A armadilha do "faça o que você ama"

Nem sempre o que a gente ama é o que a gente faz bem.

Nem sempre encontramos rápido o suficiente as pessoas que desejam comprar o que a gente ama fazer.

Nem sempre encontramos essas pessoas em quantidade suficiente, na hora certa, no lugar correto.

Nem sempre o que a gente ama fazer entrega valor o suficiente para as pessoas.

Nem sempre o que a gente ama fazer paga os boletos.

Seria cruel demais matar o sonho de viver do que a gente ama.

Ainda mais pra uma geração que tem mais possibilidades do que qualquer outra.

Uma geração que é inundada de instagrams de pessoas "bem sucedidas", cursos que prometem muito, livros que "ensinam" o caminho do "sucesso".

Aprendizados, propósito, uma baita equipe, trabalho remoto, autonomia, significado, ajudar as pessoas, um bom dinheiro, contas pagas e um futuro promissor, tudo isso é válido e busco todos os dias.

É absolutamente legítimo perseguir no trabalho todo tipo de realização pessoal. Sou daqueles que não abre mão e apoia quem tá nessa.

Mas entendo que é coisa demais pra se esperar de uma fonte só, de um empreendimento só, de uma atividade só, numa tacada só, aqui, agora, antes dos 30 anos.

Não sou do time "faça o que você ama e nunca mais trabalhe na vida."

Viver do que se ama dá trabalho pra caramba, toma tempo demais, requer muito esforço, condições ímpares, apoio familiar, habilidades raras, contexto favorável, privilégios mil, ainda mais em um país com tanta desigualdade e tão baixa mobilidade social.

Bater essa real me foi importante para não cair num conto de fadas.

É preciso encontrar resiliência, desenvolver gradualmente as habilidades, os conhecimentos, e cultivar a confiança dos clientes e parceiros. Um passinho de cada vez, trabalhando todo dia.

Conseguir viver do que se ama é, infelizmente, para poucos. É um privilégio gigantesco não ter que trabalhar com o que for possível pra sobreviver.

Ter um trabalho é um privilégio. Poder escolher, então, meu deus.

Mas nem essa dificuldade toda significa, pra mim, matar o "faça o que você ama". 

Que possamos todos cultivar aquilo que amamos fazer com, veja só, amor.

Amor mesmo, desses que respeita o tempo das coisas, que aceita incondicionalmente, que cuida. 

Como se cuida de uma frágil mudinha, entendendo que vai dar frutos. Mas precisa regar muito, adubar a terra, podar e passar uns bons anos até florescer.

Enquanto isso, que a gente também consiga amar o que for necessário, possível e real, agora.

E que a gente siga se transformando, aprendendo a fazer e a amar.