testado acabou com a fome globalmente. E se todos os países seguirem o exemplo dos países "desenvolvidos", não teremos planeta Terra que dê conta dos recursos naturais explorados.

"Ah mas ninguém vai querer trabalhar." Se ganhasse um salário mínimo, eu trabalharia da mesma forma, e você? Você, provavelmente, também. Os estudos apontam que 99% das pessoas também. Alguns trabalhariam menos, outros deixariam de trabalhar por um tempo. Seres humanos perseguem significado, pertencimento, querem se sentir úteis. Se alguns poucos de nós se contentarem em viver com o mínimo, por que isso seria  problema?

"Ah mas tem trabalhos importantes que ninguém vai querer fazer, daí." Eu acho uma crueldade acreditarmos que alguns de nós devem fazer trabalhos que não tem nenhum significado, não acrescentam nada ao espírito humano, para que poucos de nós possam viver bem. As atividades que não merecem ser feitas não deveriam ser feitas. Se houver algum trabalho essencial que uma máquina não pode fazer, ele deveria ser muito bem remunerado, porque é valioso. Entendo que este é um cenário ideal e que o mundo de hoje não funciona assim. Mas a gente precisa tensioná-lo e, gradativamente, possibilitar que todo ser tenha a oportunidade de viver plenamente fazendo algo que o engrandeça. A Renda Básica Universal deve começar pequena e ir aumentando pouco a pouco. Não acredito que será um "deus nos acuda, não temos mais sub-empregos" de um dia pro outro.

"Isso não aumentaria a inflação?" Não sei dizer. Tendo a acreditar que não, porque é uma questão de transferência de renda, não criação de dinheiro. Vem dos impostos. Não há circulação de dinheiro novo.

"Quem paga por isso?" Espera-se que o crime diminua. Porque as pessoas que não têm possibilidade alguma terão o mínimo garantido para que não precisem roubar ou traficar, por exemplo, diminuindo os custos de segurança. Espera-se que os custos de saúde pública diminuam. Porque as pessoas terão o mínimo para se cuidarem, se alimentarem, talvez comprarem remédios básicos, espera-se que as pessoas não precisem se prostituir. A hipótese é que é mais barato, rápido e simples dar dinheiro pras pessoas se cuidarem do que ficar tentando cuidar delas.

"As pessoas vão gastar tudo com bobagens." Talvez. Talvez alguns de nós, talvez por um tempo. Mas é natural do ser humano querer viver bem. E acredito que cada um sabe o que é bom pra si. A gente muda. A pergunta que me fica é: quem se importa com a forma que o outro gasta seu salário? Isso não parece um problema, não é mesmo?

A verdade é que não temos respostas concretas. Porque a Renda Básica Universal tem pouquíssimos exemplos. Suplicy cita Alaska e Macau como cases de sucesso. Estudos são feitos em 40 países.

A gente poderia entender que o Bolsa Família foi um protótipo. Considero que mais ou menos, porque tem suas condições, não é pra todos, nem pra sempre como sugere a ideia de Universal Basic Income.

Ser pra sempre e pra todos muda tudo.

Porque você terá a segurança de que sua vida não estará nunca em risco por falta de grana. Isso nos dá liberdade para estudar por paixão, perseguir um trabalho significativo, viver mais plenamente. Partimos de um patamar mínimo para exercermos nosso potencial máximo.

Diferentemente do Bolsa Família, a Renda Básica de Cidadania é para todos, sem divisão. Sem qualquer critério abstrato ou arbitrário que separa as pessoas. Porque simplifica, desburocratiza e, o mais importante, não faz a pessoa questionar se vale a pena ganhar mais trabalhando e perder o benefício. Ou continuar pobre, mas recebendo a bolsa.

Renda Básica Universal é a mais poderosa ideia do nosso século para eliminar a pobreza. Espero vê-la acontecer em breve. Para mim, é tão significativa quanto o fim da escravidão. É uma ideia baseada em confiança nas pessoas, em liberdade segura, em dignidade universal e merecemos, todos, viver isso.